Cineasta documental, produtora e editora, cujo trabalho se foca nas intersecções entre história, género, ciência e arquivos. Mestre em Antropologia pela FCSH-Universidade Nova de Lisboa e em Documentary Film pela Stanford University, nos Estados Unidos.

Os nossos corpos, as leis deles e as imagens que nos faltam

O pior pesadelo de uma geração aconteceu: o Supremo Tribunal revogou o Roe v. Wade nos Estados Unidos, que garantia o acesso ao aborto a nível federal. Há vários anos que trabalho num filme que narra as experiências de quem viaja centenas de quilómetros por estradas norte-americanas para poder abortar.

Ensaio
7 Julho 2022

Vim parar aos Estados Unidos num misto de golpe de sorte e trabalho esforçado. Não posso dizer que tenha sempre sido um sonho, ou algo que sentisse que estivesse destinada, mas mentiria se dissesse que durante a adolescência nunca sonhei com uma partida em direção a Nova Iorque ou Los Angeles, às cidades onde o sucesso é construído e destruído com a mesma facilidade, onde o cinema constrói mitos e informa gerações. O cinema, tanto refúgio como plataforma de autoexpressão, era aquilo que mais queria explorar. A vida levou-me até ele.

Hoje, em 2022, não vivo na City of Angels nem na concrete jungle where dreams are made of, também não trabalho na indústria cinematográfica de Los Angeles  e ainda bem! Em vez disso, divido o meu tempo entre ser realizadora, produtora, editora e professora entre os circuitos do cinema independente e comercial. Os rendimentos do segundo financiam o meu trabalho no primeiro, assim é a realidade de tantos que trabalham no cinema um pouco por todo o mundo. 

Depois de vários anos a viver neste país, os três primeiros dos quais debaixo da alçada da administração de Donald Trump, sei de cor todas as críticas devidas aos Estados Unidos, algumas das quais já as senti na pele. Sei também o quanto é fácil exoticizar os EUA, transformar as notícias que nos chegam desse outro país em qualquer tipo de tratado acerca do seu povo tão heterogéneo, vasto, extenso como o próprio território dos EUA. 

Os meus sonhos distantes de adolescente com essa América mítica não podiam estar mais errados, tanto pelas melhores como pelas piores razões. Acredito no poder que as imagens têm de repensar e reflectir sobre os EUA, se o fizerem de uma forma honesta, despida de grandiosismo Hollywoodesco, de narrativa pronta-a-consumir. Afinal, as imagens que vemos informam a nossa visão sobre o país, seja para melhor ou pior.

Foi também em plena adolescência aos meus 12, 13 anos, para ser exacta que em 2007 aconteceu o referendo sobre o aborto em Portugal. Tenho poucas memórias tão vívidas de um acontecimento político da minha infância como esse referendo que, mesmo entre colegas de escola, tomava contornos falaciosos, baseado em perguntas desonestas e no aproveitamento das boas intenções de miúdos que mal sabiam como o sexo funcionava.

O pouco que falamos do aborto parece sempre envolto numa névoa confusa, preso entre discussões de ética, conversas de café e bitaites desinformados.

Se precisasse de culpar algo pela forma como ainda hoje vemos e pensamos o aborto, apontaria talvez o dedo à falta de narrativas sobre esta experiência tão legítima quanto qualquer outro ato médico, à falta de imagens e de cinema sobre as experiências de quem procura este tipo de cuidados. 

O pouco que falamos do aborto, que lemos sobre o aborto, que consumimos sobre o aborto, parece sempre envolto numa névoa confusa, preso entre discussões de ética, entre conversas de café e bitaites desinformados onde todo e qualquer indivíduo se considera informado para falar sobre o corpo das mulheres e o que elas podem fazer deles. Quiçá se tivéssemos sido capazes de produzir melhores narrativas sobre as experiências das mulheres portuguesas com a interrupção voluntária da gravidez, tanto antes como depois do referendo, seríamos talvez capazes de mudar mentalidades.

Sempre soube que queria fazer um filme sobre o aborto, um que o representasse de uma forma que desafiasse estereótipos, mas durante muito tempo não sabia bem que contorno tomaria. Não sabia se esse filme teria lugar em Portugal ou nos Estados Unidos, embora admirasse desde nova os filmes de estrada, as imagens que me apareciam de viagens, como a de Wim Wenders em Paris, Texas, o primeiro filme que alguma vez vi na Cinemateca e que mudou para sempre a minha relação com o cinema. 

Inevitavelmente, e talvez por ser a estrangeira que circula numa terra desconhecida, olhei para os EUA como esse espaço de renovação, de reconstrução, de possibilidade em que sou incapaz de não me reconhecer nessa figura que é o estrangeiro nessa terra de sonho e pesadelo. 

Para mim, fazer um filme de estrada sobre os EUA era fazer um filme sobre a estrada que funciona como libertação. À medida que os anos Trump iam passando, e sempre que a discussão do acesso ao aborto voltava à ribalta e a perda do acesso a este bem precioso se tornava uma maior realidade, voltava-se a fazer sentir a necessidade de contar, fazer ouvir e ver testemunhos de quem experienciava o aborto. Descobri que era na estrada que estas histórias mais apareciam.

Fiquei a conhecer narrativas de quem viajava longas distâncias para chegar a uma clínica de aborto. É estereótipo conhecido que tudo nos EUA fica mais longe, num país onde uma viagem de carro de seis horas (sem trânsito) entre San Francisco e Los Angeles é brincadeira de criança. Estas histórias extravasam as dimensões de tempo e de espaço, chegavam tanto de mulheres casadas que viajavam até ao México nos anos 1960 para conseguir um aborto até às jovens que viajam acompanhadas por amigas da universidade, em grupo, para apoiarem quem precisa da intervenção. 

Chegavam também as experiências das imigrantes ilegais na fronteira do México com os EUA, e das dificuldades ao acesso a cuidados reprodutivos na região, agravados pelo estatuto de imigração precário; histórias sobre o aborto em reservas indígenas; experiências de quem tentava obter um aborto no Sul profundo. As histórias destas mulheres eram unidas por uma imagem principal: a estrada e a necessidade de percorrê-la. Encontrei nestas histórias as imagens que nos faltam do aborto.

Na intimidade está a verdadeira política. Na experiência individual, e na história de cada um, há uma realidade que extravasa a lei e que pode afetar, mudar mentalidades

Em 2018 comecei a pensar (em ritmo lento, confessadamente, aquele de quem tenta desenvolver um projeto enquanto estuda e trabalha a tempo inteiro) um projeto de curta-metragem documental sobre as dificuldades de acesso ao aborto no território americano. Mais especificamente, o filme gira em torno das experiências de pessoas que têm de viajar dezenas, centenas de quilómetros para aceder a uma clínica de aborto. 

Ao longo de vários anos intercalados por períodos de estudo, um regresso temporário a Lisboa, outros mil projetos e trabalhos para garantir a minha subsistência , o filme evoluiu, abandonou o seu carácter inicial mais educativo e informativo, ganhou contornos de filme híbrido entre a ficção e o documentário. Além de narrar as histórias das pessoas que tinham vivido a experiência destas longas viagens, queria também reflectir sobre a forma como representamos o aborto na cultura visual ocidental e na forma como a nossa produção de imagens não nos permite olhar o aborto como decisão íntima, pessoal, baseada na vontade e em questões logísticas da vida, além de morais, éticas ou políticas. 

Na intimidade está a verdadeira política. Na experiência individual, e na história de cada um, há uma realidade que extravasa a lei e que pode afetar, mudar mentalidades. Objetivos ambiciosos? Talvez, e talvez seja por isso mesmo que o projeto está a demorar o seu tempo, mas valerá sempre a pena. Ainda para mais agora.

Há duas semanas, a 24 de junho, o Supremo Tribunal revogou o acesso ao aborto a nível federal nos EUA. A partir de agora, fica ao critério de cada estado definir a sua política individual quanto ao acesso à interrupção voluntária da gravidez. São mais de vinte os estados que planeiam banir parcial ou totalmente o aborto.

Há quem alerte para a possibilidade de dados recolhidos por aplicações de monitorização do ciclo menstrual possam ser usados para limitar e perseguir judicialmente mulheres.

Ao mesmo tempo que novas alternativas ao aborto em espaços de clínica vão surgindo como a distribuição de pílulas abortivas pelo correio, uma alternativa extremamente segura ao aborto clínico durante as primeiras semanas de gestação –, surgem também novas preocupações que antes de 1973 não existiam. 

Há quem recorra às redes sociais para alertar para a possibilidade de dados recolhidos por aplicações de monitorização do período, que servem para controlar ciclos menstruais para efeitos de controlo de fertilidade, possam ser usados para limitar e perseguir judicialmente mulheres muitas já as começaram a apagar dos seus telemóveis. Fala-se de controlo de fronteiras interestaduais para evitar que mulheres viajem para conseguir fazer um aborto. 

As conversas ganham contornos Atwoodianos, remetem para imagens da série Handmaid’s Tale, e há amigas que procuram ginecologistas para trocar a pílula pelo DIU (dispositivo intrauterino), que tem um período de validade exponencialmente mais longo. Têm medo que o acesso a métodos contraceptivos lhes seja negado. As emoções estão à flor da pele e embora se soubesse há bastante tempo que a revogação do acordão Roe v. Wade fosse uma possibilidade, sonhámos e desejámos que nunca fosse necessário.

Sabemos que, independentemente desta série de legislações e novas políticas estaduais, as viagens de mulheres para abortar nunca irão parar, ainda que lhes acrescente uma nova sensação de desespero, de angústia de quem se sente impedido de controlar o seu próprio corpo. 

Histórias como as das mulheres que viajam para aceder ao aborto são hoje mais importantes que ontem e amanhã mais do que hoje. São as histórias que não nos chegam através dos media, que se escondem entre debates sobre políticas, estatísticas e conversas demagógicas. Aqui podem entrar os documentaristas, os cineastas e todos aqueles que, como eu, veem nas imagens mais do que em discursos formas de mudar mentalidades, de humanizar uma questão há muito transformada em agenda política. 

O problema do cinema documental em torno de questões de justiça reprodutiva é muitas vezes acabar por tropeçar em discursos de moralidade e legalidade, em clichês de filmes de ativismo que circulam dentro dos mesmos circuitos de ONG num activo circle-jerk que tenta justificar a continuidade e a importância do trabalho de defesa do aborto. Não questiono a sua importância, apenas desafio este formato: são filmes que tentam alcançar algo, causar mudança, mas constroem fortalezas impenetráveis aos quais faz falta uma perspectiva pessoal. Às entrevistas em formato talking head de todo o tipo de especialistas, médicos, políticos e ativistas falta sempre a dimensão humana, a pessoal. É nisso que estas novas narrativas sobre o aborto se devem focar.

Não digo que seja fácil. Aliás, e por experiência própria, tem sido realmente o oposto. Embora tenha imaginado o filme há vários anos, só comecei a trabalhar nele mais seriamente a partir de janeiro deste ano, energizada pela entrada numa residência artística anual na cidade de São Francisco, onde vivo. 

Conjugar a minha vida laboral em que os meus dias são ocupados por uma série de outros trabalhos, projetos e compromissos que me permitam pagar o meu trabalho no meu próprio projeto com a realização de um filme é algo que nunca nos ensinam na escola de cinema. Ao mesmo tempo que escrevo candidaturas a bolsas e financiamentos, que me candidato a residências e tento construir o filme de forma a que alguém veja nele valor suficiente para o querer financiar, vou trabalhando na sua dimensão mais criativa, narrativa e humana.

Há estabelecimentos que se fazem passar por “clínicas”: anunciam ecografias e testes de gravidez grátis para depois se revelarem organizações sem fins lucrativos financiadas pelo movimento pró-vida.

Mesmo assim tenho notado uma certa ambivalência na capacidade de envolvimento de pessoas que desejo entrevistar. Não me surpreende: numa época em que cada vez temos mais noção da importância da nossa imagem, idade e valor da nossa história, as pessoas que procuramos entrevistar questionam as nossas intenções. Estamos, afinal, a falar de uma cultura de vigilância cerrada, onde alguns estados incentivam os seus habitantes a suspeitarem dos seus vizinhos. Estados onde se estabelecem linhas telefónicas para se revelarem suspeitas ou se apontarem os dedos a uma mulher que tenha recebido uma pílula abortiva pelo correio ou viajado para fora do estado para fazer um aborto. 

Além disso, há estabelecimentos que se fazem passar por “clínicas”: anunciam ecografias e testes de gravidez grátis para depois se revelarem organizações sem fins lucrativos financiadas pelo movimento pró-vida. Num ambiente tão hostil a qualquer pessoa grávida que procura cuidados médicos, compreende-se a hesitação de quem dá a cara.

Arranjemos, então, soluções. Como podemos garantir a segurança de quem entrevistamos, até mesmo a nossa? Os cineastas não são necessariamente abrangidos pelas mesmas proteções que os jornalistas. Discutimos em conjunto: propomos entrevistas em áudio e excluímos completamente o registo de vídeo; oferecemos a possibilidade de contratar actores de voz que encenem a nossa entrevista, caso a pessoa entrevistada não queira a sua voz no filme; damos por nós a explorar mecanismos do cinema de ficção, com todo o poder e liberdade que permite; e transformamos um documentário num filme híbrido, no melhor dos dois mundos. Questionamo-nos, claro, ao longo do percurso criativo, sobre as nossas decisões. Mas tudo isto é um processo a longo prazo, e com a recente anulação do Roe v. Wade, será provavelmente um filme a ser feito também a longo prazo. 

Quando falo de mudança, não vou tão longe como acreditar que um simples filme possa ter impacto ao nível governamental, longe disso, nem o desejaria. Quando comecei a pensar num filme sobre o aborto, as suas imagens e dos dos EUA, as suas interseções e divergências, soube desde sempre que a mudança a fazer era na forma como as nossas histórias em torno das quais construímos a nossa cultura, a nossa sociedade  precisavam de mudar.

O fim de Roe v. Wade é o começo de uma nova luta, a tentativa de restituir um direito, e talvez agora possamos voltar a dar voz às histórias que têm sido invisíveis até agora em Portugal, nos Estados Unidos. Se a estrada é onde a luta individual do aborto acontece todos os dias, é nela que devemos procurar as nossas histórias. Repito: o nosso trabalho é agora mais importante do que nunca.

Se é na estrada onde a luta individual do aborto acontece todos os dias, é nela que devemos procurar as nossas histórias.

O fim do Roe vs. Wade nunca afetará pessoas como eu brancas, europeias, privilegiadas que vivem em estados como a Califórnia, onde o acesso ao aborto está protegido e praticamente assegurado. Afetará, sim, as populações que vivem no limiar da pobreza e sem acesso a uma educação de qualidade, cujo sistema vive da sua opressão. São também invisíveis as vozes delas, e a precisar da amplificação que o cinema talvez lhes dê. 

O território norte-americano é tão vasto e belo quanto é inóspito e hostil. É na estrada que se encontra a principal plataforma para uma história que, contornos americanos à parte, tem mais de universal do que imaginamos. Haja mais imagens que nos ajudem a fazer sentido do aborto, que o representem justamente e que lhe dêem a dignidade – e o lugar na sociedade que merece.