Bióloga, cientista, formadora e recrutadora de cientistas. Sempre na luta por uma comunidade científica mais ética, justa e equitativa. Mãe, mulher e feminista.

A comunidade científica continua a ignorar o assédio às mulheres

Orgulhosa por conseguir um lugar num programa doutoral num instituto de investigação científica de renome em Portugal, não imaginava que a escolha que pensei ser o caminho para uma carreira de sucesso me abriria as portas para um pesadelo. Vivi quatro anos de desrespeito, humilhação, abuso psicológico e constante questionamento da minha inteligência e valor profissional. 

Ensaio
12 Maio 2022

A instabilidade política e económica fazia-se sentir em Portugal quando comecei o meu doutoramento num instituto português de investigação de renome. As capas dos jornais eram catastróficas, dizia-se que o Estado estava falido, o desemprego aumentava e a precariedade não dava sinais de estancar, bem pelo contrário. Estávamos em 2011 e, fascinada por ter conseguido um lugar num programa doutoral com a possibilidade de estudar a interação parasita-hospedeiro, escolhi como segunda casa nos quatro anos seguintes o laboratório cujos projetos me pareciam mais estimulantes. 

Sem o saber, a escolha que pensei ser o caminho para uma carreira de sucesso como cientista abriu-me ao invés as portas para um verdadeiro pesadelo: desrespeito, humilhação, abuso psicológico e constante questionamento da minha inteligência e valor enquanto profissional.

Ao olhar para trás, recordo-me bem de quantas pessoas me pararam dos corredores para perguntarem sobre qual a minha escolha, curiosas pelas preferências intelectuais dos novos alunos do instituto. Olhavam com uma mistura de incredulidade e repúdio. E, aos poucos, começou a haver um burburinho sempre que passava. Comecei a ser falada pelas pessoas do instituto pela escolha que fiz.

Antes de começar a trabalhar na minha tese ouvi várias vezes que a pressão psicológica e os maus tratos eram imagem de marca do laboratório que escolhi, mas a ciência era para mim o mais importante e tinha a certeza que nenhuma relação interpessoal poderia afetar o meu trabalho. Ouvi mais tarde (quando era cedo para tirar uma conclusão, e depois tarde para fugir) que fui “avisada” e, por isso, a "culpa não era de mais ninguém", que "era só minha".

Eu, uma miúda de vinte e poucos anos acabada de terminar o mestrado com uma orientadora irrepreensível, uma aluna inexperiente, sequiosa por aprender, idealista e cheia de sonhos, tinha de ter tido força para dizer não à minha determinação. Se o tivesse feito teria provavelmente mantido o meu característico entusiasmo e evitado viver constrangida pelos caprichos de quem tinha o dever de me orientar.

Trabalhei debaixo de um regime tipicamente militar (com o intuito de “construir carácter e força!”), obtendo resultados sem nunca me ser permitido pensar sobre eles ou contestá-los. Fui ridicularizada em cada nova ideia e ameaçada por querer segui-la, fui humilhada por colocar questões, e senti-me profundamente frustrada sempre que as minhas ideias se converteram em ideias de outra pessoa, transformando-se de repente em algo válido e interessante. Tornei-me um autómato.

O meu doutoramento arrastou-se por quase seis anos altamente destrutivos. Trabalhei os últimos dois meses sem remuneração, a viver das poupanças praticamente inexistentes.

O termo estudante nunca se aplicou efetivamente a mim, apesar da luta constante para desenvolver a minha autonomia e as minhas próprias ideias, cada vez menos frequentes com o passar do tempo. Fui uma máquina que executou, debaixo de ansiedade e medo constantes, cada tarefa exatamente como me foi exigida, sem nunca ter sido dado tempo para pensar, para falhar ou para aprender com os meus erros. O meu doutoramento arrastou-se por um total de quase seis anos altamente destrutivos e trabalhei os últimos dois meses sem remuneração, a viver das poupanças praticamente inexistentes.

Terminei este período tão importante da minha vida profissional com dúvidas em relação à ciência e sobre mim própria, com uma sensação de alívio misturada com desgosto de um tempo que nunca não vai voltar e de um eu que desapareceu. Não fui um caso isolado, mas apenas uma das muitas profissionais para quem os obstáculos nada tiveram que ver com a sua inteligência ou talento, mas com fatores históricos e vieses conscientes e inconscientes que teimam em boicotar o papel da mulher como intelectual na sociedade.

Na minha trajetória como investigadora, foram muitas as mulheres que vi perderem o brilho que outrora as caracterizava. Algumas aprenderam a ignorar as ameaças, ajustando-se a um sistema que nunca lhes dará o valor que merecem, outras recusaram-se a aceitar a toxicidade a elas dirigida e abandonaram a sua carreira.

Eu, apesar de tudo, teimei em continuar a minha carreira científica por ter esperança de mudar de ideias sobre aquilo que o período anterior me ensinou: que a ciência não é mais do que política, onde quem prospera são os mais resilientes e não necessariamente os mais dedicados e que, acima de tudo, é facílimo destruir a carreira de alguém por questões pessoais.

Recentemente, afastei-me de uma carreira como investigadora pela necessidade de “mudar as coisas que não consigo aceitar” e por um desejo enorme de ser para outros o suporte que eu precisei quando era mais nova. Mas não foi uma opção.

Um sistema viciado em precariedade

Nos últimos dois anos muito se falou sobre a inigualável contribuição da ciência portuguesa no combate à covid-19. O esforço dos e das cientistas durante a pandemia tornou-se claro, tanto na criação imediata de plataformas de testagem alternativas e na mudança das suas linhas de pesquisa com criação de projectos aventureiros, como na sua disponibilidade para comunicar ciência em horário nobre, tornando-se celebridades do dia para a noite.

Portugal entendeu subitamente a importância da ciência, mas as suas e os seus investigadores continuaram com condições de trabalho precárias, salários baixos, contratos temporários e carreiras instáveis. Além dos níveis elevados de exaustão, cepticismo e dúvidas quanto à relevância do seu trabalho, relatados por pelo menos um terço dos cientistas inquiridos num estudo da Universidade Nova de Lisboa, centenas trabalham sem remuneração.

Fazem-no a troco de resultados que potencialmente serão transformados em publicações ou outras métricas de sucesso igualmente artificiais e simplistas das quais dependem para concorrer a financiamento e continuar a trabalhar. E se é verdade que esta “precarização de longa duração” não escolhe género, também o é o facto de existirem claras disparidades no impacto que tem sobre as carreiras de homens e mulheres em ciência.

Além dos níveis elevados de exaustão, cepticismo e dúvidas quanto à relevância do seu trabalho, centenas de cientistas trabalham sem remuneração. A base ideológica por detrás das políticas de ciência em Portugal é ela própria anticientífica.

Só é possível entender os motivos que levam tantas mulheres a abandonar as suas carreiras científicas conhecendo um pouco da mentalidade por detrás da ciência em Portugal. Numa entrevista à Antena 1 em abril de 2019, Manuel Heitor, então ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, disse que as “bolsas são o melhor instrumento que se pode dar a um jovem para ter uma total liberdade de acção, de pensamento e de exploração de novas ideias” e que transformar bolsas em contratos de trabalho “limita extraordinariamente a liberdade de pensamento e acção" dos investigadores, enfatizando a ideia de que a precarização favorece a liberdade académica.

Ora, a base ideológica por detrás das políticas de ciência em Portugal é ela própria anticientífica porque, não só não é suportada por quaisquer dados, como se refere a uma população com, em média, 38 anos de idade que dificilmente pode ser considerada “jovem”. Exigimos a profissionais altamente qualificados com 20 anos de carreira que sejam criativos e inovadores, que dediquem a sua vida a longas jornadas de trabalho, que compitam a nível internacional e em troca damos-lhes bolsas e contratos a termo numa altura em que, para serem os profissionais que exigimos, necessitariam acima de tudo de estabilidade.

Para as mulheres cientistas que querem ser mães, este sistema tirano impõe-lhes adiar a maternidade indefinidamente à espera do “momento certo”. Coloca-as em risco, ou penaliza-as, por interromperem as suas carreiras por factores associados à maternidade, uma vez que as suas bolsas e contratos a termo têm duração limitada, reduzindo as suas hipóteses de progressão na carreira. Permanece quem tem rede de apoio, quem pode delegar os cuidados a família a terceiros e quem vem de um meio socioeconómico que lhe permite enfrentar a constante incerteza.

Em Portugal, a força de trabalho científico insere-se num contexto de capitalismo académico, onde a empresarialização das instituições de investigação tem interesse em manter a precariedade. Quem faz ciência em Portugal fá-lo sem vínculo laboral estável, fá-lo com bolsas de investigação, com contratos a termo ou em regime de voluntariado, o que significa que vive em permanente indefinição relativamente ao seu estatuto profissional. 

Ao contrário do que diz Manuel Heitor, as e os cientistas portugueses não têm liberdade de pensamento: trabalham em projetos curtos cujos temas são determinados pelos financiadores e que limitam a liberdade de escolha dos temas científicos. Além de não existirem contratos de trabalho, não há expectativas claras por parte das entidades financiadoras em relação a horários ou dias de férias, não há subsídio de desemprego nem perspectiva de uma reforma digna, trabalha-se sem licença por doença ou invalidez. Não existem salários, apenas um “subsídio mensal de manutenção” que pode acabar a qualquer momento. Basta ficar doente, ser responsável por menores ou ter de assistir a pessoas com incapacidade, mesmo sendo família directa. Sofre desproporcionalmente as consequências directas deste sistema quem é cuidador informal, na sua esmagadora maioria mulheres.

Um sector profissional que se alimenta da precariedade cria o ambiente insalubre necessário para promover abusos de poder, bullying e assédio sexual. As consequências deste sistema deficiente afetam desproporcionalmente as mulheres.

Se um ou uma cientista em início de carreira decidir interromper o seu projecto (incluindo por motivos de doença ou invalidez), terá de devolver o valor da bolsa que recebeu até então, como se não precisasse de comer e pagar contas mensalmente com os cerca de 1000 euros que recebe. Alguém já ouviu falar de uma profissão que exige a devolução da totalidade do salário recebido até ao momento caso o contrato seja interrompido antes do inicialmente previsto? Para os bolseiros de investigação científica (praticamente todos os cientistas em Portugal), a remuneração pelo trabalho diário é considerada uma recompensa por metas atingidas e não pelo serviço prestado, o que aumenta a pressão para alcançá-las a qualquer custo.

Sente-se na pele a cultura da meritocracia académica e da competição desenfreada, nas quais a quantidade tem primazia sobre a qualidade. A pressão para obter e publicar resultados à velocidade da luz para se conseguir uma nova bolsa ou um novo contrato prejudica a qualidade da pesquisa tornando-a menos original, menos rigorosa e menos ética. E quem sofre não é apenas a comunidade científica, somos todos nós.

Na última década, assistimos a um crescimento de cerca de 20 mil doutorados em Portugal. São pessoas que exercem a sua investigação com bolsas de pós-doutoramento sem integração em carreiras docentes ou científicas a longo prazo. Para as e os líderes de laboratório, cientistas em topo de carreira, o cenário não é melhor. A maior parte vive de bolsas ou contratos temporários com as instituições às quais estão afiliados e que beneficiam da cultura académica da produtividade desenfreada, impondo-lhes metas irrealistas que, caso não cumpram, os deixam sem financiamento e vendo-se obrigados a fechar os seus laboratórios.

Como consequência desta constante imprevisibilidade, os e as profissionais sofrem de sintomas de burnout, níveis elevados de exaustão e baixa produtividade. Um sector profissional que se alimenta da precariedade das suas e dos seus trabalhadores é uma “receita para o desastre”; é o ambiente insalubre necessário para promover abusos de poder, bullying e assédio sexual, comuns na Academia. E apesar de estes problemas serem transversais a homens e mulheres cientistas, não é difícil entender por que motivo as consequências deste sistema deficiente afetam desproporcionalmente mulheres.

Apesar do impacto generalizado do confinamento que obrigou a comunidade científica a parar experiências, a interromper colaborações e a fechar laboratórios, aumentando a pressão para publicar artigos e garantir financiamento, quem mais sofreu foi quem a tudo isso juntou o cuidar dos filhos, o cozinhar, o brincar e o ensinar à sua lista de responsabilidades profissionais - tudo ao mesmo tempo e no mesmo local. O aumento das obrigações domésticas e de cuidado informal impostas pelo teletrabalho num contexto de confinamento afectou significativamente a progressão de carreira de docentes e investigadoras em Portugal, especialmente aquelas com contratos precários.

Ao aumentar o ritmo de trabalho e a pressão para a desregulação dos horários, criaram-se as condições favoráveis para comportamentos de assédio e bullying, aumentando o número de interacções negativas e a sua intensidade e tornando o teletrabalho um entrave ainda maior à progressão de carreira de mulheres cientistas.

Mulher e cientista

Enquanto o processo de democratização em Portugal ao longo do século XX modernizava o país, a mulher continuou a ser vista no seu papel tradicional, competindo com homens em setores profissionais predominantemente masculinos. As que ultrapassaram os desafios em fase de recrutamento e se estabeleceram profissionalmente foram mais tarde vítimas de descriminacão de género, tomando consciência de que ser mulher reduzia as suas chances de progredir na carreira independentemente das suas qualificações profissionais.

Em 2022, ouvimos comentários abertamente discriminatórios em horário nobre, como o de Luís Delgado à SIC Notícias sobre a nova ministra da Defesa, Helena Carreiras. “Não vi o currículo da nova ministra, (...) claro que estudou e que fez muitas coisas (...) mas não creio que nesta fase, neste momento e nesta altura devessemos ter uma ministra da Defesa que não tem propriamente uma percepção rápida da situação em que estamos”, disse o comentador. A mulher profissional altamente qualificada fica sempre aquém perante uma sociedade estruturalmente misógina, mesmo quando é de longe melhor para o papel que se propõe a desempenhar.

Aos olhos da sociedade, a mulher cientista é ainda hoje primeiramente mulher, cuidadora, e é sobre ela imposta a responsabilidade de se reproduzir. Por outro lado, como parte da comunidade científica, é penalizada quando decide priorizar algo que não exclusivamente a sua carreira e é vista como não tendo “perfil académico” se opta por não terceirizar o cuidado à sua família. Quando opta por não ter filhos, a percepção dos colegas sobre ela é que é competente mas fria. É o “papel de género" imposto por expectativas socioculturais seculares que determina desde muito cedo, tanto quem decide enveredar por uma carreira em ciência como quem nela permanece.

Como consequência de viverem entre dois cenários incompatíveis, o de cuidadoras e o de profissionais qualificadas sujeitas a uma carga laboral elevada e longas jornadas de trabalho, muitas mulheres cientistas abandonam voluntária ou involuntariamente as suas carreiras. É um dos factores que explica os elevados números de mulheres cientistas em início de carreira e os números reduzidos em posições de liderança.

Dizer que Portugal é um exemplo de progresso na realidade europeia quando mais de metade da população de cientistas é constituída por mulheres é querer ver o copo meio cheio. A realidade é mais complexa que isso. Será que a percentagem total de mulheres em ciência reflecte uma visão progressista e inclusiva da comunidade científica em Portugal? 

A percentagem total de mulheres em ciência reflecte uma visão progressista da comunidade científica em Portugal?  A proporção diminui à medida que aumentam as suas qualificações profissionais: em cargos de chefia as mulheres são menos de 30%.

Analisando a trajetória académica de mulheres e homens ao longo do tempo, é clara a discrepância: há mais mulheres a terminar o ensino secundário em cursos científico-humanísticos e com licenciaturas, mestrados e doutoramentos, seguindo o mesmo padrão internacional. Contudo, essa proporção vai diminuindo à medida que aumentam as suas qualificações profissionais: em cargos de chefia as mulheres são menos de 30%, trabalhando predominantemente em setores com salários mais baixos e recebendo bolsas de investigação de valor inferior às dos homens. O afastamento sistemático e prolongado de atividades associadas a física, matemática, engenharia e ciências computacionais limita a representatividade de mulheres nestas áreas científicas, o que por sua vez reduz a atratividade de outras mulheres para estas carreiras.

Aos pés da cama da minha filha está um poster com desenhos de cientistas célebres. São representações por ordem cronológica de mulheres e homens de diferentes idades e nacionalidades cujas descobertas moldaram a nossa forma de ver o mundo. Não o pus ali para a incentivar (ou desincentivar) a ser cientista, mas pelas mensagens importantes que transmite. A primeira é que a busca pelo conhecimento se faz por pessoas com diferentes identidades, histórias de vida diversas e os mais variados pontos de vista, que têm em comum o facto de serem curiosas, criativas e dedicadas. 

A segunda é que todas aquelas pessoas foram de alguma forma inspiradas pelas suas e seus antecessores e que, embora estejam representadas individualmente, nenhuma contribuiu sozinha para o avanço da ciência. Cada ideia revolucionária implícita naquele pedaço de papel surgiu da colaboração com outros profissionais cujo nome não sabemos e sem os quais estas personalidades não teriam chegado onde chegaram. Foi a interação entre diferentes identidades que permitiu um conjunto de ideias maior que a soma das suas partes, o único motor para a inovação e o progresso. Mas, se o processo científico se alimenta da diferença, seria de esperar que a comunidade científica fosse representativa da diversidade na população, e que quem é cientista seja quem decide sê-lo, certo? Não fosse o problema dos números. O que nos leva à terceira mensagem.

De cinquenta e dois desenhos de cientistas apenas dez são mulheres, número este que não aumenta proporcionalmente ao longo do tempo, desde a Grécia antiga até à actualidade. São mulheres brilhantes que aparecem pontualmente no meio de uma clara maioria de desenhos masculinos. Bem sei que as ilustrações aos pés da cama da minha filha não têm qualquer valor estatístico, mas expõem a falta de representatividade de um sector que necessita dela para avançar. Não é por acaso que em 120 anos e 900 prémios Nobel, apenas 58 foram atribuídos a mulheres.

Se a minha filha um dia decidir ser cientista, além do meu apoio terá também a consciência de que os obstáculos no seu caminho pouco terão que ver com a sua inteligência, o seu talento ou a sua determinação. Estarão, sobretudo, relacionados com fatores históricos decorrentes de uma opressão sistemática, sistémica e prolongada das mulheres como profissionais, e de um permanente boicote a sua progressão de carreira. Da próxima vez que se deparar com nomes de cientistas famosos como Galileu, Newton, Einstein ou Tesla, pergunte-se quantas mulheres cientistas conhece.

Uma cultura de violência sistémica

O assédio de género é a forma mais comum de violência no local de trabalho. É um tipo de assédio insidioso e aceite socialmente, promovido por estereótipos e preconceitos que todos transportamos de forma mais ou menos consciente. Embora a misoginia esteja presente em todos os sectores profissionais, produto de uma sociedade estruturalmente sexista, as mulheres cientistas enfrentam o peso adicional da precariedade, da instabilidade e da falta de perspetiva das carreiras científicas, o que as torna particularmente vulneráveis a abusos de poder.

Ao contrário do abuso sexual que tem como objectivo uma conquista e assenta no desejo físico pela vítima, o assédio de género depende principalmente de relações de poder desiguais que promovem comportamentos opressivos como a coerção, o famoso “se engravidares não te renovo o contrato”, a atenção desproporcionada à roupa e à maquilhagem que para alguns define o nível de profissionalismo, ou a discriminação com base exclusiva em estereótipos de género, como a ideia de que as mulheres são mais emocionais, menos resilientes ou que deviam sorrir mais para ter sucesso. Inclui, ainda, espalhar sobre alguém rumores maliciosos, menosprezar o seu trabalho, ou privar a pessoa de informação necessária para executar uma tarefa.

A assédio de género depende principalmente de relações de poder desiguais, promovendo comportamentos opressivos sobre profissionais mulheres: coerção, chantagem e discriminação e até a sabotagem do seu trabalho.

Além do assédio de género, outra consequência de trabalhar debaixo de uma hierarquia bem marcada é o bullying académico, o padrão de comportamento agressivo constante, prolongado e crescente contra um ou uma colega de trabalho e que afeta desproporcionalmente mulheres. Não para quem a vive mas para quem a observa, este tipo de violência é pouco tangível, o que torna difícil proteger quem a sofre e responsabilizar quem a perpetua. Mesmo quando a violência é visível, como quando os meus colegas decidiram almoçar mais cedo para parar de escutar os insultos em voz elevada dirigidos a mim de dentro do gabinete do meu orientador, a vida continua sem qualquer reprimenda.

Pessoas em posições de liderança, como chefes de grupo ou supervisores, não cometem bullying apenas quando agridem abertamente os membros da sua equipa, mas também quando alteram constantemente os objetivos de trabalho de alguém, ou quando colocam sobre a pessoa cargas de trabalho insensatas e metas inalcançáveis. Inclui, como testemunhei durante o meu período como estudante de doutoramento, recusar escrever cartas de recomendação como incentivo para que a pessoa alcance determinadas metas ou difamar antigos membros do grupo com o objetivo de impedir a progressão das suas carreiras. Não por coincidência, todas as pessoas a que me refiro eram mulheres.

E, num sistema onde o preconceito mais ou menos insidioso é constante e bem vincado, torna-se dominante quem melhor oprime o outro. O resultado? Bullying a mulheres por parte de outras mulheres, produto da discriminação que elas próprias sofreram e utilizado como estratégia de protecção contra o sistema opressor (ou o célebre “se não os vences, junta-te a eles”).

A cultura de assédio sistémico sob forma de opressão, descriminação e bullying culminam em formas elevadas de stress e problemas de saúde física e mental entre cientistas. Depois de semanas a escrever a minha tese sob pressão, sem dormir, sem dinheiro na conta para comer e sendo ignorada e menosprezada constantemente pelo meu orientador, acabei numa cama de hospital com uma meningite que, segundo os médicos, foi consequência directa da ansiedade e stress que vivi durante esse período.

Um relatório das National Academies of Sciences, Engineering and Medicine publicado em 2018 mostra que mais de ⅔ das mulheres cientistas sofreu pelo menos um tipo de assédio sexual ao longo das suas carreiras. Isto nos Estados Unidos, onde o problema está sob escrutínio há já muitos anos e existem medidas concretas do governo para incentivar e exigir às instituições que identifiquem os problemas de assédio sexual na Academia e responsabilizem os agressores. Em 2020, o documentário Picture a Scientist (agora disponivel na Netflix) fez chegar ao grande público vozes de mulheres cientistas relatando situações de assédio em proeminentes instituições de ensino norte-americanas, e impulsionou o debate sobre desigualdades de género nas carreiras científicas.

Em Portugal, porque é a própria comunidade científica a primeira a ignorar a violência de género que as suas profissionais sofrem, as iniciativas para identificar e mitigar os problemas são praticamente inexistentes. Quando existem, são inúteis na prática, porque não protegem as vítimas nem responsabilizam os agressores, sendo apenas uma maneira de mostrar serviço e desresponsabilizar a instituição. A resposta às denúncias de assédio é sempre a mesma por parte das instituições: a (falsa) surpresa seguida do comunicado “se acontecer no futuro, tomaremos as devidas medidas!”.

Porque creem que todas aquelas que foram assediadas até então e que denunciaram o ocorrido não merecem a responsabilização dos agressores. Porque creem que o incómodo e o desconforto das instituições ao tomar medidas concretas têm mais valor que o trauma das vítimas e as consequências que enfrentam para o resto da vida. Teimamos em criar estratégias para inspirar meninas a seguir uma carreira em ciência sem primeiro resolver os problemas de assédio sexual que as destruirão pessoal e profissionalmente caso decidam fazê-lo. Insistimos numa atitude de positividade tóxica quando enaltecemos os números elevados de mulheres em ciência e como autoras de artigos científicos internacionais sem tentar entender qual o custo físico e emocional dessa presença. O primeiro passo para eventualmente eliminar a violência de género contra mulheres cientistas é assumir que a comunidade científica tem um problema.

Teimamos em criar estratégias para inspirar meninas a seguir uma carreira em ciência sem primeiro resolver os problemas de assédio sexual que as destruirão pessoal e profissionalmente caso decidam fazê-lo.

São muitos os motivos pelos quais as mulheres cientistas não denunciam a violência que sofreram ou testemunharam no seu local de trabalho. Podia ter denunciado à direcção do instituto que, no dia em que me proibiu de fazer uma experiência que tínhamos acordado, o meu orientador me ameaçou que arranjaria quem seguisse as suas regras se eu não o fizesse. Não o fiz porque foi só mais uma das muitas ameaças diárias que ouvi.

A normalização da incivilidade e dos abusos na academia que nascem das relações de dependência e do enorme diferencial de poder entre posições hierárquicas distintas leva muitas mulheres a pensar que se não admitirem comportamentos considerados aceitáveis por um sistema criado por homens e para homens é porque não merecem estar ali. Existe também o medo de retaliação, de culpabilização, de descrença, de inação e de humilhação por parte da comunidade que insiste em ver as mulheres cientistas como menos capazes intelectualmente, o que determina a progressão das suas carreiras, especialmente para profissionais mais jovens.

Aquelas que decidem enveredar por uma carreira diferente enfrentam a frustração de serem ignoradas, o peso de serem consideradas um “fracasso” pelos seus pares e a pressão imposta por si próprias para esquecer a violência que sofreram, como forma de proteger a sua saúde física e mental. É o recalcar para (falsamente) se seguir em frente que tem consequências graves a longo prazo.

Quem trabalha em ciência é determinado, dedicado e fá-lo pela paixão pelo conhecimento (ou, como ouvi muitas vezes, por “amor à camisola"), o que implica ir ao fundo de questões que normalmente não têm uma resposta fácil e nunca estão totalmente respondidas. E a ciência é isso mesmo! O problema existe quando o sistema transforma o trabalho numa “roda de hamster”, onde correr desenfreadamente para uma meta imaginária nao é apenas normalizado, mas promovido.

Frases como "não te esforças o suficiente” ou “talvez não tenhas perfil de cientista” são uma realidade constante na vida de quem trabalha em ciência, mais uma vez ouvidas desproporcionalmente por mulheres. Lembro-me bem do dia em que o meu orientador de doutoramento olhou para uma folha de papel onde estavam impressos os meus últimos resultados e, depois de me olhar nos olhos com desprezo, rasgou a folha e disse “Isto é lixo".

Quando a nova voz da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, a cientista Elvira Fortunato, diz que “por vezes os limites estão connosco e não nos instrumentos que temos à nossa disposição”, percebemos que as suas colegas não só não ganharam uma nova aliada como estão a mercê de quem as responsabiliza pelos obstáculos que encontram. Mesmo denunciando problemas de assédio e bullying durante anos às respectivas instituições onde trabalham, as mulheres cientistas continuam a ver as suas carreiras prejudicadas e quem as assediou a não sofrer qualquer consequência. São queixas e pedidos de ajuda deliberadamente ignorados por colegas e diretores de instituições científicas de renome que são cúmplices e promovem activamente a violência e discriminação de género.

As mulheres cientistas continuam a ver quem as assediou a não sofrer qualquer consequência. São ignoradas por colegas e diretores de instituições científicas de renome que são cúmplices e promovem activamente a violência e discriminação de género.

O desprezo pelas carreiras científicas é um problema de todos e reparar um sistema construído para ser desigual é complexo, mas não é complicado. Para valorizar a busca pelo conhecimento e quem faz dela profissão é necessário eliminar a normalização da precariedade das carreiras científicas e da incivilidade dela decorrente e acabar com a romantização da cultura do overwork, que alem de nao levar a uma maior produtividade, custa caro a quem por ela passa, especialmente para quem se inclui num grupo historicamente marginalizado.

Precisamos desesperadamente de educar para criar melhores profissionais, melhores líderes e melhores mentores, e descartar de uma vez por todas a ideia de que a pesquisa científica depende unicamente de habilidades técnicas e cognitivas brilhantes. Precisamos de tolerância zero a maus tratos na academia e a atitudes discriminatórias que põem em risco a carreira e a saúde física e mental de um enorme número de cientistas, especialmente mulheres. O meu percurso como cientista ensinou-me que ser um cientista de sucesso e fazer “investigação de excelência” está longe de ser sinónimo de boa ética no trabalho ou de boas habilidades de liderança.

Os números que o público desconhece e que a comunidade cientifica teima em ignorar estão aí, são públicos e mostram a dimensão da discriminação de mulheres em carreiras de investigação científica, da incerteza em relação ao futuro e da falta de protecção social que garanta que sejam tratadas no seu local de trabalho com o civismo e o respeito que merecem.

Em Portugal, a ciência de ponta de que tanto se fala faz-se, frequentemente, a custo de abuso psicológico continuado por parte de orientadores sem escrúpulos e instituições complacentes que fazem uso do seu estatuto para pressionar e manipular quem vive em constante instabilidade profissional. O dia que defendi o meu doutoramento foi um dos mais felizes da minha vida, não pela celebração do meu sucesso profissional ou pelo orgulho que senti do meu progresso, mas porque estava finalmente livre da violência que vivi em cada dia dos longos anos anteriores.