Licenciada em Engenharia Informática e de Computadores pelo Instituto Superior Técnico. Foi uma das co-autoras do podcast Eu Não Sou Tua Mãe. Emigrante em Bruxelas, feminista e progressista.

Não nascemos princesas nem super-heróis: Como os estereótipos de género moldam a educação, as vivências e as escolhas

Rapazes e raparigas continuam a viver em universos diferentes. Influenciados desde o berço, a entrada na escola que devia esbater condicionamentos anteriores acaba por os reforçar. Este efeito dominó continua até à idade adulta. Há liberdade de escolha quando o nosso género influencia a educação que recebemos?

Ensaio
29 Outubro 2021

Não nascemos no vácuo. A nossa educação, as experiências sociais e o contexto familiar influenciam toda a nossa vida desde a primeira infância. Esta não é uma ideia nova, mas é uma que ainda encontra resistências com base em teorias, mais do que desmentidas, de essencialismo biológico. Não existem cérebros femininos e masculinos, os homens não são de Marte nem as mulheres de Vénus

Assim sendo, é nos estímulos e na educação que recebemos que baseamos as escolhas que fazemos. A educação na infância é preponderante na forma como adolescentes enfrentam o mundo, se tornam adultos e encaram a própria identidade.

Entrar na secção de brinquedos de um supermercado continua a ser uma experiência surreal: dois lados, um muito azul, outro muito cor-de-rosa, em que nos tentam convencer que meninos são aventureiros, super-heróis e adoram experiências cheias de adrenalina e que meninas são calmas, carinhosas, adoram unicórnios e fazer de conta que cozinham. 

Os brinquedos para menino permitem-lhes pôr-se no lugar do protagonista de um qualquer filme de ação, os das meninas permitem-lhes pôr-se no lugar de cuidadoras. Assim, estimulam-se os rapazes a ser proactivos, a correr riscos, a resolver problemas e as raparigas a serem caseiras, sensíveis e a tomar conta dos outros. Não há espaço para meninos que queiram fingir tomar conta de um bebé nem para meninas que queiram explorar o espaço e derrotar monstros na sua nave espacial.

Cabe às figuras parentais, às famílias e a todos nós enquanto sociedade que estar conscientes destes vieses e combatê-los.

Claro que a maioria de nós acredita não condicionar os filhos desta forma. Muitos optam por brinquedos neutros, como LEGO (os clássicos, não os absurdos Lego Friends) ou brinquedos Montessori, convencidos que a madeira neutra os salvará de perpetuar estereótipos de género, ou por um equilíbrio entre brinquedos codificados como “para menino” e outros “para menina”. Numa sociedade moderna, cada vez mais pessoas fazem um esforço para ultrapassar os seus vieses conscientes. Mas e os inconscientes?

Estudos norte-americanos (a maioria das fontes disponíveis foca-se nos Estados Unidos) mostram que não existem diferenças entre sexos relativamente à capacidade de recém-nascidos manterem contacto visual ou na velocidade com que bebés até dois anos atingem os patamares esperados de atividade motora. No entanto, aos quatro meses bebés do sexo feminino já quadruplicaram o contacto visual enquanto que os de sexo masculino pouco aumentaram o seu e, no campo oposto, a partir dos três anos é notória a diferença no desenvolvimento motor de rapazes e raparigas. 

É aqui que entram o condicionamento parental e a demonstração dos tais vieses inconscientes: um estudo pediu a mães que estimassem a inclinação máxima de uma rampa que os seus filhos e filhas conseguiriam ultrapassar, gatinhando. A maioria acertou ao avaliar a capacidade dos filhos, mas subestimou grosseiramente a das filhas. 

Outro estudo mostrou que figuras parentais tendem a falar e a interagir mais com bebés de sexo feminino do que com os de sexo masculino. Um outro revelou ainda que pais tendem a falar mais sobre sentimentos negativos com as filhas e a usar palavras encorajadoras, como “ganhar” e “orgulho”, com os filhos. 

Se as expectativas que estabelecemos para meninos e meninas são tão díspares, mesmo de forma inconsciente, é natural que as oportunidades que lhes damos para desenvolver capacidades distintas sejam também diferentes. Criam-se então profecias auto-realizáveis: rapazes e raparigas desenvolvem as aptidões que a família acredita que consigam desenvolver. Meninas desenvolvem melhores capacidades de comunicação e de reconhecimento de expressões e sentimentos, meninos fortalecem a capacidade motora e o raciocínio lógico-espacial. 

Cabe às figuras parentais, às famílias e a todos nós enquanto partes de uma sociedade que, ao interagir com crianças, as molda de acordo com as nossas próprias convicções, estar conscientes destes vieses e combatê-los. Nas sociedades onde os papéis de género não são tão vincados, também as diferenças entre meninos e meninas se esbatem. 

Pelo contrário, em famílias onde os papéis de género ainda são profundamente vincados e o machismo é a realidade estas crianças são formatadas de acordo com as crenças dos seus pais. É um fenómeno fácil de observar em Portugal, aliás: dentro dos estratos sociais mais conservadores é notória a prevalência e o reforço de papéis de género desde a primeira infância.

Seria de esperar que, ao entrar na escola, estas diferenças se esbatessem. Confiamos nos professores para serem elementos imparciais que avaliam e estimulam cada criança sem atender ao seu género (ou raça, ou sexualidade, ou classe social, mas isso dava assunto para outros tantos textos). Mas não é isso que mostra a realidade. Os vieses dos professores estão tão presentes como os dos pais, e também têm consequências.

Quando as crianças iniciam a sua escolaridade a diferença na capacidade matemática entre géneros é quase inexistente. Depois de alguns meses, já é notória, e só aumenta durante o resto dos anos escolares. Existem vários fenómenos que ajudam a explicar esta diferença: professoras primárias (na gigantesca maioria mulheres) demonstram uma significante ansiedade matemática.

Essa ansiedade é espelhada por meninas, mas não por meninos – e quanto mais essas crianças já têm tendência a acreditar no estereótipo de que “meninas são boas a ler, meninos são bons a matemática”, maior a correlação. É uma bola de neve de estereótipos de género. 

As meninas têm de crescer a acreditar que são tão lógicas e capazes como os seus pares e que a matemática não é um bicho-papão, ou nunca serão verdadeiramente livres nas suas escolhas.

Mesmo quando a performance matemática é semelhante – ou quando as raparigas superam os rapazes -, alguns professores tendem a sobrevalorizar as capacidades dos estudantes de género masculino. Quando se comparam testes preenchidos anonimamente e testes identificados com o nome dos estudantes, é clara a tendência dos professores de sobrestimar o trabalho dos estudantes de género masculino, inflacionando as suas notas nas áreas de matemática e ciências – mesmo quando, às cegas, as raparigas os superam. 

Esta discriminação afeta desproporcionalmente meninas de famílias em que o pai tem mais educação que a mãe e famílias de estratos socioeconómicos mais baixos. As evidências são claras. estudos atrás de estudos mostram como a discriminação de género não fica à porta da sala de aula: professores falam mais com rapazes e permitem que estes os interrompam muito mais frequentemente do que as raparigas. Valorizam o silêncio nas meninas, mas estimulam rapazes a aprofundar as suas respostas. Até ao fazer perguntas para a sala de aula tendem a dirigir o olhar mais para os alunos do que para as alunas.

Mas não são só as raparigas as prejudicadas. Evidências mostram que os rapazes saem a perder nos estímulos para as artes e para as línguas, na capacidade de regularem os próprios comportamentos e impulsos, e até na validação da simples ideia de que “estudar é para raparigas”. 

As diferenças são grandes entre países e mostram claramente que em países como a Islândia, que se portam melhor em termos de igualdade de género, estas diferenças diminuem. Existem poucos dados relativos ao panorama nacional, é certo, mas os existentes indicam que os estereótipos de género são fortes: nos testes PISA (Programa Internacional de Avaliação de Alunos) de 2018, as raparigas saíram-se significativamente melhor do que os rapazes em leitura, enquanto que eles tiveram uma melhor performance em matemática e ciências (esta última pouco significativa, mas oposta à tendência da OCDE). 

Os mesmos testes também mostram que em termos de expetativas de carreira entre alunos de elevada performance Portugal mostra disparidades significativas. Metade dos rapazes portugueses nessas condições quer seguir uma profissão na área das ciências e engenharias (a percentagem mais elevada dos países representados), contra apenas uma em cada sete raparigas. As percentagens invertem-se quase na perfeição no que toca a profissões ligadas à saúde: 47% das raparigas contra 15% dos rapazes. 

Por fim, no que diz respeito a hábitos de leitura, a diferença é assustadora: 45,5% das estudantes consideram ler um dos seus passatempos favoritos, contra apenas 18,8% dos seus pares masculinos. Desses, 60,3% afirmam ler apenas para encontrar informação que precisam, 41% só lêem se forem obrigados e 31,2% afirmam mesmo que “para mim, ler é uma perda de tempo” (os números são, respetivamente,  32,5%, 19,9% e 12,1% para as raparigas).

Como é possível, então, esperar que mais raparigas ingressem nas áreas STEM? Ou que rapazes demonstrem uma maior capacidade de lidar com os seus sentimentos e dos outros? Ao sujeitar os jovens a este tipo de condicionamento durante toda a sua infância e adolescência, estamos a criar jovens adultos com severas limitações. No caso dos rapazes, essas limitações refletir-se-ão especialmente na sua vida pessoal. No das raparigas, na profissional. Em ambos vão acabar por alimentar este ciclo vicioso. 

É essencial que comecemos a encarar os nossos rapazes como seres humanos completos, com sentimentos, ansiedades e tristezas. Eles não são pequenos super-homens. Têm de ter espaço para chorar, para se expressar artisticamente.

Até 2020, faltava meio milhão de profissionais das tecnologias da informação e comunicação (TIC) na União Europeia. Esta é uma área estratégica e essencial no mundo moderno, com tentáculos que se estendem a todas as indústrias e serviços, bem como à vida quotidiana. Não há sociedade sem as TIC. No entanto, apenas 17% dos oito milhões de especialistas em TIC na UE são mulheres. 

E não é que as jovens tenham menos competências digitais: pelo contrário, a gigantesca maioria tem elevada literacia digital. No entanto, quando medimos a confiança digital – sentir-se à vontade para utilizar dispositivos digitais com os quais estão menos familiarizados -, a diferença é de 10 pontos percentuais entre os géneros, sendo os rapazes os mais confiantes.

Faria todo o sentido qualificar mais mulheres para as TIC. É essa a peça essencial para colmatar esta distância entre oferta e procura. Foram, aliás, as mulheres as pioneiras no sector, quando este era desvalorizado como pouco mais do que trabalho de secretariado. Quando as profissões das TIC começaram a ser valorizadas socialmente e os salários a subir, as mulheres foram prontamente expulsas do mercado  - este gatekeeping no acesso a profissões bem remuneradas não é, aliás, inédito. Conseguir trazer as mulheres de volta a esta área é, para a UE, indispensável.

Também para as mulheres esse seria um caminho lógico – as profissões nas TIC costumam ser bem remuneradas, estáveis e oferecer horários flexíveis. É aí que se focam a maioria dos programas europeus que pretende estimular o ingresso de mulheres nas áreas STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática). 

No entanto, quando as meninas crescem a acreditar que são naturalmente menos lógicas e capazes a matemática, ciências e resolução de problemas é realista acreditar que programas dirigidos a estudantes do secundário colmatem estas falhas? É preciso começar mais cedo. As meninas têm de crescer a acreditar que são tão lógicas e capazes como os seus pares e que a matemática não é um bicho-papão, ou nunca serão verdadeiramente livres nas suas escolhas.

Convém também destacar que a matemática é uma competência essencial à literacia financeira. Quando falhamos ao educar as nossas meninas para a matemática, criamos-lhes um obstáculo para a vida. Mulheres menos confiantes nas suas capacidades matemáticas irão estar menos preparadas para fazer escolhas financeiras acertadas e mais disponíveis para abdicar da sua independência, pondo as finanças da casa nas mãos de parceiros. Sabemos que este é um dos principais fatores que leva a que vítimas de violência doméstica e relações abusivas não consigam separar-se dos seus abusadores.

Países com elevada igualdade de género são mais igualitários na educação das suas crianças, reproduzem menos estereótipos de género e contribuem para quebrar o ciclo de meninas inseguras e de rapazes pouco empáticos e comunicativos.

Por outro lado, a generalidade dos homens revela um nível de empatia significativamente inferior ao das mulheres, que não pode ser explicado por diferenças genéticas. Em praticamente todo o mundo as taxas de suicídio são muito superiores entre homens do que entre mulheres. Os homens cometem 90% dos assassínios e são 80% das vítimas - com uma exceção: mulheres continuam a morrer mais às mãos de parceiros íntimos e membros da família, o chamado femicídio. A masculinidade tóxica mata  e é a educação dos meninos e rapazes a grande causadora desta forma de masculinidade, bem como a nossa maior ferramenta para a erradicar.

Quando rapazes são educados em ambientes com papéis de género claros, isso prejudica toda a sociedade. Muitas vezes incapazes de formar relações próximas, de partilha e de troca com outros homens, e sem pensarem em psicoterapia como uma ferramenta válida, é em futuras companheiras que põem a totalidade do ónus da sua saúde mental

Mais uma carga invisível, a somar à carga mental de ser gestora de uma casa, já que a educação também tende a limitar os homens na sua capacidade de tomar conta do seu espaço e dos outros. Não é de estranhar que muitas mulheres rejuvenesçam ao enviuvar, ao passo que os homens definham quando perdem a parceira-empregada-mãe-terapeuta.

É essencial que comecemos a encarar os nossos rapazes como seres humanos completos, com sentimentos, ansiedades e tristezas. Eles não são pequenos super-homens. Têm de ter espaço para chorar, para se expressar artisticamente, para desenvolver amizades próximas e saudáveis, com espaço para o diálogo e o desabafo. Têm de saber descrever as próprias emoções. Têm de se ver como parceiros e companheiros, não como provedores que têm de aguentar tudo de peito feito porque “homem não chora”. 

A esperança ao fundo do túnel é saber que a situação tem vindo a melhorar. Países com elevada igualdade de género também são mais igualitários na educação das suas crianças, reproduzem menos estereótipos de género e contribuem para quebrar o ciclo de meninas inseguras nas suas capacidades técnicas e motoras e de rapazes pouco empáticos e comunicativos. Sabemos que é possível e sabemos que temos todos a ganhar. Só falta mesmo mudar a educação – começando por admitir que a mudança é necessária.