A lente num véu afegão

Ao som de tiros provenientes dos telhados de zinco, onde os talibãs, empunhando armas de herança antiga, atiravam sobre tudo o que mexia, consegui sair a correr com a minha arma de guerra, a minha querida câmara de filmar. Corri, corri, filmando e esperando que as balas nos deixassem continuar a correr.

Ensaio
2 Junho 2022

Temos água, comida, um gerador, gasolina e vistos, para o Tajiquistão. Decorridos 500 metros a pé em cerca de uma hora sob um sol tórrido, arrastando os inúmeros caixotes de equipamento, chegámos finalmente ao ponto fronteiriço com o Tajiquistão.

Nesse casinhoto trocavam energicamente os nossos passaportes entre eles e faziam comentários numa língua estranha. Da voz rude passaram a uma voz de ameaça e de uma voz de ameaça passaram à voz de prisão. No Uzbequistão, onde tínhamos pedido os vistos, “esqueceram-se” de pôr no meu passaporte o carimbo do visto com a assinatura do funcionário competente.

A negociação sobre o valor da minha libertação começou nos 400 dólares americanos, chegou aos mil. Já nem sei quanto custou aquela singela assinatura naquele pequeno livro de folhas de tom amarelo pálido.

Ao chegar a Dushanbe, no Tajiquistão, mais uma negociação a peso de ouro com a Aliança do Norte, para juntamente com uma equipa da TVI, da TSF e o nosso companheiro Daniel Rosário do Expresso, nos levarem de helicóptero a Talokan. A descolagem só podia ser feita durante a noite escura e sem luar. Pagámos, mas não voámos.

À mercê dos três graus negativos de noite e dos 25 graus positivos já de madrugada, apanhámos um táxi amarelo e preto para a fronteira com o Afeganistão, um LADA com estofos de veludo envelhecido pela idade, que percorria a montanha a uma velocidade lenta mas furiosa, marcado pelo desgaste e pela quantidade de quilómetros percorridos naquelas montanhas...

Percorria este caminho todas as noites na companhia de eventuais atiradores furtivos talibãs e matilhas de cães famintos de qualquer coisa que se mexesse. A lanterna era, aqui, uma inimiga.

Seguimos até uma das margens do Rio Panj, onde nos juntámos a uma coluna de carros russos com vários jornalistas e outras personagens que nunca se identificaram e que nada tinham a ver com os traços afegãos.

Às três horas de luar presentearam-nos com maçãs frescas, enquanto à beira rio esperávamos o amanhecer que iria trazer outros militares russos, que nos iriam transportar em lancha para a outra margem do rio. Chegaram e trataram-nos bem. Mostravam, não sei porquê, interesse em nós. E chegámos, por fim.

As imagens para o Jornal da Noite SIC eram transmitidas numa casa da EBU, que ficava a vinte minutos de distância a pé. Tinha de ser feito no breu da noite, devido à diferença horária, o que coincidia com o recolher local obrigatório. Percorria este caminho todas as noites na companhia de eventuais atiradores furtivos talibãs e matilhas de cães famintos de qualquer coisa que se mexesse. A lanterna era, aqui, uma inimiga da noite.

Já em Taloqan, no Afeganistão, depois de inúmeras aventuras numa longa viagem recheada de muito pó, rios de difícil travessia e várias avarias no carro, fiquei doente. Soube mais tarde, em Portugal, que tinha sido febre tifóide.

A minha doença foi tratada por um médico paquistanês numa sala do Hospital Central de Talokan, onde entre duas cadeiras de ferro amarelado, uma maca desgastada de chapa fria cinzenta e um armário vazio, com vidros partidos, conseguiu detetar-me a “doença” com análises feitas através de um microscópio. A receita dada pelo médico, através de gestos e uma espécie de inglês, tinha como composição química uma mistura dos remédios que eu transportava no meu SOS-Kit de viagem.

Obrigado a ficar quieto, em casa, vi, pela primeira vez, uma das mulheres do dono da casa onde estávamos abrigados. Com uma atitude corajosa e sem véu, olhava, de soslaio, a partir do pátio, para o lugar onde nós, jornalistas, trabalhávamos. Graças à minha doença, com dieta e recolhimento impostos, consegui que o vulto, que me protegia, me comprasse um frango que cozinhou com 1kg de arroz, o que nos proporcionou um festim. Comemos no tal pátio, sempre com a presença dela a espreitar-nos.

Poucos dias depois deixei de vê-la, mas sentia-lhe a presença por detrás do muro do pátio; por detrás do véu. Tantas vezes senti o mesmo nesta guerra: mulheres cuja presença sentia, mas que não via; miúdas a correr e a brincar na rua e que de repente lhes era imposto o uso do véu e nunca mais apareciam, apenas porque se tinham tornado mulheres.

Dois dias passaram com inúmeras peripécias luso-afegãs enquanto eu recolhia imagens para a peça diária para o Jornal. De repente aconteceu a tomada de Conduz.

Uma entrada triunfante e eufórica da Aliança do Norte. Com o rádio em alto e bom som no táxi, conduzido pelo nosso guia e informador, seguíamos um jipe equipado com um lança-morteiros e carregado de militares da Aliança. Inesperadamente dá-se uma emboscada. Tiros de HK começam a ser disparados dos telhados de zinco, a caravana onde seguíamos era o alvo. Saíram todos a correr em alvoroço, mas eu fiquei preso naquele táxi amarelo e preto, cujo trinco me traiu e partiu.

Ao som dos tais tiros provenientes dos telhados de zinco, onde os talibãs, empunhando armas de herança antiga, atiravam sobre tudo o que mexia, consegui sair a correr com a minha arma de guerra, a minha querida câmara de filmar, ao ombro. Corri, corri, filmando e esperando que as balas nos deixassem continuar a correr. Consegui chegar ao Aurélio Faria, o meu colega de trabalho, que nunca me deixou para trás e que me procurava naquele tumulto. Debaixo desses telhados de zinco, onde as balas zuniam, continuávamos a correr sem direção certa.

Tantas vezes senti o mesmo nesta guerra: mulheres cuja presença sentia, mas que não via; miúdas a correr e a brincar na rua e que de repente lhes era imposto o uso do véu e nunca mais apareciam, apenas porque se tinham tornado mulheres.

Um miúdo pastor, de talvez uns 17 anos de idade, aparece e leva-nos para uma casa onde havia mais um homem de idade, talvez o pai. Deu-me, rápida e decididamente, um casaco de lã, um Tarbuck branco para pôr na cabeça (que ainda hoje guardo comigo) e um saco de batatas para guardar a câmara. Indicou-nos um caminho seguro.

Saltámos muros e telhados, atravessámos pocilgas e esgotos, até chegarmos a um pátio onde um velho pastor nos acolheu e nos ofereceu um chá preto. Foi aí que o Aurélio e eu parámos para pensar. Estávamos momentaneamente salvos. Tínhamos as imagens gravadas na câmara, mas no táxi tinham ficado o telefone satélite, uma segunda câmara, baterias, cassetes, comida, água e o meu casaco para o frio. Como iria comunicar com Lisboa?

O jovem pastor que nos disfarçara, apareceu de novo, só que desta vez acompanhado pelo nosso guia e condutor do táxi amarelo e preto. Levaram-nos de volta para o local da emboscada. Os homens, que há alguns minutos tinham disparado contra nós de forma descontrolada, estavam feridos de morte e pediam-nos clemência, ou até a paz, com uma morte rápida. Não filmámos. Existem realidades duras que a lente de uma câmara tem de saber preservar, no entanto é impossível esquecer aquele cenário de horror e dor.

Liguei para casa: “Estou vivo… vejam o jornal da noite da SIC, mas estou vivo. As miúdas estão bem? Não posso falar mais…”

A Aliança do Norte ia avançando no terreno, deixando para trás os Talibãs, presos em contentores, debaixo de um sol tórrido e de noites gélidas. Outros rendidos, viviam em insegurança, famintos, sobrevivendo de pilhagens e assaltos. Houve um assalto à casa onde estavam os nossos colegas da imprensa internacional (Belgas, Irlandeses e Ingleses) que ficava em frente à Base de Transmissões Satélite Russa. Daqui resultou a morte de um colega belga, com um tiro à queima roupa. A agência noticiosa russa EBU, com quem trabalhávamos, decide levantar acampamento e sair do Afeganistão. Foi tudo muito rápido.

Apesar dos esforços por parte dos comandos da Aliança do Norte no local, para manter segurança, decidimos partir. Saímos numa coluna de jornalistas, em carrinhas 4x4, no dia seguinte, ao meio dia. O caixão do fotógrafo, morto na noite anterior, seguia sozinho numa outra viatura no final da caravana, sob o sol tórrido do Afeganistão.

O nosso colega Daniel do jornal Expresso ficou. À nossa partida acenava-nos, rodeado de miúdos que brincavam na rua, agradecendo-nos, com o sorriso, o resto dos nossos alimentos, bebidas e doces.

Por detrás de uma porta meio fechada, com uma cortina branca meio transparente, reconheci a miúda que uns dias antes vira a correr e brincar com os irmãos nos canais de água da nossa casa de abrigo. Seria já, também ela, uma mulher? Representaria esta cortina o seu futuro véu? Mais uma imagem gravada sem lente de câmara.

Este testemunho foi originalmente publicado no Manual de Reportagem REC, organizado por Pedro Coelho, Ana Isabel Reis e Luís Bonixe, e editado pelos Livros Labcom em 2021.