Jornalista e atual correspondente da RTP em Paris. Trabalha na Antena 1 (RDP) desde 1993. Há anos que acompanha situações de conflito e o Médio Oriente e tem dois livros publicados: Ascensão e queda da irmandade Muçulmana no EgiptoDe Istambul a Nassíria, crónicas da guerra no Iraque.

A reportagem que parecia impossível

Depois de já ter passado várias fronteiras “a salto”, nunca tentara nada como isto. A forma como pretendíamos entrar e atravessar o Iémen parecia-me irrealista: entrar como turista num país devastado, com dois governos, e palco de um conflito classificado como “guerra por procuração”. Parecia-me impossível.

Ensaio
26 Maio 2022

Sentimos fascínios que não conseguimos explicar. Recordo-me bem do encantamento sentido ao ouvir a palavra Beirute. Ou Jerusalém, ou Bagdad. Não sei se é a vozinha que segreda ao ouvido do repórter, mas o mesmo aconteceu com o Iémen desde que a chamada Primavera Árabe saiu às ruas e, depois disso, com maior insistência, por causa da guerra que dilacerou o país. Ficou assente: era obrigatório fazer uma reportagem sobre o Iémen. Ainda por cima, nenhum jornalista português tinha pisado aquele chão.

A ideia ganhou forma depois de conhecer alguns iemenitas e outras pessoas que conhecem o país. A Direcção de Informação da minha rádio disse que sim, embora pouco convencida. As coisas chegaram a estar tremidas e eu cheguei a dizer que desistia da ideia, mas o Iémen falou mais alto.

A primeira tentativa passou por obter visto através de uma embaixada iemenita na Europa. Ainda estou à espera de resposta. As embaixadas iemenitas são controladas pelo Governo sediado em Aden e que tem o reconhecimento da chamada comunidade internacional.

Esta reportagem terminou como começou: uma enorme incerteza na hora de regressar. Com partida inicialmente marcada para um aeroporto no centro do país, o curso da guerra cortou essa saída. 

A alternativa era conseguir autorização de entrada do outro “lado”, o Houthi. Assim foi. Mas havia um problema: para chegar à zona Houthi, era preciso atravessar a zona controlada pelo Governo de Aden – que não respondera aos pedidos de visto – e respectivos aliados: Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. Ainda assim, era a  única possibilidade. Contactos estabelecidos, canais abertos e ultrapassada uma quantidade enorme de burocracia, avançámos.

O tempo de espera permitiu-me ler sobre o Iémen: regressei à Rainha de Sabá (edição velhinha de André Malraux) e perante a ausência de oferta nas editoras portuguesas recorri à Internet para encomendar, por exemplo, Le Yémen de L’Arabie Heureuse à la Guerre. Li sobre a presença portuguesa em Aden e descobri o que Voltaire disse sobre o Iémen: o país mais agradável da terra, onde o ar é perfumado num Verão contínuo...

Confesso que ia bastante céptico. Depois de já ter passado várias fronteiras “a salto”, nunca tentara nada como isto. A forma como pretendíamos entrar e atravessar o Iémen afigurava-se-me irrealista. Entrar como turista num país devastado por uma guerra, com dois governos, e palco de um conflito classificado como “guerra por procuração” (Arábia Saudita/Irão) nos manuais de política internacional, parecia-me impossível. Enganei-me. E não esqueço o que me disse um dos meus (irmãos para a vida) colaboradores no Iémen, quando eu lhe revelava esse cepticismo: “José, não há problema. Quando atravessares a fronteira, a primeira pessoa que vais ver sou eu”. E assim foi, num dia de chuva e muito calor, depois de três dias em Omã, à espera do momento certo, com a pessoa certa, para que fosse possível ter um visto de entrada carimbado no passaporte.

Depois, percorremos toda a costa sul do Iémen. Os checkpoints sucediam- -se, o aspecto e a abordagem dos homens armados não inspirava confiança. Brincavam com as armas, mascavam khat, tinham os olhos tingidos de vermelho, olhar por vezes alucinado. Num dos checkpoints ficámos mais de sete horas parados, com um desses militares – nunca se sabe se é a sério ou a brincar, principalmente depois de horas parados, ao sol, dentro de um carro – chamando-me de “captain, my captain”, tentando obter uma resposta à saudação militar, insinuando que eu seria um espião de uma qualquer agência estrangeira. Parados, sem uma explicação. E retidos.

Quando pedimos os passaportes para voltarmos para trás e foi-nos dito que não poderíamos sair de onde estávamos. Mais de sete horas depois disseram-nos que o problema era afinal um carimbo do Qatar no passaporte (o Qatar, devido às boas relações com o Irão, estava - e ainda está - sob embargo da Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, precisamente os dois países que controlam o sul do Iémen). Afinal, tinha sido apenas a marca de uma escala na viagem entre Lisboa e Salalah (Omã).

Desde a fronteira de Omã foram quatro dias de viagem, com equipamento escondido, sempre de carro e apenas durante o dia, por terras que até há pouco tinham estado controladas pela Al Qaeda da Península Arábica, para chegarmos à “frente de guerra”, onde o Iémen “muda de mãos”. Nos hotéis onde íamos pernoitando, faziam-nos sempre muitas perguntas. Falávamos o mínimo possível.

A viagem para norte obrigou-nos a passar por leitos de cheia entre densa vegetação, dezenas de quilómetros com o carro a ameaçar partir-se a cada solavanco e com os check-points levantados por crianças soldado armadas de Kalashnikov, que apenas queriam uma ou duas notas, previamente preparadas e enroladas em canudo, já acomodadas na grelha da saída de ar. Era só tirar, uma ou duas. Estávamos numa espécie de terra de ninguém. Depois, mais um dia inteiro de viagem até Sanaa, a capital do Iémen, controlada pelos Houthis. Tinham sido cerca de 1.400 quilómetros desde a fronteira com Omã e nem tínhamos ainda começado a trabalhar, a não ser alguns registos com os telemóveis e notas registadas no caderno. Nem sons, nem imagens. O risco não compensava e a reportagem podia ficar irremediavelmente comprometida.

Na “zona Houthi” só pudemos ver o que o Governo de Sanaa autorizou – contexto devidamente sublinhado na reportagem – e sempre acompanhados por um “elemento de ligação”. Hospitais, zonas bombardeadas, campos de deslocados, mas nada de zona de batalha. Aliás, a guerra estava numa espécie de compasso de espera em que as forças de ambos os lados apenas davam uso às armas para marcarem terreno e posição.

Sempre sorridente e a pedir desculpa por não nos poder levar onde queríamos, o “elemento de ligação” ficava extremamente nervoso sempre que aos gritos de “stop the car”, obrigávamos o condutor a parar. Numa aldeia, ou num local de distribuição de ajuda alimentar, saíamos do carro a gravar e o tal “elemento de ligação”, embora a tremer, lá se colava anotando tudo o que as pessoas iam dizendo. Para além do controlo do Governo Houthi, e mesmo com as credenciais e autorizações que o “elemento de ligação” sempre carregava às resmas – para ir deixando nos checkpoints – só podíamos dar um passo depois de autorizados pelos líderes das tribos locais. E não dava mesmo para ultrapassar essa imposição.

Se há zonas de conflito em que é difícil identificar quem é quem, no Iémen é ainda mais difícil. Houve até um Hotel, em Hodeida, onde nos queriam ficar com os passaportes enquanto lá estivéssemos. Foi preciso armar uma grande algazarra para que nos fossem devolvidos sempre que saíamos, de modo a não sermos apanhados sem documentos.

As viagens já tinham sido compradas e um dos nossos fixers garantiu: está tudo tratado. Alguém tinha sido subornado; alguém ia “olhar para o lado” e carimbar o passaporte.

Esta reportagem terminou como começou: uma enorme incerteza na hora de regressar. Com partida inicialmente marcada para um aeroporto no centro do país, o curso da guerra cortou essa saída. A alternativa era sair por Aden ou voltar a fazer 1.400 quilómetros de carro, com o risco de sermos descobertos num checkpoint e perdermos tudo o que tínhamos conseguido. E tínhamos a noção de que nem sempre se tem a sorte que tivemos no percurso de entrada. Mas o aeroporto de Aden estava controlado pelos sauditas e era, também, um enorme problema. Ponto assente era que não poderíamos passar no aeroporto com equipamento de televisão, uma vez que aquele governo e a coligação internacional que o apoiava não queria jornalistas no Iémen. Não haveria suborno suficiente que pagasse um fechar de olhos assim tão grande.

Na véspera da viagem de regresso, ainda em Sanaa – viajámos toda a noite, contra todas as regras – fizemos uma caixa de madeira para que o equipamento pudesse chegar a Lisboa através de uma empresa que conseguia furar o bloqueio que o Iémen enfrenta. Tudo o que nos pudesse relacionar com a zona Houthi ficou dentro dessa caixa. Ficheiros de vídeo, fotografias e sons, foram dissimulados no disco de um dos computadores. O meu bloco de notas foi fotografado e despachado por email (felizmente que nessa noite, quando recolhemos os nossos haveres e tomámos um banho no hotel em Sanaa, a Internet funcionava...). Reentrámos na zona sul de novo como turistas.

As viagens já tinham sido compradas e um dos nossos fixers garantiu: está tudo tratado. Alguém, no aeroporto, tinha sido subornado; alguém ia “olhar para o lado” e carimbar o passaporte; alguém iria deixar passar as bagagens no raio x sem fazer perguntas.

Finalmente o avião da companhia (Queen Bilqis Airways) “Rainha de Sabá”, levantou voo em direcção a Cartum. Respirámos de alívio. Mas as seis horas de escala na capital do Sudão implicaram muita paciência e negociação, para não sermos reenviados para Aden, por não termos visto para o Cairo. Tínhamos dois bilhetes que se complementavam até Lisboa e a Egypt Air foi muito renitente em transformar essas duas viagens independentes numa única, o que faria da passagem pelo Cairo apenas uma escala e dispensaria o visto que nós não tínhamos. Lá conseguimos, desta vez sem suborno. O equipamento chegou a Lisboa um mês depois.

Tudo isto deu origem a “Iémen – o lado Houthi da guerra”, pouco mais de meia-hora como produto final para a rádio e para a televisão. Valeu a pena? Acho que sim. Falta o outro lado do Iémen.

José Manuel Rosendo escreve segundo o antigo acordo ortográfico.

Este testemunho foi originalmente publicado no Manual de Reportagem REC, organizado por Pedro Coelho, Ana Isabel Reis e Luís Bonixe, e editado pelos Livros Labcom em 2021.