História em busca de bússola

Devem os jornalistas intervir? Ou apenas assistir? De novo a ténue rosa dos ventos. Conceitos como o certo ou errado são avaliados em andamento, sem pisar as linhas vermelhas. E sempre com a emoção burilada no relato e no encadeamento das reportagens. E no respeito pelo humano.

Ensaio
19 Maio 2022

O rapaz corria. Esbaforido. Agarrou o microfone. Queria filmar a marca da bala de borracha no peito. Gritava, pedia ajuda, ajuda o Mundo. Fazia zoom com o micro da rádio. Queria filmar. E a voz, o tom, latejavam imagens, de facto. Filmou, de outra forma. “Assassinos”, repetia. E apontava para o outro lado da Ponte Francisco de Paula Santander, insultava com o dedo os elementos da Guarda Nacional Bolivariana de Nicolás Maduro.

De um lado da ponte, a Venezuela e bombas de gás lacrimogénio. Do outro, Cúcuta, a Colômbia e milhares de pessoas e o mundo a quererem fazer chegar ajuda humanitária ao país vizinho. Era sábado, era fevereiro de 2019, 23 - o dia em que o presidente interino da Venezuela, Juan Guaidó, anunciava a libertação do país outrora de Hugo Chávez.

Pelo meio da ponte, ardiam camiões carregados de ajuda humanitária. Fumegavam destroços de alimentos e medicamentos. As investigações, que não existiram, nunca apuraram quem ateou o fogo. Se os militares e milícias de Maduro. Se os venezuelanos, que desde a Colômbia atiravam artesanais cocktails molotov para o outro lado da fronteira. Chamas e fumo como trilha visual. Gente a correr, com panos embrenhados em vinagre, como escudo contra o gás, a estenderem o tapete sonoro.

A ajuda humanitária não entrou. E o fumo e o cheiro a plástico queimado viraram o dia. Domingo, também fevereiro de 2019. Foi a ressaca a que o Mundo assistiu. As proclamações de Guaidó sucumbiram perante os guardas de Maduro. Os disparos de balas de borracha continuavam a marcar a cadência dos momentos. Mais gente a correr desastrada, mais panos com vinagre para aliviar as outras chamas do outro gás vindo da Venezuela.

Um deputado equatoriano pedia aos guardas bolivarianos para deixarem a rapariga entrar na Venezuela. Insistia: é venezuelana e na véspera tinha dado à luz um nado morto em Cúcuta, Colômbia.

Ao início da ponte estava uma rapariga sentada com um caixa de cartão ao colo. Imóvel, muda. Quase invisível. Ouve-se um megafone. Um deputado equatoriano do grupo de contacto para a transição de poder na Venezuela avisava tratar-se de uma questão humanitária. Pedia aos guardas bolivarianos, 50 metros do outro lado da ponte, para deixarem a rapariga entrar na Venezuela. Alertava. Insistia: é venezuelana e na véspera tinha dado à luz um nado morto em Cúcuta, Colômbia. Queria fazer um funeral e um velório, junto da família na Venezuela. O equatoriano insistia.

Os elementos da Guarda Nacional Bolivariana respondiam ora com silêncio, ora com gás lacrimogénio. Um grupo de jornalistas com microfones e camaras de filmar em riste abordaram os militares de Maduro. “No, jamas,” foi a resposta. O deputado do Equador recuou. A rapariga, sempre com o feto morto, deitado num berço feito de cartão, que manteve ao colo, desapareceu. Recusou entrevistas a televisões, jornais e rádios internacionais.

Nada mais se soube sobre o destino da Mãe. E da criança adiada.

A arrancar

A 23 de Janeiro de 2019, Juan Guaidó, Presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, auto proclama-se Presidente Interino do país. Promete acabar com a usurpação. Com o poder dos generais de Maduro, com o abrigo dado às guerrilhas da Colômbia, com o narcotráfico, com o tráfico de ouro e diamantes. Guaidó anunciava uma “nova Venezuela”, um dos países mais férteis do planeta em riquezas naturais, com o petróleo à cabeça.

Na rádio, na Antena 1, lamentava-se que o governo de Maduro não permitisse vistos de entrada a jornalistas. O país é distante, mas as ligações são muito próximas. Estima-se que vivam 400 mil portugueses na Venezuela, quase um milhão já com luso-venezuelanos. O Brasil, país irmão, está ali ao lado.

Meses antes tinha estado a acompanhar as eleições no Brasil, que terminaram com a vitória de Jair Bolsonaro. Percorri parte do país, “dei um salto” a Roraima, amazónia profunda, para fazer uma reportagem sobre os venezuelanos que fugiam da fome, e da ausência de quase tudo, em direção ao Brasil, pela fronteira de Pacaraima. Na altura eram cerca de mil por dia.

O pai, português, tinha pastelarias na Venezuela. Várias. E muitas casas que ele herdou. E, quando Maduro chegou ao poder, perdeu tudo. Começou a vender ouro da Venezuela no Brasil.

Estava num café em Boavista, capital do Roraima. O dono era português. Disse-me para ir à praça junto à central Rodoviária. Centenas, milhares de venezuelanos. Em tendas, no chão. Em redes. Riam, falavam. Mães amamentavam. Comiam. Estavam libertos, porque não estavam na Venezuela.

Volto ao café do português, pergunto por um táxi de confiança para me levar à fronteira – 260 quilómetros por terras indígenas. Um homem com sotaque tugo-espanhol aborda-me: “Amanhã cedo vou a Santa Elena de Uairén”, diz-me. Era a fronteira venezuelana com Pacaraima, Brasil.

Fomos. Perto da fronteira diz-me que “teve” de tornar-se traficante de ouro. Teve. O pai, português, tinha pastelarias na Venezuela. Várias. E muitas casas que ele herdou. E, quando Maduro chegou ao poder, perdeu tudo. Começou a vender ouro da Venezuela no Brasil. Uma reportagem leva a outra.

O arranque

Era de todo vantajoso ter algum repórter na Venezuela. Ligo ao antigo pasteleiro, agora traficante de ouro. Pergunto quanto será, sem visto de jornalista, uma viagem até Caracas, a capital da Venezuela. Preço acertado.

Dias depois, já na passagem Pacaraima (Brasil) - Santa Elena de Uairén (Venezuela), fronteira bloqueada. Passaporte europeu, não entra. Dois dedos em busca de bússola – uns passos atrás. E uma nota de dólares dentro do passaporte. O visto de turista surgiu.

Santa Elena tem quase tudo, está perto do Brasil. E tudo é contrabando. Uns quilómetros à frente, outro mundo. Filas de quilómetros para abastecer o carro – os combustíveis na Venezuela permanecem quase gratuitos. Gente a vender garrafões de gasóleo ou gasolina à beira da estrada. Contrabando de produtos preciosos no país de Maduro: papel higiénico, sabonetes, pastas de dentes, medicamentos. Adiante.

Aqui e ali, uma operação militar que corta estradas e tudo vasculha. Ou não, depende dos dólares oferecidos. Um militar venezuelano ganha em média seis dólares por mês, um quilo de carne custa quatro.

Em Las Claritas e no km 88 veem-se na estrada minas de ouro a céu aberto, paramilitares das FARC colombianas e do Exército de Libertação Nacional (ELN), da Colômbia, a controlarem o expediente. Depois dos processos de paz na Colômbia, a Venezuela é acusada de abrigar os dissidentes das guerrilhas que, como pagamento, protegem o regime de Maduro.

A viagem prosseguia com os microfones, gravadores e computador dissimulados dentro dos bancos do carro. Aqui e ali, uma alcabala – operação militar de forças venezuelanas que cortam estradas e tudo vasculham. Ou não, depende dos dólares oferecidos. Um militar venezuelano ganha em média seis dólares por mês, um quilo de carne custa quatro.

Mais um alcabala, mais uma nota de dólares. E assim, via Puerto Ordaz, até Caracas. Assim, 1300 quilómetros. Caracas, capital, hotel de muitas estrelas vazio. E quase sem papel higiénico. Ao longo do caminho as reportagens foram surgindo.

A ética da reportagem

Tentei ao logo destas três semanas na Venezuela (e mais uma na Colômbia) ouvir fontes oficiais do Presidente Nicolás Maduro. Sem visto de jornalista, quase impossível. A deambular pelo país, poucos se assumiam apoiantes do regime de Maduro. Fontes, quase inacessíveis.

Alimentar a corrupção é atitude que não se enquadra nos preceitos éticos. Pagar a um traficante de ouro para nos conduzir e orientar durante mais 309 de mil quilómetros está totalmente ao arrepio das leis habituais. Estender dólares para furar barreiras militares, muito menos.

O que vale, a história que vamos contar, ou um olhar tão higiénico quanto possível sobre o tapete em que deslizamos? Furar as leis universais para contar histórias? Será? Alimentar o sistema para o denunciar? Que danos causamos? O delicado equilíbrio que conduz à resposta é a bússola humana e social. E só sabemos para onde aponta, até irmos.

Ética, on the road

Um grupo de jornalistas com microfones e câmaras de filmar em riste abordaram os militares de Maduro. “No, jámas” foi a resposta.

Devem os jornalistas intervir? Ou apenas assistir? De novo a ténue rosa dos ventos. Conceitos como o certo ou errado são avaliados em andamento, sem pisar as linhas vermelhas. E sempre com a emoção burilada no relato e no encadeamento das reportagens. E no respeito pelo humano. A história contada deve conter todos os ângulos, sabemos. A nossa ação para levar os lábios da reportagem à fonte da realidade do contexto é tarefa bem mais difícil de definir.

Só indo, só fazendo. É esta massa frágil que faz da vida de repórter a mais gratificante do mundo. Dúvidas, sempre. Respostas, vão-se encontrando, no gerúndio. Somos nós. E o código deontológico em itinerância.

Este testemunho foi originalmente publicado no Manual de Reportagem REC, organizado por Pedro Coelho, Ana Isabel Reis e Luís Bonixe, e editado pelos Livros Labcom em 2021.