Alagie

Alagie recusava-se terminantemente a falar com jornalistas que estavam só de passagem, que aterravam na ponta de Itália por uns dias e que achavam que podem compreender o que quer que fosse. Sabia desde o primeiro segundo que eu lhe estava a dar uma atenção interesseira, porque queria que me deixasse contar a sua história. 

Ensaio
31 Março 2022

Não tinha mais nada para fazer ali. Não conseguia mais fixar aqueles olhos amarelados e tristes, carregados de cansaço e de medo e de raiva. Tinha passado horas a ouvi-lo, a avaliá-lo, a contrapor, a tentar perceber o que o punha em lume. Eu com o monopé recolhido encostado às pernas e a câmara guardada na mochila para não assustar. Ele sempre sério e perfeitamente ciente do que eu queria.

Alagie tinha vinte e cinco anos e o dobro do tempo em esperanças e desânimos. Tudo embrulhado numa bolsa de revolta que carregara num barco frágil através do Mediterrâneo. Tinha trabalhado como jornalista na Gâmbia, tinha sido forçado a deixar tudo e a fugir, tinha demorado demasiado tempo a atravessar África, tinha desembarcado em muito mau estado na Europa.

Chegara ao sul da Sicília meses antes. Costumava perder-se frequentemente no cemitério de barcos arrumado a um canto do porto. Não se adaptara à indefinição constante de viver semi-encarcerado num lugar sobrelotado, sem saber o que aconteceria a seguir. Sofria de pensar demais. Os problemas que tivera no centro de receção de migrantes de Pozzallo tinham-no empurrado para um precipício por duas vezes. Tinha quase desistido de tudo da forma mais definitiva.

Mas naquela terça-feira de setembro de 2014, Alagie proferia frases firmes e estava focado. Tinha as malas prontas para ir estudar em Torino. Algum tempo antes tinha sido acolhido pelos donos de um bar local. Encontrar quem o respeitasse, sem perguntas nem pressões, devolveu-lhe a capacidade de querer recomeçar um caminho. Conseguiu autorização temporária de permanência em Itália e queria estudar qualquer coisa na área do Direito, para no futuro poder ajudar outros a não repetirem os mesmos passos.

Tinha-lhe custado chegar àquele ponto e não estava disponível para reviver o passado recente. Quando eu desligasse a câmara e me fosse embora, contente por levar na mochila uma história forte, teria ressuscitado dentro dele uma nuvem escura que demorara meses a afastar-se. Não valia o custo. Além disso, Alagie recusava-se terminantemente a falar com jornalistas que estavam só de passagem, que aterravam na ponta de Itália por uns dias e que achavam que podiam compreender o que quer que fosse.

"Vais encontrar vários outros como eu, não faltam por aqui casos iguais”, dizia-me. Resisti ao argumento. Eu estava precisamente a tentar recolher as histórias particulares que se escondiam por trás dos números, numa Europa que começava então a descrever um “mar de gente” em movimento, como se fizessem todos parte de uma massa uniforme. Mas Alagie sabia desde o primeiro segundo que eu lhe estava a dar uma atenção interesseira, porque queria que me deixasse contar a sua história.

A tarde que passei naquela dança foi preenchida com uma conversa rara e franca. Revelou-me uma consciência política global bem cimentada, de argumentos maturados. Mas quanto mais eu me apercebia do entrevistado valioso que tinha à frente, mais se tornava evidente que tinha de o deixar ir.

Ao fim de várias horas parei de tentar convencê-lo, despedi-me e fui-me embora.

Aquele trabalho tinha demorado mais de um mês a sair do papel. A burocracia italiana forçara-me a gastar dias intermináveis numa ronda diária de telefonemas e pedidos de autorização para entrar em campos de refugiados e marcações de entrevistas com gente envolvida no que se começava a desenhar como um dos maiores desafios que a União Europeia tinha enfrentado em muitos anos.

Deixei Portugal com uma mochila de vários quilos às costas, pronta para me desdobrar em mil e fazer sozinha a produção, entrevistas, filmagem, fotografia e recolha de áudio. Não queria partir para aquela reportagem sem uma rede bem desenhada, mas o melhor que pode acontecer a um plano é virar do avesso no terreno, porque o mais relevante não é imaginável a partir da redação. E Alagie apareceu-me no caminho a comprovar isso mesmo.

Foi, portanto, com bastante desânimo que fiz aquelas horas de caminho de regresso a Catânia, naquela terça-feira quente. Levava o nó na barriga de quem tinha perdido “a história” de toda uma reportagem. Não fui capaz de antever então a importância das lições que Alagie acabara de me ensinar.

É claro que ele tinha razão — não me faltaram histórias no resto do caminho, que ajudaram a juntar rostos às estatísticas das chegadas de barcos às costas europeias. Não faltaram situações complexas, várias camadas de cinzentos a desafiar ideias pré-concebidas e a desaconselhar explicações simplistas. Já me tinha acontecido aterrar num terreno espartilhado para o tentar explicar. E, em várias situações, era muito evidente que o motivo para alguém aceitar partilhar uma história difícil era uma possibilidade de troca, como se a publicação de um testemunho equivalesse à promessa de mudar um destino diretamente. Ou de mudar imediatamente a perceção geral sobre um determinado tema. Raramente qualquer explicação contrária demove quem está desesperado de alimentar essa ilusão. Alagie tinha força interior e conhecimento de causa suficiente para me negar a sua história com firmeza. Muitos outros, sobretudo em situações de particular fragilidade, não dispõem dessas ferramentas.

A partir daí, nos mais diversos contextos, nas reportagens mais longas ou na pequena história do dia, aqueles olhos amarelados acompanharam-me sempre. Alagie ensinou-me a obrigação de colocar o indivíduo retratado à frente do testemunho que carrega. Ensinou-me que o esclarecimento prévio  sobre a finalidade do trabalho jornalístico — que eu usara tantas vezes como armadura, como quem lê uma espécie de “advertência de Miranda” — pode não ser suficiente. Que o respeito pela dignidade de qualquer pessoa, a que o código deontológico nos obriga, pode significar, por vezes, deixar uma história fugir.

Este testemunho foi originalmente publicado no Manual de Reportagem REC, organizado por Pedro Coelho, Ana Isabel Reis e Luís Bonixe, e editado pelos Livros Labcom em 2021.