Perdemos demasiado à procura de ganhar tempo

É possível, e desejável, que a reportagem aconteça em todos os lugares e momentos, mesmo naqueles de mais difícil filtragem. Só assim conseguimos fazer um jornalismo de verdade que nos aproxime das pessoas. E isto não significa mostrar tudo o que mexe, ou estender o microfone só porque sim.

Ensaio
21 Janeiro 2022

Ao desafio para abordar uma estória profissional não me lembrei de nenhuma que interessasse a muitos. Portanto, falemos de tempo que faz falta a todos.

Num passado, não muito longínquo, o simples ato de fazer uma peça, curta, no exterior, implicava tantos passos e dificuldades técnicas que só a ideia custava tempo, recursos e dinheiro. Na época das Betacam SP, e depois SX – que é o que a minha memória profissional, em televisão, alcança – as únicas coisas iguais, e que verdadeiramente importam preservar apesar da evolução, são o jornalismo e a imagem.

Nos tempos que correm, quando a Internet põe o mundo nas mãos do comum, o jornalismo e os jornalistas reassumem um papel central para o ajudar a compreender, mas, mais importante, para introduzir verdade.

Naquele tempo, chamemos-lhe assim para não nos fazermos velhos, a montagem era tão pouco portátil que obrigava a percorrer muitos quilómetros. Tantos quantos o envio, que só podia fazer-se nas delegações, postos emissores no alto de montanhas, ou em carros de exteriores que, em qualquer caso, também tinham de se deslocar. Eram outras realidades: a gravar em fita, com menos agilidade, comunicações muito limitadas e uma Internet arcaica, extraordinariamente lenta e pouco disponível. A verdade é que, mesmo já com os canais 24h, as coisas se faziam. A informação fluía, as fontes funcionavam e nós, jornalistas, corríamos desalmadamente, mas por motivos e, por vezes, motivações diferentes.

Hoje, com toda a tecnologia a favor, é importante que a corrida continue a fazer-se – faz parte da arte – mas sempre e quando faça sentido. Mas a sensação, e às vezes não é só sensação (é que o passo acelerado não está a embalar-nos rumo a um jornalismo) imagem e som mais capazes; antes, caminhamos para uma televisão que busca o imediatismo, “come” etapas e releva, cada vez menos, a reportagem e a “respiração”.

Nos tempos que correm, em que a Internet coloca o mundo nas mãos do comum – com tudo o que isso tem de bom e de mau –, o jornalismo e os jornalistas reassumem um papel central para o ajudar a compreender, mas, mais importante, para introduzir verdade. O público precisa, hoje mais do que nunca, de verdadeiros filtros para a verdade, que só podem ser garantidos por um jornalismo sério, credível e por verdadeiros órgãos de comunicação social. Nada disto é incompatível com um ritmo cada vez mais frenético, imposto, quer pelas novas tecnologias e plataformas, quer pela própria concorrência.

Agora, se o desafio é fazer rápido, chegar mais depressa para dar primeiro, aí sim pode perder-se o foco. Não acredito que esteja a perder-se, ou vá perder-se, a essência ou o rigor, mas pode subvalorizar-se a plástica, a beleza a reportagem. E, em rigor, tudo é reportagem. Em tudo pode e deve fazer-se reportagem.

Sermos jornalistas é termos uma profissão/paixão que nos permite participar na história, estar onde e quando tudo acontece, com a grande responsabilidade de o transmitirmos ao grande público. Não há eventos menores e todos fazem parte da história porque, de uma ou outra forma, todos interessam a alguém e isso merece todo o respeito e dedicação na hora de recolher informação, construir a matéria e entregá-la aos destinatários.

Seja uma guerra, um grande evento desportivo, umas eleições, uma catástrofe, uma peça de agricultura ou do calor, tudo tem a mesma importância. A boa peça é a de hoje, porque o que verdadeiramente interessa são os destinatários. Por isso faça-se de cada peça a melhor das reportagens.

Corro - sempre - atrás de uma boa notícia e prefiro não chegar atrasado a lado nenhum. Faz parte.

Ainda assim, considero ser importante não perder de vista que, em televisão, trabalhamos com imagem e som e isso jamais pode ser colocado em segundo plano. Há que perder o tempo necessário e entregar-lhes todo o valor. O jornalista fará sempre o seu trabalho na produção, pesquisa, liderança, texto e colaboração, mas, atenção: televisão é imagem e som, nunca nos esqueçamos disso.

É possível, e desejável, que a reportagem aconteça em todos os lugares e momentos, mesmo naqueles de mais difícil filtragem. Só assim conseguimos fazer um jornalismo de verdade que nos aproxime das pessoas.

Mesmo num incêndio é possível fazer reportagem. Se as câmaras captam, além de imagem, todo o som do momento, então deixemos que os repórteres de imagem sejam isso mesmo: repórteres. Deixemos que as câmaras façam o seu trabalho e captem as imagens e agarrem os sons dos momentos para que estes se possam mostrar livremente. Transmitam os ambientes dos lugares onde estivemos e que pretendemos mostrar e reportar.

É possível, e desejável, que a reportagem aconteça em todos os lugares e momentos, mesmo naqueles de mais difícil filtragem. Só assim conseguimos fazer um jornalismo de verdade que nos aproxime das pessoas. E isto não significa mostrar tudo o que mexe, ou estender o microfone só porque sim. Quer dizer que, estando o jornalista confortável com o terreno, deve descrevê-lo sem artificialidade e com o maior realismo possível. A reportagem, com som e imagem, bem feita permite-o. Consome um pouco mais de tempo e, no final de contas, até obriga a correr mais.

Esta questão do tempo é, para mim, motivo para reflexão. Sempre que temos tempo para olhar, vemos de forma diferente, e isto, por norma, dá bom resultado. Pressionados, perdemos campo de visão, afunilamos, reportamos menos.

Não há duvidas que cada caso é um caso e, por vezes, a própria atualidade obriga a decisões limite. Dar notícias é isso mesmo. Recordo, como exemplos, a detenção de um ex-primeiro-ministro que ditou meses de diretos em frente ao estabelecimento prisional de Évora, ou a queda de uma pedreira, em Borba, que mobilizou uma operação de diretos e reportagens durante quase um mês. Em qualquer dos casos, assuntos de muita corrida que pontuaram as antenas de todos os canais.

Hoje parece que há mais notícias para dar. Com tanto espaço, e tendo de o preencher, o desafio é dá-las todas o melhor possível. A nós, jornalistas, cabe-nos a tarefa da competência. Fazer mais e melhor, respeitar o recetor e nunca perder o foco.

Este testemunho foi originalmente publicado no Manual de Reportagem REC, organizado por Pedro Coelho, Ana Isabel Reis e Luís Bonixe, e editado pelos Livros Labcom em 2021.

Parceria Setenta e Quatro/REC