Jornalista especialista na Europa de Leste. Passou pelo ExpressoDiário de Notícias e Público, tendo co-fundado este último. Colaborou também com a RTP e foi professor de Comunicação Social no Instituto Politécnico de Tomar. Morreu em Ourém, em 2021, aos 70 anos. 

Ucrânia: crónica de uma crise anunciada

Um ano depois da Rebelião de Maidan, a Ucrânia está divida, em guerra e o seu futuro é uma incógnita. A Ucrânia é o ponto mais crítico na disputa entre uma NATO em expansão para leste e os esforços de Moscovo para reafirmar a sua influência no espaço da defunta União Soviética.

Ensaio
2 Junho 2022

[Este artigo foi originalmente publicado na Revista de Ciências Militares, em novembro de 2014. Foi agora incluído no recém-publicado livro Do Solidariedade ao Afeganistão - Quatro Décadas de Vida de Repórter, compêndio de artigos de política internacional do falecido jornalista Carlos Santos Pereira, publicado pela editora Colibri]

 

A praça central de Kiev transformada em trincheira da revolução, a festa, o medo e o sangue a tomarem conta das ruas, o nervosismo crescente em Moscovo e nas capitais do Ocidente…

As imagens da Maidan Nejaleznosti, a Praça da Independência, naqueles dias de novembro e dezembro de 2013 evocavam jornadas épicas da História recente da Ucrânia. A marcha dos estudantes que precipitara a independência ucraniana, 23 anos antes. A “Revolução Laranja” de 2004 que arrancaria das mãos de Viktor Ianukovitch o poder usurpado em eleições viciadas...

A insurreição contra o regime de Ianukovitch, regressado entretanto ao poder nas eleições de 2010, em breve mergulharia a Ucrânia na violência e mobilizava as atenções do mundo, assumindo proporções de uma crise internacional.

Um ano depois, a Ucrânia está dividida e em guerra, o confronto entre as forças de Kiev e os separatistas do Leste fez já mais de 4300 mortos e perto de um milhão de deslocados, o futuro do país é uma incógnita. A crise ucraniana gerou a mais grave crise de sempre nas relações entre a Rússia e o Ocidente desde o colapso da URSS, em 1991 e a “guerra fria” assoma de novo nas primeiras páginas dos jornais e nos discursos políticos.

Analisar o conflito ucraniano representa ainda um desafio. As motivações, os cálculos e objetivos reais dos protagonistas estão em grande medida por esclarecer, o papel real dos países e das entidades internacionais que se envolveram na crise e as manobras nos bastidores de muitos dos momentos cruciais do drama ucraniano estão ainda rodeados de mistério. Trata-se ademais de acontecimentos ainda em plena evolução e pendentes de numerosa incógnitas, e os efeitos da crise são ainda difíceis de avaliar em todas as suas implicações.

Este breve estudo propõe-se ensaiar uma reconstituição dos acontecimentos do último ano na Ucrânia, procurando colmatar muitas omissões dos media e silêncios dos atores políticos. E ao mesmo tempo analisá-los à luz de momentos cruciais da História ucraniana e das sucessivas convulsões políticas vividas pelo país desde a independência, em 1991, esperando, assim, contribuir para esclarecer as questões de fundo em jogo e avaliar os cálculos dos principais atores da crise.

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Capa do livro Do Solidariedade ao Afeganistão - Quatro Décadas de Vida de Repórter, compêndio de artigos de política internacional do falecido jornalista Carlos Santos Pereira.

A questão ucraniana esteve presente, declarada ou implicitamente, em todos os momentos críticos nas relações entre a Rússia e o Ocidente nas últimas duas décadas e meia, da expansão da NATO a leste à “Revolução Laranja” de 2004, e há muito se adivinhava que era ali, nas disputadas margens do Dniepre, que o confronto se tornaria inevitável.

Os dias da Maidan

Os protestos tinham desta feita uma causa precisa. A braços com uma dívida enorme e com uma classe política desacreditada e minada pela corrupção, a Ucrânia carece de assistência urgente. A União Europeia oferece um acordo comercial e exige em troca duras medidas de austeridade. A Rússia quer que Kiev dê o “sim” a um espaço económico comum e promete assumir parte da dívida ucraniana e descontos generosos no gás natural que fornece ao país. Viktor Ianukovitch hesita. Até que finalmente a 21 de novembro, em vésperas da data aprazada para a assinatura do acordo europeu, anuncia uma decisão: a associação à Europa terá de esperar melhores dias.

Para muitos ucranianos é o virar de costas à Europa, uma traição, a gota de água que faz entornar o copo. Pouco depois, populares começam a concentrar-se na Praça da Independência. Estudantes, artistas, intelectuais, figuras públicas, ativistas da sociedade civil, a classe média em revolta contra o sistema. A multidão engrossa rapidamente. Três dias depois são dezenas de milhares.

Líderes da oposição assumem rapidamente a cabeça dos protestos, figuras da “Revolução Laranja”, como Vitali Klitschko, antigo campeão mundial de pesados, líder do UDAR (Aliança Democrática para as Reformas), Arsenii Iatseniuk, líder parlamentar do Pátria, o segundo maior partido, e Oleh Tiahnibok, do Svoboda (ultradireita nacionalista). Juntam-se-lhes ativistas de movimentos radicais como o Bratstvo (Irmandade) e o Pravy Sektor (Setor de Direita). As reivindicações endurecem. Exige-se a queda do presidente Viktor Ianukovitch. Clama-se pela libertação de Iulia Timochenko, heroína da Revolução Laranja, detida desde 2011 por corrupção.

Na madrugada de 30 de novembro uma carga policial faz dezenas de feridos. É um ponto de viragem. As imagens televisivas aumentaram a cólera dos ucranianos. A 1 e a 8 de dezembro concentram-se na Maidan 150 a 300 mil pessoas.

Os protestos assumem proporções de insurreição. Maidan transforma- se em trincheira defendida em permanência por milhares de manifestantes face ao cerco da Berkut, a temida polícia de choque. O município de Kiev é tomado de assalto. Multiplicam-se os confrontos. Jovens militantes radicais organizam patrulhas e turnos de segurança nas barricadas da Maidan. A 31 de janeiro registam-se os primeiros mortos. Seguem-se semanas de grande tensão, entre assaltos noturnos da polícia repelidos pelos manifestantes, tréguas fugazes e inconsequentes tentativas de negociação.

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Protesto em Kharkiv, durante a "Revolução Laranja", 2004.
Protesto em Kharkiv, durante a "Revolução Laranja", 2007

A 18 de fevereiro eclodem violentos confrontos. A Praça da Independência transforma-se num campo de batalha. Oitenta e oito mortos em 48 horas. Líderes dos protestos acusam unidades da polícia sob as ordens diretas do antigo presidente. Há um coro de indignação e de condenações de todo o mundo.

Negociações de urgência mediadas pelos ministros dos Negócios Estrangeiros da França, Alemanha e Polónia e pela alta-representante da UE e apoiadas por Moscovo e Washington conseguem um acordo entre o regime e a oposição. É anunciada uma reforma constitucional e convocadas eleições presidenciais. A ordem parece por um momento restabelecida.

Subitamente a violência rebenta de novo. Grupos radicais atacam a polícia (Guardian, 5 de março de 2014). Na madrugada seguinte Viktor Ianukovitch desaparece. Ouvem-se “Hurras!” em Maidan. Os centros do poder são tomados pelos manifestantes. A 22 de fevereiro o Parlamento de Kiev depõe o presidente em fuga. Iulia Timochenko é libertada e dirige-se aos manifestantes na Maidan. Moscovo denuncia o putsch e dá sinais de irritação, Estados Unidos e Europa não têm qualquer reação em defesa do acordo que tinham apadrinhado. A 27 de fevereiro um novo governo é aclamado pela multidão. Arseni Iatseniuk é o novo primeiro-ministro. Oleksander Turhinov assume a presidência interina. O Svoboda tem cinco postos ministeriais. O líder do Pravy Sektor é nomeado vice-chefe da segurança nacional.

A identidade ucraniana

A crise da Ucrânia remete em última análise para um processo de afirmação de uma identidade e de um espaço político coerente num terreno de grande complexidade étnica, cultural e religiosa.

As convulsões ucranianas remontam a meados do século XIII, quando as invasões tártaras destruíram a Rus de Kiev, que reuniu a partir do século séc. IX as tribos eslavas orientais, empurrando mais para norte o que restava dos principados eslavos.

O espaço que conhecemos hoje como Ucrânia ("Okraina" significa fronteira) tornou-se desde então uma zona de fronteira e de disputa. Parcialmente dominado por lituanos e os polacos, entre os séculos XIV e XVI, conquistado pelos cossacos, no século XVII a maior parte do espaço ucraniano seria depois integrado no emergente império russo. A região a oeste do Dniepre manteve-se na posse dos polacos, sendo depois, com a segunda partilha da Polónia, no final do século XVIII, dividida entre a Rússia e a Áustria. Uma das heranças dessas convulsões é a clivagem cultural e política entre um Oeste católico e orientado para o Ocidente e um Leste que responde a Moscovo, que marcará doravante toda a História política ucraniana.

A ideia de uma identidade ucraniana afirma-se ao longo do século XIX e início do século XX, ao sabor do fervilhar de paixões nacionalistas que percorre a Europa dos impérios. O romantismo redescobre a língua, a cultura e o folclore ucranianos. Os historiadores (Volodimir Antonovych, Myhailo Hrushevski) entram em liça e procuram afirmar a especificidade e a continuidade de uma história ucraniana, combatendo a perspetiva de Moscovo que vê na Rus de Kiev o berço da sua história e da sua civilização.

O conceito de uma Ucrânia como entidade política autónoma surge pela primeira vez no início do século XX. A revolução de 1917, a guerra civil e o caos instalado com o colapso do império e a tomada do poder pelos bolcheviques que se seguiu empurraram os ucranianos, como outros povos do império, para a construção de um Estado próprio. Em 1917 é constituída a República Popular da Ucrânia. As elites não estavam, porém, preparadas, nem havia uma base popular ou uma cidadania apostada em defender o seu Estado. A Ucrânia mergulha no caos político e social entre numa miríade de partidos, e exércitos em luta pelo poder, rebeliões camponesas e a fome. Os bolcheviques acabaram por se impor e restabelecer o controlo central.

A questão ucraniana esteve presente em todos os momentos críticos nas relações entre a Rússia e o Ocidente nos últimos 25 anos e há muito se adivinhava que era ali, nas disputadas margens do Dniepre, que o confronto se tornaria inevitável.

O domínio soviético teve efeitos devastadores para os ucranianos: enormes perdas populacionais nas grandes fomes de 1932-33, milhões de mortos, exilados ou presos durante o terror estalinista nos anos 30 e 40 e na II Guerra, o dizimar das elites e da intelligenstia nas décadas seguintes.

Nas regiões ocidentais da Galícia e da Volínia o ataque de Hitler à URSS em 1941 é encarado como uma oportunidade pelas alas mais radicais de movimentos como a Organização dos Nacionalistas Ucranianos, a OUN-B de Stepan Bandera, que combateu ao lado dos alemães e se entregou a campanhas de limpeza étnica – um período que deixou profundos ressentimentos e que continua hoje a dividir os ucranianos.

Definitivamente integrada na URSS no final da guerra, a Ucrânia veria o seu desenvolvimento político, económico e cultural condicionado pelas estruturas totalitárias e pelo controlo de Moscovo e por vagas de repressão, como a que nos anos 1960 esmagou o movimento dissidente ucraniano.

O período soviético é ao mesmo tempo marcado pelo desenvolvimento, pela industrialização, urbanização num espaço antes fundamentalmente rural, pela emergência de uma classe política ucraniana e de uma estrutura burocrática e administrativa. A criação de um espaço territorialmente delimitado e simbolicamente soberano chamado a República Socialista Soviética da Ucrânia teria um papel crucial na afirmação futura de um Estado ucraniano.

Da independência à “Revolução Laranja”

“No século XX os nacionalistas ucranianos tentaram duas vezes fazer o seu próprio Estado: em 1917-1921 e em 1941-45” – recorda Alexander Motyl. “Vão finalmente conseguir o seu objetivo à terceira”, em 1989-91 “fundamentalmente porque desta feita as condições externas eram as certas”. Mais do que conquistada, “a independência foi oferecida aos nacionalistas ucranianos”.

O processo é em grande medida um produto da perestroika e do desmantelamento do sistema soviético. O Rukh (Movimento Popular para a Reestruturação), movimento que terá papel fulcral na marcha para a independência, nasce a 8 de setembro de 1989, é concebido originalmente como clube de apoio à perestroika.

Em março de 1990, a oposição conquista um terço dos novos lugares parlamentares nas eleições para o Soviete Supremo da República. A 16 de junho de 1990, o Parlamento ucraniano aprovou a declaração de soberania da Ucrânia. A iniciativa política estava já claramente nas mãos da oposição e o Partido Comunista está dividido e parte (os chamados “comunistas-soberanistas”) adere e procura mesmo liderar o processo.

Se na parte ocidental da Ucrânia as tendências nacionalistas se mantêm muito vivas, para a maior parte dos ucranianos são fundamentalmente razões de ordem socioeconómica o motor da independência. Na altura 45 a 50 por cento dos 11 milhões de russos da Ucrânia são favoráveis à independência.

O golpe de 21 de agosto em Moscovo veio precipitar tudo. A 24, o Parlamento de Kiev aprova uma declaração de independência. Três meses depois, o referendo de 1 de dezembro, consuma o ato final no drama da independência ucraniana. Com uma votação de 84 por cento, a proposta recebeu apoio em todo o país, mesmo nos oblast (distritos) fortemente russificados do Leste.

Em janeiro de 1994, Kravtchuk, Ieltsin e Clinton assinam o memorandum de Budapeste: a Ucrânia abdica do seu armamento nuclear em troca das promessas dos três países de respeitar a soberania e integridade da Ucrânia.

Era o consumar de um sonho ainda há pouco impensável para a maioria dos ucranianos. “Séculos de pequeno-russismo enfraqueceram a consciência que a nação tem dela mesma. No referendo de 1991, ela votou menos pela Ucrânia do que contra Moscovo”.

A independência punha um enorme desafio à Ucrânia. A consolidação de um quadro institucional e político coerente, o amadurecimento de uma sociedade civil, as reformas económicas e a afirmação da Ucrânia independente no concerto das nações avançam nos anos seguintes (1992-93) sob as lideranças de Kravtchuk e, a partir de 1994, de Leonid Kutchma.

Inicia-se um delicado processo de normalização das relações com a Rússia – partilha da frota do mar Negro, insistência no reconhecimento por Moscovo da soberania e integridade territorial da Ucrânia e resistência prudente aos esquemas reintegracionistas liderados por Moscovo.

Em janeiro de 1994, Kravtchuk, Boris Ieltsin e Bill Clinton assinaram o memorandum de Budapeste: a Ucrânia abdica do seu armamento nuclear em troca das promessas dos três países de respeitar a soberania e integridade da Ucrânia e de compensações financeiras aos ucranianos.

As presidenciais de 2004 mergulham a Ucrânia numa grave crise. A vitória de Viktor Ianukovitch, o candidato do regime, sobre o líder da oposição, Viktor Iuchtchenko, é contestada nas ruas, a Ucrânia entra em ebulição. A “Revolução Laranja” divide o país. O Leste ameaça com a secessão, se os resultados das presidenciais fossem anulados. Por um momento a Ucrânia parece à beira de guerra civil.

A crise provoca um braço de ferro entre a Rússia e o Ocidente. Várias ONG ocidentais assumem um papel importante na rebelião contra Ianukovitch. Moscovo denuncia a mão da CIA e outras agências de intelligence ocidentais na crise e Putin acusa o Ocidente de querer “isolar a Rússia”.

A partir de 2010, o regime Ianukovitch congela a política de aproximação ao Ocidente e reforça os laços com Moscovo.

A mediação europeia desbloqueia um acordo em Kiev. O Supremo Tribunal declarou a eleição nula e convocou nova para 26 de dezembro. Iuchtchenko, um adepto da aproximação ao Ocidente e à NATO, ganha com 52 por cento dos votos e escolhe Timochenko para chefiar o Executivo.

A euforia da “Revolução Laranja” em breve dará lugar ao desencanto. As desavenças entre o presidente Iuchtchenko e a primeira-ministra, Iulia Timochenko, levam à rutura da coligação governamental e à convocação de presidenciais antecipadas para o final de 2009. As relações com o vizinho russo estão uma vez mais no centro da crise. Nas presidenciais Iuchtchenko sofre uma pesada derrota e Viktor Ianukovitch bate Timochenko na segunda volta em fevereiro de 2010.

É uma nova viragem de “180 graus” na política ucraniana. O regime Ianukovitch congelou a política de aproximação ao Ocidente, reforçou os laços com Moscovo e prolongou o arrendamento da base naval de Sebastopol até 2042.

Jogo de sombras

A crise da Maidan assume rapidamente uma dimensão internacional. Catherine Ashton, a subsecretária de Estado Victoria Nuland, deputados europeus e congressistas americanos surgem em Kiev a incentivar a contestação. A 15 de dezembro o senador John McCain encoraja os manifestantes ao lado de Oleh Tiahnibok.

No início de fevereiro vem a lume o famoso “Fuck the EU” de Victoria Nuland. Numa conversa telefónica com o embaixador americano em Kiev, Geoffrey Pyatt, a subsecretária de Estado desvaloriza sem cerimónias os esforços europeus e aconselha o diplomata a montar rapidamente uma coligação antes que Moscovo reaja. Defende a aposta em Arseni Iatseniuk em detrimento de Klitchko. O Governo saído da rebelião da Maidan corresponde no fundamental ao perfil traçado por Victoria Nuland.

Celebrada pelos media ocidentais como uma genuína revolta popular contra um regime opressor e em prol do anseio europeu, a rebelião da Maidan é um processo complexo. Testemunhos diversos observaram que as manifestações da Praça da Independência estavam desde o início claramente bem preparadas. A contestação ao regime é desde logo liderada por um “núcleo duro” bem identificado politicamente, envolvendo figuras da era Timochenko, nacionalistas radicais e grupos paramilitares de extrema-direita.

É a cólera perante a corrupção, a desigualdade e a pobreza e a brutalidade da polícia que arrasta muitos ucranianos para a contestação ao regime. É “no coração uma revolta tanto contra o Governo como contra a oposição”. Nada permite, porém, concluir que os chefes da oposição e em particular os nacionalistas radicais que assumem a liderança da Maidan representem de facto o sentir e os anseios da população.

Aclamado o Governo de Iatseniuk, as prometidas reformas políticas e constitucionais seriam rapidamente esquecidas. Maidan resultou num governo “fortemente influenciado por políticos que têm um longo percurso de serviços em administrações anteriores e largamente desacreditadas”.

É “no coração uma revolta tanto contra o Governo como contra a oposição”. Nada permite concluir que os chefes da oposição e os nacionalistas radicais que assumem a liderança da Maidan os anseios da população.

O papel da extrema-direita nacionalista na rebelião de Maidan e em geral na cena política ucraniana é tema de acesa polémica. Com matizes diversos, estes grupos têm em comum a herança, assumida mais ou menos abertamente, das tendências nacionalistas agrupadas na Ucrânia Ocidental e com raízes na II Guerra, bem como a ideia de uma Ucrânia etnicamente purificada e o antissemitismo, mesmo se Tiahnibok e outras figuras do nacionalismo radical procuram agora moderar a sua imagem política.

“A luta contra as pretensões imperiais de Moscovo leva ao autoritarismo e favorece o conservadorismo na Ucrânia” – advertia depois da independência o historiador Leonid Pliuchtch. “À margem do nosso regime atual ela reforça a oposição extremista, populista e chauvinista, agrava a ameaça de guerra civil e novas formas de ditadura.”

O Svoboda e outros grupos radicais servem de instrumento de propaganda a Moscovo para denunciar o carácter “extremista” e as simpatias “pró-nazis” presentes no novo regime de Kiev, enquanto os média e os meios oficiais no Ocidente preferem ignorar a questão.

A questão das mortes de 20 de fevereiro nunca foi esclarecido e os apelos a um inquérito internacional são rapidamente ignorados. A 5 de março vem a público nas redes sociais uma conversa telefónica que o ministro dos Negócios Estrangeiros estónio, Urmas Paet, dá conta à alta-representante europeia de suspeitas de que os disparos que fizeram 20 mortos terão vindo não da polícia mas de snipers do núcleo duro.

Washington, as capitais europeias e a maioria dos media ocidentais mantêm silêncio sobre essa dimensão da crise ucraniana…

Da Crimeia a Donetsk

A 15 de dezembro, enquanto centenas de milhares enchem a Maidan, perto dali, no Parque Marinski, manifestantes pró-governamentais protestam contra o projeto de associação com a UE, contra a concorrência europeia na indústria ucraniana e a ameaça do desemprego. Por um momento teme-se o pior…

A crise polariza já o país. “As tensões entre o Leste e o Ocidente estão profundamente enraizadas na identidade nacional Ucrânia” – alerta o historiador Orlando Figes. “Os ucranianos mais preocupados com o futuro do seu país fariam bem em reconhecer essa fragilidade inerente.”

Em Lviv, epicentro do nacionalismo ucraniano, Ivano-Frankivsk, e Ujgorod e noutras cidades da Ucrânia Ocidental, manifestantes tomam de assalto edifícios dos governos regionais. Em Janeiro ouvem-se na Rada (Assembleia) de Lviv apelos à independência Ucrânia Ocidental.

Os sinais de agitação entre as populações que se identificam como russas no Leste e em particular na Crimeia multiplicam-se a partir de fevereiro e acentuam-se em março.

A Crimeia é um caso muito particular. Sucessivamente absorvida pelas jurisdições otomana, russa e ucraniana, a península tem um lugar muito especial no imaginário russo desde que Catarina, a Grande, conquistou a península ao Império Otomano no século XVIII. Krutchov decidiu, em 1956, integrá-la na Ucrânia, mas a memória e a identidade russa mantiveram-se muito marcadas. A questão da Crimeia, em particular os diferendos sobre a frota do mar Negro e o porto de Sebastopol, esteve presente em momentos críticos das relações russo-ucranianas.

A 27 e 28 de fevereiro, horas antes de Iatseniuk ser designado primeiro-ministro, grupos armados ocupam edifícios-chave em Simferopol e erguem a bandeira russa. Geram-se confrontos.

A 1 de março, o parlamento de Moscovo aprova o pedido do presidente Putin de usar a força na Ucrânia para “proteger a minoria étnica russa”. Três dias depois o Presidente russo quebra o silêncio e vem a público protestar que se trata de “forças de autodefesa” e não de forças russas e acusar o Ocidente e “agentes estrangeiros” de estarem por detrás do caos na Ucrânia.

“As tensões entre o Leste e o Ocidente estão profundamente enraizadas na identidade nacional Ucrânia” – alerta o historiador Orlando Figes. “Os ucranianos mais preocupados com o futuro do seu país fariam bem em reconhecer essa fragilidade inerente.”

A 6, o Parlamento da Crimeia vota a união com a Rússia e convoca um referendo para o dia 16. As forças russas cercam as unidades militares ucranianas, controlam as vias de comunicação, bloqueiam as saídas dos portos e detêm o comandante da esquadra ucraniana, manietando rapidamente qualquer capacidade de reação das forças ucranianas.

Cresce o alarme internacional. O Governo de Kiev, Washington e Bruxelas acusam Moscovo de invadir a Ucrânia. Tiahnibok fala em “guerra” com a Rússia. Barack Obama exige a Putin o regresso das forças russas às suas bases e ameaça com sanções.

O referendo de 16 de março regista, segundo as autoridades da Crimeia, uma participação de 83,1 por cento e 96,77 por cento de “sins”. Dois dias depois Vladimir Putin defende energicamente a anexação da península numa intervenção perante o Parlamento russo com base em argumentos históricos, políticos e jurídicos e assina o decreto da integração da Crimeia na Federação Russa.

A rebelião da Crimeia contagia já outras regiões de forte população russa no Sul e no Leste. Em Donetsk líderes separatistas propõem-se assumir o controlo das Forças Armadas e de segurança no distrito.

À questão nacional juntam-se razões de ordem social e económica. É para a Rússia que vai grande parte da produção da região e muitos temem a competição do Ocidente e receiam pelos seus postos de trabalho. O novo Governo de Kiev não dá qualquer resposta a questões como o estatuto da língua russa, o medo do extremismo político e a corrupção, oferecendo aos rebeldes a oportunidade de explorar os receios de muitos.

A situação resvala rapidamente para a violência. A 14 de março confrontos entre jovens pró-russos e nacionalistas ucranianos em Kharkiv fazem dois mortos. O lado russo acusa os Patriotas da Ucrânia, um grupo de extrema-direita, os ucranianos dizem que é a Rússia que está a provocar deliberadamente os incidentes.

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Protestos na Euromaidan, em Kiev. Fevereiro de 2014.

Semanas depois confrontos em Odessa fazem 42 mortos. Os média oficiais russos dão largo destaque aos incidentes e o Ministério dos Negócios Estrangeiros de Moscovo emite declarações, repetindo que a Rússia tem o direito de agir para proteger as populações russas.

A 7 de abril manifestantes pró-russos ocupam edifícios governamentais nas cidades de Donetsk, Luhansk e Kharkiv e em mais de uma dezena de cidades e vilas e apelam a um referendo sobre a independência. Quatro dias depois Iatseniuk oferece maior autonomia às regiões do Leste, mas o processo é já imparável.

No início de maio, numa aparente viragem na atitude de Moscovo, Vladimir Putin apela ao diálogo e ao adiamento do referendo. O apelo é ignorado.

Os separatistas reivindicam mais de 90 por cento de votos a favor no referendo de 11 de maio e dois dias depois proclamam a independência e reclamam a integração na Federação Russa. O Kremlin toma nota da elevada percentagem de “sins” e diz esperar que os resultados do referendo sejam levados à prática de forma “civilizada”, mas não dá resposta ao pedido de integração dos separatistas.

Os cálculos de Putin

A realidade de uma Ucrânia independente sempre foi dura de engolir em Moscovo. Por razões de ordem estratégica, de segurança e económicas e ainda por motivos emocionais e de identidade. É assim, em última análise, em torno da Ucrânia que se vai travar o confronto entre o Ocidente e uma Rússia ressurgente, sobretudo a partir do início da expansão da NATO a leste no final dos anos 1990. Há muito que se sabia que a Ucrânia representava uma “linha vermelha” para Moscovo.

O projetado acordo de associação com a UE que esteve no início da crise ucraniana surge no quadro da “Parceria Oriental”, uma iniciativa dirigida a seis antigas repúblicas soviéticas adotada pela UE em maio de 2009, meses depois do conflito da Geórgia e da opção de Kiev pela neutralidade. A iniciativa europeia coincidia ao mesmo tempo com o lançamento da “União Eurasiática”, uma iniciativa de Moscovo destinada a reunir num espaço económico comum várias repúblicas da ex-URSS. O acordo de associação proposto à Ucrânia excluía nas condições propostas por Bruxelas qualquer acordo com a Rússia.

Ianukovitch procura ganhar tempo, manobrar entre os dois tabuleiros e negociar o dote oferecido pelos dois lados e calar as vozes críticas em Kiev. Propõe, com o apoio de Moscovo, negociações a três entre a Ucrânia, a Rússia e a UE, mas a sugestão é despachada por Carl Bildt com um seco: “Mas o que é que há para falar?”

A Ucrânia vê-se assim apanhada no fogo cruzado da pressão ocidental, protagonizada pela NATO e agora pela União Europeia, e as alegadas ambições de Putin de reconstituir parte do espaço da antiga URSS.

A Ucrânia vê-se assim apanhada no fogo cruzado da pressão ocidental, protagonizada pela NATO e agora pela União Europeia, e as alegadas ambições de Putin de reconstituir parte do espaço da antiga URSS e obrigada a uma escolha que Kiev tentou sempre evitar. Durante muito tempo Moscovo mantém um intrigante silêncio sobre a crise, enquanto o Ocidente se empenha abertamente na contestação a Ianukovitch. Putin espera provavelmente que o Governo de Iatseniuk depare com forte resistência no país e acabe por se fraturar. Perdida a batalha para manter Kiev na esfera de influência russa, Putin aposta na tentativa de neutralizar a Ucrânia através de negociação política ou procurando minar a autoridade de Kiev com o apoio aos movimentos separatistas no Leste.

A questão da Crimeia vem alterar tudo. Depois da “Revolução Laranja”, Viktor Iuchtchenko anunciou que o acordo da base de Sebastopol (que expira em 2017) não seria renovado. Correm rumores em Moscovo sobre as intenções da NATO quanto à Crimeia.

Estão em jogo as vantagens estratégicas de que a Rússia dispõe na Crimeia. Numa declaração de política externa, a 3 de julho, Putin disse que o Ocidente não dera à Rússia alternativa à anexação da Crimeia, já que a NATO se preparava para mover rapidamente forças para Sebastopol e mudar radicalmente a balança de poder na região, privando a Rússia “de tudo por que tinham lutado desde os tempos de Pedro, o Grande”.

O fantasma da NATO

O Ocidente reage fortemente aos acontecimentos na Crimeia e no Leste da Ucrânia. A 12 de março, Barack Obama recebe Arsenii Iatseniuk na Casa Branca e garante-lhe que a América estará ao lado da Ucrânia. Nas capitais do Ocidente denuncia-se a ocupação da Crimeia como uma “usurpação” e exige-se a retirada das forças russas concentradas na fronteira com a Ucrânia.

A arma das sanções entra em liça. A 6 de março é cancelada a cimeira seguinte do G8 em Sotchi e a Rússia é excluída do “clube”. Dez dias depois os EUA e a União Europeia proíbem a entrada nos seus territórios e congelam os bens de vários responsáveis da Rússia em reação ao referendo na Crimeia e ameaçam Moscovo com novas sanções.

Os mais impacientes protestam que as sanções são meramente simbólicas. Mas a estratégia de conter a Rússia através de sanções revela desde logo problemas e divide os aliados por razões políticas e sobretudo económicas. Há laços estreitos de ordem financeira em sectores como a energia em jogo, a Europa depende do gás russo.

A questão da NATO está uma vez mais presente. É o próprio secretário-geral da NATO, Anders Fogh Rasmussen, a assumi-lo, ao declarar que o abortado pacto com a Ucrânia teria sido “um grande avanço para a segurança euro-atlântica”.

Em janeiro de 2008, na sequência da “Revolução Laranja”, o Governo Timochenko formalizou a candidatura da Ucrânia à NATO com o vivo apoio do presidente George W. Bush – uma iniciativa que deparou com resistências no país, sobretudo por parte de uma opinião pública maioritariamente hostil à integração.

A aproximação da Ucrânia à NATO foi travada pela guerra russo-georgiana da primavera de 2008 e a plataforma de não alinhamento adotada por Viktor Ianukovitch. A 3 de junho de 2010, o Parlamento de Kiev rejeitou o plano de integração na NATO. Mas a questão manteve-se como um fantasma…

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O presidente norte-americano George W. Bush e o presidente ucraniano Viktor Yushchenko em Kiev, em 2008.

A 1 de março, em vésperas do referendo na Crimeia, a Aliança Atlântica anuncia patrulhas aéreas regulares a partir de bases na Polónia e Roménia para monitorar a crise ucraniana. Um mês depois os ministros dos Negócios Estrangeiros da NATO reunidos em Bruxelas suspendem a cooperação civil e militar com a Rússia.

A Polónia e os Estados do Báltico multiplicam alarmes quanto às intenções da Rússia e exercem forte pressão dentro da NATO. Numa visita à Polónia, antes de um encontro com líderes da NATO em Bruxelas para discutir a crise da Ucrânia, a 26 de março, Barack Obama reafirma “o compromisso [dos EUA] com a segurança dos [seus] aliados na Europa Central e do Leste”.

A NATO anuncia o reforço dos níveis de prontidão das suas forças, a intensificação dos exercícios conjuntos e um plano de ação (o RAP – Readiness Action Plan) destinado a aumentar a rapidez de reação das forças da Aliança face a uma crise na Europa ou noutro ponto.

A “viragem” de Sloviansk

A 13 de abril o Governo de Kiev lança uma operação contra Sloviansk, um importante eixo rodoviário e ferroviário e primeiro grande bastião dos separatistas. A ofensiva ucraniana em breve perde fôlego. As forças governamentais conquistam e abandonam sucessivamente vários pontos de controlo em torno de Sloviansk, deixando pesadas baixas no terreno.

As Forças Armadas e as forças de segurança ucranianas foram completamente remodeladas por Ianukovitch e os adidos militares das embaixadas ocidentais em Kiev que aconselham o comando militar ucraniano suspeitam que as forças ucranianas estão infiltradas por agentes com simpatias pró-Moscovo (ICG, 2014). Muitos oficiais hesitam e parecem não saber exatamente a quem devem obediência.

O ministro da Defesa demite-se, oficiais destacados nas zonas críticas do Sudeste queixam-se publicamente de não receberem orientações do governo central. Muitos acabaram por se passar para os rebeldes. Os Serviços de Segurança do Estado (SBU) queixam-se de falta de cooperação da polícia nas cidades do Leste. Face à concentração das tropas russas na fronteira, muitos optam por esperar para ver para que lado se inclina a “balança”.

A eleição de Petro Poroshenko, um oligarca com um percurso político sinuoso, mas que aderiu desde o início a Maidan, a 25 de maio, veio colocar a crise ucraniana noutro plano. Prontamente aplaudida por Washington, a eleição do novo Presidente estabiliza a situação política e confere legitimidade às decisões do Governo de Iatseniuk.

Poroshenko apresenta-se como um pragmático e propõe-se dialogar com Moscovo. Mostra-se porém implacável na questão do Leste e garante que a “operação antiterrorismo” não “deve nem pode durar dois ou três meses”, mas sim “horas”. Dois dias depois o Exército ucraniano lança um assalto para desalojar os separatistas do estratégico aeroporto de Donetsk e inflige dezenas de baixas aos rebeldes.

Milícias e batalhões de voluntários de veteranos de Maidan são a espinha dorsal da recém-constituída Guarda Nacional Ucraniana e cabe-lhes o fundamental do esforço de guerra ucraniano.

As forças ucranianas são remodeladas. Milícias e batalhões de voluntários de veteranos de Maidan são a espinha dorsal da recém-constituída Guarda Nacional Ucraniana e cabe-lhes o fundamental do esforço de guerra ucraniano. Numa entrevista a uma cadeia de televisão russa a 26 de abril o chefe da diplomacia de Moscovo, Serguei Lavrov, observa que a remodelação e o novo vigor da ofensiva ucraniana surgem depois das visitas secretas a Kiev do diretor da CIA, John Brennan, e do vice-presidente Joe Biden e garante que a CIA está a operar em força na Ucrânia. A situação militar altera-se rapidamente. A 13 de junho tropas de Kiev recuperam a cidade portuária de Mariupol numa ação conduzida pelo Batalhão Azov. A 5 de junho os separatistas pró-russos abandonam Sloviansk e recuam para os redutos de Donetsk e Luhansk. É o primeiro grande bastião separatista a cair. Poroshenko fala de um “ponto de viragem”.

Ao mesmo tempo, multiplicam-se sinais de divisões entre os rebeldes. Nos sites separatistas surgem queixas de que Putin os abandonou e traiu.

Os separatistas, que de início foram um instrumento, tornam-se agora um problema para Moscovo.36 A Rússia parece hesitar. De início Putin recusou-se a aceitar as eleições presidenciais ucranianas, mas, uma vez eleito Poroshenko, fez saber que respeitaria a “expressão da vontade do povo ucraniano”. A 25 de junho, em pleno assalto a Sloviansk, o Parlamento russo cancela uma resolução parlamentar autorizando o uso de forças russas na Ucrânia.

Gorada uma tentativa de cessar-fogo no início de julho, Putin criticou a ação militar ucraniana, mas deixou aberta a hipótese de um compromisso. Um cessar-fogo prolongado e “negociações substanciais” entre Kiev e os rebeldes ofereceriam a Moscovo um meio de pressão sobre Kiev, que permitiria manter os nacionalistas russos sob controlo e ao mesmo tempo marginalizar o papel dos Estados Unidos.

“Toque de despertar”

A 17 de julho, um avião da Malaysian Airlines cai em território rebelde perto da fronteira russa, há 298 mortos. Fala-se de imediato de um míssil SA-11 disparado pelos rebeldes e fornecido pela Rússia. O Governo de Kiev e os separatistas acusam-se mutuamente de serem os responsáveis pela tragédia e de dificultarem o acesso dos peritos internacionais aos destroços do MH 17.

O incidente desencadeia uma intensa batalha de propaganda. Nas redes sociais circulam gravações de conversas entre os rebeldes em que se reconhece o derrube do avião. Em Moscovo garante-se que o MH 17, o avião, fez uma misteriosa alteração de rota que o levou a sobrevoar a zona onde os rebeldes haviam derrubado vários aviões militares ucranianos nas semanas anteriores. Fala-se de baterias de mísseis antiaéreos BUK M1 SAM que o Exército ucraniano teria deslocado dias antes para a área. Especula-se que pelo menos um SU 25 ucraniano teria acompanhado de perto o MH 17 e que o cockpit do MH 17 tinha marcas de projéteis disparados por um caça…

A polémica em breve perderia fôlego. Absorvido o choque inicial, nos meios oficiais faz-se um intrigante silêncio sobre o assunto. Os discursos dos políticos e as notícias dos media ocidentais evitam acusar formalmente a Rússia, mas o tom das notícias não deixa dúvidas: o MH 17 foi abatido pelos separatistas com a cumplicidade de Moscovo.

Uma jornalista russa descreveu o derrube do MH 17 como um “Lockerbie russo”. É um ponto de viragem na crise ucraniana. Barack Obama diz que o acidente deve constituir um “toque de despertar” para a Europa sobre Putin. Washington aumenta a pressão e dá sinais de crescente impaciência perante as hesitações dos europeus e exige medidas duras contra Moscovo. A 30 de julho os EUA e a UE anunciam novas sanções contra Moscovo, vetando a exportação de tecnologias sensíveis e atingindo diretamente os setores do petróleo e da defesa russos.

Donetsk e Luhansk são alvo de constantes bombardeamentos por parte das forças ucranianas. Áreas residenciais são pesadamente atingidas. Morrem centenas de civis e centenas de milhares procuram refúgio na Rússia ou noutras regiões da Ucrânia.

Em Kiev, Poroshenko reforça a sua base de poder. O Presidente ucraniano dissolve o Parlamento e convoca eleições para 26 de outubro com o objetivo de expurgar a Rada dos deputados ainda ligados ao regime de Ianukovitch. Nos dias seguintes vai assistir-se a uma verdadeira escalada da ofensiva das forças ucranianas.

Em meados de agosto forças de Kiev apertam o cerco aos dois últimos grandes bastiões separatistas. A 9, Luhansk está totalmente cercada. As forças ucranianas cortam as comunicações por estrada entre as duas cidades e procuram fechar as vias de reabastecimento dos rebeldes a partir da Rússia. Em Luhansk as tropas ucranianas entraram pela primeira vez no perímetro urbano, em Donetsk os combates chegam ao coração da cidade.

A situação dos rebeldes torna-se crítica. O levantamento popular que os separatistas esperavam não acontecera. Prova da situação desesperada, a rebelião separatista sofre a 13 de agosto um duro golpe com a demissão de vários líderes e do comandante Igor Strelkov.

Donetsk e Luhansk são alvo de constantes bombardeamentos por parte das forças ucranianas. Áreas residenciais são pesadamente atingidas. Morrem centenas de civis e centenas de milhares procuram refúgio na Rússia ou noutras regiões da Ucrânia. Num lapso de duas semanas, o número de vítimas do conflito duplica, subindo para 2600 mortos. A situação assume proporções de uma crise humanitária. Em Luhansk, falta água, luz, comunicações e outros bens essenciais.

Moscovo dá sinais crescentes de inquietação e apela a um cessar-fogo imediato. A 21 de agosto ao cabo de quase duas semanas de espera junto à fronteira ucraniana, de desmentidos e contra desmentidos sobre o acordo de Kiev e a colaboração da Cruz Vermelha, uma centena de camiões russos passam a fronteira sem autorização ucraniana.

Kiev clama que a ação russa constitui uma “invasão direta”. Rasmussen emite um comunicado acusando a Rússia de “violação da soberania da Ucrânia”, Bruxelas fala de uma “clara violação das fronteiras”.

Os dilemas de Putin

Na segunda semana de agosto o Exército ucraniano lança uma operação para retomar a Ilovaisk, um ponto crucial para fechar por completo o cerco a Donetsk. Subitamente, quando controlam já parte da cidade, as forças ucranianas são atingidas por uma chuva de granadas de lança-foguetes Grad. Segue- se uma dura batalha urbana. Os ucranianos acabam por retirar com pesadas baixas.

Dias antes o novo “primeiro-ministro” da autoproclamada “República Popular do Donetsk”, Aleksander Zakhartchenko, anunciara publicamente que estavam a receber apoio significativo em material e 1200 homens treinados em território russo. A indiscrição valeu-lhe uma reprimenda do Kremlin e obrigou-o a vir a público esclarecer que se tratava de voluntários.

A frente diplomática ativa-se subitamente. Poroshenko e Putin encontram-se à margem da cimeira da União Alfandegária a 25 de agosto em Minsk. As duas partes continuam a trocar acusações, mas é aprazado novo encontro para 1 de setembro.

Os separatistas abrem entretanto nova frente de guerra. No final de agosto conquistam Novoazovsk, a 20km da fronteira com a Rússia, e abrem caminho até ao mar de Azov e à estrada que liga a cidade portuária de Mariupol à Crimeia, a 20km da cidade. Em pouco mais de uma semana a situação militar inverte-se.

Há fortes reações do Ocidente. Angela Merkel fala num novo reforço das sanções à Rússia. Em Kiev, Poroshenko acusa a Rússia de “agressão direta e aberta” contra a Ucrânia e pede aos Estados Unidos e à Europa ajuda militar urgente e um congelamento de todos os bens russos.

Putin evitou, até onde conseguiu, o envolvimento direto no conflito. O objetivo seria ganhar tempo e negociar com Poroshenko a garantia da não adesão à NATO e a federalização do país. 

Moscovo continua a negar qualquer envolvimento direto nos combates no Leste da Ucrânia, mas os argumentos russos não resistem à evidência dos factos no terreno. No final de agosto Kiev exibe um vídeo mostrando paraquedistas russos capturados perto de Ilovaisk.

Putin evitou, até onde conseguiu, o envolvimento direto no conflito. O objetivo seria ganhar tempo e negociar com Poroshenko um modus vivendi que satisfizesse os interesses básicos de Moscovo – a garantia da não adesão à NATO e a federalização do país. A iminência de um colapso militar dos rebeldes ameaçava deitar tudo a perder.

A reintegração da Crimeia na Rússia valeu-lhe uma cota de popularidade acima dos 80 por cento, mas, para além do isolamento externo, a situação comporta vários riscos no plano doméstico. No final de agosto surgem as primeiras notícias de mortos entre os recrutas russos na Ucrânia e o ambiente na Rússia arrisca-se a mudar. A população russa tem pesadas memórias da morte dos seus filhos no Afeganistão e na Chechénia. E o impacto das sanções económicas do Ocidente vai já gerando algum alarme entre as elites do business em Moscovo.

Fora de controlo

A NATO denuncia em termos duros a intervenção russa. A 26 de agosto, Rasmussen acusa a Rússia de “atacar” a Ucrânia e declara que a NATO vai debater a criação de bases permanentes no Leste da Europa e um plano de apoio à modernização das Forças Armadas ucranianas.

A 1 de setembro a NATO anuncia a criação de uma nova força de reação de 4000 homens com capacidade de se deslocar para a Polónia ou para os Estados do Báltico, em 48 horas, descrita por Rasmussen como uma espécie de “ponta de lança” da presença militar da NATO no Leste.

Kiev procura dramatizar ao máximo a situação. Arseni Iatseniuk repete que o seu país está “em guerra” e que o objetivo de Putin é “tomar toda a Ucrânia”. O ministro da Defesa, Valeri Heletei, diz mesmo que a NATO está a fornecer armas à Ucrânia e que “não se pode excluir no futuro” o restabelecimento do arsenal nuclear ucraniano.

A pressão de Kiev reabre a questão da integração da Ucrânia na NATO. A 29 de agosto Iatseniuk garante que vai fazer tudo para ver o país como membro de pleno direito da Aliança. Rasmussen responde que as portas da NATO continuam abertas e que nenhum Estado alheio “tem poder para vetar” a adesão de um novo membro.

Putin perdeu a batalha para levar a Ucrânia para a União Eurasiática, vendo assim escapar a Moscovo uma peça fundamental nos esforços para reconstruir uma área de forte influência russa no espaço da antiga URSS.

Putin reagiu com um seco “Não se metam com a Rússia” e recordou que o seu país “é uma das maiores potências nucleares” durante um encontro com jovens estudantes em Moscovo e anunciou um reforço do poder de dissuasão nuclear russo. O Kremlin proclama uma revisão da doutrina militar da Federação Russa para responder à “ameaça” da NATO.

A 4 de setembro a cimeira atlântica de Cardiff ratifica as iniciativas militares da NATO e repete que a Aliança “está ao lado da Ucrânia” e reitera as garantias de segurança dadas aos seus membros da Europa Central e do Báltico. Entre os aliados há ainda assim quem considere insuficientes as medidas aprovadas.

A própria Alemanha vê-se submetida a forte pressão. Meses de “diplomacia telefónica” entre Angela Merkel e Vladimir Putin não produziram resultados e entre os aliados fala-se já de um “nível 4” de sanções, incluindo a denúncia dos compromissos assumidos pela NATO perante a Rússia. Bruxelas e Washington anunciam entretanto um novo pacote de sanções contra a Rússia, endurecendo as medidas aprovadas em julho e visando em particular o sistema bancário, o acesso de empresas russas aos mercados financeiros, a exportação de material tecnológico para o sector energético e da defesa.

A 29 de agosto Berlim lança o alerta: a crise no Leste da Ucrânia está a “ficar fora de controlo”.

Trégua sangrenta

A 1 de setembro representantes diplomáticos russos e ucranianos e da OSCE reuniram-se em Minsk. Os dois lados continuam a trocar acusações, mas emitem ao mesmo tempo sinais de compromisso.

Kiev vê-se perante a iminência de uma derrota militar. Um cessar-fogo dá a Poroshenko tempo para consolidar o seu regime e reformar o dispositivo militar ucraniano. Para Putin é uma oportunidade de evitar comprometedoras baixas de tropas russas na Ucrânia e estabilizar as posições dos rebeldes, de pressionar Kiev e de testar a decisão ocidental de impor novas sanções. Dois dias depois os dois presidentes voltam a falar ao telefone. A 5 de setembro é finalmente anunciado um cessar-fogo.

Aprovadas as novas sanções contra a Rússia a 8 de setembro, Bruxelas abre um compasso de espera na entrada em vigor das novas medidas e vários dirigentes europeus insistem no adiamento das sanções até se avaliar o cumprimento do cessar-fogo de 5 de setembro. A política de punição da Rússia é já abertamente contestada em Estrasburgo. Deputados italianos apelaram ao “fim das sanções contra a Rússia”, apontando as dificuldades de muitas empresas italianas.

Ao mesmo tempo que se empenha no cessar-fogo e numa solução política para o problema do Leste da Ucrânia, Poroshenko desloca-se a 18 de setembro a Washington para pedir assistência militar e reclamar um “estatuto especial” que garanta a proteção de facto da NATO. Barack Obama prometeu um reforço da assistência militar americana, mas repetiu que o apoio incluirá apenas equipamento não letal.

Dias depois, numa intervenção perante a Assembleia Geral das Nações Unidas, Barack Obama admite mesmo levantar as sanções à Rússia, se Moscovo optar pela “via da paz e da diplomacia”.

Apesar das violações diárias do cessar-fogo, os 12 pontos do acordo começam a ser cumpridos. A troca de prisioneiros avança rapidamente. A 16 de setembro, o Parlamento ucraniano aprova um decreto que confere um estatuto especial de autonomia às regiões controladas pelas autoproclamadas repúblicas de Donetsk e Luhansk e uma amnistia para os que participaram nos combates. Moscovo aplaude o documento como “um passo na direcção certa”.

O assalto dos separatistas ao aeroporto de Donetsk no início de outubro e os bombardeamentos ucranianos contra a cidade mostram que nenhum dos beligerantes desistiu dos seus objetivos.

O problema político continua, porém, a manter-se. Andrei Purgin, “vice-primeiro ministro” da autoproclamada República Popular do Donetsk, rejeita a autonomia oferecida por Kiev. Entre os rebeldes há quem veja o acordo como uma concessão e nos sites separatistas fala-se de “traição”.

Continua igualmente por resolver a questão territorial. Os separatistas reivindicam a totalidade da área das províncias de Donetsk e Luhansk e Kiev reconhece apenas as áreas controladas de facto pelos separatistas.

A partir do final de setembro os incidentes armados multiplicam-se de novo. Os bombardeamentos regressam a Donestsk, apesar do acordo de retirada das armas pesadas. A 15, os combates fazem pelo menos seis mortos civis em Donetsk. O cessar-fogo está por um fio. Nova reunião de emergência em Minsk tenta pôr termo às violações. Multiplicam-se ao mesmo tempo sinais de divisões internas na Ucrânia. A autonomia concedida às regiões controladas pelos separatistas foi denunciada como “capitulação” por deputados em Kiev. Iulia Timochenko, já em pré-campanha eleitoral, alertou que o Leste da Ucrânia passará a estar controlado “pelo Exército russo” e por “terroristas financiados e apoiados” por Putin.

No Leste da Ucrânia os incidentes armados multiplicam-se. O assalto dos separatistas ao aeroporto de Donetsk no início de outubro e os bombardeamentos ucranianos contra a cidade mostram que nenhum dos beligerantes desistiu dos seus objetivos. Em meados de novembro, oito semanas depois do cessar-fogo de Minsk, as violações contínuas da trégua tinham feito um milhar de mortos.

As eleições promovidas pelos separatistas em Donetsk e Luhansk tornam cada vez mais problemática qualquer hipótese de diálogo entre Kiev e o Leste. No terreno multiplicam-se sinais de que se caminha de facto para um congelamento de posições. Poroshenko disse a 27 de setembro que está a ser edificada uma linha defensiva em volta do território controlado pelos rebeldes. O governador da região de Dnipropetrovsk, a oeste de Donetsk, Boris Filatov, fala de um “cenário Somália”, apontando o risco do aumento do banditismo e de grupos armados na região.

Horizontes carregados

A 16 de setembro o Parlamento de Kiev ratifica o acordo de associação com a União Europeia (AA/DCFTA, na designação oficial), numa cerimónia de grande pompa realizada em simultâneo com a ratificação do documento no Parlamento Europeu.

É o regresso ao ponto zero, ao mesmo acordo que Ianukovitch rejeitara, desencadeando a revolta dos ucranianos – observaram muitos analistas. Na realidade, a situação era agora outra, e o acordo tem hoje um alcance diferente.

As provisões de comércio entre as duas partes são adiadas pelo menos até 2016. A decisão foi tomada na sequência de negociações entre a Comissão Europeia e representantes da Rússia e da Ucrânia e foi visto como uma significativa concessão a Moscovo. Apesar das proclamações solenes em Kiev e Bruxelas o acordo está claramente desvalorizado e oferece uma significativa margem de manobra a Moscovo. A situação não deixa de ilustrar, um ano depois, os equívocos e as incógnitas desta crise ucraniana.

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Assinatura do acordo de associação da Ucrânia com a União Europeia. Créditos: European Council

Putin perdeu a batalha para levar a Ucrânia para a União Eurasiática, vendo assim escapar a Moscovo uma peça fundamental nos esforços para reconstruir uma área de forte influência russa no espaço da antiga URSS. Conservou, em contrapartida, manu militari, a capacidade de manter refém política e militarmente a Ucrânia e de condicionar as suas opções externas, mas com um preço elevado. A Rússia perdeu provavelmente por muito tempo na Ucrânia um aliado com uma história e muitos interesses comuns.

Poroshenko celebrou o acordo de associação com a Europa como “o primeiro passo” para a plena integração da Ucrânia e declarou que se sentia já “um membro de parte inteira da família europeia”. Arrisca-se a alimentar os equívocos sobre o alcance do acordo que se mantêm desde o início da crise e a gerar falsas expectativas na população.

Ao problema do separatismo no Leste junta-se a incerteza política. As legislativas de 26 de outubro e o forte apoio de Washington e de outras capitais ocidentais terão permitido estabilizar para já a cena política em Kiev, mas num quadro eminentemente conjuntural e que deixa de fora largos setores da sociedade ucraniana. Salvaguardada a “opção europeia”, as aspirações que levaram os ucranianos à Maidan há um ano continuam sem resposta.

Uma vez passado o estado de graça da luta contra a Rússia, o líder ucraniano terá pela frente o enorme desafio de estabilizar politicamente a Ucrânia e de impedir que as rivalidades entre as diversas fações que disputam o poder em Kiev entrem de novo em confronto.

Conclusão

Num ensaio de conclusão necessariamente provisória a crise ucraniana inscreve-se na longa disputa entre a implantação da esfera de influência americana e a expansão da NATO a leste e os esforços de Moscovo desde 1993 para reafirmar a esfera de influência da Rússia no espaço da defunta URSS e surge na sequência de episódios como a “Revolução Laranja” ou a guerra russo-georgiana de 2008.

O secretário-geral da NATO emitiu em vésperas da cimeira de Cardiff um novo sinal de apoio à adesão da Geórgia e da Moldávia, dois países que acabam de assinar acordos de associação com a UE e que estão em confronto com Moscovo por causa das regiões separatistas da Transnístria, da Abecásia e da Ossétia. A 20 de novembro, Putin defendeu no Conselho de Segurança da Rússia medidas urgentes para prevenir a ameaça da eclosão de novas “revoluções coloridas”, inclusive na própria Rússia.

A crise da Ucrânia veio de algum modo pôr a nu os equívocos da ordem euro-atlântica no pós-“guerra fria”. Pôs ao mesmo tempo à prova as relações transatlânticas, revelando as diferenças na abordagem da questão entre os dois lados do Atlântico e particularmente a agenda e os interesses específicos da Alemanha nas relações com a Rússia e levou, uma vez mais, a um toque de reunir por parte de Washington. A crispação em torno da Ucrânia teve para já o efeito de neutralizar uma vez mais aquilo que surge como a maior ameaça à ordem do pós-“guerra fria” – a eventualidade de uma aproximação entre a Rússia e a Europa.