Historiador. Professor em Birkbeck, University of London, e investigador no Instituto de História Contemporânea da NOVA-FCSH. Estuda a cultura visual da Guerra Fria, a imagem externa do Estado Novo e a dimensão transnacional do anticolonialismo africano.

Ucrânia: pensar além da Guerra Fria

Com a invasão da Ucrânia, a Guerra Fria voltou a servir de lente privilegiada para interpretar e reagir aos acontecimentos. O problema desta analogia é, além da sua falta de rigor histórico, o modo como recicla acriticamente um imaginário geopolítico em torno das grandes potências e das suas esferas de influência. 

Ensaio
31 Março 2022

Nos últimos anos, vários políticos, comentadores e académicos têm vindo a falar da possibilidade —  ou mesmo da existência —  de uma nova Guerra Fria, sobretudo entre os Estados Unidos da América e a República Popular da China. É uma tese que deriva da noção de que a Guerra Fria se cingiu a uma só hostilidade, assente em interesses económicos ou securitários, entre duas potências que, não se podendo atacar diretamente por ambas terem arsenais nucleares, lutaram por outras vias.

Esta hipótese tem sido contrariada por historiadores cujo trabalho enfatiza a dimensão ideológica da Guerra Fria, como Mario del Pero e Odd Arne Westad. Para eles, o conflito entre os EUA e a União Soviética foi uma disputa à escala global entre duas visões de modernidade que se excluíam mutuamente, e que acabaram por ser apropriadas e reconfiguradas por diversos atores locais. Por contraste, a atual tensão não resulta de uma alternativa universalista ao capitalismo ou ao nacionalismo, mas sim de uma competição dentro desses mesmos sistemas.

No último mês, perante a invasão do território ucraniano por forças militares da Federação Russa, com o objetivo assumido de impor uma mudança de política (ou mesmo de regime), a Guerra Fria voltou a servir de lente privilegiada para interpretar e reagir aos acontecimentos.

O problema desta persistente analogia não é tanto a sua falta de rigor historiográfico, mas sim o modo como recicla acriticamente um imaginário geopolítico em torno das grandes potências e esferas de influência. É um imaginário que urge desnaturalizar. Este tipo de perspetiva não só recria a Guerra Fria no presente como limita o desenvolvimento de outras vias de entendimento e ação.

Criando o imaginário da Guerra Fria

A Guerra Fria foi, antes de mais, uma imaginação do mundo. Não houve nada de automático na doutrina de política externa adotada pela presidência dos EUA após a II Guerra Mundial, que priorizou a “contenção” do comunismo e da União Soviética, entrelaçando competição ideológica e geopolítica. Tomou como base as ideias do diplomata George Kennan, cujas ansiedades e linguagem são desde há muito objeto de fascinante análise por Frank Costigliola, que tem desconstruído o pretenso pragmatismo que lhes foi (e ainda é) atribuído.

Tal como a Guerra Fria era uma metáfora, também o foi a famigerada Cortina de Ferro, ao estabelecer um mapa mental que dividiu rigidamente o continente europeu em dois blocos antagónicos. Esta imagem (popularizada por Winston Churchill em 1946) não traduzia, à partida, uma descrição objetiva da ordem mundial, mas sim uma interpretação que se foi tornando hegemónica. As elites políticas aceitaram tacitamente a imposição de esferas de influência na Europa, exigida por Estaline na Conferência de Ialta, em 1945, naturalizando como ‘realista’ a ideia de países subordinados à defesa das superpotências.

O dogma da Guerra Fria ajuda a explicar os 13 anos de guerra travada em três regiões africanas por Portugal, o país mais pobre da Europa Ocidental. 

Mapas, caricaturas, propaganda e retórica repetida por diplomatas e analistas unificaram processos políticos e militares ocorridos em diferentes cantos do planeta ao longo de quatro décadas e meia – da Coreia ao Irão, da Guatemala ao Afeganistão – sob a égide de uma única guerra. Esta leitura da realidade foi complementada por outras metáforas simplificadoras das relações internacionais, recorrendo-se ao formato de jogos: ‘xadrez geopolítico’, ‘teoria do dominó’.

Também a cultura popular ajudou a imaginar, a reificar e a interiorizar o estado de guerra. Romances de espionagem projetaram a rivalidade em curso. Filmes de ficção científica visualizaram a ameaça de um futuro totalitário ou de um apocalipse nuclear. As indústrias de entretenimento produziram em massa obras onde a Guerra Fria já não parecia uma ideia, mas sim um estado de coisas consolidado.

Nos anos 1970, historiadores como John Lewis Gaddis, explicaram a Guerra Fria como resultado de uma competição racional entre potências com vista à ocupação de vácuos de poder. 

Fizeram-no influenciados pela chamada escola ‘realista’ da disciplina Relações Internacionais (segundo a qual os Estados se movem pela maximização do seu poder no sistema internacional) e sob o pano de fundo da abordagem de Realpolitik apregoada por Henry Kissinger. A possibilidade de uma destruição mútua por via nuclear teria então criado um salutar equilíbrio de forças, que Gaddis designou como ‘A Longa Paz’.

Porém, ainda que surgida e travada na imaginação, nem por isso a Guerra Fria deixou de tomar a forma de drásticas manifestações materiais: da proliferação de armamento e de barreiras literais como o Muro de Berlim, construído em 1961, até conflitos armados localizados, golpes, repressão e vasto impacto socioeconómico, tecnocientífico e ambiental.

Entre os episódios mais marcantes contam-se as incursões militares soviéticas na Hungria (1956) e na Checoslováquia (1968) para esmagar a reforma do socialismo nesses países. É também conhecida a tentativa de derrube do regime cubano através da invasão da Baía dos Porcos, organizada pela CIA em 1961, ou o combate de tropas norte-americanas no Vietname (1961-1973) com o objetivo de travar o alastramento do comunismo nesses países, que supostamente expandiria o poder da URSS.

A ‘longa paz’ é uma interpretação eurocêntrica. O preço mais elevado foi pago pelo chamado Terceiro Mundo, um conjunto de antigas colónias onde se procurou uma alternativa aos dois ‘primeiros’ mundos (os blocos do hemisfério norte), mas que se tornaram no palco privilegiado de disputa. Os processos de descolonização foram condicionados pelas prioridades estratégicas da Europa e dos EUA, que fortaleceram laços entre as potências coloniais e neocoloniais, sustentaram ditaduras e promoveram a implementação violenta de projetos desenvolvimentistas, limitando a emergência de vias alternativas aos modelos herdados do Norte Global.

O dogma geopolítico da Guerra Fria ajuda a explicar, por exemplo, os 13 anos de guerra travada em três regiões africanas pelo país mais pobre da Europa Ocidental. Em nome da estabilidade europeia, a ditadura portuguesa, firmemente inserida no equilíbrio de forças internacional como membro fundador da NATO, assegurou suficiente investimento externo, importação de armamento e cobertura diplomática por parte dos seus principais aliados para prolongar estas guerras.

Por seu turno, os movimentos de libertação conseguiram apoio não só do Bloco de Leste, mas também do Terceiro Mundo, de movimentos transnacionais de solidariedade e até de uns poucos governos ocidentais, procurando contrariar a lógica de Guerra Fria que sustentava o colonialismo. Essa mesma lógica, no entanto, impediu-os de mobilizar boicotes económicos, culturais e desportivos contra Portugal comparáveis ao que assistimos hoje contra a Rússia (e só décadas mais tarde foi possível uma grande campanha de boicotes que ajudou a pôr fim ao apartheid na África do Sul).

Às independências formais seguiram-se guerras civis em Angola e Moçambique, de novo com o envolvimento de forças externas. Além do apoio dado pelas superpotências, participaram diretamente outros atores, incluindo combatentes cubanos (em nome de uma solidariedade revolucionária) e tropas da África do Sul (cujo regime considerava estes territórios necessários ‘Estados-tampão’ para se proteger do comunismo, bem como de uma política de desafio ao domínio da minoria branca).

Recriando o imaginário da Guerra Fria

Embora as condições e circunstâncias sejam hoje muito diferentes desse tempo, o caráter discursivo da Guerra Fria ocupou o espaço público.

Por um lado, alguns sectores da Esquerda colocaram de imediato o ónus central da responsabilidade pela invasão russa da Ucrânia na política dos EUA, NATO e União Europeia. Teriam ‘provocado’ esta reação da Rússia através da inclusão de países vizinhos desta nas alianças militares e político-económicas do chamado Ocidente. Nos comunicados do Partido Comunista Português a defesa do direito internacional faz-se justamente pela evocação repetida dos Acordos de Helsínquia, negociados em 1975 com o objetivo de estabilizar as regras da Guerra Fria na Europa.

Por outro lado, o contraste entre o acolhimento de refugiados ucranianos e as restrições aos restantes expõe, a par do flagrante racismo das autoridades europeias e norte-americanas, a subordinação do humanitarismo à hierarquia de valores políticos. A solidariedade com a população ucraniana é justificada por esta ser vítima, não de uma invasão, mas, especificamente, de um ato de guerra contra a política ocidental. A ligação entre empatia e interesses geoestratégicos é sintetizada em expressões como esta: ‘a Ucrânia é hoje a marca mais avançada do Ocidente e dos seus valores democráticos, a sua fronteira e a sua primeira linha de defesa, que luta e morre por nós.’

A assunção de que todo o Ocidente está em estado de guerra tem-se refletido numa muito preocupante corrida ao armamento, na censura de canais televisivos russos em nome do controlo da informação, na evocação do espectro da ameaça atómica, na reciclagem de estereótipos russófobos racistas e numa resposta à postura do PCP cuja virulência se revestiu, também ela, de naftalina anticomunista.

Percorrendo os títulos da imprensa nacional, a dinâmica revivalista é evidente: “Guerra fria 2.0. Despesa na defesa vai aumentar”, “O regresso do bloco americano”, “A ameaça nuclear está de volta”, “Volta Kennan, estás perdoado!”. O perigo deste tipo de discurso é que, além de evocar, recria o nocivo contexto da Guerra Fria (que já se vai materializando no entrincheiramento e investimento militar).

O contraste entre o acolhimento de refugiados ucranianos e as restrições aos restantes expõe, a par do flagrante racismo das autoridades europeias e norte-americanas, a subordinação do humanitarismo à hierarquia de valores políticos.

A Guerra Fria oferece um repertório familiar, fortemente acentuado ao longo dos últimos anos. A comercialização de nostalgia, porventura aliada ao pânico pela interferência russa em eleições ocidentais, originou uma enorme vaga de produtos revisitando esse contexto histórico: do fenómeno da Netflix O Gâmbito da Rainha até à recente reedição portuguesa de mais um livro de Gaddis (originalmente publicado em 2005) insistindo na necessidade e inevitabilidade da Guerra Fria.

Porém, se para a fação mais conservadora a grelha da Guerra Fria não requer grandes ajustes mentais, para outros implica abdicar de muita da teoria crítica das últimas décadas ao ler a História como movida pelo eixo EUA-Europa Ocidental, reduzindo todos os restantes atores a uma condição meramente reativa (são manipulados ou respondem a ‘provocações’).

E, no entanto, durante a própria Guerra Fria podemos encontrar contestações a esta simples divisão do mundo, desde cedo criticada, parodiada e desmistificada por múltiplos pensadores, jornalistas, artistas e ativistas.

Desde o início dos anos 2000 que muita historiografia tem procurado descentrar as narrativas da Guerra Fria estudando a participação de diferentes atores na suposta periferia. A história tem sido repensada de modo a descartar chaves de leitura tradicionais que reduziam estes atores a meros peões dos jogos das superpotências, analisando agora como diversos grupos e figuras – de Ho Chi Minh no Vietname a Amílcar Cabral na Guiné-Bissau – desafiaram ou instrumentalizaram a Guerra Fria em nome de agendas próprias, cruzando dinâmicas globais e locais.

Abandonar a reprodução do olhar das grandes potências serve para problematizar a própria mundivisão colonialista subjacente a esse olhar. O Estado Novo pintou os independentistas das colónias portuguesas como fantoches soviéticos, mas cada vez mais estudos reconhecem a agência desses movimentos que construíram extensas redes internacionais e transnacionais para alcançar os seus propósitos.

Não é preciso fazer avaliações mais ou menos benévolas das posições políticas do presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, e da sua equipa para reconhecer a mesma capacidade, ou legitimidade, de agir consoante uma vontade autónoma.

O contexto importa, mas a geopolítica não pode ser o único contexto. A busca de razões históricas e estruturais que ajudem a explicar a invasão, remontando ao fim da Guerra Fria e às subsequentes relações (mutuamente hostis) entre governos russos e ocidentais, só serve para uma melhor compreensão do conflito se for articulada com uma análise séria da evolução interna da Rússia e da própria Ucrânia. Ao invés, a caricatura desta última como vácuo moral envolto em corrupção, autoritarismo e violência endémica mais não faz do que espelhar as acusações feitas por outros à Rússia, de resto nos mesmo moldes orientalizantes.

Ao reduzir as opções políticas dos governantes ucranianos a um ingénuo pró-europeísmo e a um belicismo determinado pela NATO, ou advogando a sua subjugação às vontades de Vladimir Putin em nome de um equilíbrio de poderes regional, reproduz-se a antiga visão da Guerra Fria em que tudo resultava de maquinações geopolíticas maiores.

Uma das consequências mais perversas de imaginar essa continuidade com a Guerra Fria está patente na disposição para substituir ideais anti-imperialistas, caros à Esquerda, por um reconhecimento do direito a Estados-tampão e esferas de influência naturais como justificação para que os Estados mais poderosos limitem, pela força, as opções políticas de outros Estados na sua periferia. 

O apogeu dessa visão dá-se num artigo do sociólogo Boaventura de Sousa Santos no Público, quando afirma categoricamente que não faz sentido que a Ucrânia participe sequer nas negociações de paz, pois estas deviam ser apenas ‘entre a Rússia e EUA/NATO/União Europeia’. 

A lógica geopolítica que motivou tantas e tão violentas intervenções externas, em particular por parte dos EUA na América Latina, historicamente – e justamente – sujeitas a uma crítica de esquerda, é agora aceite com um fatalismo resignado. Uma postura supostamente realista que se alinha com o ramo mais conservador das relações internacionais (quer enquanto disciplina, quer enquanto prática diplomática).

É uma posição que não só reescreve e esvazia anteriores posicionamentos políticos, como sobretudo, e mais preocupante, inviabiliza o futuro de uma nova imaginação global e abre caminho à esquerda para uma aceitação de políticas belicistas em nome de alegados interesses nacionais.

É perverso substituir ideais anti-imperialistas, caros à Esquerda, por um reconhecimento do direito a Estados-tampão e a esferas de influência naturais como justificação para Estados mais poderosos limitarem o seu uso da força. 

Note-se que a própria Guerra Fria se travou tanto entre blocos e países como no interior dos mesmos, quando a defesa ou crítica do comunismo/capitalismo eram tratadas como colaboração com um inimigo externo. Os países nunca foram unidades coesas; foram atravessados por brechas e tensões, em que oposições internas se estabeleciam em redes de solidariedade além e aquém de governos, democráticos ou autoritários.

Merecem consideração, portanto, os milhares de manifestantes dentro da Rússia que condenam incondicionalmente o seu presidente como principal responsável pela atual guerra e a crescente contestação às estruturas coloniais deste país. Desfazer a ideia de interesse nacional, cara à geopolítica realista, implica abandonar de vez as leituras das ações de Putin como reação justificada, ou mesmo inevitável, da Rússia, e não enquanto uma opção política específica e altamente questionável do atual líder autocrático desse país.

Autonomizar os ditados da política externa face à correlação de forças interna não é apenas a antítese de uma noção de emancipação feita a partir de baixo, onde se privilegiam dinâmicas locais e transnacionais. É uma rejeição de toda a crítica que vem sendo elaborada contra a corrente ‘realista’ das Relações Internacionais, a começar pelo pós-colonialismo, o qual reconhece a continuidade e pluralidade de relações coloniais no presente.

Limitar o atual ponto de origem do imperialismo – ou do capitalismo – quase exclusivamente aos EUA ignora a coexistência de vários imperialismos, a emergência de novas realidades imperiais e o desafio de procurar caminhos que não prolonguem o legado colonial. Não por acaso, o argumentário de Putin para justificar a invasão foi desmontado logo no primeiro dia pelo representante do Quénia na ONU.

Há discussões urgentes a ser tidas sem pudor: sobre a estratégia de sanções e as suas repercussões na população russa (onde o agravar da situação económica e repressiva, tal como o recrutamento militar, pode gerar uma vaga paralela de refugiados que também merece acolhimento) e sobre como compensar rapidamente os efeitos devastadores nos países africanos dependentes das importações alimentares da Rússia e da Ucrânia, bem como nas comunidades da Ásia Central dependentes de remessas de emigrantes na Rússia.

Falta ainda uma discussão franca sobre como fazer uma verdadeira oposição a esta invasão que não passe pela militarização europeia, tal como fazer uma verdadeira oposição à militarização que não seja conivente com a invasão. É necessário discutir estratégias para evitar que o armamento da resistência ucraniana resulte (como tantas vezes no passado) numa nação que, se sobreviver à guerra, acabe nas mãos de perigosas milícias. 

Estas discussões, no entanto, só serão produtivas se recusarmos a limitadora imaginação da Guerra Fria.