O repórter não arde no fogo

A dor que aquele homem leva no rosto é indiscritível. O filho morreu no grande incêndio de Pedrógão Grande. O seu corpo carbonizado foi encontrado duzentos metros mais à frente. A carcaça do carro onde seguia ainda lá está. O alumínio das jantes está fundido com o alcatrão. 

Ensaio
21 Julho 2022

Ao fim da noite de 17 de Julho de 2017 são 19. No inicio do dia 18 já são 50. Há lençóis brancos espalhados pela floresta queimada e dentro dos carros. No dia 19 já “só” falta encontrar dois. Nesse mesmo dia, um homem sobe uma estrada em Nodeirinho. Olha para o caminho, mas não vê onde põe os pés.

A dor que aquele homem leva no rosto é indiscritível. O filho morreu no grande incêndio de Pedrógão Grande. O seu corpo carbonizado foi encontrado duzentos metros mais à frente. Também esteve coberto por um lençol branco. A carcaça do carro onde seguia ainda lá está. O alumínio das jantes está fundido com o alcatrão. Ainda está quente.

Há corpos inchados na rua, quando em Agosto de 2011 o hospital de Abu-Salim em Tripoli, Líbia, é libertado pelas forças rebeldes que tentam destituir Kadhaffi. À entrada, um homem cobre a boca e o nariz com um lenço. O cheiro é indiscritível. Seguimos esse homem que procura um sobrinho, ou o que resta dele, pelos corredores do hospital. Uma fotografia de Kadhaffi vigia a sala de operações com o chão coberto de sangue coagulado. Na cave do hospital há pelo menos 150 corpos em decomposição.

A tenda que alberga o bebé e a mãe é das melhores. O chão é de cimento e não de estrados. Fugiram de Kobani, na Síria, e encontraram refúgio poucos quilómetros para lá da fronteira em Suruç na Turquia. Quando a mãe fugiu estava grávida no fim do tempo. A sua vila estava a ser destruída por jihadistas do Daesh e por ataques aéreos de forças norte-americanas. O bébé já nasceu no campo. Tem 14 dias e não tem nacionalidade. É apátrida.

As atrocidades da guerra foram documentadas na LíbiaFelizmente para quem vê em casa, a câmara não grava o cheiro a morte, mas grava os corpos amontoados e o sangue coagulado no chão.

Em Dezembro de 2018, Paris está ao rubro. O movimento dos “Gillets Jaunes” (coletes amarelos), bloqueia a zona mais nobre da cidade todos os sábados. Grupos de “casseurs”, oportunistas que se aproveitam do caos, destroem, atacam a polícia e pilham várias lojas. Vários Coletes Amarelos tentam furar as barreiras da polícia. São repelidos com gás lacrimogênio, bombas de dispersão, canhões de água e balas de borracha. Outros trazem para o meio da rua tudo o que conseguem apanhar para criar barreiras ao avanço da polícia. Pegam fogo a carros e motas. Os bombeiros tentam apagar estes fogos, sendo muitas vezes atacados à pedrada pelos “casseurs”. Muitos Coletes amarelos tentam, em vão, dissuadir os jovens “casseurs” de destruir e pilhar.

No dia 6 de Julho de 2011, o recentemente empossado primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, recebe no palácio de São Bento os parceiros sociais. Na reunião com a Confederação Industrial Portuguesa, António Saraiva fala das “novas e desagradáveis notícias” (a agência financeira Moody’s tinha baixado o rating da república para lixo). “É verdade. É o chamado murro no estômago, não é?” responde o primeiro-ministro.

Pelo menos um repórter de imagem e um redator foram testemunhas presenciais destes acontecimentos. Todos, menos um, foram gravados por câmaras de televisão. As atrocidades da guerra foram documentadas na Líbia. Felizmente para quem vê em casa, a câmara não grava o cheiro a morte, mas grava os corpos amontoados e o sangue coagulado no chão.

O uso excessivo de força policial e os tumultos foram gravados em Paris. O deslize do primeiro-ministro foi registado no palácio de São Bento. A pressão para que muitas destas imagens não tivessem sido divulgadas foi enorme. Na fronteira da Turquia com a Síria, um soldado, exigiu, de forma bastante persuasiva, que se apagasse uma imagem específica.

A pressão para que muitas destas imagens não tivessem sido divulgadas foi enorme.

Em Paris, vários jornalistas foram agredidos tanto por polícias como por manifestantes. Em São Bento, um assessor do primeiro-ministro tentou, tudo por tudo, para que as declarações não fossem para o ar, alegando que “toda a gente sabe que nestas reuniões não se grava o som!”. É mentira, é sempre gravado o som.

A dor do homem que sobe a estrada em Nodeirinho é incomensurável. Para mostrar o que se passou naquele incêndio não foi necessário gravar aquele homem. As imagens da carcaça do carro, do alumínio fundido com o alcatrão, dos troncos negros das árvores despidas de folhas, dos outros carros na estrada nacional 236-1, do trabalhador das estradas que contava em desespero as pessoas que poderiam ir em cada um desses carros - “neste iam dois, naquele iam três, neste outro mais dois, mais dois, mais quatro, ai minha mãe!” -, dos lençóis brancos no meio da floresta queimada, da placa que ainda diz Nodeirinho, toda castanha e retorcida pelo calor do fogo, do casal de idosos que na paragem do autocarro conta como se refugiou no tanque de lavar a roupa da aldeia à espera que o fogo passasse.

Todas estas imagens contaram aquela história. Pelo viewfinder (visor) vejo o caco de homem que sobe aquela estrada em Nodeirinho. Decido naquele instante baixar a câmara. Não foi necessário gravar aquele homem para mostrar o horror que foi aquele incêndio.

Rodrigo Lobo escreve segundo o antigo acordo ortográfico.

Este testemunho foi originalmente publicado no Manual de Reportagem REC, organizado por Pedro Coelho, Ana Isabel Reis e Luís Bonixe, e editado pelos Livros Labcom em 2021.