A surpresa na reportagem

Nunca, mas nunca, antes de uma reportagem, tenhas a ousadia de ir ver o que outros já fizeram sobre o tema. Uma coisa é estudares factos históricos, outra é dares início a uma reportagem pelos olhos de um outro repórter. Tens de partir sem preconceitos, sem conclusões e sentir o que tens à tua frente.

Ensaio
7 Julho 2022

Vou tratar-te por tu. Todos os jornalistas se tratam por tu. Não sei mais sobre reportagem do que tu, apenas a vivi mais vezes, e é sempre uma surpresa. Sempre. Mesmo num pequeno incêndio de cidade ou num protesto que acaba em corte de estrada, com promessas de lutar até à morte. A reportagem faz-se de pessoas e não há nada mais imprevisível do que o ser humano.

Aprendi cedo que fazer reportagem é como amar alguém: temos de conhecer por nós próprios. Claro que, quando penso fazer uma reportagem, construo de imediato todo o guião na minha cabeça. Acredita que o resultado nunca foi aquele que imaginei. Possivelmente, até, será exatamente o oposto do que tinha imaginado porque há o fator humano, que é sempre uma surpresa.

Dei-me conta que a surpresa é, de facto, a memória mais viva das reportagens que fiz. E, porventura, as que mais me marcaram até foram feitas “à porta de casa”.

Outra sugestão. Nunca, mas nunca, antes de uma reportagem, tenhas a ousadia de ir ver o que outros já fizeram sobre o tema. Uma coisa é estudares factos históricos – isso é importante – outra é dares início a uma reportagem pelos olhos de um outro repórter. Tens de partir sem preconceitos, sem conclusões e sentir o que tens à tua frente. Será esse o teu rigor: contar o que estás a ouvir, a ver e a sentir. É isso que esperam de ti: a tua verdade.

Estava agora a pensar nas surpresas que a reportagem já me deu, ao longo de mais de 30 anos de jornalista. Vieram-me à memória os tumultos no Reino Unido, em 2011. Tal como aconteceu agora (maio, 2020), nos EUA, com a morte de George Floyd, houve uma manifestação pacífica, para pedir esclarecimentos às autoridades britânicas sobre a morte de Mark Duggan, dois dias antes, por elementos da Polícia Metropolitana de Londres. A manifestação degenerou em motim, primeiro em Tottenham, depois em toda a capital, com a violência a alastrar até ao norte do país.

Nessa manhã estava a apresentar as notícias, na RFM. Recordo-me de ter relatado um grande incêndio numa estação dos correios, que via em direto, pela Sky News. Eram 6 da manhã. Como poderia imaginar que às 11 da noite estaria, realmente, à frente daquele edifício, em reportagem para a Renascença? Todos os meus juízos de valor, antecipados, se desmoronaram ao escutar as pessoas. É sempre assim. É o fator surpresa, que nos dá a reportagem e um melhor conhecimento de nós próprios.

Só me senti um verdadeiro repórter quando larguei o preconceito e tive medo, pela primeira vez. Foi muito antes desses acontecimentos de Londres. Foi em Timor, em fevereiro de 1999, quando o território estava ainda ocupado pela Indonésia e não estava presente uma só instituição internacional, à exceção da Cruz Vermelha. Os guerrilheiros das Falintil - As Forças Armadas de Libertação Nacional de Timor-Leste – resistiam nas montanhas. Foi antes ainda do referendo da Independência...e dos sucessivos massacres provocados pelas tropas de Jacarta, juntamente com as milícias integracionistas, que ajudou a formar.

Vem isto a propósito de medo. Em segredo, resolvi um dia subir às montanhas para entrevistar o líder da resistência, na altura: Taur Matan Ruak. Por sugestão do meu “guia”, a intenção foi abortada, já na subida, devido às fortes chuvadas. Era noite no regresso a Díli, e o Jeep que levava foi cercado por um grupo de jovens, com catanas na mão. Falavam tétum, uma das línguas oficiais de Timor. Só mais tarde percebi que eram apoiantes da anexação de Timor pela Indonésia. O meu condutor trocou umas palavras com eles. Eu só me lembro de sorrir, como se estivesse calmíssimo. Mesmo quando um dos jovens nos tocou com a catana, ameaçador.

Do nada, no meio do mato, apareceu um outro “todo-o-terreno”. Lá de dentro saiu uma freira. Não sei o que disse, em tétum, àqueles jovens. Sei que lhe fiquei grato para sempre. Naquela altura, os integracionistas ainda respeitavam os padres e freiras. Só uns meses mais tarde iriam incendiar todas as casas que viam e, até, igrejas.

Não fui eu a construir reportagens. Elas construíram-se por si próprias. E a mim.

Contei este episódio para te dizer que senti medo, muito medo, à chegada ao quarto. Chorei, até. Mas só depois. Durante o incidente, sem ainda hoje saber de onde veio a minha força, não me descontrolei. E não foi coragem. Foi como se tivesse visto um filme, e só depois percebi que era verdade. Vivi também episódios difíceis na segunda guerra do Golfo, na fronteira do Curdistão turco com o Iraque e a Síria. Ou no referendo da independência, na Catalunha, mais recentemente.

Em todas essas reportagens, destaco o fator surpresa. A surpresa de relatar, sem filtros, a história das pessoas. A surpresa, a cada vez, de me conhecer um pouco melhor. Já deves estar a pensar que a maior sorte de um jornalista é ser deixado à aventura num qualquer ponto distante do planeta. Não necessariamente.

Enquanto escrevia este texto pensei muito no assunto. Parei várias vezes de escrever, e por vários dias. Dei-me conta que a surpresa é, de facto, a memória mais viva das reportagens que fiz. E, porventura, as que mais me marcaram até foram feitas “à porta de casa”.

Vou contar apenas uma: há 17 anos (já vais perceber porque me lembro), o meu editor pediu-me que fizesse uma reportagem sobre violência doméstica. Procurei, para isso, a ajuda da APAV (Associação Portuguesa de Apoio à Vítima). Foi lá que conheci a “Ana”, ainda hoje não sei o nome verdadeiro”. Numa longa conversa prévia, foi desenrolando uma vida cheia de nós. Quando chegou a altura de lhe pedir para gravar, disse-me que não o queria fazer. Claro que respeitei a decisão. Não se pode obrigar ninguém a falar, por mais perguntas que fiquem por fazer. Resolvi, ainda assim, continuar sentado à sua frente e perguntei se podíamos prosseguir a conversa, mesmo não sendo para uma reportagem. A partir daí deixei de olhar para a “Ana” como uma entrevistada. Foi um diálogo entre humanos.

Contou, com detalhe, pequenos fragmentos do seu sofrimento, assim como eu lhe contei algumas inquietações da minha vida. Contei, por exemplo, que tenho um filho autista, a pessoa mais doce que conheço. Conversámos mais de meia hora, sem qualquer outro objetivo que não fosse o desabafo, até que ela me surpreendeu. Disse-me que, afinal, poderia fazer a reportagem, gravar a conversa.

Um por um, creio que atravessou todos os nós. Contou-me que o “marido” a agrediu violentamente, anos a fio. Contou o pavor que sentiu ao descobrir que estava grávida de um filho que ele não queria. Contou e que só percebeu, realmente, que não havia uma relação de amor ao acordar na cama de um hospital, vítima de uma tentativa falhada de homicídio.

Sem que eu o soubesse ou, muito menos, que tivesse agido com intenção, aquela nossa conversa prévia desbloqueou a entrevista. Na verdade, não foi apenas a Ana que ganhou confiança em mim… também conquistou a minha. Fez-se a reportagem, mas a história não acaba aqui. Qual o meu espanto quando, há dias, estava eu a fazer as edições de fim-de-semana na Renascença, e recebi uma chamada do telefonista, em Lisboa. Havia uma senhora, do outro lado da linha, que me queria falar. Sim, adivinhaste, era a “Ana”. Em poucas palavras limitou-se a perguntar pelo meu filho. Calculava que já estivesse um homem, porque já passaram 17 anos.

Percebes melhor, agora, a importância da surpresa? Não fui eu a construir reportagens. Elas construíram-se por si próprias. E a mim.

Este testemunho foi originalmente publicado no Manual de Reportagem REC, organizado por Pedro Coelho, Ana Isabel Reis e Luís Bonixe, e editado pelos Livros Labcom em 2021.