Jornalista na TSF - Rádio Notícias e professor de jornalismo no Instituto Politécnico de Viseu. 

 

Reportagem de proximidade: como o local se pode impor ao alinhamento nacional

Trabalhar em reportagem local é dar voz ao “povo”, é ouvir aqueles que verdadeiramente colocam “a mão na massa”, ou que são os atores principais da história que queremos contar, fugindo aos discursos formais de palavras vazias.

Ensaio
9 Junho 2022

Fazer jornalismo de proximidade, e sobretudo através da técnica de reportagem, tem tanto de enriquecedor quanto de desafiante. É (quase) impossível fazer reportagem, e grande reportagem ainda mais, sem o contacto direto com as fontes, sem o “sentir” do que está a acontecer, sem a observação direta do acontecimento por parte do jornalista, e até mesmo, porque não, sem que o jornalista “entre” no acontecimento. 

Em reportagem, o repórter, mais do que um apresentador de factos, é um contador de histórias. É assim que gosto de me assumir. E, estas histórias, para que sejam bem contadas, precisam do sentir apurado do jornalista, do seu envolvimento no assunto e, ao mesmo tempo, da sua capacidade de narração ética e distanciada. É uma dualidade: envolvimento (emocional até) e, simultaneamente, distanciamento. 

Este é, sem dúvida, o primeiro grande desafio ao fazer-se reportagem. Por isso, além de todas as técnicas jornalísticas necessárias à sua execução, que se podem aprender e melhorar, a reportagem local e de proximidade é algo um pouco mais intenso e inato, uma espécie de aptidão que tem de nascer connosco. 

O segundo grande desafio, e este já em termos de rotina produtiva das redações, está relacionado com a necessidade de convencer os editores, muitas vezes alheados do país real e demasiado focados na agenda política nacional. 

O repórter, que está maioritariamente em exteriores, afastado da redação, sendo aquilo que vulgarmente, na gíria, chamamos de “repórter de rua” (como se existissem repórteres de secretária...), tem de saber argumentar junto do editor o assunto que tem em mãos, convencendo-o que determinada história mais local e que decorre mais afastada dos centros de decisão é merecedora de ser contada e merecedora do interesse geral. 

Neste campo, posso dar como exemplo duas das grandes reportagens que fiz e que foram emitidas pela rádio TSF. A grande reportagem “Ouro Branco”, vencedora do prémio nacional de Jornalismo da ANMP – Associação Nacional de Municípios Portugueses – em 2017, na categoria rádio, conta o regresso da exploração de sal nas salinas em Aveiro e na Figueira da Foz, locais onde estas foram sendo desativadas e estão hoje quase em extinção ou, pelo menos, são em muito menor número do que eram quando o sal era uma das principais fontes de riqueza do país. É claro como este é um assunto de âmbito local, mas o impacto que teve na economia nacional e a forma como o país foi abandonando a atividade tem, sem dúvida, uma pertinência nacional, que merece ser contada num espectro mais alargado.

A reportagem local e de proximidade é algo um pouco mais intenso e inato, uma espécie de aptidão que tem de nascer connosco.

Outro exemplo é a grande reportagem “Viva a república”, realizada nas repúblicas de estudantes de Coimbra e que deu a conhecer, por dentro, a história e o ambiente das repúblicas na iminência de despejo. Mais uma vez, embora o assunto seja de âmbito local, toca sentimentalmente centenas ou milhares de pessoas que passaram por estes espaços ou que, com eles, tiveram contacto ao longo do seu percurso académico. E, aqui, com este exemplo, vamos diretamente ao terceiro desafio: a necessidade de encontrar uma âncora. 

Quem trabalha no jornalismo de proximidade, quer na reportagem, quer mesmo no cumprimento da agenda do dia a dia (notícias para noticiários) tenta, muitas vezes, encontrar forma de relacionar a história que tem em mãos com a linha editorial do momento. Não só porque vai conseguir aquilo de que falava como o segundo desafio, ou seja, convencer os editores, mas também porque consegue que o assunto que pretende trabalhar respeite, mais facilmente, um dos principais valores notícia (in)conscientemente assumido pelas redações: a atualidade. A este relacionamento do tema da reportagem com a atualidade apelidamos de âncora. 

É comum apresentarmos um assunto ao editor, quer para notícia, quer para reportagem, e ouvi-lo questionar-nos: “qual é a âncora, qual é o gancho?” Também este desafio está relacionado com o próximo que enumero: estarmos onde os outros não estão, sermos singulares, fugirmos à agenda hegemónica, quebrarmos o alinhamento igual (ou pelo menos idêntico) a que os media tanto nos habituaram nos últimos tempos. E, isso só se consegue contando histórias particulares que os repórteres espalhados pelo país encontram e levam à antena do seu órgão de comunicação. 

Remeto-vos, uma vez mais, para outra grande reportagem que fiz para a TSF, a propósito da tempestade Leslie, que devastou o centro do país em outubro de 2018. Apercebendo-se que a tempestade, que era esperada em Lisboa, iria entrar em Portugal um pouco mais a norte, na zona da Figueira da Foz, os holofotes da comunicação social nacional desligaram-se.

Na verdade, os jornalistas que cobrem o centro do país tinham na mão o dever de contar ao resto do país o que se estava a passar, sobretudo nos concelhos da Figueira da Foz, Montemor-o-Velho e Soure (os mais afetados), pois os prejuízos ultrapassavam os largos milhões de euros. A decisão (unânime) da grande maioria dos órgãos de comunicação, depois de terem dado conta da passagem da tempestade e dos estragos (em números... os jornalistas adoram números) que esta provocou, desligaram câmaras, pararam gravadores... desapareceram. 

Mas era preciso mais. A população tinha de ser ouvida. Cada canto era uma história. Cada rajada de vento levou esperanças, destruiu sustentos, matou perspetivas. Era preciso contá-las e cabe-nos a nós, que estamos no terreno, que assistimos e que até vivemos, por vezes, a situação na primeira pessoa (como foi o caso da Leslie) contá-la aos demais. 

Foi assim que nasceu na TSF a grande reportagem “Leslie, no centro do pandemónio”.  A enumeração de desafios da reportagem na proximidade pode ser longa e uma tarefa árdua. Queria ainda deixar aqui um quarto desafio: a necessidade de fuga às fontes oficiais e institucionais. Não significa que não precisemos delas ou que não tenhamos de as ouvir, mas há tanto para além destas.

Pode ser um trabalho bem duro ao nível físico e mental. É normal fazerem-se centenas de quilómetros diários, gravar entrevistas com várias pessoas no mesmo dia, colocar várias histórias em antena, diariamente.

A fonte oficial é, quase sempre, a mais fácil e mais imediata de contactar, mas não é aquela que tem, obrigatoriamente, a melhor história ou a melhor versão dos factos, muito pelo contrário. Trabalhar em reportagem local é dar voz ao “povo” (no sentido de fontes sem ligação institucional), é ouvir aqueles que verdadeiramente colocam “a mão na massa”, ou que são os atores principais da história que queremos contar, fugindo aos discursos formais, de palavras vazias. 

A busca pode e deve ser pela gargalhada, pelo suspiro, pelo gesto, que nos conta muito mais do que qualquer discurso, mais ou menos, preparado. Para terminar, o quinto e último desafio: a capacidade e resistência emocional e física. Neste aspeto, de forma sucinta, trabalhar em jornalismo de proximidade, fora das redações, explica-se assim: sem horário de entrar ou de sair, sem folgas fixas, sem férias fixas e, muitas vezes (infelizmente), sem ordenado fixo. O mais normal é encontrar jornalistas que quanto mais produzirem maior será o seu retorno financeiro. 

Pode ser um trabalho bem duro ao nível físico e mental. É normal fazerem-se centenas de quilómetros diários, gravar entrevistas com várias pessoas no mesmo dia, colocar várias histórias em antena, diariamente. O que de bom tem tudo isto? O quão enriquecedor, diverso, culto, próximo (emocionalmente) e apaixonante pode ser trabalhar com as gentes locais. 

Como exemplo de uma grande reportagem intensa em quilómetros (com gravações de Viana do Castelo a Setúbal), mas enriquecedora em conteúdos, em vivências e em lições de vida, gostava de dar-vos a ouvir a “Mulheres de Mar”, feita, toda ela, com mulheres que deram a sua vida ao mar e que entregaram a sua voz à minha reportagem.

Este testemunho foi originalmente publicado no Manual de Reportagem REC, organizado por Pedro Coelho, Ana Isabel Reis e Luís Bonixe, e editado pelos Livros Labcom em 2021.