O peso da sorte na construção de uma carreira de repórter

“Ficámos amigos, se quiserem levo-vos lá, pode ser que ele consiga uma entrevista com o irmão”, diz o Luís. Um par de horas depois, estávamos a entrevistar Karadzic, o líder político dos sérvios bósnios que já tinha sido alvo de acusação de genocídio e crimes de guerra e contra a humanidade. Um dos furos da minha vida. Sorte pura.

Ensaio
22 Setembro 2022

Em trinta anos de ofício, aprendi a atribuir à sorte uma dose tão importante e qualificada como a capacidade de construir uma agenda de contactos e o talento, perseverança e, não raras vezes, paciência para um relacionamento profissionalmente profícuo com as fontes de informação. Aprendi-o não por convicção arreigada ou profunda, ou fruto de mestres da profissão que nunca valoraram – que eu saiba – a sorte da forma que tento agora fazer, mas por experiências próprias, que me vão saltando agora para a memória, desde que assumi a vontade de as verter nestas linhas escritas para o projeto REC.

Em outubro de 1998, após Saramago ter sabido, na Feira do Livro em Frankfurt, que ganhara o Nobel da Literatura, a Antena1 decide enviar-me para Madrid na manhã do dia seguinte, a tempo de chegar à primeira conferência de imprensa após ter recebido a boa notícia do Comité Nobel. Parti do aeroporto do Porto manhã cedo.

Na véspera, numa igreja de Águas Santas, Maia, tivera sessão de preparação para o batismo do meu filho mais velho, o Gonçalo; sem telemóvel comigo – ainda era assim –, mas tendo dito na redação que iria estar no sítio x por causa de uma aprendizagem de rituais de batismo, aos quais estava e continuo alérgico, diga-se de passagem, ouvi o padre interromper a sessão para passar um recado: “Está aqui alguém da RDP? Ah, é você… Telefonaram para aqui a dizer que tem de ir apanhar avião para Madrid, para ir entrevistar esse tal de José”. Disse-o com um asco que Cavaco e Lara não superariam; senti O Evangelho segundo Jesus Cristo finalmente vingado.

No dia seguinte, aterrado na capital espanhola, à saída do avião, reparo que o arquiteto Álvaro Siza Vieira viajara no mesmo voo. Interpelo-o, explico por que estou a viajar para Madrid, peço-lhe, ali no caminho para a recolha da bagagem, um depoimento sobre Saramago e o Nobel. Ainda não tinha saído do aeroporto de Barajas e já estava a enviar, por cabine telefónica – era assim – a primeira peça para a rádio.

Sim, tive olhar felino e lata para a abordagem, mas tive, acima de tudo, uma enorme sorte. Saramago não deu entrevista (só teria direito a esse exclusivo muitos anos depois, aquando do lançamento de As intermitências da morte) e na conferência de imprensa não estava particularmente bem disposto. Mas, graças a Siza, a reportagem estava ganha.

Anos antes. 1996. Primavera. Poucos eram os jornalistas ocidentais que se atreviam a viajar pelos territórios da Republika Srpska, a entidade sérvia-bósnia de um país dividido e acabado de sair de um conflito sangrento chamado Bósnia-Herzegovina. Os repórteres portugueses faziam-no diariamente, viajando de Sarajevo para Rogatica, comando do 2º Batalhão de Infantaria Aerotransportada do Exército português. Ir ao outro lado não era problema. Ir a Pale, capital dos sérvios bósnios, já era diferente.

À época, Karadzic era o homem mais procurado do mundo e já tinha sido alvo de acusação de genocídio e crimes de guerra e contra a humanidade. E sim, um par de horas depois, estávamos a entrevistá-lo. Um dos furos da minha vida. Sorte pura.

Persistia alguma hostilidade em relação aos jornalistas ocidentais (pudera!), pelo que só com um objetivo claro valeria a pena o risco. Moderado, convenhamos. Isto de armar ao herói em tempo de guerra, ou pós-guerra, não é coisa que, decididamente, me assista. Luís era subchefe da polícia, da PSP; e estava também na Bósnia como integrante da IPTF, International Police Task Force. Estava ali a beber umas cervejas connosco, provavelmente a Lasko Pivo, da Eslovénia, ou a Sarajevska, local. Provavelmente no Café Bosna.

Dias antes, tinha evitado a detenção (porque estaria a ser feita à margem da lei), por parte de polícias muçulmanos bósnios, de Mirko Krajsnnik, irmão de Momcilo, que era o presidente do parlamento sérvio-bósnio. “Ficámos amigos, se quiserem levo-vos lá, pode ser que ele consiga uma entrevista com o irmão”, diz o Luís. Sobrenome omitido intencionalmente, para preservação da fonte.

Fomos a Pale. Passado uns minutos e uns cumprimentos e apresentações, estávamos – eu, pela Antena1, e a Isabel Magalhães e o repórter de imagem Hélder Oliveira, pela RTP – a entrevistar um homem que já na altura estava indiciado por crimes de guerra e contra a humanidade pelo Tribunal Penal internacional. A meio da entrevista, pergunto-lhe como é que ele e o seu chefe, “o presidente Radovan Karadzic”, podem estar tão confiantes em relação ao futuro da Republica Srpska, quando já estavam indiciados por crimes tão graves.

A resposta foi um chorrilho de lugares comuns em tempos de pós-guerra, rematado com um: “Esta é a minha visão; quanto à do presidente Karadzic, terão de lhe perguntar.” À época, Karadzic era o homem mais procurado do mundo (sim, foi uns anos antes de Bin Laden). Falar com ele era o desejo de milhares de jornalistas, mas muito poucos o tinham conseguido. “Ele está aqui em Pale e terá muito gosto em receber-vos”, rematou Krajsnik. Na altura, o líder político dos sérvios bósnios já tinha sido alvo de acusação de genocídio e crimes de guerra e contra a humanidade. E sim, um par de horas depois, estávamos a entrevistar Karadzic, um dos furos da minha vida. Sorte pura. Obrigado, Luís.

Três anos depois. Outubro. Timor Ocidental. Reportagem para conhecer os campos de refugiados timorenses, entre expulsos do território e aqueles que, convictamente, estavam do lado das milícias pró-integração na Indonésia, que haviam semeado o terror e destruído o território após o referendo de 30 de agosto ter rejeitado a proposta de autonomia no quadro da soberania de Jacarta, abrindo assim o caminho à independência.

O Hernâni Carvalho insistiu em irmos pela estrada de montanha. Entendia que pela estrada principal seríamos um alvo em movimento. Seriam mais de 24 horas de viagem.

Tínhamos voado de Díli para Kupang (capital do Timor indonésio, ocidental) num voo fretado pelo Programa Alimentar Mundial. Eu pela Antena1, o Hernâni Carvalho e o Carlos Pinota pela RTP, o Alexandre David pela TSF e o motorista e tradutor João Vieira. Tínhamos, todos, visto de entrada na Indonésia porque, semanas antes, havíamos estado em Jacarta na primeira visita de Xanana Gusmão e Taur Matan Ruak à Indonésia, enquanto líderes timorenses. Mas as milícias eram quem mandava ali.

Planeávamos o regresso a Díli, via Atamboa, quartel-general das milícias de Eurico Guterres e João Lourenço (creio que era esse o nome). De Kupang a Atamboa são 184 km pela estrada. Se formos pela estrada principal. Porque entendia que éramos um alvo em movimento e que, se nos topassem, as milícias poderiam pensar em cortar-nos aos bocadinhos e testar se a carne humana portuguesa é do agrado de tubarões, o Hernâni insistiu em irmos pela estrada de montanha. Seriam mais de 24 horas de viagem. Cinco homens num pequeno carro. Sem banho. Protestei o mais que pude. Não havia necessidade. Estava farto de conhecer montanhas timorenses (ainda que estas fossem do lado ocidental), queria era chegar a Atamboa. Os outros encolheram os ombros e foi feita a vontade ao Hernâni.

Não imaginam o quanto teve de levar com o meu mau humor, quando o jipe (ou tipo isso) arreou no meio de nenhures, sem viva alma por perto, sem rede telefónica para chamar uma qualquer assistência. Soltei a raiva. Ele ouviu, sem grande hipótese de dizer o que quer que fosse. Eu estava cheio de razão. Passado algum tempo, ouviu-se uma mota. Recordo como se fosse hoje.

Um homem de feições locais, blusão verde camuflado, calças de fato de treino cor-de-rosa (a combinação era hilariante), sentado numa espécie de Famel Zundapp, não só estava ali para prestar assistência como nos dizia que nos levava a um campo de refugiados onde centenas de pessoas (muitas crianças) passavam mal e ainda não tinham recebido a visita de qualquer agência da ONU ou do que quer que fosse. Era um campo gerido por um missionário americano. Reportagem num sítio que nenhuma televisão, rádio, jornal ou agência tinha visitado. O Hernâni ria-se e repetia com sotaque a imitar timorenses, numa frase que nos ficou desse tempo: “Tem de ter confiança no parceiro.” Verdade. Mas foi sorte pura.

Em fevereiro de 2000, tive a honra e oportunidade de fazer uma das reportagens da minha vida. Um mês estrada fora, no Brasil, o mais possível de ônibus, autocarro. Partiria do Rio de Janeiro, estação rodoviária Central do Brasil. Como a Fernanda Montenegro fizera no filme extraordinário do Walter Salles. Na véspera da partida para Salvador, pensei quem gostaria de entrevistar no Rio. Pensei no Oscar Niemeyer, referência da arquitetura mundial. Fui à lista telefónica. Vi o número e endereço. Estava a poucos quarteirões do meu hotel, em Copacabana. Liguei. Já havia assessores de imprensa e agências de comunicação, mas ainda davam os primeiros passos. Liguei e ele atendeu. Ele próprio. Tinha então 93 anos, morreu com 105. Uma hora depois, estava a entrevistá-lo no seu ateliê. Curiosidade, interesse, empenho, dedicação. Mas muita sorte também.

Em todos estes casos, houve uma pessoa que foi fundamental para que fosse eu o repórter escolhido para fazer essas reportagens. Sorte minha, mais uma vez. O quanto lhe devo, só cabe nas páginas de tamanho infinito da gratidão eterna. Chama-se Francisco Sena Santos e foi a mesma pessoa que me convidou agora para escrever aqui, sem fazer a mínima ideia de que seria chamado para a conversa. Mas a vida, por vezes, apesar de seguir caminhos distintos, pode desenhar círculos perfeitos. O que é preciso, como me dizia Niemeyer, é aproveitar o momento, “porque a vida é um sopro”. E conseguir ter ativado o botão da memória. Gravada. REC.

Este testemunho foi originalmente publicado no Manual de Reportagem REC, organizado por Pedro Coelho, Ana Isabel Reis e Luís Bonixe, e editado pelos Livros Labcom em 2021.