Escudo Identitário

ESCUDO IDENTITÁRIO

O Escudo Identitário é uma organização pilar da nova geração da extrema-direita identitária em Portugal, sob vigilância dos Serviços de Informações e Segurança e da Polícia Judiciária. Criado em julho de 2017, a sua ação baseia-se na organização de ações e eventos mediáticos contra o alegado perigo da “invasão islâmica” e perda de identidade nacional e europeia, replicando a congénere francesa Generátion Identitaire. Pertencem aos chamados “fascistas do terceiro milénio”, inspirando-se também nos neofascistas do CasaPound Italia.

“Movimento de ação social e metapolítica que visa consciencializar e defender a Identidade Nacional e Europeia”, é como o Escudo Identitário se define na sua biografia do Twitter.

"Uma metapolítica multi-facetada aborda agitação e movimentos, tal como a população em geral, com o alvo de formar ideologicamente uma elite ativa assim como influenciar a população" – Luís Graça na Conferência Prisma

Os identitários enquadram-se no campo do etnonacionalismo – como a alt-right, por exemplo – e, como tal, estas organizações normalmente dedicam-se a ações de propaganda e ativismo metapolítico, com o objetivo de moldar e influenciar a opinião pública. Embora as linhas não sejam muito claras entre diferentes versões do nacionalismo radical de direita, a enfâse das organizações etnonacionalistas está no combate cultural, e a sua ação é racista por excelência – a identidade etnocultural é sempre branca e cristã, e muitas vezes admitem a defesa da “cultura branca”.

Na sua variante europeia, os identitários são muitas vezes jovens hipsters com formação acima da média, preocupados com a preservação do que dizem ser a cultura “indígena” e virados para o ativismo comunitário. Creem que está a decorrer a “grande substituição” dos brancos europeus por parte de imigrantes e comunidades muçulmanas.

O seu teor de combate cultural e foco no ativismo comunitário não ofuscam o perigo que os identitários representam. França contempla extinguir a Generátion Identitaire depois de uma investigação da Al-Jazeera que, em 2018, expôs o apetite pela violência dos ativistas identitários. Mais tarde três membros foram condenados por incitamento ao “terrorismo” e incitamento ao ódio religioso e a organização foi proibida em França. 

Os mesmos de sempre

O Escudo Identitário foi criado na sequência da polémica sobre o cancelamento do debate organizado pela Nova Portugalidade e com a presença de Jaime Nogueira Pinto, professor universitário e um dos principais ideólogos da extrema-direita, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

No início de março de 2017, a Associação de Estudantes da FCSH-Universidade Nova de Lisboa recusou, em reunião-geral de alunos, disponibilizar uma sala para que o evento acontecesse e o diretor da Faculdade, Francisco Caramelo, decidiu cancelar definitivamente o debate por razões de segurança.

Estalou a polémica e a Associação de Estudantes ficou sob fogo dos órgãos de comunicação social, dos partidos da direita tradicional e da extrema-direita. Foi acusada por ambos de ter posto em causa a liberdade de expressão. No dia em que o evento deveria acontecer, duas dezenas de jovens militantes de extrema-direita, alguns com 1143 tatuado nos braços, dirigiram-se à sede da Associação de Estudantes para exigir satisfações. Foi, na prática, uma ação de intimidação.

Terminado o confronto de palavras, os militantes dirigiram-se para o Campo Pequeno e lá tiraram uma fotografia de grupo. Vítor Luís Rodrigues, veterano da extrema-direita, integrava o grupo na  foto divulgada pelo Movimento de Oposição Nacional (MON). Foi a semente do que viria a ser o Escudo Identitário.

“Ao hesitarmos perante a mais pequena ameaça abrimos de imediato um precedente. Estes grupos violentos [referindo-se à AE] não podem ‘fazer a lei’. Ninguém lhes confiou qualquer autoridade e à Direção de uma prestigiada Universidade Portuguesa cabe, mais do que a qualquer outra pessoa, a defesa das nossas Liberdades, sobretudo da Liberdade de Expressão pois sem ela nunca seremos verdadeiramente livres!”, lê-se na publicação do MON.

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Parada neofascista do Escudo Identitário nos Restauradores, em Lisboa, em 2018
Parada neofascista do Escudo Identitário nos Restauradores, em Lisboa, em 2018. Fonte: Facebook Escudo Identitário

Uma parte dos escudistas já tinham militado em organizações de extrema-direita do universo do Partido Nacional Renovador (PNR, hoje Ergue-te!), enquanto a outra entrava na atividade política pela primeira vez.

Havia quem tivesse ligações ao MON, associação que queria ser um movimento alargado entre a extrema-direita, e tivesse passado pela Juventude Nacional Renovadora. Outros passaram pelos Jovens Portugueses Primeiro, grupo afeto à identitária Associação Portugueses Primeiro (P1). Um deles foi Luís Graça, secretário da P1 e filho de Luís Filipe Graça, presidente da Mesa da Convenção do Chega.

O episódio na FCSH fez com que estes jovens concluíssem ser necessária uma organização mais direcionada para a juventude, para disputar as universidades e nas escolas públicas, sem os constrangimentos de um partido. Queriam focar-se no combate ideológico nas ruas, expandir o identitarismo como tendência entre a extrema-direita portuguesa, e deixar para terceiro plano a disputa de atos eleitorais.

“A extrema-direita portuguesa continuou a revelar grande dinamismo na luta pela ‘Reconquista’ da Europa (nomeadamente no que diz respeito ao combate à imigração, à islamização, ao multiculturalismo e ao marxismo cultural”, lê-se no Relatório Anual de Segurança Interna de 2018, referente a 2017.

A organização começou a dar os seus primeiros passos e foi tornada pública em julho de 2017 – a sua página de Facebook foi criada no dia 17 de julho. Houve dois elementos fundamentais na ajuda aos escudistas: João Martins, um dos fundadores da Causa Identitária e condenado a 17 anos de prisão pelo homicídio de Alcindo Monteiro, em 1995, e Vítor Luís Rodrigues, mentor do líder do Partido Nacional Renovador (PNR, hoje Ergue-te!), José Pinto-Coelho.

Aconselharam os jovens e apoiaram-nos, ajudando-os a estabelecer as já referidas ligações internacionais – Martins tinha contactos antigos junto do CasaPound Italia, por exemplo. Ao mesmo tempo, os jovens organizaram ações mediáticas, inspirando-se na Génération Identitaire, com o desdobramento de faixas contra a imigração em locais públicos em Lisboa.

Na primeira fase da organização, a liderança era composta por um triunvirato, à semelhança do Movimento Identitário da Áustria: Manuel Rezende, cronista em O Diabo e apontado como o ideólogo, Nuno Afonso, o líder oficial e porta-voz, e Luís Graça. Foram por um tempo os principais rostos públicos da organização, o que permitiu a convergência com outros grupos.

Anos de relações pessoais, de camaradagem e de confiança estabelecidas entre os escudistas e veteranos da extrema-direita permitiram-lhes alguns momentos de cooperação, ultrapassando os sectarismos e divergências que há muito caracterizam este campo político.

Houve dois momentos destes entre o PNR, os escudistas e a Associação Portugueses Primeiro (Nélson Dias, que faz parte do grupo de estudos e do Conselho Nacional do Chega, é porta-voz desta organização): uma manifestação em frente à estátua do padre António Vieira, em outubro de 2017, e a realização de uma conferência que trouxe o líder do CasaPound Italia, Gianluca Iannone, a Lisboa, em julho de 2018.

A conferência, intitulada “A Realidade de Hoje: Agenda e Soluções para o Futuro”, no Palácio da Independência, em Lisboa, contou com a presença de João Pais do Amaral, vice-presidente do PNR, Nuno Afonso, do Escudo Identitário, e de Rui Amiguinho, da Associação Portugueses Primeiro e dirigente da editora de extrema-direita Contra-Corrente. Iannone foi um dos oradores e o líder dos russos Father Frost Mode, Maxim Savelev, também esteve presente.

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Conferência "A Realidade de Hoje: Agenda e Soluções para o Futuro", organizada pelo Escudo Identitário e pela Associação Portugueses Primeiro
Conferência "A Realidade de Hoje: Agenda e Soluções para o Futuro", organizada pelo Escudo Identitário e pela Associação Portugueses Primeiro em julho de 2018. Fonte: Facebook Escudo Identitário

Depois dos debates, houve um combate de artes marciais no ginásio Trebaruna, ligado ao Escudo Identitário, e um concerto numa discoteca perto das Docas de Lisboa. Num vídeo da festa veem-se várias pessoas a fazerem a saudação nazi enquanto uma banda toca.

Além disso, uma comitiva dos Father Frost Mode veio a Portugal a convite de Gonçalo Portugal, antigo gerente do Bar Cave no Bairro Alto, Lisboa, e um dia antes da conferência orientaram um workshop de saúde e artes marciais mistas (MMA, na sigla inglesa) na Costa da Caparica. Durante a estadia, aproveitaram para publicitar o torneio de MMA que organizam em Moscovo, na Rússia.

“O setor identitário e neofascista destacou-se, novamente, através da organização de conferências, ações de propaganda, celebrações de datas simbólicas, ações de protestos, eventos musicais e sessões de treino de artes marciais, num perfeito alinhamento com o modo de atuação dos seus congéneres europeus, com quem, de resto, manteve contactos frequentes”, lê-se no Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) de 2018.

“A tendência skinhead neonazi, menos ativa, manteve, ainda assim, as suas atividades tradicionais (concertos, reuniões), para além de se associar pontualmente às iniciativas do movimento identitário e neofascista”, continua o documento.

Os escudistas continuaram as suas ações mediáticas e estabeleceram pequenos núcleos um pouco por todo o país. Em outubro de 2018, o Escudo Identitário organizou uma viagem coletiva até à cidade de Guimarães, encarada como o berço da nação portuguesa, para lá realizar uma parada fascista e um ritual de adesão dos seus novos militantes. Não seria a única ação do género.

Um mês depois, em novembro de 2018, a organização surgiu nas notícias por ter, numa única noite, colado mil cartazes contra o mito da “ideologia de género” em cerca de 300 escolas em Lisboa, Porto, Faro, Montijo, Almada, Cascais, Oeiras, Loures, Sintra e Vila Nova de Gaia. Voltaram a tentar uma proeza semelhante, mas teve muito menos impacto mediático.

Em dezembro de 2018, o Escudo Identitário organizou uma parada neofascista na praça dos Restauradores, Lisboa, para celebrar o dia da restauração da independência portuguesa em 1640. Em parada, com alguns segurando tochas e bandeiras, duas raparigas depositaram uma coroa de flores no Monumento aos Restauradores. Foi a primeira vez em anos que se assistiu a uma parada neofascista do género em Portugal.

A partir daí, o Escudo Identitário passou a organizar ações de “solidariedade”, distribuindo bens e comida entre os mais desfavorecidos, divulgando-as nas suas redes sociais, e eventos de treino de artes marciais ao ar livre.

Foi uma réplica da estratégia social levada a cabo pelo Hogar Social e pelo CasaPound Italia, com o segundo a ter centros sociais onde dá apoio social aos italianos – e só aos italianos. Daí que uma comitiva de 20 escudistas, acompanhada por João Martins, tenha ido a Roma, em Itália, conhecer a experiência política dos seus congéneres italianos.

Os contactos internacionais, a que se juntam iniciativas com e sobre os identitários espanhóis do Hogar Social, continuaram e outro dos seus pontos altos foi a conferênca “Prisma”, a 4 de maio de 2019, em Lisboa.

Os oradores foram o tenente-coronel Brandão Ferreira, cronista em O Diabo, Nuno Afonso e Luís Graça. A principal oradora foi Olena Semenyaka, responsável do Departamento Internacional do Corpo Nacional, o braço político do neonazi ucraniano Movimento Azov.

“A Olena Semenyaka agradecemos profundamente o esforço em estar presente, a elucidativa palestra sobre a situação política no seu país e a militância do Azov”, lê-se numa publicação do Escudo Identitário no Facebook.

Mas nem tudo correu bem a partir da conferência. A cúpula do Escudo Identitário e João Martins entraram em divergência e desde então que a confluência que se via entre PNR, Portugueses Primeiro e Escudo Identitário colapsou. Martins chegou inclusive a acusar os escudistas de terem deixado de ser identitários, com estes a refutarem as acusações.

Desde esse momento que o Escudo Identitário vem perdendo capacidade de mobilização. No 10 de Junho de 2019 conseguiu organizar uma manifestação em Lisboa com cerca de 100 pessoas, mas foi a sua última grande mobilização – fê-lo separadamente do PNR –, mas no mesmo dia em 2020 a ação de homenagem teve menos de uma dezena de apoiantes.

As restantes ações, seja de convívio ou para assinalar datas simbólicas, têm ido pelo mesmo caminho: menos de duas dezenas de membros. Os novos líderes da organização tentaram, em junho de 2020, ter uma rúbrica “Hora do Lince” na Radio Bandiera Nera, mas apenas lançaram um episódio. Era suposto ser um “programa de atualidade, política e cultural do Escudo Identitário”.

O Escudo Identitário está hoje fragilizado, apesar de a Europol dizer que é “um dos grupos identitários mais ativos em Portugal”, por ter perdido a sua liderança inicial. E o seu site, até 2019 bastante atualizado e com uma loja de merchandising, está hoje destituído de conteúdo, excetuando um pequeno manifesto.

A liderança em triunvirato do Escudo Identitário acabou pouco depois da conferência. Nuno Afonso desapareceu de cena; Manuel Rezende saiu da direção e foi candidato a conselheiro regional da zona Norte na “Lista futuro” para a Juventude do Chega, até ser afastado por ligações ao Escudo Identitário; e Luís Graça focou-se em fortalecer laços com a extrema-direita ucraniana viajando pelo menos uma vez até Kiev.

A organização, profundamente debilitada, ficou mais a cargo de Irene Sousa, uma escudista do Porto, e de João Saraiva, de Lisboa, e apoiante da claque benfiquista Diabos Vermelhos. Organizaram uns quantos convívios, treinos de artes marciais e ações de propaganda, mas pouco mais. Hoje, diz o Escudo Identitário, a organização tem uma sede no Porto.

Devido às divergências e à pandemia de covid-19, o Escudo Identitário tem hoje menos atividade que até 2019 e menos pontes de contacto. O discurso identitário que o caracterizava no início esbateu-se e não apresenta argumentos além do senso comum nacionalista. Ou seja, acusam os seus críticos, o Escudo Identitário perdeu a sua identidade original.

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