Partido Nacional Renovador/Ergue-te!

PARTIDO NACIONAL RENOVADOR/ ERGUE-TE!

O Partido Nacional Renovador (PNR) é a formação partidária de extrema-direita mais duradoura do período democrático português. Nunca conseguiu eleger deputados nas eleições legislativas e europeias a que concorreu nem sair das margens da política portuguesa, sendo ultrapassado pelo Chega em 2019. Perdido o estatuto de principal partido de extrema-direita e, em crise, a liderança de José Pinto-Coelho rebatizou-o com o nome Ergue-te!.

No final da década de 1990, a extrema-direita estava fragmentada em vários grupos e sem um projeto político capaz de a agregar. Foi então que um grupo de militantes que tinham passado pelo MIRN, Movimento de Acção Nacional (MAN), Movimento Nacionalista e Ordem Nova decidiu criar um partido político que se afirmasse como alternativa eleitoral.

"Fomos o único partido em Portugal que apoiou fervorosamente Bolsonaro enquanto candidato e o único que se congratulou fervorosamente com a sua eleição" – José Pinto-Coelho em entrevista à SAPO24

António da Cruz Rodrigues, que passou pelo Movimento Popular Português e pelo Partido da Democracia Cristã, criou o grupo Aliança Nacional e encetou esforços para o transformar num novo partido. Organizou reuniões na sede da editora Nova Arrancada, no Largo do Carmo, em Lisboa, e juntou à sua volta alguns nomes como o de José Pinto-Coelho e Luís Paulo Henriques, ex-líder do MAN e diretor-executivo da editora.

Entre 1997 e 1998, os dirigentes deste grupo tentaram recolher o limite mínimo de assinaturas (na altura, cinco mil) para legalizar o novo partido junto do Tribunal Constitucional, mas não tiveram sucesso. Esta situação obrigou-os a estabelecer contactos com outros grupos nacionalistas sediados no norte de Portugal, mas voltaram a falhar. Era necessária uma estratégia alternativa para se formar um partido.

Gorada a possibilidade de transformar a Aliança Nacional em partido e incapaz de recolher cinco mil assinaturas, o grupo definiu uma estratégia para contornar as barreiras legais: comprar o Partido Renovador Democrático, do antigo presidente Ramalho Eanes. O PRD, criado em 1985, entrou de rompante nas primeiras eleições legislativas, obtendo 17% dos votos. No entanto, quanto maior a subida, maior é a queda: só conseguiu 5% na corrida eleitoral seguinte e, a partir daí derrapou, até ser comprado pelo PNR.

Já em estado vegetativo, carregado de dívidas e em decomposição partidária, a liderança do partido estava, em 1999, a cargo de Manuel Vargas Loureiro. Uma situação perfeita para o assalto da extrema-direita.

Em 1999, os membros da Aliança Nacional infiltraram-se no partido defunto, forçando Manuel Vargas Loureiro a negociar o assumir de controlo por parte deste grupo, assumindo as dívidas contraídas pelo PRD – um processo cuja liderança coube a José Luís Paulo Henriques.

Vargas Loureiro aceitou a proposta dos militantes de extrema-direita e, a 13 de novembro de 1999, na Convenção Nacional do PRD, composta quase exclusivamente por elementos da Aliança Nacional, o processo foi aprovado. Os militantes da Aliança Nacional assumiram os órgãos diretivos do partido e submeterem um novo nome, símbolo e estatutos ao Tribunal Constitucional, que o aprovou a 12 de abril de 2000.

O PRD passou a chamar-se Partido Nacional Renovador e o símbolo adotado não deixava margem para dúvidas: a insígnia era em tudo semelhante à da Frente Nacional francesa, e a chama estilizada já fora também utilizada por movimentos como o inglês National Front e o italiano Movimento Sociale Fiamma Tricolor. O primeiro presidente do novo partido foi o histórico Cruz Rodrigues.

Divergências na cúpula

A extrema-direita voltava a ter um partido legal e o seu primeiro teste foram as candidaturas às autárquicas de 2001, nomeadamente em Lisboa e Mafra, os únicos concelhos em que o PNR conseguiu formar listas.

Conquistou uns escassos 877 votos e para isso contribuiu em parte o anonimato em que o partido praticamente se mantinha na altura – situação que se alterou a partir de 2005.

Ainda pouco conhecidos quando se realizaram as eleições legislativas de 2002, conseguiram 4712 votos, tendo apresentado listas em apenas oito círculos eleitorais (Castelo Branco, Coimbra, Évora, Lisboa, Porto, Setúbal, Europa e Fora da Europa). Os resultados conquistados deram azo a conflitos no seio da liderança do PNR a propósito de questões estratégicas, de objetivos e ambições, mas também geracionais, entre a ala salazarista e a europeia.

A primeira corrente era constituída por neofascistas saudosistas do Estado Novo com o tradicional discurso “multirracial” do império ultramarino e era liderada por Cruz Rodrigues, descreve o politólogo Mourão da Costa no artigo académico O Partido Nacional Renovador: a nova extrema-direita na democracia portuguesa, de 2011. Já a segunda corrente era caracterizada por incluir uma geração mais jovem, influenciada pelos partidos congéneres europeus, como a francesa Frente Nacional. 

O seu rosto veio a ser José Pinto-Coelho. Este nacionalista de extrema-direita assumiu um discurso marcadamente identitário, racialista, etnocêntrico e desejava agregar toda a extrema-direita, enquanto Cruz Rodrigues queria excluir os racialistas.

As divergências atingiram um novo patamar na I Convenção Nacional do PNR, em janeiro de 2002, e a solução encontrada no momento foi a de incluir Paulo Rodrigues, em tempos outro líder destacado do Movimento de Ação Nacional, na Comissão Diretiva.

Mas Cruz Rodrigues não a aceitou, por entender que os seus poderes ficariam reduzidos, e apresentou uma lista própria no último minuto, acabando derrotado e fora do órgão executivo, conta o politólogo Riccardo Marchi no livro The Portuguese Far Right: Between Late Authoritarianism and Democracy (1945-2015), de 2019. Além disso, a sede oficial do partido foi alterada da morada da Nova Arrancada para a Rua da Prata, simbolizando a cisão com Cruz Rodrigues.

O partido estruturou-se sob a liderança de Paulo Rodrigues e, na II Convenção Nacional, em 2005, José Pinto-Coelho assumiu a chefia do PNR. E é aqui que o PNR entra numa nova fase.

O novo líder considera-se católico, monárquico e nacionalista de extrema-direita. A sua militância nas hostes nacionalistas da ultradireita vem de longe: iniciou o seu ativismo no Movimento Nacionalista, participou em ações do Movimento Independente para a Reconstrução Nacional (MIRN) e colaborou com a revista O Século, dirigida por Jaime Nogueira Pinto. Foi também imigrante no Brasil, apesar de ter uma posição hostil contra a imigração.

Foi com a chegada à liderança de Pinto-Coelho que o PNR perdeu qualquer pudor em integrar os racialistas, como Cruz Rodrigues tinha tentado evitar. Em 2005, Mário Machado, então líder da Frente Nacional e dos boneheads (skinheads de extrema-direita) Portugal Hammerskins, aderiu ao PNR e estabeleceu uma aliança com José Pinto-Coelho, conquistando o acesso à cúpula do partido de extrema-direita.

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José Pinto-Coelho, presidente do PNR
José Pinto-Coelho, presidente do PNR

Em troca da adesão, o PNR “ganhou” mais de uma centena de fervorosos militantes, dispostos a cometer atos de violência, muitos deles recrutados entre as camadas jovens das periferias de Lisboa.

A direção do partido chegou inclusive a distinguir Machado como “militante ativista do ano” em 2005 e este classificava o PNR como a única organização legal com “bastantes componentes nacional-socialistas”, citado pela edição de 19 de junho de 2005 do Público.

“Sou amigo do Mário, é um excelente nacionalista. Aprovo todos os tipos de nacionalismo, de toda a gente que ama a sua pátria. O Mário foi a face mais visível da fase impulsionadora do nacionalismo”, revelou José Pinto-Coelho em entrevista ao semanário SOL, na edição de 14 de abril de 2007.

A relação tornou-se tão próxima que Machado dava “instruções ao nível de intervenções públicas, iniciativas do partido e até distribuição de cargos dentro do PNR”, disseram fontes da PJ ao Correio da Manhã, baseando-se em escutas telefónicas. “É claro como a água que eu também estive sob escuta, mas não recebi quaisquer instruções partidárias. Sou um grande amigo do Mário Machado e claro que trocamos impressões sobre tudo, mas ele nunca me deu instruções”, reagiu em novembro de 2007 o presidente do PNR, citado pelo mesmo jornal.

O esquema original não deveria ter sido este. Depois da eleição de Pinto-Coelho, o partido criou a Juventude Nacionalista para enquadrar a militância juvenil na estrutura partidária, mas esta organização depressa foi eclipsada pela Frente Nacional, já consolidada entre o setor juvenil.

O PNR delegou então de forma tácita essa função à Frente Nacional de Mário Machado, contribuindo para o esvaziamento da sua própria organização juvenil, segundo Mourão da Costa.

A Frente Nacional transformou-se no braço armado do PNR ao garantir a segurança dos protestos e eventos por si organizados, enquanto perseguia os seus adversários ideológicos e pessoas que não se encaixavam na sociedade pura e racialmente homogénea que idealizavam.

Além disso, a nova liderança delineou uma estratégia em várias frentes, mais coesa, e livre das disputas internas em que o objetivo era fortalecer as raízes territoriais e obter ganhos parlamentares.

A principal meta a alcançar era a eleição de um deputado até 2009, algo que ainda não conseguiu até hoje. O objetivo era claro: o exercício da representação política abriria o caminho à legitimação, institucionalização e consolidação do PNR no sistema partidário.

Um dos objetivos de Pinto-Coelho nesta nova fase do partido foi precisamente granjear mais atenção mediática, refere o politólogo José Pedro Zúquete no artigo académico Portugal: A New Look at the Extreme Right, de 2007, para se dar a conhecer ao eleitorado e difundir as suas mensagens racistas e xenófobas –, o aparato dos elementos boneheads alimentava o apetite da comunicação social, acrescenta Mourão da Costa.

O partido de extrema-direita agarrou-se à oposição à entrada da Turquia na União Europeia e ao casamento entre pessoas do mesmo sexo e à recusa da legalização da interrupção voluntária da gravidez. Ao mesmo tempo, tentou explorar situações que lhe dessem mediatismo.

Foi o que fez com o caso de um pretenso arrastão, que nunca aconteceu realmente, na Praia de Carcavelos, na Linha de Cascais, a 10 de Junho de 2005. O PNR convocou a “Marcha contra a criminalidade” e a Frente Nacional e a Causa Identitária, criada nesse ano e a primeira organização identitária em Portugal, marcaram presença.

Os 300 militantes de extrema-direita – mil nas contas do PNR – marcharam entre a Praça do Martim Moniz e o Rossio a 18 de junho desse ano e, durante o discurso de Humberto Nuno Oliveira, na altura dirigente do PNR, dois dos manifestantes fizeram a saudação nazi.

Semanas depois, a 17 de setembro de 2005, a extrema-direita regressou às ruas para um novo protesto convocado pelo PNR, desta vez contra o alegado lobby gay. Membros da Frente Nacional e da Causa Identitária marcaram presença no que foi a última demonstração de cooperação entre as três organizações.

Em janeiro de 2006, o PNR promoveu uma concentração na Alameda D. Afonso Henriques, em Lisboa, em memória dos emigrantes portugueses assassinados na África do Sul. Colocou cerca de 300 cruzes no relvado, replicando um evento semelhante organizado pela extrema-direita alemã devido ao bombardeamento de Dresden na II Guerra Mundial.

Linhas programáticas e discursivas

A mudança de liderança significou uma alteração na estratégia do PNR. José Pinto-Coelho tinha os olhos postos nos seus congéneres estrangeiros e quis renovar a imagem do nacionalismo português alinhando-o – em boa verdade, imitando – com o de outros partidos europeus. No entanto, o PNR manteve-se numa área política considerada pelos politólogos como a da extrema-direita tradicional, analisa Marchi no mesmo livro.

O partido estabeleceu relações internacionais, apesar de serem mais informais do que formais, e a escolhida como parceira privilegiada foi a francesa Frente Nacional, na altura ainda liderada por Jean-Marie Le Pen, sublinhou Mourão da Costa. Exemplo disso são os discursos de Pinto-Coelho, como o da maioria silenciosa ("dizer em voz alta o que os portugueses pensam em silêncio"), que eram muitas vezes adaptações dos discursos e chavões de Le Pen.

O PNR adotou uma plataforma política dita "antissistema", semelhante à retórica empregue hoje pelo Chega, dizendo recusar a clivagem esquerda /direita e posicionando-se acima desta: "Os Portugueses Primeiro" – slogan que inspiraria, em 2015, a Associação Portugueses Primeiro, braço cultural do partido.

Em 2005, o discurso antissistema do PNR repudiava os partidos tradicionais, do centro-direita à extrema-esquerda, descrevendo-os como agentes corruptos do sistema e responsáveis pela "degeneração" e "destruição" do país. O partido apresenta-se como o partido da nação contra os dos políticos corruptos.

Já a comunicação social tradicional é, para o partido, dominada por uma elite de esquerda que manipula a população e a mantém manietada, não esquecendo as escolas e universidades, supostamente dominados pelo "marxismo cultural" e pela "ideologia de género".

Em suma, o partido considera existir uma espécie de conspiração maciça e silenciosa que penetrou as atuais estruturas institucionais de poder em Portugal, que rejeita desde a Revolução de Abril.

Na sua conceção do Estado, o PNR diz que este é uma extensão “natural” da família, a primeira célula da comunidade. Nada de novo: defende um Estado "forte", punitivo e securitário. Na economia, quer um modelo com uma certa intervenção estatal, e de Estado Social chauvinista, muito à moda da última fase da Frente Nacional de Jean-Marie Le Pen, o homem que qualifica o Holocausto como um "pormenor" da História.

Mas a grande bandeira do PNR tem sido, sem dúvida, o combate ao multiculturalismo e à imigração, com foco nos cidadãos oriundos de países de maioria muçulmana.

O PNR defende ainda uma rutura de Portugal com o Acordo Schengen, assim como a implementação de um programa "humanitário", como uma vez o adjetivou, de repatriamento em massa de imigrantes com residência em Portugal. Também exige a criação de leis que confiram prioridade aos cidadãos nacionais no acesso ao mercado de trabalho e que os excluam do acesso ao Estado Social.

"As tendências mundialistas e multiculturais, das quais a imigração é apenas uma das faces, e que constituem uma ameaça à identidade, independência, e segurança nacionais. Migrações sempre existiram e sempre existirão, nós somos contra as políticas que promovem a invasão imigrante, não contra o imigrante", lê-se num panfleto do PNR de 2004.

No mesmo panfleto, o partido de extrema-direita relaciona imigração com criminalidade dizendo que "o número de crimes dispara" por a lei ser "incapaz de combater eficazmente a droga, a miséria e a imigração". É uma afirmação desconectada dos factos. De acordo com um estudo, a criminalidade em Portugal manteve-se "relativamente estável" entre 1994 e 2007 e, segundo o Diário de Notícias, a GNR registou uma diminuição de 14% dos homicídios entre 2004 e 2005.

O PNR adota ainda uma postura discursiva contra a globalização – culpando o "capitalismo excessivo" – e as "forças externas" que, na sua ótica, homogeneízam as nações, retirando-lhes as suas particularidades e liquidando-as, conforme se lê no seu programa de 2005. 

Para o PNR, nesta altura, a União Europeia era "aberrante", "antinatural" e existia para servir "interesses obscuros" e "fins capitalistas", defendendo a saída de Portugal – nas europeias de 2019 deixou de o fazer, alegando querer mudar a UE por dentro, à semelhança de Marine Le Pen, líder do francês Reagrupamento Nacional (antiga Frente Nacional).

O grande erro do PNR e a criminalidade

Na sequência de uma reportagem da RTP, de 2006 e em que Machado mostrou uma caçadeira e disse que os nacionalistas estavam, se necessário, preparados para a luta armada, a PJ avançou e deteve no dia seguinte o líder dos PHS e da Frente Nacional. E quem saiu em sua defesa foi nada menos nada mais que o presidente do PNR.

“Estamos solidários com Mário Machado. Acho que isto tudo foi arquitetado. Parece estranho um mandado de busca e detenção após um programa de televisão”, disse José Pinto-Coelho à Lusa a 7 de junho de 2006.

Meses depois, a 18 de abril de 2007, a então Direção Central de Combate ao Banditismo (hoje Unidade Contraterrorismo) da Polícia Judiciária desencadeou a primeira mega operação contra os boneheads. As lideranças do PHS e da Frente Nacional, que se cruzavam, ficaram debilitadas. E pelo meio a do PNR, por alguns dirigentes seus também terem sido alvo da PJ.

Foram feitas 58 buscas domiciliárias, estiveram envolvidos 190 inspetores e foram detidos 31 elementos dos PHS e da Frente Nacional, dos quais 27 em flagrante delito por terem armas proibidas, entre os quais Machado. A Frente Nacional nunca mais recuperou a força que  chegou a ter e o PNR ficou para sempre marcado pela colagem aos boneheads, dadas as constantes notícias dos anos seguintes sobre o processo judicial.

"Hoje, pode dizer-se que a Frente Nacional já se dissolveu. Há elementos nossos no Conselho Nacional do PNR", disse Machado em abril de 2008, na terceira sessão do julgamento.

Não foi o único caso de criminalidade a atingir o PNR. Em 2008, António Frazão, fundador do núcleo do partido em Sintra, foi detido pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras por explorar 30 mulheres em quatro bordéis em Massamá, Linda-a-Velha, Amadora e no centro de Lisboa. Cobrava a cada uma das mulheres 50% de comissão pelos serviços sexuais e faturou 125 mil euros só nos primeiros três meses desse ano.

Meses antes, em setembro de 2007, a liderança do PNR agradeceu e elogiou a oferta de Frazão de 30 cadeiras novas para a sua sede em Lisboa. O doador já na altura ostentava sinais exteriores de riqueza, como o novo carro BMW que conduzia. Além disso, o fundador do núcleo de Sintra já tinha sido, também em 2007, condenado a cinco anos de pena suspensa pelo crime de lenocínio, sem que o PNR se afastasse dele, apesar de condenar veementemente a prostituição.

A exposição mediática e as investigações judiciais tiveram um impacto inegável na desmobilização do partido, afirmou Mourão da Costa. Vários elementos nacionalistas afastaram-se do PNR, minguando ainda mais a sua base de militância, e a liderança ficou cada vez mais centrada em Pinto-Coelho e no seu círculo mais próximo.

Além disso, a liderança do PNR distanciou-se de outros partidos de extrema-direita europeus que pudessem dar azo a acusações de o partido português ser neofascista. No entanto, o PNR rompeu com essa postura com a eleição presidencial de Jair Bolsonaro no Brasil, em 2018, ao ter outdoors a elogiarem-no – no Saldanha, em Lisboa, por exemplo.

Tentativas para alargar universo do PNR

Sem conseguir alargar a sua base social de apoio nem fazer pontes com outros grupos nacionalistas, elementos com grande passado de militância no PNR (Vítor Luís Rodrigues, Alberto de Araújo Lima, Humberto Nuno de Oliveira) decidiram criar em 2010 o Movimento de Oposição Nacional (MON) para alargar o universo do partido.

A associação queria “articular uma rede de grupos diversos que convirjam na mesma direção ao lado de todas as organizações nacionalistas e patrióticas”, declarando não concorrer com a atividade político-eleitoral dos partidos.

O movimento desapareceu em quatro anos e uma parte dele deu origem à Nova Ordem Social, de Mário Machado.

Mas houve outras tentativas de superar a marginalidade política. A oposição à imigração e ao multiculturalismo, denunciando a suposta islamização da Europa, continuaram a ser as principais bandeiras do PNR. Em 2015, embalados pela chamada "crise dos refugiados", elementos próximos do PNR criaram a Associação Portugueses Primeiro (P1) para agir como braço cultural do partido. Pequenas manifestações foram organizadas e ações mediáticas realizadas, sem, no entanto, terem retirado grande sucesso destas iniciativas.

A linha identitária foi insuficiente para o PNR romper com a marginalidade política e o partido viu na réplica dos protestos dos coletes amarelos em Portugal uma oportunidade mediática. Há meses que milhares de pessoas, envergando coletes amarelos, contestavam as políticas e a presidência de Emmanuel Macron em França.

Três dos seus militantes criaram um primeiro evento no Facebook chamado “Vamos parar Portugal como Forma de Protesto” e em poucos dias eram 14 os eventos na página do Movimento Coletes Amarelos Portugal, entretanto criada. O grande dia para a paralisação do país era 21 de dezembro de 2018 e a PSP antecipou grandes manifestações.

Entretanto, o PNR ia partilhando os eventos dos protestos nas redes sociais e apelando à participação. Os organizadores dos restantes protestos vieram a público assumir uma posição de neutralidade quando confrontados com a colagem à extrema-direita: "Não defendemos, nem atacamos ideologias raciais, nem de género. O nosso objetivo visa exclusivamente a corrupção e o uso de dinheiros públicos".

Chegado o dia, com manifestações marcadas um pouco por todo o país, o protesto nacional dos coletes amarelos portugueses mostrou-se um verdadeiro fiasco. Não conseguiu paralisar o país e, em muitos dos protestos, havia mais jornalistas e polícias que manifestantes.

Foi o que aconteceu no Marquês de Pombal, em Lisboa, onde Pinto-Coelho apareceu e acabou por encabeçar o protesto dos coletes amarelos. "A nossa manifestação foi estragada por um movimento de pessoas da ala de extrema-direita", disse ao Público Luísa Patrão, uma das organizadoras, acrescentando que o movimento era pacífico e que não se revia "na postura de violência liderada pelo PNR".

Um dos três manifestantes detidos pela PSP por resistência, desobediência e coação das autoridades no Marquês de Pombal foi João Vaz, guarda prisional então com 36 anos e militante do PNR. É também um dos arguidos no processo criminal contra 27 membros dos Portugal Hammerskins (PHS) e suspeito de ter participado no espancamento de um sindicalista e militante do Partido Comunista Português nas proximidades do Coliseu dos Recreios, em Lisboa, em setembro de 2015. O sindicalista ficou com sequelas neurológicas para o resto da vida.

O PNR voltou meses depois, em fevereiro de 2019, a surgir nas notícias ao organizar uma manifestação contra um debate em que Jean Willys, até recentemente membro da Câmara dos Deputados brasileira pelo PSOL e que abandonou o Brasil devido a ameaças de morte por parte de apoiantes de Jair Bolsonaro, seria orador na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra.

Mais de duas centenas de antifascistas marcaram presença numa contramanifestação e abafaram o protesto de extrema-direita, participado apenas por uma dúzia de pessoas. Uma delas era Vítor Ramalho, instrutor de artes marciais e candidato pelo PNR nas autárquicas de 2017 em Coimbra. O histórico dirigente do PNR levou com purpurinas azuis e vermelhas na cara e ficou manchado até ao final do protesto, sofrendo uma humilhação.

Resultados eleitorais

A expressão eleitoral da extrema-direita sempre foi residual até ao surgimento do Chega. O PNR, representando a velha extrema-direita e colado aos neonazis, teve uma fraca capacidade de implantação e de alargamento da sua base eleitoral. A sua debilidade eleitoral fica bem espelhada nos resultados conquistados até aos dias de hoje.

Nunca conseguiu ultrapassar os 30 mil votos nem alcançar 1% de votos nas eleições legislativas, europeias e autárquicas, quanto mais eleger um representante – com a passagem dos anos, o objetivo do partido passou a ser chegar aos 50 mil votos nas legislativas, uma vez que é a meta para se receber financiamento público.

Legislativas:

Eleições Nº de votos % de votos
2002 4.712 0,09%
2005 9.374 0,16%
2009 11.503 0,20%
2011 17.548 0,31%
2015 27.269 0,50%
2019 17.126 0,3%

 

Europeias:

Eleições Nº de votos % de votos
2004 8.405 0,25%
2009 12.214 0,37%
2014 15.036 0,46%
2019 16.014 0,49%


Autárquicas (total nacional):

Eleições Nº de votos % de votos
2001 877 0,02%
2005 1.759 0,03%
2007 (intercalares de Lisboa) 1.466 0,76%
2009 1.202 0,12%
2013 3.002 0,06%
2017 4.744 0,09%

 

Nas legislativas de 2019, o Chega de André Ventura conseguiu em apenas um ano o que o PNR foi incapaz em quase 20: eleger um deputado para o Parlamento ao obter mais de 67 mil votos. O PNR perdeu então o estatuto de principal força política de extrema-direita, que deteve por quase 20 anos, para o Chega.

Mas recuemos um pouco. O PNR nunca conseguiu ter destaque positivo na comunicação social nem uma figura carismática que pudesse atrair os holofotes mediáticos e quando André Ventura, então militante do PSD, se candidatou à Câmara de Loures, nas autárquicas de 2017, Pinto-Coelho convidou-o publicamente a aderir ao PNR.

“Venha para o PNR e será livre”, escreveu no Facebook o líder do partido de extrema-direita em julho de 2017. “Infelizmente, ao que parece, alguns dos ‘meus’ ainda andam pelos partidos do sistema”, afirmou Pinto-Coelho, agora no Twitter.

Na altura, antes de se alinhar com a extrema-direita europeia, Ventura respondeu dando uma ferroada ao PNR, dizendo “repudiar veementemente qualquer associação de pessoas ou grupos, políticos ou civis de carácter racista ou xenófobo”. Pinto-Coelho não esqueceu e quando Ventura criou o Chega, voltou a dirigir-lhe a palavra, desta vez com críticas.

“Não há mais nenhum partido em Portugal que defenda aquilo que nós defendemos. Tudo aquilo que possa surgir são cópias rascas e não têm futuro e isso vai-se ver”, escreveu Pinto-Coelho em maio de 2019, referindo-se à coligação Basta (Partido Popular Monárquico, Partido Pró-Vida e a génese militante do Chega), liderada por Ventura, para as eleições europeias desse ano.

A coligação Basta foi incapaz de eleger para o Parlamento Europeu, mas o mediatismo de Ventura apontava para a forte possibilidade de o Chega eleger pelo menos um deputado para a Assembleia da República. Foi o que aconteceu.

A frustração de Pinto-Coelho foi pública. “Muito triste…vir um oportunista, levado ao colo pela comunicação social, cheio de dinheiro, com outdoors em todo o país, apropriando-se de parte do nosso discurso – sem convicção – rouba-nos anos de trabalho”, escreveu no Twitter um dia depois das legislativas de 6 de outubro de 2019.

Mergulhada em crise, a liderança do PNR optou por reposicionar o partido com o “nacionalismo renovador para o século XXI”, mudou a composição dos órgãos sociais, o nome e a imagem. Pinto-Coelho submeteu a “alteração de denominação, sigla e símbolo” ao Tribunal Constitucional a 25 de março de 2020 e este aprovou-o em Julho do mesmo ano com o acórdão n.º371/20.

A profunda crise interna mantém-se, além das avultadas dívidas. Pinto-Coelho admitiu, em entrevista à SAPO24, já ter tido o carro e o salário penhorados. “Não cai nada em saco roto – contas do partido penhoradas – andamos sempre nisto, vivemos em cima do arame e sem rede”, disse.

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