Pessoa médica a frequentar o Internato de Formação Geral. Mantém ativismo político e LGBTI+ na Associação Anémona e na rede ex aequo, promovendo cuidados de saúde para pessoas Trans e Não binárias e educação para saúde sexual e LGBTI+.

As vidas trans importam e a nossa existência não é uma opinião

A transfobia mata cada vez que uma pessoa trans é segregada no desporto, no acesso à habitação, ao emprego ou ao procedimento médico. Enquanto todas estas formas de violência nos tentarem reprimir, nenhuma de nós poderá dizer que vive livremente. Existiremos em resistência, numa luta ativa, não caladas e não submissas.

Ensaio
28 Julho 2022

Tudo começa antes de se nascer. Determinam qual o nosso sexo biológico, mesmo sem certeza, com base na presença (ou não) de um órgão. A partir daí transferem essa presunção para a nossa família, que nos educa com esse género determinado. Atribuem-nos roupas, cores, expectativas, profissões, enfim, vários estereótipos que condicionam a nossa personalidade e quem vamos ser. Recebemos estímulos para manter esse género e, pelo meio, tornam errado tudo aquilo que nos faz ser de outra forma que não aquela que nos foi determinada. 

Para uma parte da população, não haverá problema. Vivem e não sofrem com a determinação social que lhes foi imposta, não precisam de criticar e de questionar todo este mecanismo. Quando falamos de pessoas trans, falamos de um descontentamento com papéis de género, mas também de  uma revolução (interna) que protege a nossa essência, a nossa identidade, a forma como olhamos para nós mesmas, vendo uma pessoa que não é aquela que nos foi imposta. 

Foi o que aconteceu comigo. Quando era criança pude explorar quem era, pude brincar com outras crianças diferentes de mim, com muito pouca pressão para corresponder a padrões de género. Cresci como adolescente que sabia que era diferente, não sabendo exatamente qual a diferença. Nunca questionei, até já ser uma pessoa adulta, qual seria o meu género. Sentia que era diferente, sabia que poderia não ser aceite por ser diferente, mas não entendia realmente onde habitava essa diferença em mim. 

Foi até fazer a minha tese de mestrado, conhecer várias outras pessoas como eu e entrar em associações LGBTI+ que finalmente dei nome àquilo que sentia. Encontrei a minha “caixinha”, percebendo que sou uma pessoa trans, uma pessoa não-binária. 

Já defendia direitos LGBTI+ mesmo antes de saber que o fazia para mim mesmo. Foi na área da saúde, onde trabalho, que dei os primeiros passos na defesa de direitos humanos, mais especificamente os de pessoas trans e não-binárias.

A saúde e a comunidade médica têm uma dívida histórica para com pessoas trans.

A saúde e a comunidade médica têm uma dívida histórica para com pessoas trans. Desde a criminalização à diabolização, passando pela patologização, as organizações de saúde têm estigmatizado, violentado e tratado as pessoas LGBTI+ como doentes, remetendo-nos para uma segregação social que deteriora a nossa própria saúde.

Em Portugal, temos desde 2018 uma lei que protege a nossa saúde, a nossa autodeterminação de género e a proteção de características sexuais. Ainda assim, a lei peca por não ser aplicada permitindo a existência de pessoas trans que são ativamente bloqueadas de aceder a cuidados de saúde: procedimentos de afirmação de género, consultas nos centros de saúde ou especialidades, no serviço de urgência para o tratamento de alguma condição urgente. 

A discriminação e a violência continuam no atendimento por profissionais de saúde que não têm o devido conhecimento acerca do que é ser-se trans e de como nos tratar com respeito. A informação e formação de profissionais de saúde sobre matérias LGBTI+, nomeadamente saúde trans, é inexistente.

Cada profissional de saúde, pelo seu próprio interesse, depende da boa vontade de associações e profissionais que tenham sensibilidade para a temática para receberem a devida formação. Ao mesmo tempo, a transmissão de informação a familiares e pessoas trans não acontece, impedindo-nos de conhecer que cuidados de saúde existem, os seus riscos e benefícios.

As listas de espera remetem uma pessoa trans, que queira realizar procedimentos de afirmação de género, a uma espera desesperante. Vários meses de espera para uma primeira consulta que inicia o processo, outros tantos meses de espera para a especialidade seguinte, mais meses para a primeira consulta cirúrgica e depois mais uns quantos meses de espera até chamarem para a primeira cirurgia. Nisto, passam, no mínimo, três anos. 

Além disso, vários procedimentos não são comparticipados pelo Estado ou existem apenas em alguns centros de saúde, como é o caso das remoções definitivas de pêlos, terapias da fala (que existem em poucos centros hospitalares), harmonizações faciais, cirurgias da voz ou da “maçã de Adão”. Há muitas outras terapias, já disponíveis noutros países, fora das possibilidades da população trans portuguesa. 

Por exemplo, a centralização de cuidados no Hospital de Coimbra limita que pessoas trans possam aceder a procedimentos cirúrgicos de afirmação de género. Limita quem vem de longe, quem mora nas ilhas, quem já tem anos de lista de espera noutro local e se vê novamente no fim desta lista. É urgente a descentralização de cuidados menos especializados. De consultas. De cirurgias. De serviços de saúde mental.

A saúde mental continua a ser ignorada e a pessoa LGBTI+ patologizada. Não é por uma pessoa ser LGBTI+ que terá perturbações ou sintomas de saúde mental, mas uma pessoa LGBTI+, por causa da discriminação social de que é constantemente alvo, tem uma maior vulnerabilidade por sofrer várias violências e, por isso,  maior risco de desenvolver esses sintomas e perturbações.

É urgente que haja determinação de grupos vulneráveis para patologia psiquiátrica e que se desenhem políticas públicas para cuidados de saúde mental com foco na população na população jovem trans.

Episódios de violência e assédio verbal, sexual, físico e psicológico são uma realidade que sentimos na pele, daí que seja  urgente que haja maior foco na proteção da nossa saúde mental. É urgente que haja determinação de grupos vulneráveis para patologia psiquiátrica e que se desenhem políticas públicas para cuidados de saúde mental com foco na população jovem LGBTI+, na população jovem trans. 

Quando falamos na impressão social que a opinião pública tem de pessoas Trans, temos de falar da forma como os órgãos de comunicação social condicionam a perceção sobre as pessoas trans. É dada voz, em colunas de opinião, a pessoas que não nos entendem, que não nos conhecem e que só nos querem apagar, seja pela invisibilidade a que nos remetem seja pela propagação de ódio com que lucram. 

No cinema, por exemplo, pessoas Trans têm, quando não são invisíveis, as suas vidas deturpadas, caricaturadas, representadas por atores cisgénero e escritas por pessoas cisgénero que nunca vivenciaram o que “ser trans” lhes poderia esclarecer. O seu corpo é alvo constante de objetificação. Repetem a frase “nasci no corpo errado”, comunicando a falsa ideia de que toda a pessoa trans tem um problema com o seu corpo, quando o problema é a sociedade que mente, discrimina e fala por si. 

O problema é a violência. O trabalho, dificultado por falsas entrevistas de emprego, recusadas quando nos assumimos como trans. O problema é perder a habitação quando a nossa família não aceita quem somos. Jovens e muitas vezes ainda sem fonte de rendimento, deixamos de ter um teto para dormir, um espaço seguro, e arriscamos-nos a ficar em situação de sem-abrigo. O problema é a violência doméstica (não apenas física, mas também psicológica e económica), da própria família, do homem que nos fetichiza e põe em situação de maior risco e fragilidade.

A experiência de ser trans não é igual para cada pessoa. Cada pessoa é uma pessoa. E cada pessoa não-binária viverá a sua experiência com o género de um modo único. A forma como somos “passáveis” enquanto pessoas cisgénero permite-nos viver invisíveis, mas em segurança. Permite que uma mentira seja a máscara diária de segurança, evitando agressões, insultos, assédio. Mas acabamos por abdicar de sermos nós, de nos exprimirmos como somos. 

A não-binariedade fala de uma revolta contra o sistema, contra o que é imposto, refletindo sobre várias formas de identificação, de autoperceção, de expressão de género. É por isso que não devemos feminilidade, masculinidade ou androgeneidade a ninguém e nunca seremos menos trans por isso. Diria, tal é a desumanização que lemos em colunas de opinião, que não deixamos de ser pessoas por isso.

A procura por um mundo melhor passa também por adaptar a nossa linguagem e educar, formando profissionais que lidam com o público na saúde, na educação, no serviço administrativo, nos órgãos de comunicação social. 

Não sermos representades nos mainstream media e nas artes faz-nos questionar também porque ainda não existem pessoas trans atrizes, músicas, artistas empregadas. Ao mesmo tempo, surgem peças de teatro sobre pessoas trans sem que as empreguem e contratam, ao invés, homens cisgénero para o nosso lugar, reproduzindo todos os estereótipos que nos agridem. É o chamado transfake e o seu exemplo mais recente aconteceu na peça de teatro Eu sou a minha própria mulher, do Teatro Experimental de Cascais. Nela, uma mulher trans é representada por um homem cis, não sendo gerado emprego e visibilidade para pessoas trans, instrumentalizando-as, e, por outro lado, ignorou os apelos e pedidos de ativistas e artistas trans que se fizeram ouvir.

Foi esta invisibilidade que durante muito tempo me fez crer que seria “um rapaz diferente”. Foi verdade até ser visível, até perceber quem era (conceptualmente) o ser não binário. Quando penso em jovens que existem pelo mundo, que tal como eu não têm uma pessoa trans e não binária como referência, que não podem perceber quem realmente são, angustio-me. Esta representação foi o que me salvou quando ainda não era demasiado tarde.

A forma como falamos e transmitimos informação também tem de mudar. A comunicação influencia a forma como consideramos uma sociedade inclusiva para todas as pessoas. A procura por um mundo melhor passa também por adaptar a nossa linguagem e educar, formando profissionais que lidam com o público na saúde, na educação, no serviço administrativo, nos órgãos de comunicação social. 

A própria língua portuguesa limita a existência de pessoas não-binárias, daí ser importante criar alternativas para que no dia-a-dia as pessoas que usam pronomes neutros (como é o meu caso), e consideram a utilização de pronomes e adjetivos no masculino/feminino uma perpetuação errada de quem são, possam ser incluídas no discurso que já se foi adaptado de várias formas. 

Há pequenas coisas que podemos fazer. Só um exemplo entre tantos possíveis. Cumprimentar todas as pessoas da sala, em alternativa aos senhores e senhoras (cumprimentar “ouvintes de Portugal, em vez dos ouvintes portugueses e das ouvintes portuguesas), são formas de reproduzir linguagem neutra sem chocar linguistas ou magoar a língua portuguesa. Também acho importante salientar que, no combate ativo contra a transfobia, o tema da linguagem e dos pronomes tem pouca prioridade sobre a luta pela sobrevivência.

Pelo nosso bem-estar, a nossa prioridade é a existência em segurança de todas as pessoas trans, sem que nenhuma fique para trás, sem que nenhuma sofra o que sofreu Gisberta, sem que o Brasil continue a ser o país que mais pessoas trans mata — foram assassinadas 140 o ano passado. A discriminação transfóbica mata por cada comentário que propague discurso de ódio numa caixa de comentários do Facebook. 

Mata cada vez que um funcionário trans é expulso de uma empresa por ser assumido como pessoa trans e agredido quando exige o pagamento dos dias de trabalho. Mata cada vez que uma pessoa não-binária que precisa de uma consulta no SNS para realizar um procedimento de afirmação de género se vê recusada por não encaixar no padrão binário que transmedicalistas lhe exigem. Mata cada vez que uma corrente bioessencialista ganha voz, e contamina um movimento dito feminista, excluindo pessoas trans das suas lutas.

A nossa prioridade é a existência em segurança de todas as pessoas trans. Enquanto todas estas formas de opressão e violência nos tentarem matar, nenhuma de nós poderá dizer que vive livremente em sociedade.

Mata quando correntes conservadoras, oriundas da extrema-direita norte-americana, apregoando a “ideologia de género”, apoiadas num catolicismo agressivo e dogmático que se foca em pessoas LGBTI+, continua a praticar “torturas de conversão”, deixando a quem sobrevive traumas para a vida toda. Mata cada vez que um gabinete político, associação, organização ou empresa segrega mais uma pessoa trans, seja no desporto, no acesso à habitação, no cargo de trabalho e/ou no procedimento médico.

Enquanto todas estas formas de opressão e violência nos tentarem matar, nenhuma de nós poderá dizer que vive livremente em sociedade. Existiremos em resistência enquanto pessoas trans, homens, mulheres, não-bináries, numa luta ativa, não caladas e não submissas, até podermos viver em segurança e harmonia. Não permitiremos que continuem a falar erradamente de nós, por nós e sem nós. Citando Dominique Jackson, “não pedirei respeito. Exigirei respeito. Não dirão que me aceitam, não dirão que me toleram, não têm esse poder. Eu retiro-vos esse poder. Irão respeitar-me por quem sou!”. 

É por tudo isto que usarei a minha voz para exigir esse respeito, por mim e por todas as minhas irmãs visíveis e invisíveis, que partiram ou que continuam expectantes por uma sociedade livre e inclusiva para todas as pessoas LGBTI+. Não nos calarão.