Licenciada em História, mestre em História Moderna e pós-graduada em Património (NOVA FCSH). Está a frequentar o doutoramento em História (FLUL) e é membro da equipa do Museu Tricolor. 

Licenciado em História e mestre em Museologia. Faz parte da equipa do Museu Tricolor, projeto que pretende resgatar e divulgar a história do CF Estrela da Amadora. 

Licenciado em História e mestre em História Contemporânea, pela FCSH-Universidade Nova de Lisboa, com a dissertação “Eanismo, Otelismo e a questão da 'normalização' democrática (1975-1976)”. É investigador no Instituto de História Contemporânea da mesma universidade e co-fundador do Museu Tricolor.

É o futebol um campo fértil para o fascismo?

Há razões que levam o futebol a transformar-se num palco para a militância política. A ideia de que é tendencialmente fascizante serve para justificar medidas que procuram transformar as bancadas em laboratórios de novas estratégias de controlo e repressão de multidões. Uma estratégia de criminalização que promove mais violência ao invés de a anular.

Não poucas vezes, pensar nos vínculos entre o futebol e a política serve  para destacar aquele que é o “lado negro” do desporto-rei. As parangonas dos jornais remetem-nos maioritariamente para manifestações de intolerância, xenofobia, racismo e homofobia, aliadas muitas vezes a sentimentos etnonacionalistas ou à violência do submundo do crime organizado. 

É também esse o retrato pintado por boa parte das instituições que regem o campo desportivo. Apresentam-se as expressões políticas como pouco consentâneas com o ideal do fair-play ou como excessos intoleráveis em relação à salutar rivalidade que caracteriza o desporto competitivo. Em última análise, são demonstrações que, sobretudo no contexto de provas internacionais, ameaçam a diplomacia promovida pelas instituições que regem, por exemplo, o futebol profissional. 

A postura de muitas entidades nesta matéria, da FIFA ou da UEFA à FPF, reflecte o triunfo do discurso “apolítico” no plano desportivo, que define qualquer palavra de ordem  e cântico politicamente “conotado” como inerentemente discriminatório ou violento. Recentemente, em Portugal, vejam-se as multas aplicadas aos clubes há alguns meses pelo simples fato de parte dos seus adeptos terem cantado em plenas bancadas “ninguém faz o cartão”, numa alusão à tão afamada lei em torno do Cartão do Adepto.

A ideia que o futebol é fascizante serve apenas para justificar que se transformem as bancadas do estádios em laboratórios para testar novas estratégias de controlo e repressão sobre as multidões

Há, evidentemente, razões que levam a que o futebol se transforme num palco para a militância política. Mas a ideia de que esta é tendencialmente fascizante serve apenas para justificar as medidas daqueles que procuram transformar as bancadas em laboratórios para testar novas estratégias de controlo e repressão sobre as multidões. Neutralizam assim as tentativas de apropriação desses espaços por parte dos adeptos. É uma estratégia de criminalização que, como tantas outras, promove mais violência ao invés de a anular. 

Podemos desmontar esse programa a partir de diferentes ângulos. Pôr em causa a eficácia de muitas destas medidas ou criticar os preconceitos em relação aos espectáculos populares que frequentemente subjazem à legislação que as ampara são apostas urgentes e certeiras. A nossa proposta, no entanto, segue um outro caminho: procura rebater o argumento “histórico” que vê o futebol como um alfobre para “as piores paixões” do ser humano, como diria Jorge Luís Borges. 

Futebol ao serviço do ideário fascista

No final do século XIX e nas primeiras décadas do século XX, era já evidente que o futebol se estava a tornar num fenómeno crescentemente popular. Deixava de ser património exclusivo das elites e entrava cada vez mais no quotidiano das populações das zonas urbanas mais industrializadas. A cultura associativa ligada à modalidade começou, por isso, a expressar os laços bairristas que caracterizam o associativismo local, mas também outro tipo de filiações identitárias (de classe, nacionais, étnico-raciais). 

Essa massificação do futebol tornou a modalidade particularmente aliciante para todos os movimentos políticos que têm nas massas o sustentáculo da sua legitimidade. Ainda assim, não podemos escamotear o facto de que foi talvez o fascismo italiano o primeiro regime a usar ativamente o futebol como forma de promover o seu ideário. 

A modernidade do regime fascista de Benito Mussolini no que a estratégias comunicacionais e discursivas diz respeito é conhecida. A aposta feita no cinema ou na rádio como plataformas ao serviço da propaganda fascista é um exemplo paradigmático, bem como a cooptação das vanguardas artísticas para dotar o movimento de uma estética de tipo novo. Também o futebol, movendo multidões e lotando arenas, tinha de ser posto ao serviço do regime, tanto do ponto de vista da doutrinação como da própria teatralização e encenação do poder. 

A construção de monumentais e modernos novos estádios, geralmente para acolher competições internacionais, insere-se precisamente na cenografia fascista. Dava palco às imponentes demonstrações rituais da grandeza, intemporalidade e invencibilidade do regime. 

Os principais eventos desportivos eram oportunidades perfeitas para alardear os princípios e valores de um ideário que tinha nas demonstrações de virilidade e nos apelos à vitalidade da juventude dois dos seus principais pilares. O desporto, em particular o olimpismo, servia plenamente a pedagogia fascista ao pressupor que disciplinar o corpo era também disciplinar o espírito. Ou seja, transformava os atletas num espelho do vigor e do carácter indispensáveis a qualquer bom fascista, pronto a defender a pátria dentro e fora dos recintos desportivos. 

O desporto, em particular o olimpismo, servia plenamente a pedagogia fascista ao pressupor que disciplinar o corpo era também disciplinar o espírito.

As escolas, locais de trabalho e mesmo os desfiles políticos e paradas militares passaram a ser espaços e momentos para a realização de atividades físicas, devidamente enquadradas do ponto de vista ideológico. Mas eram sobretudo as competições internacionais que melhor espelhavam esta politização do desporto, precisamente por serem um momento inigualável de afirmação externa. O Campeonato do Mundo de Itália de 1934 e as Olimpíadas de Berlim de 1936 foram a expressão culminante deste credo. 

Inicialmente, o futebol era encarado com alguma desconfiança, precisamente por não lhe ser reconhecido o mesmo potencial higienista e moralizante que teriam, por exemplo, a ginástica ou o atletismo. No entanto, era inegavelmente um terreno fértil para a mobilização das multidões em torno dos símbolos e palavras de ordem do regime. Além disso, por se tratar de uma modalidade forjada numa dinâmica de antagonismo (“nós contra eles”), mimetizava o discurso polarizador e maniqueísta do fascismo. 

O potencial propagandístico desta associação foi explorado de forma exímia, sobretudo no contexto de competições internacionais. As equipas, quando identificadas com a pátria e, por extensão, com o regime, refletiam o dever de fidelidade, o espírito de corpo e a submissão do indivíduo aos desígnios do coletivo (leia-se da nação) que o discurso fascista preconizava. 

Os meios de comunicação que prestavam cobertura a estes eventos adensavam ainda mais este discurso.  Recorriam amiúde a metáforas bélicas para descrever diferentes momentos de jogos que, mais do que um encontro desportivo, eram um confronto entre nações, regimes, ideais e, no limite, raças. Ainda hoje os relatos desportivos estão pejados dessas associações, que fazem de remates “mísseis” e de corpulentos centrais germânicos panzers. O futebol, no campo e nas bancadas, transformava-se numa sublimação da guerra.

De resto, a violência nem sempre ficava pelo plano metafórico, transbordando frequentemente para o terreno de jogo. A agressividade dos jogadores italianos dentro de campo durante o Campeonato do Mundo de 1934 só pode ser compreendida no contexto de um regime que tem no uso irrestrito da violência contra os seus opositores uma das suas características matriciais. Ficou célebre o jogo dos quartos-de-final contra a selecção espanhola, então uma República governada pela Frente Popular, em que sete jogadores da Roja tiveram de abandonar o jogo por lesão. 

A partida, que ficaria apropriadamente conhecida na história do futebol como “A Batalha de Florença”, mostrava até que ponto os atletas transalpinos foram instigados a levar o lema fascista “vencer ou morrer” às últimas consequências. Contaram, para isso, com outra das pedras de toque do fascismo: o desrespeito militante por normas e procedimentos. Jogava-se à margem de todas as leis do jogo com a anuência de equipas de arbitragem a soldo dos interesses de Mussolini. Vencer o mundial não era um desejo, era uma ordem. 

A popularidade do futebol nos meios operários era incontornável. A importância do desporto para os regimes comunistas como ferramenta propagandística cedo foi reconhecida. 

Ainda assim, as potencialidades mobilizadoras do futebol foram frequentemente usadas para promover valores e princípios de sinal contrário aos que temos vindo a enunciar. Os regimes comunistas encontraram também na modalidade uma forma de promover o seu ideário. 

A militância comunista pressupõe, afinal, que se esgotem todos os meios para se chegar às massas, e a popularidade do futebol nos meios operários era incontornável. A importância do desporto para os regimes comunistas como ferramenta propagandística cedo foi reconhecida. 

Logo em 1921, na então União Soviética, foi  criada a Internacional Vermelha do Desporto (ou Sportintern). O seu objetivo era reunir diferentes agremiações desportivas empenhadas na luta de classes, encarando o desporto como uma arma para a luta revolucionária do proletariado e não como um fim em si mesmo. Também neste caso, os preceitos eram higienistas e moralizantes. No entanto, nascia uma versão operária do olimpismo que, ao invés de fomentar a competição entre nações e o chauvinismo burguês, se regia apenas por uma bandeira – a vermelha – , e por um hino – A Internacional. 

Mas o futebol iria, também neste caso, assumir um lugar de destaque enquanto artifício diplomático. São casos paradigmáticos a tour britânica no Dínamo de Moscovo, em 1945, ou o “futebol socialista” da selecção húngara comandada por Gusztáv Sebes. 

No primeiro caso, no imediato pós-guerra, a equipa moscovita percorreu o Reino Unido sob o pretexto de estreitar os laços entre duas nações que foram, conjunturalmente, aliadas. O périplo seria, no entanto, uma demonstração de força do regime de Estaline e, assim o esperavam os dignatários soviéticos, da superioridade dos ideais que o animavam.

No segundo, estamos perante uma filosofia de jogo que transformaria a própria prática da modalidade ao envolver os jogadores em diferentes missões durante o jogo, potenciando a força do colectivo. Uma antecâmara para o “futebol total” (um sistema tático no qual todos os jogadores de campo estão aptos a executar qualquer posição no terreno, sem que para isso se perca a estrutura de jogo).

Podíamos, além deste contraste extremado, repescar diferentes exemplos de como o futebol foi usado para defender a democracia, as liberdades cívicas e os princípios humanistas um pouco por todo o mundo, contrariando a tese que faz das multidões dos estádios uma turba alienada com vocação autoritária. Veja-se a Democracia Corinthiana de Sócrates, Zenon, Wladimir e Casagrande, que nos anos 1980 desafiou publicamente a ditadura militar. Ou, mais recentemente, a conversão de alguns clubes em plataformas antirracistas, antifascistas e anticapitalistas, como o FC Sankt Pauli, o Altona 93, o Roter Stern Leipzig, o NK Zagreb 041, o Clapton CFC, o FC United of Manchester ou o Dulwich Hamlet FC, entre muitos outros.

Não há, por isso, qualquer ligação inextricável entre futebol e fascismo. Ou entre futebol e qualquer outro credo, seja laico ou não. A sua popularidade e a sua capacidade para mobilizar e apaixonar tornam-no num recurso útil para as mais diferentes agendas e programas. Mas, no fundo, o futebol será inevitavelmente aquilo que os seus dirigentes, associados e adeptos façam dele. 

Futebol, um (des)serviço ao Estado Novo

Deslocando o nosso olhar para o contexto português, o futebol continua a ser considerado um dos “três efes” do repertório ideológico com o qual   o Estado Novo se muniu para garantir o apoio popular e, por extensão, a sua própria longevidade. No entanto, a relação da ditadura com o fenómeno futebolístico esteve longe de ser pacífica. 

À semelhança do que acontecia nos demais fascismos europeus, a prioridade da política desportiva estado-novista passou pela promoção de actividades de cariz não competitivo, capazes de estimular o apuramento das capacidades físicas dos atletas, enquanto educavam para os valores do regime – e para os ideólogos do fascismo português, o futebol não encaixava nesse desiderato. Ao promover rivalidades clubísticas e bairristas, era uma modalidade contrária a uma cultura desportiva de sabor verdadeiramente nacional. 

Contudo, à semelhança da Alemanha de Adolf Hitler ou da Itália de Mussolini, também Salazar acabou por se aperceber que as paixões que o futebol estimulava podiam ser usadas para exacerbar os preceitos etnonacionalistas nos quais se fundava o seu regime. E, por isso, o Estado Novo procurou cooptar o futebol para legitimar a validade de alguns dos seus pilares ideológicos, sobretudo perante observadores externos. 

A prestação da selecção nacional nos Jogos Olímpicos de 1928, por exemplo, chamou a atenção de António Ferro, um dos mais dedicados propagandistas do regime, que gostaria de o ver talhado à medida do modelo italiano. Na cobertura que faz de uma das partidas, contra o Chile, e confessando um total desconhecimento em relação às regras do jogo, revela-nos aquilo que efectivamente o atraiu para o espectáculo:

“A força dos portugueses, a força dos nossos jogadores de football, é uma força íntima, quasi espiritual, uma força que vive no coração e nos nervos (…). Não são atletas de feira, com músculos de tabela: são atletas nos sentimentos, no orgulho da sua raça, na consciência do seu dever. A bola, para os nossos jogadores tem a forma do globo, tem o tamanho do mundo, como se fosse Portugal a sacudir a terra, a afirmar-se, a retomar, altivamente a sua velha posição. (…). O desporto internacional é uma grande lição de geografia que os governos devem compreender e estimular.”

A desconfiança de Salazar perante as manifestações de entusiasmo popular era inquebrantável. Para o fascismo português, o futebol era um fenómeno estranho.

Apesar dos esforços de Ferro, o regime não se empenharia em pôr o futebol ao seu serviço, como fizeram os seus congéneres. A desconfiança de Salazar perante as manifestações de entusiasmo popular era inquebrantável. Para o fascismo português, o futebol era um fenómeno estranho, que o regime deveria controlar e disciplinar, mas do qual não se poderia servir. 

Apenas se começou a vislumbrar uma mudança de atitude quando os sucessos desportivos da Selecção Nacional e do S.L. Benfica se somaram , para mais num contexto em que o repúdio internacional sobre o imperialismo português se intensificava com o início da Guerra Colonial (1961-1974). Eusébio da Silva Ferreira, por exemplo, serviu como símbolo para a defesa da validade do projecto colonial português, dando um rosto à empresa de dotar de legitimidade a narrativa lusotropicalista. 

No entanto, o aproveitamento político dos feitos internacionais do futebol português esteve longe de ser comparável ao que aconteceu, por exemplo, na Espanha franquista do pós-guerra. Esta teve o engenho de organizar um campeonato do mundo (1960) com o fito de limpar um regime autoritário que, como o português, era a sombria lembrança de um tempo pretérito.  

De resto, as tentativas estatais de controlar o “desporto-rei” não só foram tímidas, como manifestamente ineficazes. O dinamismo dos clubes e da estrutura federativa desfez todas as veleidades dos organismos que, mesmo munidos de poderes discricionários, desejavam pôr o futebol ao serviço dos desígnios do regime. A resistência, mesmo sem um carácter explicitamente político, às tentativas de controlo dos órgãos-sociais dos clubes pelas entidades estatais, bem como às tentativas de reformar as atividades por estes promovidas, mostram que o regime não foi capaz de romper com a autonomia que o campo desportivo soube conquistar. 

Por outro lado, a oposição democrática e comunista ao regime de Salazar encontrou no futebol um bom instrumento para minar a hegemonia do regime e fintar o seu aparelho repressivo. Houve momentos e estratégias que permitiram que o futebol fosse ativamente usado para desafiar a ditadura. A visibilidade crescente da modalidade, objeto de uma cobertura mediática progressivamente mais diversificada, aliada à notabilidade de alguns dos seus principais vultos, fez com que o fenómeno futebolístico desse palco a manifestações abertamente subversivas. 

Logo em janeiro de 1938, numa das etapas mais truculentas da afirmação do Estado Novo, Portugal enfrentou Espanha num Estádio das Salésias repleto. O país vizinho estava nos meses finais de uma Guerra Civil sanguinária e aquela não era, de facto, a sua selecção nacional, mas sim a selecção falangista. Também não era bem um jogo, mas antes um imponente comício. Era sobretudo um pretexto para reforçar publicamente a solidariedade entre os fascistas dos dois lados da fronteira, com mais uma demonstração viril da vitalidade do seu ideário.

Uma prova disso foi o ter-se tornado prática corrente nas provas desportivas de regimes nazi-fascistas as equipas cumprimentarem-se e ao público, antes do início da partida, com a malfadada “saudação romana”. Mas quatro jogadores furaram o protocolo. Azevedo estica o braço, mas encolhe os dedos, Quaresma permanece de mãos atrás das costas, José Simões e Mariano Amaro, jogadores do Belenenses, cerram o punho. 

O embaraço das autoridades do regime foi palpável e as tentativas de mitigar a insubordinação dos atletas lusos levou inclusive a censura a “editar” a foto do jogo que fez capa na revista Studium, na ânsia de impedir que o gesto tivesse repercussão. Simões e Amaro não se livraram de ser presos para interrogatório, sendo poupados a castigos de outra ordem em virtude da sua popularidade.

Em janeiro de 1938, Portugal e Espanha defrontaram-se num jogo que servia para reforçar as ligações entre os fascistas dos dois lados. Mas quatro jogadores portugueses recusaram-se a fazer a "saudação romana". Dois foram presos para interrogatório.

Na altura, o selecionador português era Cândido de Oliveira e, ainda que garanta não ter instigado a ação dos atletas sobre o seu comando, certamente não terá ficado desagradado. A oposição declarada do jogador, treinador e jornalista fundador d’A Bola ao regime era bem conhecida

Pouco tempo depois desse episódio, estalou a II Guerra Mundial e Oliveira não hesitou em tomar partido. Em 1941, quando a guerra ainda parecia pender para o lado das forças do Eixo, integra uma rede especial dos serviços secretos britânicos (Special Operations Executive) que tinha por missão articular a resistência em Portugal caso se verificasse uma invasão nazi (a famigerada Operação Félix era uma hipótese credível). A sua posição enquanto Inspector dos Correios tornava-o numa peça chave para os serviços de espionagem dos aliados. 

Nada disto vai passar despercebido à polícia política, PVDE, que, em março de 1942, o prende e o tortura barbaramente. Foi  enviado para o Tarrafal, onde contatou diretamente com a face mais cruel do aparelho repressivo do regime – que descreve de forma pungente no livro Tarrafal - o pântano da morte, publicado já em 1974. É restituído à liberdade em 1944, mas sem que a sua militância antifascista esmorecesse, como atesta a sua participação ativa na frustrada Revolta da Mealhada, em 1946. Morreu em 1958, enquanto fazia a cobertura do Campeonato do Mundo de Estocolmo para o jornal que fundara. 

Mas o envolvimento mais profundo do futebol na luta contra o Estado Novo surgiu pela mão do movimento estudantil e da seção de futebol da Associação Académica de Coimbra (AAC). No contexto das crises académicas dos anos 1960, a equipa de futebol da AAC mostrou sempre a sua solidariedade com a luta dos estudantes e a sua oposição aos desmandos do regime. 

Em 1962, os estudantes de Coimbra solidarizam-se com os colegas de Lisboa que lutavam pela autonomia associativa, aderindo ao luto académico e à greve às aulas. Os jogadores da equipa de futebol da Académica não são excepção, levando mesmo as autoridades a cancelar um jogo que opunha o Beira-Mar à AAC, por temerem uma falta de comparência dos estudantes e as suas repercussões. O mesmo não aconteceria no jogo seguinte, com o Sporting CP. 

Ameaçados pela polícia política, os jogadores foram instados a jogar sob ameaça de pena de prisão. Entre eles estavam Mário Wilson e Daniel Chipenda (este último viria a tornar-se num dos mais notáveis combatentes do MPLA na Guerra Colonial). A equipa acabaria vaiada pelos seus próprios adeptos em pleno Calhabé – à época, o estádio onde jogava a AAC.

Na final da Taça de 1968/1969, as bancadas do Estádio Nacional encheram-se com milhares de estudantes afectos à AAC que aí fizeram o mais imponente comício antifascista que a ditadura conheceu.

Foi, no entanto, durante a crise de 1969, com epicentro em Coimbra, que o contributo da seção de futebol para a luta estudantil e para a causa antifascista assumiu uma feição mais espectacular. A própria luta estudantil ganhara, entretanto, novos contornos, associando às antigas exigências dos estudantes reivindicações de carácter social mais abrangentes. 

Lutava-se por uma Universidade Nova, mas também por um país novo. Estávamos, no fundo, perante um movimento de massas, que desceu da Universidade para a cidade, alastrando-se paulatinamente a todo o país. Como que enlevados pela ousadia dos seus colegas, a equipa de futebol dos estudantes levou a cabo uma das suas mais brilhantes prestações na Taça de Portugal. Ao eliminar o Sporting em Alvalade nas meias-finais – envergando um equipamento branco, a cor do luto da AAC, como forma de solidariedade – os estudantes iriam encontrar o Benfica no Jamor. 

Na final da Taça de 1968/1969, as bancadas do Estádio Nacional encheram-se com milhares de estudantes afectos à AAC que aí fizeram o mais imponente comício antifascista que a ditadura conheceu. Distribuíram-se milhares de comunicados que expunham as razões da crise académica e exibiram-se inúmeras faixas alusivas à violência repressiva do regime fascista. 

Os jogadores, por seu lado, entram em campo a passo e apresentam-se com a capa sobre os ombros em sinal de luto. Cientes do vexame público a que estariam sujeitos, os principais dignitários do regime não se fizeram representar (como mandava a tradição) e a transmissão televisiva do encontro foi cancelada. Ainda assim, e mesmo com a AAC derrotada no prolongamento com um golo de Eusébio, seria uma vitória enfática para a causa da liberdade e da democracia. 

O futebol será aquilo que fizermos dele

Estes são, talvez, os momentos em que a contestação à ditadura irrompeu pelos campos de futebol de forma mais declarada e audaciosa. Há, contudo, objetos e escalas de análise que nos permitem explorar outro tipo de relações entre o futebol e a resistência antifascista. Se deslocarmos a nossa atenção para lá dos episódios de maior intensidade dramática, somos confrontados com formas mais discretas, mas menos espasmódicas, de usar o futebol para promover ativamente narrativas e atividades de sentido contrário àquelas que o regime patrocinava. 

Olhar para a vida interna dos clubes que se dedicavam à prática do futebol permite-nos perceber até que ponto foram instrumentalizados pela oposição ao regime para contornar a censura e combater activamente o seu ideário. Tomemos como exemplo um caso que nos é particularmente caro, o do Clube de Futebol Estrela da Amadora e a sua presença poliédrica na sociedade amadorense entre o dealbar da década de 1950 e a conquista da liberdade em Abril de 1974. 

Tratando-se de um clube inserido num meio crescentemente operário, a sua direcção seria composta no final dos anos 1940 por elementos afectos à oposição comunista, nos quais se destacava Fernando Piteira Santos, presidente da Assembleia Geral. Com ele chegam figuras ligadas à cultura, como o escritor neo-realista Antunes da Silva ou o romancista Fernando Alberto Pimentel, e o clube passa a desenvolver uma actividade que em muito ultrapassa o universo desportivo. 

É lançado um Boletim que, aproveitando o controlo menos apertado que a censura exercia sobre a imprensa desportiva, serve para propagar valores e princípios contrários à missão que o Estado Novo atribuía a estas associações.

Perante um regime que desejava controlar toda e qualquer atividade de cariz cultural, os clubes populares ofereciam um inusitado espaço de liberdade. 

Além disso, o clube passa a albergar na sua sede peças de teatro, recitais de poesia e conferências, por onde passaram nomes como Fernando Lopes Graça, Mário Cesariny ou Joaquim Benite. A sede social deu ainda espaço a uma escola e a uma biblioteca, recheada de livros proibidos que justificaram diversas rusgas por parte da PIDE. Perante um regime que desejava controlar toda e qualquer atividade de cariz cultural, estes clubes populares ofereciam um inusitado espaço de liberdade. 

O estudo desse trabalho, conduzido à escala local, é indispensável para perceber o radicalismo que caracterizou os movimentos sociais da cintura industrial de Lisboa durante a Revolução de Abril. Mas o Estrela está longe de ser um caso isolado. 

Podíamos falar do Salgueiros, que colocou o seu campo ao serviço de um comício de Norton de Matos em 1949 quando todas as casas de espectáculos do Porto o boicotaram. Ou ainda do Atlético C.P., que possuía uma rica biblioteca com livros doados por Bento de Jesus Caraça. Ou de muitos outros clubes e associações que permitiram à oposição desenvolver uma atividade quotidiana de resistência, tão eficaz que nos permite mesmo afirmar que, em muitos pontos do país, a hegemonia do regime já tinha caído muito antes de abril de 1974. 

É tendo presentes estas lutas, de ontem e de hoje, envolvendo dirigentes, jogadores e adeptos, que conseguimos perceber até que ponto estamos perante muito mais do que um jogo. O futebol é, em diversos sentidos, a irrupção do inesperado.