Jornalista. Tem-se dedicado a investigar a extrema-direita portuguesa e as suas ligações internacionais.

De alferes miliciano a subversivo na Guiné: uma aventura antifascista

Passou informações militares ao PAIGC, foi preso e torturado pela PIDE, fugiu sem ajuda da prisão militar da Trafaria e juntou-se às lides revolucionárias em França. Esta é a história nunca contada do alferes miliciano António José Branquinho dos Santos Pequeno.

Ensaio
13 Julho 2022

Há quase um ano que o alferes miliciano estava preso na Casa de Reclusão do Governo Militar de Lisboa, na Trafaria, e a ideia de fugir não lhe saía da cabeça. Era a sua única hipótese para evitar uma pena de prisão de pelo menos dez anos por passar informações militares aos independentistas guineenses. António José Branquinho dos Santos Pequeno estudava a rotina dos guardas, a arquitetura e os pontos frágeis da prisão, as possíveis rotas de fuga. 

Escondeu os seus intentos dos companheiros de presídio e, depois de semanas de muita reflexão, deu o passo em frente. Branquinho queixou-se de dores de dentes aos guardas e, dias mais tarde, soube que iam deixá-lo sair para uma consulta no Hospital de Santa Maria. O momento tão aguardado chegou a 17 de abril de 1963: saiu pelos portões da prisão ao início da manhã, num jipe escoltado por militares, chegou ao hospital e foi visto por um médico. 

No regresso à prisão, por volta das 11 horas, pediu ao tenente encarregado se não se importava de passar pela casa onde tinha vivido quando era estudante universitário. A prisão era fria e não tinha roupas em condições, argumentou. O tenente acedeu e dirigiram-se à casa na Rua Diogo Bernardes, em Lisboa. Sem saber se alguém estaria para lhe abrir a porta, Branquinho e o tenente dirigiram-se a um café nas proximidades e telefonaram para o número de casa. 

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Branquinho
António José Branquinho dos Santos Pequeno.

O telefone tocou uma vez, duas vezes, três vezes, até que alguém atendeu. Com a naturalidade possível, Branquinho e o tenente entraram na casa e o primeiro sugeriu ao tenente que se sentasse na sala de espera, onde não conseguia ver o fundo do corredor. O alferes miliciano de 24 anos tirou a carteira do bolso para a pôr em cima da mesa e despiu o casaco, colocando-o numa cadeira. Vou só ali ao meu antigo quarto buscar umas peças de roupa, terá dito Branquinho. Percorreu o corredor e o tenente deixou de o ver. Foi então que se dirigiu para a cozinha e saiu pela porta das traseiras que dava acesso à Avenida dos Estados Unidos. Não o viram mais.

“Feitas algumas diligências no sentido de encontrar o referido alferes Branquinho, soube-se apenas que ele havia tomado um táxi numa praça ali próxima, seguindo em direção ao aeroporto”, lê-se no relatório da fuga da então Polícia Internacional de Defesa do Estado (PIDE), de 17 de abril de 1963. Branquinho não apanhou um táxi, correu o mais rápido que pôde e só parou a meio da Avenida 5 de Outubro. Escondeu-se por vários dias numa igreja até conseguir guarida em casa de um amigo. Refugiou-se lá durante cerca de um mês até atravessar clandestinamente a fronteira com destino a França.

Conheci António José Branquinho Pequeno (Branquinho para os amigos) há mais de oito anos. A sua história na Guiné foi-me contada aos poucos ao longo dos anos, à medida que a confiança entre nós se foi fortalecendo. Não me contou tudo e, curioso, fui nas últimas semanas à Torre do Tombo consultar o seu processo na PIDE, falei com o seu irmão e com mais pessoas próximas de si. Entretanto descobri mais coisas, um lado seu que ainda não conhecia. Esta é a sua história: como passou informações militares ao PAIGC, foi detido e torturado pela PIDE, fugiu da prisão militar da Trafaria, deu o salto para França e se juntou à efémera Frente de Ação Popular (FAP). 

Apesar de a documentação ser abundante, há ainda muitas histórias antifascistas por contar em Portugal. Não há nada que substitua a memória oral e o cruzamento de relatos. Ao ouvir a sua história, o sofrimento por que passou e como se manteve fiel aos seus princípios, correndo enormes riscos, senti que não podia, à semelhança de tantas outras histórias, deixar de ficar registada. 

Como tudo começou

A crescente politização dos estudantes já se fazia sentir quando Branquinho ingressou na Faculdade de Direito de Lisboa. Corria o ano de 1957 e depressa lhe começaram a chegar às mãos livros marxistas e de defesa da descolonização. “Lia muito, lia mais do que eu, sempre leu”, disse-me o seu irmão, o médico Joaquim Branquinho. Os livros eram contrabandeados nos corredores, nos cafés, em livrarias de confiança e entre amigos próximos. “Bastavam uns minutos de conversa para percebermos quem era antifascista.”

Hospedado num quarto na Rua Diogo Bernardes, Branquinho completou o primeiro ano de Direito, depois o segundo como aluno externo, até ser chamado para o serviço militar obrigatório em 1959. Recebeu a instrução básica em Mafra e foi depois destacado para o Batalhão de Caçadores nº5, em Lisboa. Por lá ficou uns meses até nova transferência lhe chegar às mãos, desta vez para o Batalhão de Infantaria Independente nº17, em Angra do Heroísmo, nos Açores. 

A Guerra Colonial começou em Angola em 1961 e a próxima frente seria na Guiné (a partir de janeiro de 1963). O regime de António de Oliveira Salazar sabia-o. As organizações anticoloniais guineenses ganhavam ímpeto, formulavam as aspirações independentistas do seu povo, criavam rede, discutiam o futuro do país que queriam construir. 

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Tabela de códigos
Tabela de códigos de António José Branquinho, confiscada pela PIDE aquando da sua detenção. 

A 3 de agosto de 1959 a via da luta armada prevaleceu entre o movimento de libertação na sequência de um massacre no porto de Pindjiguiti, em Bissau. Os trabalhadores do porto (marinheiros, estivadores e trabalhadores das docas) entraram em greve reivindicando aumento de salários. A polícia e os militares massacraram-nos, causando 50 mortos e quase uma centena de feridos. 

Apesar de Lisboa continuar a garantir que a situação estava calma e tranquila na Guiné, a verdade é que o dispositivo militar colonial, na ordem dos 900 militares portugueses, sobretudo recrutados localmente, foi aumentado logo no final de 1959. A partir daí foi crescendo de ano para ano até chegar quase aos 30 mil militares para se controlar um território com 500 mil habitantes e um pouco maior que o Alentejo.

Entretanto, o PAIGC começou a estruturar-se no sentido da luta armada e, a partir da Guiné-Conacri, Amílcar Cabral e a sua direção definiram três objetivos: formar quadros e militantes; garantir o apoio ativo (ou, no mínimo, a neutralidade) dos países vizinhos; e receber ajuda internacional da China e da União Soviética. Ao mesmo tempo, e também com o apoio da Guiné-Conacri, o partido independentista foi treinando e organizando unidades de combate em técnicas de guerrilha. Porém, o PAIGC precisava de informações militares para preparar a guerra. 

Branquinho, agora destacado no Batalhão de Caçadores nº356, desembarcou na Guiné a 23 de janeiro de 1961. Foi mobilizado para um quartel em Bissau e, como comandante de pelotão, participou em operações no mato contra guerrilheiros - já nessa altura havia pequenas escaramuças, quase como se houvesse uma guerra não declarada. 

Um dos factos que sempre me referiu foi a crescente observação do racismo e do domínio colonialista. Na sua função de alferes miliciano não se revia nas justificações ideológicas daquela guerra. Além disso, o autoritarismo e a hierarquia das forças armadas há muito que não lhe agradavam, não se adaptava à vida militar (os castigos em Mafra eram recorrentes), e já antes de desembarcar tinha pensado em desertar. Pouco depois de pisar território guineense, encetou esforços para o fazer em direção ao Senegal - uma das principais rotas dos desertores na Guiné.

Não tinha muitas pessoas a quem recorrer para dar esse passo. Optou então por pedir a um camarada de armas, alferes Marcelo, que o ajudasse. Antes de ir para Angra do Heroísmo, para onde tinha sido recentemente destacado, o alferes apresentou-o a um primo seu, Alfredo Júnior, conhecido por “Fefé”, e na segunda quinzena de fevereiro, noutra conversa, o alferes miliciano revelou o que pretendia: desertar da tropa fugindo para o Senegal. Mas o contacto cada vez mais próximo com as ideias do movimento de libertação nacional guineense, na sequência de conversas com um guineense chamado Nicolau, fizeram-no mudar de ideias: a fuga ficava sem efeito, agora o objetivo era entrar em contacto com elementos do PAIGC. 

Fefé levou a proposta aos dirigentes do partido africano e, passado um primeiro momento de desconfiança de Branquinho ser um agente da PIDE infiltrado, houve uma reunião numa das ruas do bairro de Cupilon, em Bissau. As reuniões passaram a ser recorrentes, acontecendo em diferentes moradas do Alto Crim, outro bairro da mesma cidade. 

A confiança tornou-se mais profunda e foi montado um sistema de segurança para os encontros, a par e passo com um código para a passagem de informações militares: escreviam num poste elétrico com giz para avisar sobre a necessidade de encontros. O seu nome de código era "Roger Prevert". 

Branquinho começou então a revelar aos dirigentes do PAIGC, principalmente aos da estrutura militar, movimentos de tropas, identidades de guerrilheiros presos, dispositivos de instalações militares (inclusive a planta do Quartel-General do Comando Territorial Independente da Guiné) e operações militares no mato. O objetivo do alferes miliciano era dificultar o funcionamento da máquina militar colonial, evitando confrontos entre militares portugueses e guerrilheiros, com estes últimos a abandonarem previamente as zonas das operações militares.

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Planta Quartel
Planta do Quartel-General do Comando Territorial Independente da Guiné, confiscada pela PIDE aquando da detenção de António José Branquinho. 

O sistema de reuniões foi abruptamente posto em causa quando o alferes recebeu ordem para se instalar num quartel em Quinhámel, a 40 quilómetros de Bissau, dificultando a transmissão de informações. A solução que encontrou foi arriscada. Em junho de 1962, Branquinho tentou recrutar um outro oficial que o substituísse e fizesse a ponte entre Quinhámel e Bissau, que o avisasse se corresse perigo de ser descoberto: o médico alferes António Iria Revez. 

Tinham-se conhecido em Angra do Heroísmo e o alferes sabia que o seu camarada oficial era contra a guerra e que eventualmente desejaria desertar. O PAIGC poderia ajudá-lo nisso. Revelou-lhe que mantinha contactos com o partido africano, inclusive que comunicava com Amílcar Cabral, e sugeriu levá-lo a um encontro, sem no entanto dizer qual o objetivo. 

“Disse-me que eram uns gajos porreiros, não me disse com quem era [a reunião]. Fui um pouco sem saber ao que ia”, disse Iria Revez em entrevista a Diana Andringa e a Flora Gomes para o documentário As Duas Faces da Guerra, de 2008. “Fiquei a saber que teria dado conta das operações que o exército português estaria a fazer e apresentou-me aos dirigentes do PAIGC como a pessoa que eventualmente o poderia substituir naquelas funções. Disse que não, que não estaria disponível para isso, quando muito, eventualmente, queria desertar”, disse Iria Revez, falecido em 2017. 

O oficial médico fez de conta que a reunião nunca tinha acontecido, não a comunicou aos seus superiores e sugeriu a Branquinho que desaparecesse. O seu jogo duplo, argumentou Iria Revez, ia ser eventualmente descoberto, era apenas uma questão de tempo. E assim foi. 

Ameaçado de fuzilamento

A guerra colonial na Guiné ainda não tinha começado em 1962, mas os militares portugueses e a PIDE tudo faziam para travar o desenvolvimento do movimento independentista armado. Havia operações no mato, de cerco e limpeza, espancamentos, uma apertada vigilância e as mortes de guineenses sucediam-se, sem que houvesse baixas significativas do lado português - a capacidade militar do PAIGC ainda era muito incipiente. 

Foi numa operação militar na região guineense de Prabis que um correio do PAIGC foi baleado, preso e torturado pela PIDE, referindo o nome de Branquinho e a ligação de um outro branco, sem dar mais pormenores, como participantes numa reunião com dirigentes do partido africano. Os militares apressaram-se a dar ordem de prisão a Branquinho, enviando um oficial a Quinhámel com a máxima urgência. 

O jovem alferes foi detido a 4 de julho de 1962, com a PIDE a alegar ter encontrado propaganda política e documentos com informações militares cujo objetivo era serem entregues aos dirigentes do PAIGC. O alferes foi levado depois para um pequeno compartimento no quartel do Batalhão nº556 em Bissau, onde ficou totalmente incontactável. 

Aí ficou 13 dias, sem cama entre a “alvorada e a hora de recolher”, sem instalações para fazer as suas necessidades físicas e a comer a comida que lhe davam com as mãos. Foi uma estratégia para o humilhar e forçar a confessar. Nos primeiros dias, Branquinho mostrou-se irredutível.  Negou as acusações de transmitir informações ao PAIGC e aguentou horas e horas de interrogatório que não eram menos que longas sessões de tortura às mãos do tenente-coronel João Delgado, oficial da Polícia Judiciária Militar, e de vários agentes da PIDE, que se iam revezando. O oficial e os agentes da PIDE, liderados pelo inspector Costa Pereira, chefe da delegação da PIDE em Bissau, queriam a todo o custo saber a extensão da rede de informações e quem era o outro branco envolvido. 

“Fui coagido pelos agentes da PIDE a permanecer em pé cerca de sessenta e cinco horas, só com interrupções de aproximadamente vinte e cinco minutos para tomar as refeições”, escreveu Branquinho numa carta aos seus advogados, redigida já na prisão militar da Trafaria. A tortura também foi psicológica: os agentes da PIDE disseram-lhe que o seu pai estava doente, que tinha ficado “paralítico dum lado do corpo”, o que era “totalmente falso”, e foi ameaçado de fuzilamento, por merecer “ser imediatamente morto como um cão”, contou também na carta. 

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Branquinho militar
Fotografia do documento de identificação militar de António José Branquinho. 

Branquinho acabou por ceder quando já se aproximava o terceiro dia consecutivo de tortura. Confessou ter passado informações ao PAIGC, contou como o fazia e referiu ter tentado recrutar o médico alferes António Iria Revez, levando à sua detenção a 8 de julho. O oficial médico acabaria por cumprir cinco anos e três meses de prisão por “crimes graves contra a segurança do Estado”, saindo em liberdade condicional em 1967.

Mas o tenente-coronel e os agentes da PIDE não ficaram satisfeitos com o sofrimento até então infligido a Branquinho - um “traidor à pátria”. Mantiveram-no no pequeno compartimento (onde as temperaturas ultrapassavam facilmente os 40ºC graus) mais dez dias e, “prestes a atingir o limiar da resistência física e psicológica”, o alferes miliciano autoflagelou-se para ser internado no hospital militar, e assim poder descansar. Esmurrou os testículos, o estômago e as têmporas na esperança de ficar inconsciente. Não conseguiu: continuavam a ir buscá-lo para mais interrogatórios (o seu depoimento contém uma série de aditamentos). 

“Na sequência da tortura física e dos traumatismos psíquicos a que estava sendo submetido e após ter sido interrogado mais uma vez pelo tenente-coronel Delgado, pretextei que queria urinar e no caminho atirei-me por uma escadaria de cimento simulando uma síncope, com o intuito de me libertar daquela situação”, escreveu Branquinho ao seu advogado e amigo de família, Cunha Leal. 

No final, foi acusado de cometer o crime de traição (artigo 75.º) e de revelar segredos de Estado (nº3, artigo 80.º), conforme estipulava e punia o Código de Justiça Militar de 1925. Enfrentava uma pena de prisão de pelo menos dez anos, seguida de 20 anos de degredo, quando, a 17 de julho de 1962, foi transferido para Lisboa, detido na Casa de Reclusão do Governo Militar de Lisboa. 

As ondas de choque da sua detenção ultrapassaram-no. A milhares de quilómetros de distância, em Angola, o seu irmão, Joaquim Branquinho, também alferes miliciano, foi preso pelos militares por suspeita de participar em atividades de passagem de informações a movimentos independentistas. Os dois irmãos trocavam correspondência de índole familiar. Joaquim ficou um mês detido na Casa de Reclusão de Angola até ser transferido para a Trafaria.

Reencontro no presídio da Trafaria

A última vez que os dois irmãos se tinham visto tinha sido uns dias depois do fim do ano de 1961. Dez dias foi o intervalo dos embarques de um e de outro para reforçar o dispositivo militar do Estado Novo em África: António José embarcou para a Guiné; Joaquim Branquinho para Angola. Reencontraram-se já no presídio da Trafaria, onde passaram a partilhar o mesmo espaço: uma vivenda dedicada aos oficiais. Com eles estavam os oficiais Amílcar Domingues, Rui Lemos, Jorge Dias da Silva e Iria Revez. 

Ao contrário da restante prisão, conta Joaquim Branquinho, as condições na vivenda não eram más. Havia um ambiente de convívio e de camaradagem e Branquinho mantinha alguma distância, planeando a fuga na sua cabeça. “O António José não tirava da cabeça a ideia de fugir, ficar ali não era uma solução para ele”, disse Joaquim, o irmão mais velho. A PIDE infiltrou um informador, um capitão da GNR conhecido dos seus tempos de escola, para vigiar os oficiais, inclusive para saber se Joaquim tinha passado ou não informações a independentistas em Angola. 

A PIDE não tinha provas de qualquer envolvimento de Joaquim e, portanto, foi libertado três meses depois. Foi-lhe ordenado que se apresentasse num quartel na Ajuda, em Lisboa, e que aguardasse ordens para regressar a Angola, para cumprir o resto da comissão. Como tinha cumprido quase seis meses de serviço na hoje antiga colónia antes de ser preso, teria direito a um mês de licença em Lisboa pouco depois de desembarcar novamente. Conseguiu convencer o seu superior a dar-lha antecipadamente, para que não tivesse de ir e voltar de seguida, gastando recursos ao Estado. 

Mal entrou de licença, Joaquim Branquinho atravessou a fronteira portuguesa em direção a França, saltando depois para Argel em janeiro de 1963, ajudado por José Augusto Seabra e Joaquim Barradas de Carvalho, conta a historiadora Susana Martins na sua tese de doutoramento Exilados Portugueses em Argel - A FPLN das origens à rutura com Humberto Delgado (1960-1965). Começou a politizar-se seriamente a partir desse momento, lendo vários livros e discutindo política socialista internacional com militantes de outros países. Ouviu falar pela primeira vez do cisma sino-soviético e da teoria revolucionária de Che Guevara. Tinha rompido com o isolamento intelectual que então imperava em Portugal. 

Ao mesmo tempo, colaborou com a Frente Patriótica de Libertação Nacional (FPLN), liderada por Humberto Delgado, com a função de recortar notícias sobre Portugal. Começou a divergir do Partido Comunista Português, de quem até então se considerava próximo, ao aderir à linha maoísta e por criticar o que considerava ser a inação da FPLN. 

Além disso, Joaquim Branquinho era um acérrimo crítico do primeiro presidente argelino, Ahmed Ben Bella, acusando-o de compactuar com o “neocolonialismo de fachada socialista”. Daí que a ideia de se juntar a um grupo de revolucionários para ir combater o regime de Ben Bella para as montanhas da Cabília lhe tenha feito todo o sentido. A aventura não durou muito: três ou quatro meses depois, militares argelinos invadiram o acampamento e prenderam os militantes, entre os quais Branquinho, explica Susana Martins no seu livro. 

A FPLN, temendo consequências para as suas relações com o regime argelino, seu anfitrião, reforçou a gravidade do “Caso Branquinho” entre as suas hostes e impôs diretrizes para uma disciplina mais dura, denunciando pelo meio o comportamento de Joaquim. O antigo alferes miliciano ficou preso numa prisão argelina durante um ano. Quando Joaquim foi preso, António José estava a ser bem-sucedido na fuga. Um entrava, outro escapava.

Saiu pelas traseiras da casa onde em tempos vivera como estudante. A PSP e a PJ ainda usaram o casaco por ele deixado na casa para os cães o tentarem encontrar, mas sem sucesso. Branquinho seguiu caminho e vagueou pela cidade de Lisboa, escondendo-se em igrejas, pensando que seria o último local onde a PIDE iria à sua procura. Desamparado, lembrou-se que um amigo seu próximo costumava frequentar um café nas redondezas, e experimentou procurá-lo. 

Lá o conseguiu encontrar e o amigo deu-lhe guarida num quarto interno da sua casa, lembra Joaquim. Viveu lá durante um mês, aguardando que as buscas perdessem intensidade, até dar o salto para França. 

Uma vez instalado em Paris, Branquinho tentou ir à Argélia visitar o irmão na prisão. Contactou a embaixada argelina na capital francesa e pediu um visto, mas foi-lhe recusado. A FPLN foi informada e a visita negada, por a organização suspeitar da forma como o alferes miliciano tinha fugido da prisão sem qualquer apoio externo. Ou seja, poderia ser um infiltrado na PIDE. 

Foi então que, a 11 de dezembro de 1963, Branquinho voltou a escrever a Amílcar Cabral comunicando-lhe que estava a ultimar os “preparativos para seguir para a África do Norte” e perguntando se era “conveniente ou não fazer declarações”. Branquinho queria esclarecer com a FPLN o seu envolvimento com o PAIGC, para acabar com qualquer suspeita de ser um agente da PIDE, mas o líder independentista respondeu a 21 de dezembro não se lembrar da sua pessoa e desconhecer que “tipo de declaração se trata”. “De qualquer modo, agradeço a sua confiança e prova de convicção, e espero [que] me possa dar informações mais detalhadas”, escreveu Amílcar Cabral

A troca de correspondência ter-se-á ficado por aqui e Branquinho nunca chegou a aterrar no norte de África. O seu irmão foi entretanto libertado da prisão, criando depois a efémera Frente de Ação Popular (FAP), lançada formalmente em março de 1964. Os dois irmãos juntaram-se na organização e mais tarde na estrutura que se lhe seguiu: o Comité Marxista-Leninista Português, de linha maoísta. 

O trabalho de António José Branquinho na FAP consistia, entre outras coisas, em discutir política com elementos da comunidade portuguesa, exilados ou trabalhadores imigrantes que viviam nas biddon-villes, bairros auto construídos na periferia de Paris. Mas não só. Partilhava também, num espírito internacionalista, os mesmos espaços de exilados espanhóis e gregos, principalmente depois da instauração da Ditadura dos Coronéis (1967-74).

Um dos acontecimentos que mais iria marcar o seu internacionalismo político foi uma viagem de um mês à China de Mao Tsé-Tung, em 1965 ou 1966. Fez-se acompanhar por mais três ou quatro camaradas, contou-me o irmão, e visitou várias cidades, conhecendo de perto a experiência chinesa. Entretanto, e trabalhando aqui e ali na hotelaria de Paris, licenciou-se em Psicologia pela Universidade Paris III - Sorbonne e, mais tarde, tirou linguística na Universidade de Paris VII. 

A PIDE continuou no seu encalço

António José Branquinho construiu uma nova vida em Paris, longe da família e cada vez mais afastada da realidade portuguesa. À distância recebia correspondência de amigos em Portugal (quando sabiam onde vivia). Foi o caso de uma carta datada de 1967 a si endereçada e que acabou intercetada pela PIDE, que continuava a tentar saber o seu paradeiro e a emitir mandados de captura. Entre os elementos mais pessoais de notícias sobre as vidas dos amigos, um deles relata o Portugal da altura, falando das cheias de novembro de 1967 em Lisboa, que causaram mais de 700 mortos.

“Por aqui e em respeito à ‘situação’, continua tudo como dantes. Só ladrões e vigaristas e puta que os pariu. Cada vez há mais miséria. Ainda recentemente com as cheias de Lisboa se viu a miséria em que nos encontramos”, escreveu Francisco Chaves, seu amigo dos tempos da Faculdade de Direito. “Os desgraçados que viviam nas pocilgas lá ficaram sepultados. Não se admite que ainda haja gente que nem sequer tenha uma casa para se abrigar, para viver como gente humana e não como animais, como vivem aquelas que habitam os bairros de lata.”

O ditador António Oliveira de Salazar tentou esconder a morte e a destruição causadas pelas cheias e os estudantes universitários, contou Francisco Chaves, foram um dos alvos. “O nosso ‘governo’ (este nosso é muito restrito!) não se tem preocupado com isso [com a situação de vida da população], mas sim com a repressão. Ainda há poucos tempos [sic] alguns colegas nossos se encontravam a fazer peditório para as vítimas das inundações (movimento de solidariedade que partiu do Conselho de Veteranos) foram pura e simplesmente presos sem qualquer motivo. Como vês Branquinho, continua tudo na mesma.”

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Quadro Branquinho
Um dos quadros de António José Branquinho.

A PIDE, como demonstra a carta intercetada, continuava em cima do paradeiro de Branquinho. Em julho de 1967 convocou um tio a ir prestar depoimentos sobre onde se encontrava, como demonstra um documento da polícia política, e, com a carta intercetada, descobriu finalmente que estava em Paris - a suspeita é que estivesse exilado em Argel, dado o seu irmão ter lá estado. Cinco anos depois da sua fuga, a 17 de abril de 1968, o Tribunal Militar Territorial de Lisboa pediu à PIDE para o informar sobre o paradeiro do antigo alferes miliciano, para que o pudesse julgar pelos crimes de “conjuração” e “traição”. 

Branquinho esperou pelo 25 de Abril de 1974 para regressar a Portugal. Semanas depois do golpe de Estado que pôs fim ao Estado Novo, o antigo alferes, à semelhança de milhares de desertores, regressou a Portugal. Ficou alojado em casa de um casal amigo e, mesmo na convulsão revolucionária, militares bateram-lhe à porta, sem se saber o porquê de lá terem ido. Pensou em fazer uma corda de lençóis e fugir pela janela das traseira, mas não havia tecido suficiente. Ficou então quieto, em completo silêncio, enquanto os militares batiam à porta até pensarem que não estava ninguém em casa e abandonarem o local.

O antigo alferes contactou então João Pulido Valente, seu camarada e do irmão, que o ajudou a sair de Portugal através da Galiza, passando pelo Porto. Rumou depois para Madrid e finalmente para Paris com um passaporte falso fornecido por Pulido Valente, contou-me Joaquim. Mas a fuga não o impediu de se candidatar ao cargo de leitor de português na Universidade de Paris III - Sorbonne pelo Instituto Camões para um período de cinco anos. Foi selecionado e exerceu o mandato entre 1975 e 1980

Branquinho terá sido amnistiado pelo Presidente Ramalho Eanes, de acordo com o irmão e amigos próximos. Contactado, o Gabinete do antigo chefe de Estado não me pôde confirmar essa informação por não se “recordar com exatidão suficiente” e toda a documentação da sua presidência ainda se encontrar por tratar documentalmente. Também não me foi possível encontrar a amnistia no Diário da República ou no Museu da Presidência da República. 

A verdade, no entanto, é que Branquinho continuou a residir em Paris, acabando por dar aulas em duas universidades parisienses, uma delas a Sorbonne, e na Universidade de Tours, onde ensinou Sócio-Linguística e Sociologia da Comunicação. Apenas regressou a Portugal definitivamente em 1994, com 56 anos, para acompanhar o pai doente e dar aulas de semiótica na Universidade Lusófona de Lisboa. 

Desde a sua chegada a Paris, em 1963, Branquinho publicou dois livros (este e este) e iniciou-se na pintura, participando em cerca de 50 exposições, individuais e coletivas, em Portugal e noutros países, principalmente em França. Nos últimos anos, publicou também artigos de opinião em jornais locais portugueses. A ideia com que fiquei deste homem é a de sempre ter sido um atento observador do mundo, com uma história contada em retalhos e sem querer qualquer reconhecimento. Aprendi muito com ele.

Há três anos que António José Branquinho, hoje com 83 anos, vive num lar nas proximidades de Santarém, isolado das realidades que tanto criticou e longe dos seus livros e folhas soltas que sempre carregava consigo. Vive, sobretudo, longe dos seus quadros e pincéis. Esta é a sua história, que não caia no esquecimento. Para mim não vai cair.