Plano Maria da Fonte

PLANO MARIA DA FONTE

O Plano Maria da Fonte foi uma rede terrorista de extrema-direita apoiada pela Igreja Católica no norte do país com o objetivo de travar a Revolução de Abril e a alegada ameaça comunista. A rede atuou durante o Verão Quente de 1975, de junho a novembro, e foi responsável pelo crescimento do ódio anticomunista e destruição de sedes de partidos de esquerda, principalmente do Partido Comunista Português (PCP).

A grande maioria dos fervorosos apoiantes do Estado Novo foi apanhada desprevenida pelo golpe de Estado do Movimento dos Capitães no dia 25 de Abril de 1974. Mas nem por isso deixaram, depois de um primeiro momento de surpresa e paralisia, de se reorganizar criando partidos e movimentos. O setor civil e militar spinolista tentou dois golpes: a 28 de Setembro de 1974, com a manifestação da maioria silenciosa, e a 11 de Março de 1975, com o ataque ao Regimento de Artilharia Ligeira 1 (RAL1). ambos falhados.

“O problema português é este e só este: dum lado, uma minoria, contra a vontade do povo, está a impor à Nação o comunismo, onde não tem lugar a Pátria independente nem a religião” – arcebispo D. Francisco Maria da Silva a 11 de agosto de 1975.

Na sequência do 28 de Setembro, vários partidos de extrema-direita (Movimento Federalista Português-Partido do Progresso, Partido Liberal, Partido Nacionalista Português, entre outros) foram ilegalizados pelas autoridades político-militares. Os seus militantes radicalizaram-se ainda mais e, alegando lutar por um regime democrático pluralista, criaram três organizações terroristas que puseram Portugal a arder: o Exército Libertação de Portugal (ELP), o Movimento Democrático pela Libertação de Portugal (MDLP) e o Plano Maria da Fonte.

Em junho de 1975, militantes de extrema-direita, militares e civis, exilados em Madrid, pediram apoio à Igreja Católica do norte do país para travar a Revolução e a pretensa ameaça comunista. Queriam criar uma alargada frente anticomunista para sublevar o norte de Portugal contra o novo regime democrático.

Contudo, o arcebispo de Braga, D. Francisco Maria da Silva, protelava a resposta. Estava reticente sobre a adesão da Igreja a uma cruzada anticomunista e ao confronto com o novo regime democrático.

Foi então que Jorge Pereira Jardim, antigo homem de confiança do ditador António de Oliveira Salazar e ligado aos serviços secretos ocidentais, Waldemar Paradela de Abreu e José Sanches Osório, da rede bombista de extrema-direita Movimento Democrático para a Libertação de Portugal (MDLP), delinearam um plano que originasse um escândalo e pusesse a Igreja do seu lado sem mais hesitações ou adiamentos.

Dias antes de o arcebispo embarcar, no aeroporto de Lisboa, para Manaus, no Brasil, a 11 de junho de 1975, o COPCON de Otelo Saraiva de Carvalho recebeu uma denúncia anónima afirmando que o clérigo transportava, por baixo das suas vestes, avultadas somas de dinheiro para o outro lado do Atlântico. Os militares pararam o arcebispo e, na alfândega, foi obrigado a despir-se, baixando as calças.

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Ataque a uma sede do PCP no norte do país em 1975
Ataque a uma sede do PCP no norte do país em 1975. Fonte: Ephemera - Biblioteca e Arquivo de José Pacheco Pereira

A humilhação teve as consequências que os bombistas anticomunistas pretendiam: o patrocínio da Igreja Católica à frente anticomunista, disponibilizando meios financeiros, locais de encontro e uma vasta rede de propaganda contra as forças de esquerda. O episódio foi apresentado como mais um exemplo do desvario dos militares comunistas durante o PREC e da perseguição do novo regime contra a Igreja e os seus representantes.

“A denúncia falsa foi nossa para lhe provocar a reação que ele veio a ter, que foi convocar a manifestação de Braga [a 10 de agosto de 1975]. Depois explicámos-lhe o assunto e pedimos-lhe desculpa. E o arcebispo de Braga absolveu-nos”, confessou o operacional do MDLP Sanches Osório ao jornalista João Paulo Guerra.

Meses antes, em julho de 1975, Paradela de Abreu, editor do livro Portugal e o Futuro de António de Spínola, passou a fronteira de Chaves a pé com uma carta de Jorge Jardim a convidar o arcebispo a patrocinar esse novo movimento, o Plano Maria da Fonte, nome inspirado na revolta popular nortenha de 1846 contra o governo de Costa Cabral. Na sua nova versão, conta o jornalista Miguel Carvalho, autor do livro Quando Portugal Ardeu, o movimento pretendia ser “o braço armado da Igreja nortenha” contra as forças de esquerda.

Paradela de Abreu, que usava o nome de código “comandante Cruz”, entregou a carta ao arcebispo na presença de elementos do MDLP, os tenentes Pedro Menezes e Silva Horta e de António Silva Santos, do MDLP do Porto. Uma vez lida a carta, o antigo editor deixou claro qual o objetivo da nova organização: preparar o povo para a revolta armada com o apoio das estruturas da Igreja, para depois fazer regressar Spínola do exílio e criar um governo aceite e protegido pelos populares.

“A Primeira República morreu porque atacou violentamente a Igreja Católica. De um trabalho de sabotagem constante, que durou dezasseis anos, e do aproveitamento implacável das crises nacionais que se sucediam umas às outras, a Primeira República morre às mãos de Braga. Pretendia-se a ditadura”, escreveu Paradela de Abreu no livro Do 25 de Abril ao 25 de Novembro, publicado em 1983. “Não foi por acaso que, em 1975, tudo começa também em Braga. Só que, desta vez, pretendia-se evitar a ditadura comunista”.

Para Paradela de Abreu, a Igreja Católica era única instituição capaz de fazer frente ao PCP. “Cada diocese tem muitas paróquias, logo muitas igrejas, logo muitos sinos. Milhares de sinos ao norte do rio Douro. Centenas de milhares de católicos. Ao pensar nesta estrutura em tempos de eventual guerra interna, constatei que o país já estava ‘quadriculado’ militarmente”, continuou Paradela, que passou de tentar encontrar uma sede para a LUAR, para aderir ao PS por “três dias” e, depois, por 15 dias ao PPD, até, finalmente, se tornar anticomunista. “Cada paróquia uma ‘base’. Cada igreja de granito ancestral, um reduto. Cada sino um ‘rádio transmissor’. Cada quinta perdida nas serras, um” apoio logístico.

A adesão e a importância da Igreja Católica na organização fizeram com que o responsável local da rede fosse sempre o cónego, que realiza funções litúrgicas especiais, de cada região. Em Lamego, era o cónego Aníbal; em Leiria, o cónego Galamba, em Bragança, o cónego Ruivo; e em Vila Real, o monsenhor Sarmento. O cónego Eduardo Melo, tio-avô do eurodeputado do CDS-PP, Nuno Melo, controlava Braga e coordenava todos os outros. Era o responsável máximo pela logística da rede.

Foram criadas células (ou subgrupos) e cada uma tinha um nome patriótico e bélico: Os Viriatos, as Brigadas Anti-Totalitárias, os Comandos Democráticos do Norte. Paradela de Abreu desempenhou um papel central na coordenação destes vários grupos: viajou milhares de quilómetros entre Portugal e Espanha e dormia onde podia, sob o teto de grandes proprietários agrários ou de ordens religiosas. Nas suas viagens a Espanha, Paradela de Abreu conspirava e recebia informações de D. Pepe, coronel do Exército espanhol e nº2 dos serviços secretos de Francisco Franco.

Os líderes da nova organização delinearam uma estratégia operacional com duas abordagens. Na primeira, onde o sentimento anticomunista já estava suficientemente disseminado, os seus operacionais deveriam dedicar-se sobretudo a incentivar, a supervisionar e participar na destruição das sedes dos partidos de esquerda. Na segunda, onde a radicalização ainda era reduzida, os seus operacionais deviam assumir as rédeas das ações violentas, dinamitando as sedes, por exemplo.

A estratégia deveria causar, diz o politólogo Riccardo Marchi no livro À Direita da Revolução - Resistência e Contra-Revolução no PREC [1974-1975], o maior dano psicológico e material às forças de esquerda, sem causar mortos – uma exigência do arcebispo que nem sempre foi respeitada. Os púlpitos das missas, as tipografias da Igreja e a distribuição de panfletos dois ou três dias antes de uma ação, eram os instrumentos usados para acirrar o ódio e mobilizar os populares. Também divulgavam músicas anticomunistas para os mobilizarem. A estrutura montada chegava a milhares de pessoas.

“Para conseguirmos juntar tanta gente, nas missas, os próprios padres locais incitavam as pessoas para atuar contra os comunistas. Dois ou três dias antes, eram distribuídos, pelas aldeias e vilas próximas, milhares de panfletos a explicar o porquê e como fazer – aquilo que, em linguagem jornalística, seria o onde, quando, como, o quê e o porquê”, disse Paradela de Abreu, citado por Manuel Amaro Bernardo no livro Memórias da Revolução. Portugal 1974-1975.

A primeira grande manifestação aconteceu em Aveiro no início de agosto de 1975. Dias depois, a 10 de agosto, os operacionais do Plano organizaram, em conjunto com militantes do CDS, do Partido Popular Monárquico, do PSD e até do PS, o que veio a ser a primeira ação violenta: uma manifestação de apoio ao episcopado e de condenação da humilhação sofrida pelo arcebispo no aeroporto de Lisboa. Milhares de católicos de todo o Minho responderam ao apelo.

O arcebispo proferiu um inflamado discurso anticomunista. Foi o suficiente para inflamar os ânimos: no final do protesto, a sede do PCP, na Praça do Conde de Agrolongo, foi incendiada, apesar de os comunistas a terem tentado defender com tiros de caçadeira. A GNR assistiu sem intervir, os primeiros soldados do Regimento de Infantaria de Braga não conseguiram travar os incendiários e os bombeiros viram-se impedidos de combater as chamas que destruíram o edifício.

Não foi a única materialização do ódio anticomunista que mancharia o mês agosto desse ano. Seguiram-se as sedes comunistas em Ponte de Lima, Famalicão, Lamego, Leiria, Covilhã, Bragança, Vila Real, Amarante, entre outras. Só Viana do Castelo escapou à rede bombista por haver, porque, diz-nos Paradela de Abreu, “600 operários dos estaleiros navais dessa cidade, dominados pelo PCP, estavam armados”. “Assim, a estratégia era não executar qualquer ação em Viana do Castelo, pois poderia levar ao que queríamos evitar, a guerra civil”, concluiu o principal operacional da rede, citado por Manuel Amaro Bernardo.

No Verão Quente de 1975, Portugal estava política e geograficamente dividido. A fronteira simbólica era Rio Maior: a direita dominava a norte, a esquerda revolucionária avançava a passos largos a sul da vila, com a reforma agrária e as ocupações.

Entre maio e novembro de 1975, foram registadas pelo menos 213 ações terroristas nos distritos acima de Rio Maior, de acordo com o Dossier Terrorismo, publicado pela Edições Avante! em 1976. Nem todos os atentados foram da autoria do Plano da Maria da Fonte, pois o ELP – e depois o MDLP – já atuava no país, principalmente no norte, antes da nova organização ficar operacional. 

Género de ações terroristas entre maio e novembro de 1975 em todo o país, de acordo com o Dossier Terrorismo:

Bombistas 116
Assaltos a sedes 123
Incêndios 31
Atentados a tiro 8
Espancamentos 8
Apedrejamentos 6

“Incendiámos 317 sedes de partidos. Lembro-me de o jornal espanhol Ya ter escrito na capa ‘Portugal esta que arde!’”, disse o fadista João Braga, que integrou Os Viriatos depois de passar pelo ELP, citado por Miguel Carvalho.O caso mais preocupante foi vivido em Leiria, entre 25 e 27 de agosto de 1975. Por três dias, militantes comunistas, munidos de caçadeiras, resistiram dentro da sede do partido contra uma turba de populares anticomunistas, ferindo mais de três dezenas.

O ódio aos comunistas também ficou bem espelhado no livro A Descoberta de uma Conspiração. A Ação Spínola, da autoria do jornalista alemão Günter Wallraff e publicado em 1976. “Muitos bracarenses sabem que eu tenho uma metralhadora em casa e que não é para brincadeiras. Sabem que já trabalhei para o ELP e que hoje trabalho para o MDLP”, relatou Eduardo da Costa Oliveira, então militante do CDS.

“Ontem à noite. A uns cem metros daqui há um comunista, o Dr. Vítor de Sá, que tem uma livraria onde estão sempre expostos livros da esquerda e eu, ontem à noite… ratatatata. Ainda se podem ver os buracos. É o segundo aviso. Ele bem sabe que fui eu. Mas, se ainda tiver os livros na montra na próxima semana, então é a vez dele. Não tenho medo de ninguém”, confessou o operacional da rede bombista.

Costa Oliveira confessou ainda ao jornalista alemão que o MDLP e o Maria da Fonte eram apoiados por “muitos industriais”. “Conheço pessoalmente alguns dos mais importantes, que não querem ser vistos comigo oficialmente, como, por exemplo, os do CDS. Pagam apenas, em segredo […]. Também conheço o duque de Bragança, que é do PPM, jantei com ele em Madrid e está do nosso lado”, disse. Um deles foi o industrial José Pinto Cardoso, de Braga.

O Plano Maria da Fonte, o MDLP e o ELP colaboraram, verificando-se a circulação de membros entre as três organizações, e constituíram a santíssima Trindade do terrorismo de extrema-direita durante o período revolucionário, como caracterizou Miguel Carvalho.

Alguns operacionais do ELP, que naquela altura já circulavam pelo país, aderiram ao Plano Maria da Fonte, enquanto os militares do MDLP ensinaram os seus elementos a dinamitarem sedes de partidos à esquerda do Partido Socialista, principalmente as comunistas. O material explosivo era retirado das pedreiras, como foi o caso das existentes em Ponte de Lima.

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Assalto a uma sede do PCP em 1975
Sede do PCP, no norte do país, destruída em 1975. Fonte: manuelaraujo.org

À medida que os eventos se foram sucedendo, e a raiva anticomunista alargando entre as populações do centro e norte do país, os objetivos do Plano Maria da Fonte também sofreram alterações. O objetivo final da rede evoluiu para o objetivo de levar a contrarrevolução até Lisboa antes de 11 de novembro, quando se consumaria a independência de Angola e o poder seria entregue ao MPLA, apoiado pela União Soviética.

Para isso, elementos do Plano Maria da Fonte (Paradela de Abreu), do MDLP (Rui Castro Lopo) e do Grupo dos Nove do MFA (major Canto e Castro) encontraram-se em Chaves, em setembro de 1975, para delinear uma estratégia, conta Marchi. A partir desse momento, a rede foi totalmente integrada na frente anticomunista mais alargada e chegou, inclusive, a receber tarefas para a ação militar prevista contra a fação revolucionária do MFA, agendada para o final de novembro de 1975.

Os operacionais do Maria da Fonte deveriam armadilhar 15 pontes no Porto, rebentando-as em caso de guerra civil, para criar uma espécie de condado Portucalense, e salvaguardar as pontes D. Luís e D. Maria, permitindo o avanço das forças anticomunistas. Além disso, e em situação de ataque sobre Lisboa, os seus operacionais já treinavam a hipótese de cortar o abastecimento de eletricidade e de água à capital.

No entanto, a rede bombista foi excluída da ação contrarrevolucionária de 25 de Novembro de 1975 pelo conselheiro da revolução José Canto e Castro. O militar disse aos operacionais que a ação militar estava agendada para 30 de novembro e, quando a verdadeira data chegou, ficaram à margem dos eventos político-militares, de acordo com Marchi.

Jaime Neves, comandante do Regimento de Comandos, admitiu ter mantido contatos regulares com operacionais das redes bombistas de extrema-direita MDLP e Exército Libertação de Portugal (ELP) e que estes estavam disponíveis para apoiarem as ações armadas dos Comandos no 25 de Novembro de 1975, afirma Marchi no mesmo livro. Jaime Neves admitiu até mais: a estratégia de pressão sobre os comunistas e forças de esquerda era convergente com a das redes bombistas de extrema-direita.

O sucesso do 25 de Novembro pela mão do Grupo dos Nove e a declaração de que os comunistas tinham lugar na democracia portuguesa, recusando a exigência da extrema-direita de ilegalizar o PCP, fizeram com que o Plano Maria da Fonte deixasse de ter razões para existir. A grande cruzada anticomunista tinha chegado finalmente ao fim, depois de ter posto o centro e o norte do país a arder.

Mas nem por isso pararam os atentados terroristas de extrema-direita. Alguns dos seus membros passaram para as outras duas organizações bombistas, que por sua vez também já perdiam as suas razões de existência, pelo menos as políticas – o PCP fora afastado do poder executivo.

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