Manifestação de extrema-direita

Tambores ao longe: incursões na extrema-direita mundial

Neste livro, Joe Mulhall, investigador da ONG britânica Hope Not Hate, explora na primeira pessoa mais de dez anos de avanço da extrema-direita por todo o mundo. De infiltrações a monitorizações de manifestações, passando por ações de sabotagem de encontros internacionais. Aqui pode ler-se a introdução do livro recém publicado pela editora Temas & Debates.

Extrema-direita
16 Junho 2022

Foi por volta das oito horas da manhã que entrei no bar da Wetherspoon no aeroporto de Stansted. Enquanto esperava junto ao balcão cheio de gente, rodeado por grupos de jovens de ambos os sexos, reparei num homem, à minha direita, que se destacava entre as pessoas de vinte e poucos anos vestidas com roupa da moda. O homem usava um polo Fred Perry, negro, com as golas e as bainhas das mangas decoradas a cor de champanhe e duas folhas de louro bordadas sobre o lado esquerdo do peito. 

O polo estava bem enfiado na cintura das calças de ganga Levi’s desbotadas, com as bainhas enroladas até meio das canelas e aí presas por colchetes pretos lisos com pinças prateadas. O mais impactante eram as suas botas Dr. Martens de um bordeaux vivo, com um brilho que só era igualado pelo luzir da cabeça quase rapada. Examinei-lhe os braços à procura de tatuagens, que são a maneira habitual de distinguir os skinheads racistas dos skinheads originais não-racistas. Sobre o braço esquerdo tinha dobrado um blusão castanho Merc Harrington de punhos e bainha canelados, bolsos laterais com abas e o clássico forro de tartã, deixando apenas à vista a metade inferior de uma tatuagem de um skinhead crucificado. Não dava para tirar conclusões.

No entanto, quando ele estendeu o braço direito para pagar o que estivera a beber, ficou bem à vista uma grande tatuagem da runa Odal. Este símbolo, que na sua origem foi uma letra no alfabeto rúnico pré-romano, foi adotado pelos nazis, utilizado por algumas divisões das Waffen SS e, subsequentemente, adotado também pelos fascistas do pós-guerra. Como se fosse necessária mais uma confirmação, juntaram-se-lhe no bar outros homens de cabeça rapada vestidos da mesma maneira, um dos quais — o mais corajoso, ou talvez o mais estúpido — usava uma T-shirt branca enfeitada com uma figura encapuzada em cima de um cavalo branco erguido nas patas traseiras. Por cima tinha o logotipo do Ku Klux Klan. E eu percebi, de imediato que iam para o mesmo sítio que eu: Varsóvia. 

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Capa do livro

Estávamos em novembro de 2018 e eu viajava para a Polónia com um colega da organização britânica HOPE not hate (HNH, Esperança e não ódio), para a qual trabalhávamos. Íamos participar na manifestação do Dia da Independência da Polónia, um acontecimento de grande dimensão que se tornou uma das principais datas do calendário da extrema-direita internacional. Devíamos infiltrar-nos na manifestação, fotografar participantes internacionais e comunicar a Londres as nossas descobertas. O  meu colega deixara-se dormir e estava metido num táxi a tentar, freneticamente, chegar ao aeroporto e, por isso, acabei de beber o que estava a beber e apressei-me a sair do bar para entrar no avião sem ele. Ao entrar na estrutura parecida com um estábulo que faz de porta de partida em Stansted, o meu peito até se comprimiu quando quase tropecei num grupo de ativistas do ramo britânico do movimento juvenil de extrema-direita Geração Identidade (GI, Generation Identity).

Não repararam em mim por acaso, o que foi uma sorte porque eu e os meus colegas da HNH tínhamos passado o ano anterior a atacá-los na imprensa com uma série de denúncias que só lhes causaram danos. Escondi-me por trás de um jornal e comecei a suar ao aperceber-me de que ia ficar trancado num espaço fechado com uma matilha de racistas durante as duas horas e meia que se seguiriam, e sem a possibilidade de me escapar se algum deles me reconhecesse. 

O grupo púbere da GI não me preocupava muito, mas os quinze, ou à volta disso, skinheads em estado de embriaguez eram outra coisa. No último momento decidi entrar no avião, independentemente das circunstâncias, embarcando em penúltimo lugar pela porta de trás. O meu colega entrou apressadamente já com as portas a fecharem-se e foi uma felicidade termos aterrado em Varsóvia sem incidentes. O que pudemos ver ao sair para a pista era assombroso. Havia filas de aviões a esvaziarem-se de hordas de ativistas da extrema-direita de todo o mundo, a par com nacionalistas polacos que regressavam a casa para as festividades.

O que aconteceu nas quarenta e oito horas que se seguiram foi a expressão perfeita da natureza da extrema-direita contemporânea a nível internacional. Aos nacionalistas tradicionais que representavam vários partidos políticos juntavam-se nazis que tinham como prioridade a raça em vez da nação e ativistas de modernos movimentos de extrema-direita transnacionais como os alt-right (direita alternativa), os identitários e os "contrajiadistas" antimuçulmanos, com tudo a ser transmitido ao vivo pelos meios de comunicação alternativos de direita e pela nova espécie de influenciadores de extrema-direita das redes sociais. O ódio ganhava dimensão mundial e esta manifestação provava-o. Às dez horas da manhã seguinte, as ruas em redor do Palácio da Cultura e da Ciência, o enorme edifício de tijolo que parece pairar sobre o centro de Varsóvia, já vibravam com bandeiras vermelhas e brancas. 

A  maior parte das pessoas andava com braçadeiras com a bandeira polaca, as raparigas tinham flores vermelhas e brancas no cabelo e os rapazes usavam lenços e bonés orgulhosamente enfeitados com a águia polaca. Era como uma qualquer festa nacional, com ajuntamentos de famílias e de amigos patriotas que se reuniam para comemorar os cem anos da restauração da soberania do país em 1918. Mas, visto tudo mais de perto, emergia uma imagem bastante mais sinistra. Alguns dos manifestantes usavam lenços enfeitados com a versão supremacista branca da cruz céltica e outros saíam da estação de metro com tatuagens da runa Odal e do Sol Negro nazi das SS, nos braços e nos rostos, por vezes obscurecidas por máscaras que representavam caveiras e por balaclavas. As multidões começaram a concentrar-se por volta do meio-dia na rotunda de Dmowski.

À medida que as canções nacionalistas iam invadindo as ruas fechadas, havia grupos que se reuniam à volta de um palanque verde, cuja parte superior ostentava o logotipo verde do braço com a espada curta do Acampamento Nacional Radical (ONR, Obóz Narodowo-Radykalny). As bancas estavam cobertas de emblemas, autocolantes, t-shirts e bandanas onde se lia "Goodnight Left Side", com a imagem de um homem a espezinhar outro, e uma seleção de livros que incluíam o que parecia ser uma versão em polaco, em edição de autor, do famoso A Indústria do Holocausto, de Norman Finkelstein. 

Os homens que recebiam os pagamentos usavam balaclavas, calças e blusões de estilo militar e botas negras Dr. Martens. O Acampamento Nacional Radical é um grupo fascista (que adotou o nome de uma organização antissemita da década de 1930), bem conhecido pelos vários desfiles que organizou em Myślenice, uma cidade no sul da Polónia, para assinalar o aniversário dos motins antijudaicos ocorridos nessa cidade em 1936. A apoiá-lo, como coorganizadora da manifestação, estava a Juventude Polaca (MW, Młodzież Wszechpolska), uma organização de extrema-direita juvenil violentamente homofóbica cuja palavra de ordem é "Juventude, Fé, Nacionalismo".

Os membros da MW tinham montado o seu próprio palanque junto ao do Acampamento Nacional Radical, erguendo as suas próprias bandeiras triangulares — uma espada sobre fundo verde —, e começaram a distribuir autocolantes e panfletos. À medida que se aproximava a hora marcada para o começo — duas da tarde —, formaram-se grupos ainda mais numerosos de homens com balaclavas e foi atirado o primeiro foguete. Ecoaram depois por toda a cidade os sons dos rebentamentos dos foguetes, pondo os manifestantes aos pulos e em sobressalto.

O que começara por ser um rio tornava-se um dilúvio, com as pessoas a saíram das várias ruas adjacentes, de todas as vielas e de estações do metro. A presença da Polícia era inconcebivelmente pequena, com apenas alguns grupos irregulares de agentes espalhados pela zona, apesar de armados com espingardas de bombeamento e cintos de munições a tiracolo. A manifestação era policiada pelos próprios organizadores da extrema-direita. As ruas do percurso previsto estavam ladeadas por ativistas da Juventude Polaca, de rostos cobertos e fita isoladora nos braços, para se identificarem, havendo alguns com capacetes militares e óculos de proteção.

Nos últimos dez anos, passei de distribuidor de panfletos antifascistas porta a porta a infiltrado numa milícia estadunidense de extrema-direita fortemente armada.

O Acampamento Nacional Radical tinha um camião com um sistema de som através do qual chamava e exortava a multidão. À distância soava o som abafado de um tambor que mantinha o ritmo dos cânticos. Nas manifestações da extrema-direita ouvem-se, muitas vezes, os tambores à distância antes de eles poderem ser avistados. Depois o hino nacional polaco ecoou pelos altifalantes e a multidão, que nesta altura já era de dezenas de milhares de pessoas, explodiu num cântico arrebatador, enquanto um número incontável de foguetes vermelhos explodia por cima das suas cabeças, iluminando o céu cinzento de novembro. O fogo de artifício rebentava mesmo por cima das cabeças dos manifestantes. O desfile ia começar.

A semana anterior foi incerta e tumultuosa para os organizadores. Poucos dias antes de o desfile se realizar, a presidente da câmara municipal de Varsóvia, Hanna Gronkiewicz-Waltz proibiu a manifestação, invocando a provável ocorrência de manifestações de violência e de discurso de ódio. Mas poucas horas depois, o Presidente da Polónia, Andrzej Duda, do partido Lei e Justiça (PiS, Prawo i Sprawiedliwosé), anunciou que o Estado polaco organizaria a sua própria manifestação, na mesma altura e no mesmo local planeado pelos fascistas. 

A estes anúncios seguiram-se negociações e as autoridades polacas e a extrema-direita chegaram a um acordo: um desfile inicial com o Presidente e um pequeno contingente estatal, que seria de imediato seguido pelo desfile principal. Quando o desfile estava prestes a começar, Duda subiu a um jipe verde de estilo militar, pegou no microfone e dirigiu-se à imensa multidão que tinha pela frente e que já ultrapassava as duzentas mil pessoas. Ao observá-las, terá visto a massa de bandeiras do fascista Acampamento Nacional radical, as bandeiras verdes da Juventude Polaca, um grande contingente de bandeiras do grupo fascista italiano Forza Nuova e um mar de skinheads com blusões militares.

Apesar de estarmos com dores de cabeça depois de uma saída à noite em Varsóvia, o meu colega conseguiu subir a uma paragem de autocarros, de onde poderia filmar. Sem ter essa agilidade, tive de me contentar com uma parede mais alta, onde usei a minha objetiva zoom. Ele filmava e eu fotografava. A multidão era tão vasta que foram precisas três horas para os manifestantes passarem todos pelo ponto de partida e, quando o fizeram, a cidade ficou coberta pela escuridão, apenas iluminada pela massa de pirotecnia de cores vermelhas. Ao lado dos fascistas polacos e italianos, em números assustadoramente grandes, encontravam-se muitas figuras internacionais.

O infame ativista britânico antimuçulmano Tommy Robinson (cujo nome verdadeiro é Stephen Yaxley-Lennon) deveria intervir, mas a sua presença fora cancelada vários dias antes, embora nesta manifestação se encontrassem colegas seus que pareceriam estar a trabalhar com o youtuber canadiano da alt-right Stefan Molyneux. Também identificámos vários vloggers britânicos com blusões pró-Tommy Robinson de elevada visibilidade, bem como os ativistas britânicos James Goddard e Tracy Blackwell. Também estava presente o "jornalista cidadão" americano Jack Posobiec, da alt-lite (o sector da alternative right, ou direita alternativa, que se preocupa com a cultura e não com a raça).

O desfile seguiu em direção à Ponte Poniatowski, passando por cima do largo rio Vístula e pelo Estádio Nacional. Foram lançadas centenas de foguetes da beira da ponte e para as arcadas, que explodiram com sons poderosos que reverberaram pelo solo. Os foguetes e as bombas de fumo cobriram-nos com cinzas e puseram-nos os olhos a arder. Passando pela ponte, seguimos em multidão para o parque por trás do estádio. Tanto quanto se podia ver, havia centenas de milhares de pessoas a agitar bandeiras. No centro erguia-se uma enorme estátua, de onde dois padres conduziam as orações, às quais se seguiram mais discursos políticos. À esquerda e à direita, pelas margens do rio, via-se o mar de bandeiras fascistas da Juventude Polaca e do Acampamento Nacional Radical, uma imagem que fazia lembrar Nuremberga na década de 1930. Homens mascarados incendiaram a bandeira da União Europeia, ao estilo de uma cerimónia.

Embora muitos dos participantes neste desfile não fossem neonazis ou fascistas e estivessem apenas a celebrar a independência do seu país, a presença da extrema-direita era tão ubíqua que ninguém podia fazer de conta que não sabia quem é que estava a comandar os acontecimentos. Apesar disso, as pessoas mostravam-se satisfeitas por marcharem com eles, ouvindo os seus discursos e juntando--se aos seus cânticos. O próprio Presidente polaco desfilava poucos metros à frente das bandeiras fascistas e, sem dúvida, a uma distância em que ouvia bem o tocador de tambor do Acampamento Nacional Radical.

Além de algumas pequenas batalhas passageiras entre participantes e pessoas da organização, no lado direito do palco, o dia passou-se em relativa paz. Mas esta circunstância não tornou as coisas menos aterrorizadoras. Os participantes eram em maior número do que se esperava, tornando insignificantes os números do ano anterior, e a descontração com que os fascistas eram tratados - e a disponibilidade do Presidente para chegar a um acordo com eles - só confirmava a crescente normalização da extrema-direita que estamos a ver em todo o mundo. A noite terminou com um espetáculo de fogo de artifício e mais cânticos, à medida que as multidões se dispersavam lentamente. No Palácio da Cultura e da Ciência, no centro de Varsóvia, as ruas já tinham sido limpas e o trânsito fluía apressadamente.

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Quando, pela primeira vez, me envolvi na luta política antifascista, em 2010, era difícil de conceber que, passada só uma década, mais de 1,9 mil milhões de pessoas estivessem a viver em países com governos da direita radical. Em 2020 incluíam-se entre estes países os: Estados Unidos, com o então Presidente Donald Trump, o Brasil com o Presidente Jair Bolsonaro e a Índia com o primeiro-ministro Narendra Modi. Na Europa, o Presidente Andrzej Duda e o primeiro-ministro Mateusz Morawiecki, ambos do partido PiS, governam a Polónia, enquanto a Hungria é governada pelo primeiro-ministro Viktor Orbán, do partido Federação dos Jovens Democratas - Aliança Cívica Húngara (Fidesz -Magyar Polgári Szôvetség). Entretanto, a direita radical está também representada nos órgãos parlamentares de todo o continente e faz parte de diversos governos de coligação, entre os quais o da Bulgária, da Estónia, da Itália e da Eslováquia.

Noutros países, partidos como os Democratas Suecos, o Partido da Liberdade da Áustria, a Alternativa pela Alemanha, o Partido do Povo da Dinamarca, o Vox em Espanha e o Partido dos Finlandeses na Finlândia, obtiveram êxitos nas urnas. Simultaneamente, assistimos à ascensão de novos movimentos de extrema-direita transnacionais, como a alt-night, que abraçaram a Internet e reescreveram o manual do ativismo da extrema-direita. Nos anos mais recentes houve também uma vaga de terrorismo de extrema-direita numa dimensão que eu não poderia ter imaginado há uma década.

Nessa altura, eu acabara de completar o meu curso universitário, tendo-me alojado, numa situação de subaluguer ilegal, num apartamento camarário perto da estação de Gospel Oak, no norte de Londres. Passava os dias numa cama de campismo dentro de um quarto comicamente minúsculo, sem televisão e com um serviço de Internet horrível, a comer pêssegos em lata e a escutar o álbum Time Out, de Dave Brubeck, em repetição permanente. O tédio era interrompido por tocar naquela que eu pensava ser, à época, a melhor banda de sempre, inexplicavelmente chamada Mad Moon Sea ("Mar Louco da Lua").

Ao ouvir agora as gravações que fizemos, é para mim bem claro que éramos desgraçadamente medíocres e que só às vezes tocávamos de forma sincronizada, o que não é bom sinal, atendendo a que era eu o baterista. Hoje, quando conheço pessoas novas a quem digo o que faço, perguntam-me frequentemente: "Como é que se meteu nisso?". Sempre quis ter uma resposta dramática e inspiradora como "Li Um Longo Caminho para a Liberdade, de Mandela, e esse livro mudou a minha vida", ou "Chorava quando via crianças de origens diversas a brincarem juntas numa feira de bolos aberta a todas as fés". A verdade é que eu e o vocalista nos zangámos e eu fui corrido da banda, o que me deixou sem emprego, a receber um subsídio e confinado num quarto onde chegava às quatro paredes sem sequer me mexer. Precisava de ter qualquer coisa para fazer e, por isso, candidatei-me a um estágio não remunerado na HNH, entrando na campanha contra o Partido Nacional Britânico (BNP, British National Party), da extrema-direita, m Dagenham, Essex, nas eleições locais que iam realizar-se. 

É óbvio que não o podia saber, mas essa decisão mudou por completo a minha vida. Nos dez anos que se seguiram, passei de distribuidor de panfletos antifascistas porta a porta a infiltrado numa milícia estadunidense de extrema-direita fortemente armada, onde me passaram uma espingarda para as mãos e me enviaram para a fronteira com o México. O trabalho da HNHI é monitorizar e perturbar as atividades de grupos de ódio organizados nos dois lados do oceano Atlântico, acompanhando centenas de acontecimentos de extrema-direita no Reino Unido, na Europa e na América do Norte.

Ao estarmos nas manifestações e em reuniões internas, obtemos informações sem paralelo sobre os seus planos e mecanismos internos, ao mesmo tempo que passamos algum tempo com os ativistas, aprendendo o que os motiva, bem como o que motiva as suas políticas odiosas. Mentiria se não reconhecesse que há um verdadeiro fascínio neste tipo de investigação, com a adrenalina intoxicante e o terror acrescido de estar no meio dos foguetes, das cargas policiais e das reuniões clandestinas. Mais tarde, quando os meus dias de agente encoberto chegaram ao fim, houve as longas noites sem sono que acompanhavam a direção de operações e o meu temor pelos meus amigos e colegas que eram quem agora corria os riscos.

Também houve momentos de intensa e comovente tristeza, como aconteceu quando me deparei com uma mulher, enregelada e a tremer num chão de cimento cheio de pó, em Zakho, no norte do Iraque, que acabara de abortar enquanto fugia ao avanço das forças do autodenominado Estado Islâmico. Ou a sensação de absoluta inutilidade que sentimos perante os migrantes desesperados que estão a tentar atravessar o Mediterrâneo de Tânger para Espanha e que nos imploram ajuda. 

É claro que nem tudo é assustador ou triste. Para cada momento deprimente e trágico que vivemos neste trabalho há também momentos de alegria e de inspiração - ser-se abraçado por refugiados que dão os primeiros passos nas praias da Europa, ouvir relatos de resistência bem-sucedida ou da determinação dos jovens indianos que se manifestam contra a discriminação em Chennai e em Nova Deli.

Este livro entrelaça a história de dez anos de operações e de infiltrações para a HNHI na história muito mais importante da ascensão da extrema-direita global dos últimos 50 anos. E recorre a relatos e pontos de vista pessoais como meio de compreender a escala do problema que hoje enfrentamos e de lançar luz sobre as pessoas que estão na sua origem. Ao longo dos últimos dez anos, posso destacar vitórias e momentos de orgulho em que sinto que pude ser um elemento diferenciador — mas a verdade é que agora estamos a perder.

Quando comecei a fazer campanha, em 2010, quisemos impedir o Partido Nacional Britânico de controlar um conselho municipal e, depois de uma das maiores campanhas antifascistas da história britânica, obtivemos um êxito notável. Os anos que se lhe seguiram parecem-nos ter sido uma época de felicidade em que progredíamos de vitória em vitória. A certa altura, a ameaça da extrema-direita organizada era tão diminuta que eu deixei a HNHI para fazer um doutoramento. A dado momento, o meu ativismo antifascista era normalmente visto pelos meus amigos e familiares como sério, mas desnecessário. No mundo depois do 11 de Setembro, o ponto de vista generalizado era o de que eu devia dedicar-me aos islamitas mais do que à irrelevante extrema-direita. Tristemente, já não há quem pense assim.

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Neonazi
O extremismo de direita é a principal preocupação das forças e serviços de segurança na Alemanha | LUSA/EPA

Um dos motivos pelos quais as pessoas começaram a levar mais a sério essa ameaça em anos mais recentes foi a ascensão sangrenta do terrorismo de extrema-direita. Entre os países atingidos de forma mais dura está a Alemanha, onde tem havido uma sucessão de atentados terroristas. Em outubro de 2019, um terrorista de extrema-direita matou duas pessoas num tiroteio em Halle, na Saxónia-Anhalt, tendo sido mortas depois mais nove pessoas em dois ataques a tiro a bares de shisha em Hanau, no Hesse. Estes atentados realizaram-se na sequência dos acontecimentos extraordinários que rodearam as atividades do grupo terrorista Clandestinidade Nacional Socialista (National Socialist Underground) que incluíram o assassinato de nove imigrantes entre 2000 e 2006, de um agente da Polícia em 2007, e três atentados à bomba em Nuremberga, em 1999, e em Colónia, entre 2001 e 2004. 

Infelizmente, a Alemanha não foi o único país atacado pelo terrorismo de extrema-direita na última década. Na Noruega, em 2011, Anders Behring Breivik matou impiedosamente a tiro sessenta e nove pessoas na ilha de Utgya e, com um carro armadilhado, matou mais oito em Oslo. Nos EUA, em junho de 2015, Dylann Roof, um supremacista branco, assassinou nove afroamericanos num ataque a tiro numa igreja de Charleston, na Carolina do Sul. Mais recentemente, houve dois outros tiroteios antissemitas, primeiro em outubro de 2018 na sinagoga Árvore da Vida em Pittsburgh, em que morreram onze pessoas, e depois na sinagoga de Poway, na Califórnia, em abril de 2019, em que morreu uma pessoa e outras três ficaram feridas.

A estes atentados seguiu-se, em agosto de 2019, o massacre de mais vinte e duas pessoas inocentes numa loja da Walmart em El Paso, no Texas, num ataque anti-hispânico. O Reino Unido também não ficou a salvo destes ataques mortíferos, com o assassinato da deputada Jo Cox em 2016 e um ataque com um furgão a uma mesquita em Finsbury Park, no norte de Londres, em 2017, E, provavelmente, teria havido maior derramamento de sangue se não fosse o trabalho corajoso do nazi tornado antifascista Robert Mullen, em colaboração com os meus colegas da HNH Nick Lowles e Matthew Collins, que juntos impediram o assassinato de outro membro de Parlamento por elementos do grupo ilegal e terrorista National Action em 2018.

O ataque mais mortífero dos últimos anos ocorreu em 15 de março de 2019, quando um terrorista de extrema-direita irrompeu na sessão de oração de sexta-feira na Mesquita de Al Noor e depois no Centro Islâmico de Linwood, em Christchurch, na Nova Zelândia, matando cinquenta e uma pessoas e ferindo outras quarenta e nove. O assassino, um australiano, inspirou-se nas ações do terrorista britânico Darren Osborne, do assassino escolar sueco Anton Lundin, do assassino nas igrejas dos EUA Dylann Roof, e no assassino de massas norueguês Anders Breivik. O seu manifesto revelou que a ideologia que professava derivava das ideias do fascista britânico Oswald Mosley e do lema das chamadas "14 Palavras", popularizado pelo movimento supremacista branco dos EUA, contendo ainda pontos de referência históricos que são populares no movimento internacional antimuçulmano da "contrajiade", sendo em grande medida motivado pelos princípios-chave do movimento identitário europeu.

Também coordenei as operações de infiltração de outras pessoas, incluindo a do meu colega Patrik Hermansson, que, corajosamente, passou um ano na clandestinidade e cuja história deu origem ao documentário Undercover in the Alt-Right.

Antes do ataque, Osborne estivera durante algum tempo em França, na Croácia, na Bulgária, na Hungria, na Turquia e na Bósnia-Herzegovina, onde encontrou as influências para a sua opção política. Entre as vítimas desse dia, a par de muçulmanos da Nova Zelândia foram atingidos migrantes e refugiados do Paquistão, da Índia, da Malásia, da Indonésia, da Turquia, da Somália, do Afeganistão e do Bangladesh. O ataque de Christchurch foi uma verdadeira tragédia internacional, perpetrada por um único homem, mas motivado por um movimento global.

Muitos desses ataques terroristas foram levados a cabo por indivíduos que não estavam ligados a partidos políticos tradicionais de extrema-direita, fazendo parte de movimentos de extrema-direita mais flexíveis e muitas vezes transacionais que não têm uma estrutura formal. Embora muitos destes agrupamentos tenham organizações fornais no seu interior, são com frequência pós-organizacionais. Milhares de indivíduos em todo o mundo fazem donativos minúsculos de tempo e, por vezes, de dinheiro, para colaborarem em objetivos políticos comuns, completamente fora das estruturas organizacionais tradicionais. Faltam a estes movimentos líderes formais, tendo, em vez disso, figuras de proa que na sua origem são, muitas vezes "influenciadores" das redes sociais.

Durante a maior parte do período do pós-guerra, "tornar-se ativo" exigia encontrar um partido, aderir, fazer campanha, bater às portas, distribuir panfletos e ir a reuniões. Agora, a partir do conforto e da segurança das suas próprias casas, os ativistas da extrema-direita podem envolver-se na política ao assistir a vídeos no YouTube, visitar sites de extrema-direita, socializar nos fóruns, intervir em serviços de chat por voz como o Discord e ao tentar converter os "normais" nas plataformas das redes sociais convencionais como o Twitter e o Facebook. O facto de tudo isto poder ser feito de forma anónima reduz enormemente os custos sociais do ativismo. Estes novos movimentos serão mais bem percebidos se forem vistos como uma hidra de muitas cabeças.

Se um ativista ou líder destacado cair em desgraça, a situação já não é uma fatalidade; outros, simplesmente, emergirão e os que foram desacreditados serão afastados. É de uma importância fundamental que estes movimentos sejam, genuinamente, transacionais.

Embora os ativistas se preocupem, em geral, principalmente com problemas locais ou nacionais, acabam, de modo invariável, por contextualizar esses problemas à escala continental ou mesmo mundial. Acontece, muitas vezes, que ativistas de todo o mundo se juntem por períodos breves para colaborarem em certos temas e estas redes soltas são como sinapses que fazem circular a informação pelo mundo. Um islamófobo num dado país, revoltado pela oferta de frango halal no seu restaurante local de fast food pode publicar um post nas redes sociais e a história circulará por toda a rede. Se for aproveitada por um "super partilhador" (um ativista especialmente influente com muitos seguidores nas redes sociais), esse relato local será acolhido e depois distribuído por islamófobos que pensam da mesma maneira em todo o mundo, funcionando com mais uma "prova" que os convencerá ainda mais da ameaça da islamização.

Durante a maior parte do período do pós-guerra, "tornar-se ativo" exigia encontrar um partido, aderir, fazer campanha, bater às portas, distribuir panfletos e ir a reuniões. Agora, a partir do conforto e da segurança das suas próprias casas, os ativistas da extrema-direita podem envolver-se na política ao assistir a vídeos no YouTube, visitar

Tudo isto significa que, se queremos compreender verdadeiramente a extrema-direita contemporânea, devemos mudar a nossa maneira de pensar. Vivemos num mundo que está a ficar mais pequeno e estamos interligados como nunca estivemos. A nossa capacidade de viajar, de comunicar e de cooperar para além das fronteiras teria sido inconcebível há apenas uma geração e, apesar de estas oportunidades não estarem, de modo algum, igualmente distribuídas, elas criaram possibilidades que antes seriam impossíveis para o progresso e o desenvolvimento. Mas a maior interligação também deu origem a nossos desafios. As ferramentas ao nosso alcance, para construirmos um mundo melhor, mais justo, mais unido e mais colaborativo, estão também nas mãos dos que as usam para semear a divisão e o ódio em todo o mundo.

Se quisermos perceber os perigos da política do ódio e da divisão, não podemos olhar apenas para a nossa rua, para a nossa comunidade ou mesmo para o nosso país. Precisamos de pensar para lá dos partidos políticos, das organizações formais e das fronteiras dos países.

Este livro procura fazer isso mesmo através da história da extrema-direita de uma perspetiva internacional, destacando as suas diferentes manifestações – sejam elas partidos políticos, grupos de protesto de rua, terroristas nazis ou protagonistas individuais que funcionam online – e analisando os muitos fatores que contribuem para a sua atual ascensão.

Entre as experiências pessoais que me inspiram estão a minha infiltração no movimento das milícias dos EUA e no Ku Klu Klan, bem como a participação em reuniões dos principais grupos antimuçulmanos e conferências das alas mãos radicais da extrema-direita. No Reino Unido assisti a, literalmente, centenas de manifestações da extrema-direita e estive em reuniões de fascistas extremistas. Fui a iniciativas da extrema-direita na Suécia, na Dinamarca, na Alemanha, na Polónia e na República Checa e, para melhor perceber a ascensão do nacionalismo hindu, fui para a Índia durante um período de violentos motins antimuçulmanos.

Também coordenei as operações de infiltração de outras pessoas, incluindo a do meu colega Patrik Hermansson, que, corajosamente, passou um ano na clandestinidade e cuja história deu origem ao documentário Undercover in the Alt-Right.

 A investigação académica e jornalística é para compreender adequadamente a extrema-direita, mas acontece que, muitas vezes, os seus ativistas mentem ou moderam as suas perspetivas políticas quando sabem que há alguém a observá-los. Por vezes, e só pela entrada nesses movimentos que 8e consegue realmente descobrir a verdade.

Também tentei perceber melhor as motivações que estão na base destes movimentos em todo o mundo. Passei algum tempo em comunidades afetadas por políticas de extrema-direita, como Dagenham, Burnley e Stoke no Reino Unido e na região industrial da América do Norte conhecida por Rust Belt ("cintura da ferrugem"), estudando os efeitos da desindustrialização, da globalização e das dificuldades económicas. Mas a economia, só por si, não pode explicar a situação difícil em que nos encontramos.

Os factores culturais e sociais também desempenham um papel importante. À chamada "crise dos migrantes" teve, indubitavelmente, um efeito importante na ascensão da extrema-direita europeia e, em2015, fui às ilhas gregas para a observar em primeira mão, passando algumas noites em praias a encontrar-me com refugiados e migrantes quando eles davam os seus primeiros passos em solo europeu.

Mais recentemente, regressei ao Mediterrâneo, encontrando-me em Marrocos com migrantes que tinham esperança de fazer o mesmo.

Finalmente não é possível contar a história da extrema-direita moderna sem analisar o papel do terrorismo islamita. À vaga de atrocidades terroristas islamitas desde o 11 de Setembro e, principalmente, a sucessão de ataques de anos recentes acenderam as chamas da extrema-direita internacional.

Apesar de haver quem simplifique demais a relação entre a extrema-direita e o extremismo islamita, há uma relação inquestionável entre os dois. Durante muitos anos, investiguei o grupo terrorista Al-Muhajiroun, participando em dezenas das suas manifestações em Londres. Muitas das pessoas que conheci nessas iniciativas, incluindo o seu líder Anjem Choudary, foram depois condenadas por agressões terroristas. Outros foram para a Síria e para o Iraque lutar pelo Estado Islâmico e foi nessas circunstâncias que morreram.

Em 2014 segui-as numa viagem ao norte do Iraque, poucos meses depois da dramática queda de Mossul. Juntos, estes relatos, alguns dos quais já publicados pela HNH e agora revistos e atualizados, não servem apenas para dar cor à história, contribuindo também, espero eu, para que as pessoas compreendam a ameaça corrente.

Muitas pessoas pensavam que progresso e à igualdade era de sentido único, mas a última década mostrou que não é esta a situação. Assistimos, por todo o mundo, ao regresso da extrema-direita, numa ameaça genuína a muitos dos direitos e liberdades que começámos a tomar por garantidos.

A variedade de indivíduos, partidos e movimentos abordados nestas páginas, que vão de Donald Trump aos nazis terroristas, suscita uma pergunta: como é que todos eles podem ser chamados "extrema-direita"? Os debates sobre a terminologia, se é "extrema-direita" ou "fascismo", já fizeram correr uma espantosa quantidade de tinta e preencheram livros muito maiores do que este. Embora "extrema-direita" seja uma expressão muito abrangente, os que se situam nesta área estão unidos por um conjunto comum de convicções centrais. Jean-Yyes Camus e Nicolas Lebourg salientam em Far-Right Politics in Europe que: os movimentos de extrema-direita desafiam o sistema político instalado, as suas instituições e os seus valores (o liberalismo político e o humanismo igualitário). Eles entendem que a sociedade se encontra num estado de decadência, que é exacerbado pelo Estado: de acordo com esta perspetiva, levam a cabo aquilo que vem como uma missão redentora.

Constituem uma contrassocicdade e descrevem-se como elite alternativa. As suas operações internas não assentam em regras democráticas, mas na emergência das "verdadeiras elites". No seu imaginário associam a História e a sociedade a figuras arquetípicas e glorificam valores irracionais e não materialistas. E, finalmente, rejeitam a ordem geopolítica tal como ela existe.

Embora "extrema-direita" seja uma expressão útil abrangente, é necessário ir mais longe e seccioná-la nas suas partes constitutivas: a direita radical democrática e a extrema-direita mais extremista. O cientista social Cas Mude explica que a extrema-direita "rejeita a essência da democracia, ou seja, a soberania popular e o governo da maioria", enquanto a direita radical "aceita a essência da democracia, mas opõe-se a elementos fundamentais da democracia liberal, nomeadamente os direitos das minorias, as regras do Estado de direito e a separação de poderes"?

Embora esta seja uma distinção útil, vale a pena notar que até uma grande parte da aceitação da democracia pela direita radical, mas não toda, pode ser também correntemente descrita como "populista", o que Mudde define como "uma ideologia ténue que considera a sociedade como estando, no limite, separada entre dois grupos homogéneos e antagonistas, o povo puro e a elite corrupta, e que argumenta que a política devia ser uma expressão da volonté générale (vontade geral) do povo".

Outro termo importante é o sempre difícil de definir "fascismo", que constitui uma parte da extrema-direita. Mas o que é o fascismo? Mesmo vinte e dois anos depois de Mussolini ter assumido o controlo da Itália, Gorge Orwell salientou a dificuldade de obter uma única definição obtida consensualmente desse movimento, interrogando-se: "Porque, então, não podemos ter uma sua definição clara e geralmente aceite? Para nosso mal, não teremos uma, pelo menos, por agora".

Infelizmente, estamos ainda longe de encontrar um consenso, apesar da emergência, ao longo dos últimos vinte anos, de um domínio muitas vezes designado por "estudos sobre o fascismo", concebido para conseguir isso mesmo. Um dos problemas é a generalização do uso incorreto da palavra. Durante os eventos da chamada "Semana da Livre Expressão", iniciativa do provocador britânico da extrema-direita Milo Yiannopoulos na Califórnia, em 2017, ouviu-se por todo o campus universitário de Berkeley o som dos antifascistas a cantarem "No Trump, no KKK, no fascista USA" ("Trump, não; KKK, não; EUA fascistas, não"). Placares, cartazes e panfletos atravancaram as ruas, muitos dos quais chamavam, inequivocamente, "fascista" a Trump. Trump é muitas coisas. É racista, é misógino, é nativista e de extrema-direita, mas não é fascista. Nas palavras do historiador do fascismo Roger Griffin: 'Pode ser-se um absoluto filho da puta xenófobo, racista e chauvinista masculino e, mesmo assim, não se ser fascista'." É claro que nada disto é novo. Em 1944, Orwell já lamentava: ver-se-á que, tal como é usada, a palavra "fascismo" é quase inteiramente desprovida de significado. Em conversas, naturalmente, e ainda usada de maneira mais descontrolada do que no papel, Ouvi-a aplicada a agricultores, comerciantes, ao Crédito Social, aos castigos corporais, à caça à raposa, às touradas, ao Comité de 1922, ao Comité de 1941, a Kipling, Gandhi e Chiang Kai-shek, à homossexualidade, às emissões radiofónicas de [J.B.] Priestley, aos albergues para a juventude, a astrologia, às mulheres, aos cães e sei lá que mais.

No entanto, apesar do Uso abastardado e desleixado de uma palavra profundamente séria, "fascismo" não chegou a um estado de degradação que o tornasse inútil para a classificação política dos indivíduos ou das Organizações, apesar do que defendem alguns historiadores. Como afirma, justamente, Robert O. Paxton: "a palavra “fascismo” precisa de ser resgatada do seu uso pouco consistente e não de ser deitada fora por este mesmo motivo. Ela continua a ser indispensável .

Precisamos de uma expressão genérica para o que é um fenómeno geral. Há quem rejeite a palavra, argumentando que o fascismo morreu em 1945, com a queda da Alemanha nazi, enquanto outros vão mais longe e defendem que o seu uso deve ser limitado à Itália de Mussolini. Gilbert Allardyce, por exemplo, argumenta que "'fascismo' não é um conceito genérico. A palavra fascismo não tem significado fora de Itália"? No entanto, como explica Graham Macklin em Failed Führers, "apesar de as condições 'de época' terem deixado de existir depois de 1945" e de faltar ao fascismo do pós-guerra "a crise económica e existencial mais vasta de que derivou a sua "relevância" durante o período entre as duas guerras, isso não quer dizer as variantes do pós-guerra tenham deixado de ser 'fascismo'".

Se quisermos perceber os perigos da política do ódio e da divisão, não podemos olhar apenas para a nossa rua, para a nossa comunidade ou mesmo para o nosso país. Precisamos de pensar para lá dos partidos políticos, das organizações formais e das fronteiras dos países.

Nem o uso frequentemente incorreto da palavra nem a diversidade do fenómeno constituem causa suficiente para o pôr de parte por inteiro, embora tudo isto torne muito difícil definir o que queremos dizer ao usarmos a palavra "fascismo". No entanto, o dilema de definir com uma única palavra um fenómeno histórico extenso, difuso e profundamente variado pode ser resolvido pela adoção de um "tipo ideal". Das várias definições de "tipo ideal", a que está mais próxima de alcançar um consenso é a de Roger Griffin, que define o "fascismo genérico" como um "género de ideologia política cujo centro mítico nas suas várias permutações é uma forma palingenética de ultranacionalismo populista".

Embora tudo isto possa parecer académico, não é. É importante saber a quem chamamos de extrema-direita ou fascista, porque isso tem ramificações, tanto para o Estado como para os antifascistas. Amontoar toda a gente debaixo da expressão "fascista" faz com que alguns tentem combater o Partido do Brexit de Nigel Farage com a mesma tática que se usaria contra um grupo terrorista nazi. O modo como compreendemos e definimos os elementos da extrema-direita é o primeiro passo para percebermos como os devemos combater.

Muitas pessoas pensavam que progresso e à igualdade era de sentido único, mas a última década mostrou que não é esta a situação. Assistimos, por todo o mundo, ao regresso da extrema-direita, numa ameaça genuína a muitos dos direitos e liberdades que começámos a tomar por garantidos.

Apesar de isto não ter sido visto simultaneamente em diversos continentes – e em muitos países em todo o mundo os próprios pilares da democracia liberal começam a vacilar. As diferenças de país para país são, naturalmente, tão numerosas como as semelhanças, e não há uma explicação de uma causa única para aquilo a que estamos a assistir. Mas, embora a ascensão da direita em cada país tenha os seus próprios motivos, com raízes em percursos históricos e experiências de carácter único, há semelhanças internacionais que ajudam a tornar mais claros estes tempos de perturbação. Quanto melhor compreendermos a ameaça que enfrentamos em todo o mundo, melhor seremos capazes de ripostar. Espero que este livro contribua para esse exercício de compreensão.

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