causas humanitárias

 

 

Dez crises humanitárias que não podem ser esquecidas

Há centenas de milhões de pessoas a viverem em situação de crise humanitária. Destacamos dez das mais urgentes (e muitas vezes esquecidas) crises humanitárias.

Direitos humanos
31 Março 2022

A invasão da Ucrânia pela Rússia criou uma das maiores crises humanitárias europeias desde a II Guerra Mundial: cerca de quatro milhões de refugiados num mês. O furacão de crises humanitárias não se fica por aqui e há guerras e crises a que não estamos a prestar atenção.

Combinada com os conflitos em curso e a crise climática, a pandemia de covid-19 fez aumentar as necessidades humanitárias ao longo de 2021. Relatórios como o Global Humanitarian Overview 2022, publicado a 14 de janeiro de 2022, alertam que vidas e meios de subsistência individuais, estabilidade nacional e décadas de desenvolvimento estão em risco. E os números não deixam dúvidas: 274 milhões de pessoas precisam de assistência humanitária, o número mais alto em décadas.

Com origem em causas de variadas ordens - motivos políticos, conflitos armados, desastres ambientais (causados pelas alterações climáticas, por exemplo) ou razões sanitárias - são muitas as batalhas e demasiadas vítimas. A invasão russa foi o gatilho que faltava para a crise alimentar se agravar em regiões como o Médio Oriente e o continente africano. O Setenta e Quatro destaca dez das mais urgentes crises humanitárias.  

Afeganistão

A combinação de conflito, seca, pandemia, tumultos políticos e choques económicos recorrentes teve um impacto devastador na população afegã. As rupturas nos serviços básicos, nos sistemas financeiros e na função pública estão a exacerbar uma situação humanitária “quase incontornável”.

Estima-se que 22,8 milhões de pessoas (55% da população) estejam em crise ou em níveis de emergência de insegurança alimentar, um aumento de quase 35% em relação ao ano passado. Prevê-se agora que mais de metade de todas as crianças com menos de cinco anos estejam gravemente subnutridas em 2022, um aumento de 21% que ultrapassa os limiares de emergência. Nas zonas rurais, as necessidades são em grande parte motivadas por aquela que é a pior seca nos últimos 27 anos e os efeitos de mais de quatro décadas de conflito. 

As ameaças aos civis e as necessidades agudas de proteção permanecem elevadas. Existem sérias preocupações quanto ao retrocesso dos direitos das mulheres e restrições à sua participação na vida e na sociedade, que pioraram após os talibãs assumiram o poder no Afeganistão, depois da retirada das tropas norte-americanas em maio de 2021.

Burkina Faso

Por mais de uma década, a região central do Sahel – maioritariamente Mali, Níger e Burkina Faso – tem sido palco de conflitos entre grupos armados, governo e forças internacionais. Em 2021 tornou-se foco de violência na região, com um aumento acentuado de raptos e ataques, registando-se cerca de 160 mortes. De acordo com o Fundo de População das Nações Unidas, o conflito no Sahel Central e no Burkina Faso é uma das situações de emergência que mais aumenta no mundo. Estes ataques assolam o país desde 2015 e não mostraram sinais de cessar.  

Enfrentando agora deslocamentos em massa como resultado da violência e uma luta agravada pela falta de acesso a necessidades básicas como água, alimentos e saneamento, o país poderá viver uma insegurança alimentar estimada em mais de três milhões de pessoas, segundo a Organização para a Alimentação e Agricultura. As precárias condições de vida trazem à tona um alto risco de doenças, como a Malária, que em 2020 atingiu 11 milhões de pessoas.

Iémen

A crise alimentar que atinge o Iémen “está à beira da catástrofe” devido ao crescente número de pessoas que sofrem de fome que atinge cerca de 19 milhões de pessoas. A cada dez cidadãos do Iémen, três vão precisar de ajuda alimentar.

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Há anos que o Iémen vive uma epidemia de cólera  que já causou milhares de mortos / R. Gangale

A guerra que assola o país há anos é a principal causa de fome entre a população, dada a crise económica causada pelo conflito e pela desvalorização da moeda, que fez com que os preços dos alimentos atingissem no ano passado os níveis mais altos desde 2015.

Considerada pelas Nações Unidas a maior tragédia humanitária do planeta, 80% da população do país precisa urgentemente de algum tipo de assistência para colmatar as necessidades básicas. Com a invasão da Ucrânia pela Rússia, o Iémen é um dos países que poderá viver uma realidade agravada. Inteiramente dependente das importações de alimentos, com 30% de trigo provenientes da Ucrânia, David Gressly, coordenador das Nações Unidas no Iémen, fez um alerta: a conjugação destes fatores pode fazer com que o “nível catastrófico da fome” cresça 420% no segundo semestre de 2022.

Não ficando por aqui, a 16 de fevereiro de 2022, rebeldes houthis tentaram assumir o controlo de Marib, a última grande cidade do Iémen ainda gerida pelo governo: os ataques destruíram alvos militares, mas também uma escola, ferindo e matando vários civis. O grupo de insurgentes originário do norte do país é composto sobretudo por zaiditas — corrente xiita à qual pertence 35% da população iemenita — e conquistou a capital do país em 2014. Exigiu um novo governo e uma descida dos preços dos combustíveis. O presidente demitiu-se, o conflito começou. Após o regresso do chefe e Estado ao poder, a guerra civil nunca mais parou. Cerca de 377 mil pessoas terão morrido em consequência da guerra até ao final de 2021 e a ONU reconhece que o número de mortes poderá ultrapassar 1,3 milhões em 2030.

Etiópia

Desde novembro de 2020 que a região etiópia de Tigray vive uma guerra civil entre o governo federal da Etiópia e as forças lideradas pelo partido Frente Popular de Libertação do Tigray (FPLT). O conflito estalou quando o governo federal tentou controlar o governo regional, e a ofensiva militar evoluiu para uma limpeza étnica contra os tigreanos. Palco de ataques violentos contra civis, a Amnistia Internacional alertou que “as forças tigreanas violaram e agrediram sexualmente pelo menos 30 mulheres e raparigas de 14 anos”.

O conflito, que já dura há 16 meses, está a ter um impacto brutal sobre a população local. Desde o bloqueio à entrada de ajuda humanitária, de alimentos, de assistência médica e de combustíveis para a região, estima-se que mais de 100 mil crianças estejam em risco de morte por desnutrição, segundo o Alto-comissariado das Nações Unidas para os Refugiados. O número de pessoas que precisa de assistência médica urgente já ultrapassa os cinco milhões.

Myanmar

A nação do sudeste asiático tem vivido agitação política desde que os militares levaram a cabo um golpe militar. Assumiram a liderança do país em abril de 2021 e declararam estado de emergência depois de a presidente, Aug San Suu Kyi, ter ganho as eleições presidenciais com uma maioria esmagadora. 

Em risco de colapso por causa da degradação da sua economia, da educação, da saúde e dos sistemas de proteção social, o alerta foi feito pela alta-comissária da ONU para os Direitos Humanos, Michelle Bachelet. Destacou que os direitos humanos do povo da Myanmar estão em profunda crise 13 meses após o golpe militar de 1 fevereiro de 2021, depois de os militares terem apoiado fortemente a oposição. Desde então que protestos em massa, repressão violenta, crescente deslocamento de população e instabilidade económica são uma realidade quotidiana no país.

Os registos apontam para a fuga do país de pelo menos 15 mil birmaneses. Outros 340 mil cidadãos deslocaram-se internamente, juntando-se aos mais de um milhão de refugiados rohingyas, minoria étnica perseguida pelos militares birmaneses, tendo organizações humanitárias classificado a perseguição como limpeza étnica. Registaram-se, no total, mais de 400 ataques pelas forças de segurança do governo em áreas povoadas. Michelle Bachelet considera a situação desta minoria como “uma solução à vista”, uma vez que os rohingya vivem sem total falta de liberdade de movimento e acesso a serviços. 

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 A Human Rights Watch classificou nos seus relatórios o Estado de Israel como apartheid |Fotografia AFP

 

Palestina

No ano passado, a ONG Human Rights Watch declarou Israel como um Estado apartheid. Depois da publicação do seu relatório, “A Threshold Crossed”, várias famílias palestinianas foram expulsas das suas casas em Jerusalém Oriental, uma ação que se insere na política de limpeza étnica levada a cabo pelo governo de Telavive.

Estas ações desencadearam vários protestos populares, respondidos com violência por parte das autoridades israelitas. Depois de o Hamas lançar rockets artesanais, Israel respondeu com mísseis, que atingiram também a torre onde estava a redação da Al-Jazeera. Resultado: 250 mortes palestinianas e 13 mortos em Israel.

Crise humanitária é a única coisa que os palestinianos que vivem fora de Israel conhecem, desde a fundação do Estado de Israel, em 1948. A viver nos vizinhos de o hoje oficialmente Estado judaico – Jordânia, Líbano e Síria – há mais de seis milhões de refugiados palestinianos.

República Democrática do Congo

Depois de enfrentar uma série de questões que ameaçavam a segurança e o bem-estar dos cidadãos do país, inclusive violência política e três surtos de ébola num ano, a República Democrática do Congo testemunhou um desastre natural sem precedentes. 

No final de maio do ano passado, a situação agravou-se quando 450 mil cidadãos foram forçados a fugir das suas casas depois da erupção do vulcão Monte Nyiragongo. O desastre natural matou pelo menos 31 pessoas, destruiu centenas de casas e deixou centenas de milhares de cidadãos desabrigados. 

Além disso, há mais de 130 grupos armados a atacar civis por todo o país. Só em 2019, a ONU reportou 601 novos casos de recrutamento infantil por milícias. Ao mesmo tempo, mais de três mil crianças escaparam ou foram resgatadas destes grupos. Há mais de 5,5 milhões de deslocados internos e mais de 800 mil refugiados noutros países. 

Síria

A crise dos refugiados sírios é uma das piores do mundo, e a situação está a ficar cada vez mais grave. Proveniente da guerra civil que começou em 2011, existem atualmente cerca de 6,9 milhões de pessoas deslocadas internamente no país, 5,6 milhões de refugiados e mais de 13,5 milhões precisam de assistência humanitária. De acordo com um estudo financiado pela União Europeia e realizado pelo Centro Operacional de Análise e Investigação, os fundos para ajuda permaneceram estagnados apesar da crise prolongada.  

Com quase 400 mil mortes registadas, o Relatório da Comissão de Inquérito da ONU revela que os níveis de sofrimento atingiram um novo patamar com a escalada da violência, o colapso da economia e o piorar da crise humanitária. Com uma inflação de 140%, o preço dos produtos básicos globais estão fora de controle e a seca é das piores em décadas. 

O mesmo relatório alerta que os acampamentos de refugiados de Al Hol e Al Roj, localizados no noroeste do país, apresentam “condições cruéis e desumanas”. Estes locais abrigam cerca de 60 mil pessoas, das quais 40 mil são crianças. Com as tensões a serem cada vez maiores, os acampamentos têm também registado assassinatos e violência em larga escala. “Somente no ano passado, mais de 90 pessoas foram mortas em Al Hol”, afirma Hanny Megally, integrante da Comissão. 

Somália

A crise humanitária na Somália atinge valores que assolam o país: oito milhões de pessoas necessitam de ajuda e intervenção imediata por causa da seca extrema. Numa declaração conjunta, um grupo de organizações não-governamentais , que inclui a Oxfam, a Action Against Hunger e a Save the Children, revelou a sua “profunda preocupação com as vidas de milhões de somalis, que enfrentam uma grave crise alimentar”. A terceira seca consecutiva no Corno de África deve-se ao mais longo período sem chuvas significativas no país em 40 anos.

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A ONU alerta que oito milhões de pessoas precisam de ajuda imediata por causa da seca extrema na Somália.| Fotografia via Unsplash 

A esta realidade urgente junta-se ainda um conflito armado entre o grupo terrorista fundamentalista islâmico Al-Shabaad e as forças armadas norte-americanas. Criado em 2006, o grupo terrorista teve um papel destrutivo durante a guerra entre a Etiópia e a Somália que se prolongou até 2011, quando assumiu o controle de várias zonas da capital Mogadíscio e do porto de Kismayo. 

Sudão do Sul

O país mais recente do mundo conquistou a sua independência em 2011 e entrou em guerra civil dois anos depois, na sequência de uma disputa entre dois líderes políticos rivais étnicos. Os conflitos armados resultam em violência e terror: aldeias dizimadas, violência e recrutamento de crianças para as fileiras de guerra. Cerca de 400 mil pessoas morreram desde dezembro de 2013, e há quase 2,3 milhões de refugiados. O país enfrenta uma situação de profunda instabilidade, sendo que o governo de unidade nacional não conseguiu restringir a violência que se mantém mesmo depois do fim da guerra civil.

A este cenário acrescenta-se uma das crises de refugiados mais críticas do mundo e uma escassez significativa de alimentos que atinge mais de sete milhões. O relatório da ONU atenta que mais de 70% da população vai estar em “fome extrema” em 2022. 

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