Reflexões de 20 anos como repórter em construção

Há uma grande exposição na reportagem televisiva e uma tremenda confiança depositada pelos que abrem as portas a uma equipa de reportagem, muitas vezes em situações de enorme vulnerabilidade. Por vezes sem terem uma completa noção da exposição a que se sujeitam e dos impactos na sua vida a curto e longo prazo. Temos a obrigação de honrar essa confiança o melhor que saibamos.

Ensaio
8 Setembro 2022

Quis ser jornalista desde que me lembro, até perceber que o que queria ser era repórter. Passei pela imprensa antes de descobrir a alquimia da mistura de escrita, som e imagem.

1. Cheguei à SIC em 1999. Tinha 20 anos, sobrava-me tempo e nunca me parecia demais o tempo passado na redação, talvez por olhar à volta e ver muita gente com quem aprender. Terminava o trabalho e mergulhava nas Grandes Reportagens do arquivo. Aprendi muito a ver, com atenção e curiosidade, os trabalhos de outros jornalistas, repórteres de imagem e editores de imagem, tentando adivinhar-lhes as costuras. Nas reportagens que fiz ao longo dos mais de 20 anos seguintes, recorri com frequência aos ensinamentos que retirei desses primeiros e iniciáticos visionamentos. Apesar do tempo dos meus dias ter, entretanto, encolhido, tento ver, ler e ouvir o trabalho de outros repórteres, de diferentes idades, meios e geografias.

1.1. Os horizontes têm tendência a encolher com a idade. Um repórter deve estar vigilante em relação ao que em si se estreita e cristaliza. Tratar os horizontes como músculos. Exercitá-los. São uma ferramenta de trabalho.

A presença da câmara é intimidante para a maioria das pessoas. Cada repórter desenvolve as suas estratégias para ajudar os entrevistados a quebrar o gelo com a câmara. 

2. A reportagem televisiva faz-se, pelo menos, a seis mãos e três cabeças: repórter, repórter de imagem e editor de imagem. Nos trabalhos de maior fôlego a 300 Reflexões de 20 anos como repórter em construção – Testemunho equipa cresce com a produção editorial e o grafismo. Ainda que apenas o repórter esteja presente em todas as fases do processo, moldando-o do início ao fim, cada uma destas pessoas – com a sua bagagem, a sua cultura, as suas referências e as suas emoções – contribui decisivamente para o resultado final. A reportagem ganha com o envolvimento de cada uma delas desde a fase mais inicial possível.

2.1. Uma definição de reportagem, pelo jornalista brasileiro Luiz Amaral: “Reportagem é a representação de um facto ou de um acontecimento enriquecida pela capacidade intelectual, observação atenta, sensibilidade, criatividade e narração fluente do autor”. (...) “A reportagem também é uma arte porque nela entra toda a bagagem subjetiva de quem a faz”.

3. A presença de uma câmara altera o ambiente, por vezes profundamente. Nem sempre é possível, mas é importante conhecer previamente “o terreno”, sem câmara. Para conhecer, de forma menos alterada, o ambiente e as pessoas que vamos retratar, mas também para quebrar eventuais barreiras de desconfiança, ignorância e preconceitos mútuos. Muitas das reportagens que fiz não teriam existido sem esse primeiro passo.

3.1. Pode ser útil um exemplo: com o repórter de imagem Filipe Ferreira e com o editor de imagem Ricardo Tenreiro fiz, em 2007, uma Grande Reportagem sobre um balneário público de Lisboa, em Alcântara: O Balneário. Apesar de morar, na altura, muito perto, e apesar de Lisboa ter então mais de 20 instalações semelhantes, nem eu nem nenhum dos elementos da equipa tinha alguma vez entrado num balneário público. Entre os que não têm casa de banho, os que vivem na rua, e os que envelheceram sozinhos, ali se constrói uma certa rede familiar, com as respectivas avenças e desavenças, que nos era desconhecida. Não tenho dúvidas de que as teias mais subtis dessa rede nos teriam permanecido invisíveis se não tivesse lá ido uma vez primeiro, sozinha, sentar-me a observar. E uma segunda vez, com o Filipe Ferreira, ainda sem material de filmagens.

Conversámos com os vigilantes do balneário e com os que nesse dia frequentaram os duches públicos. Os que teriam fugido de nós se, ao entrar desprevenidos, encontrassem dois estranhos com uma câmara. Guilhermina Rodrigues, lisboeta de Alcântara, que sempre teve casa “mas nunca com casa de banho”, embora tenha trabalhado a vida inteira “na venda”. Que ali tomou banho pela primeira vez aos oito anos, levada pela mãe. Mais tarde levou os filhos e depois os netos. Aníbal Jorge, que vivia na rua. Andara embarcado 25 anos e há mais de dez que era “um barco à deriva”. Amélia Oliveira, que aquecia o corpo envelhecido e pouco mimado sob os chuveiros públicos da capital. Aos 85 anos tivera, pela primeira vez, uma casa de banho. Mas a banheira da casa atribuída pela Câmara era, então, um luxo de que a viúva Amélia já não conseguia desfrutar sem ajuda. Passava todas as manhãs no balneário “para distrair”. Às sextas tinha a ajuda de Rosa, a vigilante, para tomar banho.

3.2. A presença da câmara é intimidante para a maioria das pessoas. Cada repórter desenvolve as suas estratégias para ajudar os entrevistados a quebrar o gelo com a câmara. Muitas vezes vale a pena regressar a temas anteriores em momentos mais avançados da conversa. Quando termino uma entrevista, pergunto sempre aos entrevistados se há alguma coisa que me faltou perguntar. Ou de que não tenhamos falado o suficiente. Habitualmente as pessoas respiram fundo. Às vezes começa aí a melhor parte da entrevista.

4. Nem sempre o que escrevemos é o que queremos escrever ou o que achamos que escrevemos. A comunicação é um assunto complexo. Requer emissor e receptor. O repórter (emissor) não está em contacto com os muitos receptores do seu trabalho. É fundamental dar a ler o que escrevemos antes de seguir para a sala de montagem. É fundamental mostrar a reportagem, já montada, antes de ser emitida. Não apenas para detectar e evitar erros, mas para reflectir em conjunto e garantir que a comunicação é eficaz. É frequente perceber, nessas leituras ou visionamentos com outro jornalista a quem peço opinião, uma implicação que me escapara numa  frase que escrevi ou num excerto que seleccionei de uma entrevista. Coisas que não detetaria sem essa reflexão conjunta e que me levam, frequentemente, a fazer grandes melhorias nas reportagens.

4.1. Essas reflexões conjuntas são também uma poderosa barreira aos danos colaterais. Se há coisa que me tira o sono, sobretudo quando tenho em mãos temas mais complexos e delicados, é a possibilidade de prejudicar alguém que expôs a sua vida, a sua família, a sua intimidade com o propósito de contribuir para o bem comum, ajudando com o seu caso pessoal a fazer luz sobre um assunto, a aprofundar o conhecimento ou a reflexão da sociedade.

4.2. Há uma grande exposição na reportagem televisiva e há uma tremenda confiança depositada em nós pelos que abrem as portas a uma equipa de reportagem, muitas vezes em situações de enorme vulnerabilidade. Por vezes, até, sem ter uma completa noção da exposição a que se sujeitam e dos impactos que pode ter na sua vida a curto e longo prazo. Temos a obrigação de honrar essa confiança o melhor que saibamos.

5. Em 2017 ouvi, pela primeira vez, numa conferência, o jornalista dinamarquês Ulrick Haagerup, fundador do Constructive Institut (constructiveinstitute.org). Revejo-me no conceito de Jornalismo Construtivo. Orientado para a procura de explicações, de contextos, de responsáveis, mas também de caminhos para soluções. Que não se fica pela denúncia ou pela exposição do problema. Nos antípodas do sensacionalismo e do  vouyeurismo  que canibalizam algum trabalho jornalístico. Como contrapeso para um jornalismo apressado, por vezes irreflectido, perigoso para a sociedade e para a democracia.

Se há coisa que me tira o sono, sobretudo quando tenho em mãos temas mais complexos e delicados, é a possibilidade de prejudicar alguém que expôs a sua vida, a sua família, a sua intimidade com o propósito de contribuir para o bem comum.

6. A forma como se produz e como se consome informação alterou-se radicalmente. A eficácia algorítmica das redes sociais ameaça o modelo de negócio da comunicação social, mas esse é apenas o mais evidente dos desafios que representa para o Jornalismo como pilar de uma sociedade Miriam Alves 303 informada, justa e democrática. Na disputa pela atenção mais dispersa dos cidadãos e dos anunciantes, a resposta tem sido produzir mais conteúdos com menos recursos, em redações mais reduzidas. Apesar dos extraordinários trabalhos que algumas redações continuam a produzir, é difícil contrariar um nivelamento por baixo. Requer empenho, criatividade e vocação.  

6.1. É importante reflectir regularmente sobre o que nos trouxe ao jornalismo, sobre o que nos mantém numa redação, sobre o que nos move.

6.2. Quando nos atiramos para mais um trabalho de grande fôlego, sabemos que temos pela frente muitas noites sem dormir, muitas horas a menos com os filhos, as famílias, os amigos. Muitas angústias. Sabemos também que é um privilégio, no sentido em que muitos jornalistas estão privados de o fazer, em redacções estranguladas por dificuldades financeiras e/ou diferentes critérios editoriais. É imperioso encontrarmos formas de investir em trabalhos de profundidade, que requerem tempo e espaço na antena. Não apenas para cumprir o papel do Jornalismo, mas também para tornar mais evidente esse papel numa época de imediatismo e de opinião rápida em que as fronteiras entre informação e disseminação de afirmações estão demasiado esbatidas.

7. Transformar o importante em interessante é um desafio crescente e de crescente importância.

8. O jornalismo é sempre contra a indiferença, também em relação ao que merece destaque e aplauso. Deve divulgar boas práticas, ideias inspiradoras, replicáveis. O mundo nas notícias é mais pequeno, mais negro e mais perigoso do que o mundo real. Todos ganhamos com uma visão mais completa, diversa e equilibrada do mundo.

8.1. Interessa-me também, cada vez mais, o desafio jornalístico e democrático de tornar acessível a todos o conhecimento gerado nas várias áreas da ciência.

9. O Jornalismo é “um filtro entre a realidade e a percepção da realidade”. Ulrick Haagerup, jornalista e fundador do Constructive Institut.

10. “Democracy dies in darkness”. É o slogan do jornal Washignton Post. Penso nesta frase muitas vezes, como um farol.

Este testemunho foi originalmente publicado no Manual de Reportagem REC, organizado por Pedro Coelho, Ana Isabel Reis e Luís Bonixe, e editado pelos Livros Labcom em 2021.