Jornalista desde 1984. Foi diretor do jornal Diário do Alentejo entre janeiro de 2011 e fevereiro de 2019. Atualmente é repórter freelancer.

Prontuário de Gerúndios

A electricidade não chegou ao Monte Vale Bom. Agora, apenas lá resta João Caetano, com pouco mais de 70 anos, que luta contra as instituições oficiais por uma “nesga de luz”. Uma coleção de imagens de Nossa Senhora de Fátima alumia-lhe a esperança: “ajude-me, senhor jornalista”.

Ensaio
7 Abril 2022

Vinha com endereço do Monte Vale Bom, a carta, tão breve quanto desesperada, que naquela manhã me deixaram sobre a mesa de trabalho. A letra, muito miudinha, bem torneada, embora exageradamente decalcada, deixava adivinhar que antes dela outros ensaios, outros rascunhos, outras tentativas terão acontecido, porém sem o pretendido sucesso. “Queira conhecer a minha situação de viver às escuras”, poderá ter escrito o remetente, antes de concluir, assinando: João António Caetano.

Não sabíamos ao que íamos e, na verdade, nem sabíamos propriamente onde íamos, quando nos decidimos fazer à estrada, eu e o fotógrafo Rui Cambraia. Apenas sabíamos que tínhamos de ir. Monte Vale Bom fica no concelho de Mértola, mas não é propriamente “logo ali”. Fica um pedacinho mais para lá, algures onde ainda nem a eletricidade chegou. E era esse, em concreto, o grande “desconsolo” de João António Caetano.

Já foram mais de três dezenas, os habitantes de Monte Vale Bom. Agora, “às apalpadelas pela noite dentro”, apenas lá persiste este homem, com pouco mais de 70 anos, o polegar esquerdo colhido pelo rebentamento de uma espingarda caçadeira, a cabeça a estoirar de pesadelos conseguidos em duas guerras intermináveis. A de África. E a de hoje, esta tão ou mais atroz, contra as instituições oficiais, por uma “nesga de luz”. Uma coleção de imagens de Nossa Senhora de Fátima, religiosamente ordenadas em função do tamanho, alumiava-lhe a esperança: “ajude-me, senhor jornalista”.

Não tenho, nem nunca tive, uma visão “funcional” do jornalismo. A existir uma função, ao jornalista caberia o papel de funcionário. Com todos os condicionalismos e conservadorismos e derrapagens que tão próprios são ao funcionarismo. E também não me parece que a melhor forma de encarar a profissão seja como uma “missão”. A eficácia do missionarismo, animada pela doutrina e pelo dogma e pela compaixão, por norma encarrila no justicialismo. Ou na comiseração. Bom, mas agora tínhamos ali perante nós um homem, só, uma partícula ínfima e isolada da restante matéria que perfaz a sociedade, que nos pedia tudo isso: justiça, socorro, ação.

Não tenho, nem nunca tive, uma visão “funcional” do jornalismo. E também não me parece que a melhor forma de encarar a profissão seja como uma “missão”.

A estrada macadamizada que nos fez chegar ao Monte Vale Bom foi a mesma que nos trouxe de volta, em silêncio. Mas não em sossego. O que fazer com esta “história? (É assim que nós, os jornalistas, tratamos ou banalizamos as coisas concretas desta vida, chamando-lhes “histórias”). Daria ela apenas para uma breve a publicar no fosso das notícias desgraçadas da semana? Ou para uma “coisa assim maiorzinha”, com direito a foto, caso a publicidade o permitisse? Uma pequena entrevista de rodapé junto às cartas dos leitores? Afinal que lição nos dava aquele homem que procurava a luz? E cuja principal desventura da sua vida fora ficar, quando todos os outros abalaram?

Ficar ou abalar? Cá estava, afinal, a questão tão fundamental, tão shakespeariana, cuja resposta o último habitante de Vale Bom nos parecia implorar. Numa terra, o Alentejo, em avançado estado de desmembramento social e demográfico, esta era, e ainda hoje é, a questão que se impunha. A escuridão de João António Caetano transformara-se triunfalmente na luz que faltava à nossa “história”. Demos-lhe as páginas centrais e destaque de capa com fotografia. Sim, o jornalismo de reportagem também vive do acaso. E da oportunidade. E do momento...

Mas não basta. Um homem isolado é uma ilha e a resposta a que nos propúnhamos exigia todo um continente. Aliás, a própria pergunta fundadora carecia de ser reformulada no tempo e no modo. O infinitivo, com toda a sua rigidez e determinação, não servia o propósito de um fenómeno que se nos deparava lento e demorado e continuado. Ficando ou abalando? O gerúndio, que é o alimento fundamental da verbalização alentejana, dava-nos, por fim, essa possibilidade.

“Prontuário de Gerúndios” foi o nome que decidimos atribuir ao conjunto de 52 reportagens que fizemos publicar, ininterruptamente, nas semanas seguintes ao Monte Vale Bom. Foi um ano por inteiro em busca da tal resposta que tanto nos assolava. E sempre que julgávamos estar perto de afrouxar o laço, mais o nó se apertava. O jornalismo de reportagem, ao tentar fixar a história do tempo presente, corre esse risco. O risco de tantas vezes recuar para, enfim, puder avançar.

Persistência, paciência e alguma obstinação. Talvez tenham sido estes os três principais ingredientes desta mega-reportagem em 52 atos que demos para publicação no jornal “Diário do Alentejo”, entre junho de 2016 e junho de 2017. Mas, para além deles, faltava-nos o tempero, que é outra forma de dizer “método”. Foi fácil descobrir José António Caetano. Aliás, foi ele que nos descobriu com a sua carta. Mas onde iríamos nós “desencalhar” outros Caetanos? Como chegaríamos a eles e a elas? Existiriam? Estariam disponíveis para nos receber?

Foi a verdadeira loucura. E foi também a reportagem mais audaciosa que me foi permitida fazer em mais de 30 anos de profissão. Não, não é necessário ir ao fim do mundo para que tal aconteça. Basta ir ao fundo de uma ideia. Bem lá ao fundo, onde costuma estar o tal tempero que, então, nos faltava. Começámos a sair para o campo sem um destino premeditado, naquilo a que começámos a chamar, por brincadeira, de “estilo livre”. O povo tem para isto outra expressão idiomática: ao deus dará.

Por mais detalhada e profunda que ela seja, a reportagem é sempre uma Sagrada Família em permanente construção. É um ser vivo. Inquieto.

O objetivo era encontrar pessoas simplesmente simples, sem desmerecimento delas, nem soberba nossa. Apenas pessoas que nos quisessem contar a história das suas vidas, as suas mais banais rotinas, as suas mais remotas memórias, os seus gostos e desagrados, as suas crenças e desilusões e revoltas e paixões, os porquês da sua persistência numa terra agreste e pouco dada ao sonho, como esta por onde decidimos vaguear o era. Que me recorde, nunca obtivemos uma recusa. E tantos motivos haveria para que tal tivesse acontecido.

Até porque, diante de desconhecidos, tínhamos imposições com algum grau de arrogância. Exigíamos entrar nas suas casas, conhecer os seu espaço e objetos, fotografá-las. E foi assim, desta forma surpreendente porque incerta, que conhecemos num casinhoto miserável de Almodôvar o mais acérrimo fã de Amália Rodrigues, em São Martinho das Amoreiras o companheiro de tropelias de Avelino Ferreira Torres, um sósia de Che Guevara em Ervidel, um relojoeiro intelectual, um cego que caminha ao longo das estradas, um rapper rural, um coveiro criador de galgos, um ator de cinema improvável, a guardiã da chave e da santinha da igreja, poetas, malandros, trabalhadores e desempregados perpétuos... gente.

A gente suficiente para pintar uma tela em toada realística de uma certa geografia, o distrito de Beja, num determinado tempo histórico, o da ressaca da grande crise financeira, económica e social. Um quadro exaustivo, completo, acabado? Claro que não. Por mais detalhada e profunda que ela seja, a reportagem é sempre uma Sagrada Família em permanente construção. É um ser vivo. Inquieto. E tão imperfeito quanto o jornalista que a ela se propõe. E é por ser tão orgânica e, ao mesmo tempo, tão íntegra que sem ela a nossa compreensão do mundo seria outra. Mais pobre, certamente.

Paulo Barriga escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.

Este testemunho foi originalmente publicado no Manual de Reportagem REC, organizado por Pedro Coelho, Ana Isabel Reis e Luís Bonixe, e editado pelos Livros Labcom em 2021.