Jornalista da Grande Reportagem da SIC e professor auxiliar na FCSH da Universidade Nova de Lisboa. Autor de várias investigações jornalísticas e vencedor de dois Prémio Gazeta de Televisão, em 2014 e 2017. 

O anexo

Em 32 anos de histórias, a de Gracinda terá sido a que mais me marcou. É certo que percorri muitos territórios limite, que me cruzei com rostos em fim de linha, almas perturbadas pelo sofrimento, mas uns e outras se diluíram numa massa compacta, a que o passar do tempo roubou os contornos precisos.

Ensaio
14 Setembro 2022

Gracinda passara os 80. Vivia num anexo, no fundo de um longo quintal, de uma velha vivenda nos arredores de Paris; mas depois de se reformar, Paris tornara-se terra de outro planeta. Chegava-se ao anexo de Gracinda pelo portão de acesso ao quintal. Gracinda não tinha porta da frente; a porta de entrada no anexo virava-se de frente para a desarrumação de uma família de crianças irrequietas, triciclos partidos, bicicletas desleixadas. Gracinda poderia ser dona de tudo aquilo. Noutros tempos teria transformado a desordem em ordem e o anexo, a escaldar do junho seco de trinta e tal graus, se tudo aquilo fosse de Gracinda, só teria vida lá dentro se fosse vida desesperada, que Gracinda acolheria, daria carinho e ajudaria a reerguer. Em junho de 2017, Gracinda era, sem que o expressasse por palavras, vida desesperada.

Em 32 anos de histórias, a de Gracinda terá sido a que mais me marcou. É certo que percorri muitos territórios limite, que me cruzei com rostos em fim de linha, almas perturbadas pelo sofrimento, mas uns e outras se diluíram numa massa compacta, a que o passar do tempo roubou os contornos precisos. Lembro-me vagamente de ter a terra a tremer muito debaixo dos pés e do homem novo, pai de família, que chorava como criança no alto dos destroços da casa, que o sismo do Faial derrubara inteira em 1998.

O repórter entrega-se, envolve-se, agita, confronta, sofre, dilui-se, eleva-se, chora, grita, corre, trava, voa, quase cai, mergulha, emerge. Aprendi a ser repórter antes de saber que seria jornalista. 

Lembro-me, igualmente, do Rui, recluso muito antigo de Pinheiro da Cruz, que dera o rim para salvar a filha, doente renal às portas da morte… Lembro-me de reencontrar o Rui, dez anos depois, no Funchal, numa longa fila de homens sem-abrigo, que aguardavam as sobras dos restaurantes… Lembro-me do Rui e o Rui, desfigurado, pele e osso, sem dentes, quase sem vida, lembrou-se de mim; lembrei-me da filha, que o rim do Rui, afinal, não conseguira salvar. Lembro-me, igualmente, do Foad, jovem afegão, de idade imprecisa, que, depois de uma longa viagem pelo pior que a vida dá, conseguira salvo-conduto para Portugal, onde teria futuro.

Lembro-me de o reencontrar, quase dois anos depois de lhe ter visto centelhas de esperança nos olhos, de olhos vazios. Reencontrei-o numa noite fria, no metro do Cais do Sodré, agarrado a uma garrafa de vidro sem rótulo, meio cheia de um líquido transparente. O sorriso era mera silhueta do que lhe vira, como se nele transportasse todas as marcas do passado escravo que, desde muito menino, vivera.

Lembro-me da mão grossa do “Favas”, recluso de Pinheiro da Cruz, cadeia onde quase vivi 13 dias, e do seu relato irónico sobre o impacto do peso daquela poderosa mão nas costas de violadores e pedófilos, que “Favas” sempre descobria, por instinto e faro, nas alas de grades onde vivera a maior parte da vida. Entre quatro paredes, deambulando entre homens falhos, “Favas”, tão falho como os demais, distraía-se. Lembro-me da mulher a quem o companheiro, por diversas vezes, tentara marcar o rosto a que as lágrimas em cascata apenas prolongavam a beleza.

Naqueles olhos, vi os do homem novo do Faial, os do Rui, de Pinheiro da Cruz, os do Foad do Cais do Sodré, os de Gracinda, nos arredores de Paris… os de Rosa, a que numa reportagem que me etiquetou meses a fio, chamei “Brava”: a reportagem forçou o sistema a levá-la para a escola; o sistema baixou os braços quando as luzes da televisão se apagaram e a Rosa saiu da escola, juntou-se, suspendendo a juventude - que aos 17 anos finalmente começara a viver - por tempo indeterminado.

Poderosa inquietude a do repórter que, mesmo pressentido que, apesar das suas reportagens, os maus continuarão maus, os pobres, pobres, os poderosos, poderosos, os desesperados, desesperados… o repórter entrega-se, envolve-se, agita, confronta, sofre, dilui-se, eleva-se, chora, grita, corre, trava, voa, quase cai, mergulha, emerge…

Aprendi a ser repórter antes de saber que seria jornalista. Fui anos a fio marçano na loja do meu pai.

A loja do meu pai vendia quase de tudo. Na década de 70 do século passado e nos inícios de 80, na terra pequena onde vivia, as três ou quatro lojas como a do meu pai eram - como “o largo” - os lugares que marcavam o centro da vila. O meu pai fiava aos latifundiários ricos, que gostavam de pagar ao mês, ou quando lhes dava na real gana, e fiava aos desesperados, que viviam com salários miseráveis. Antes do 25 de abril, a pobreza era o único lugar de destino para a maioria dos clientes do meu pai. Antes da revolução, contra a pobreza poucos tinham força para lutar; do alto vinha o mote - deveríamos ser “pobres, mas honrados”; mas não havia honra que resistisse incólume à pobreza miserável imposta pela ditadura. Lembro-me ao de leve desses tempos.

Lembro-me muito mais do pós-revolução. Cresci por esses anos. Cresci até chegar, em cima de um velho estrado de madeira, ao balcão da loja do meu pai. Desse farol observei pobres e ricos (os remediados começaram a nascer depois do 25 de abril, mas aos poucos). Os ricos, que não desprezo, nem invejo, eram gente curiosa – mandavam fazer: uns com bons modos, outros como se ainda estivessem na casa da herdade e se uma revolução não lhes tivesse tirado poder. Os pobres, que a revolução manteve pobres, mantiveram a humildade e, nalguns casos – poucos – a dignidade. Alguns dos novos remediados, acreditando que, afinal, eram ricos foram ficando, sobretudo, invejosos, com a raiva a escorrer-lhes pelas veias. Ia a casa de todos levar mercearias. Nas casas dos novos ricos atravessava os novos longos quintais, onde crianças irrequietas deixavam triciclos partidos e bicicletas desleixadas. Ao fundo havia sempre um anexo onde guardavam o que rapidamente deixava de ter uso.

Antes da revolução, deveríamos ser “pobres, mas honrados”; mas não havia honra que resistisse incólume à pobreza miserável imposta pela ditadura. Lembro-me ao de leve desses tempos.

O anexo de Gracinda era um buraco de duas divisões, apenas com uma entrada de luz - uma janela de madeira apodrecida - que dava para o quintal da família desarrumada.

Gracinda fora funcionária no consulado português em Paris. Nunca casara. Habituara-se a poupar. Mulher de rotinas espartanas, Gracinda chegou à reforma com dinheiro suficiente para expandir a vida. 350 mil euros, que, a conselho de um gestor de conta português, que Gracinda considerava o seu melhor amigo, depositou no BES, de Ricardo Salgado, José Maria Ricciardi, e família. O gestor, devoto amigo de Gracinda, aconselhara-a a colocar tudo num depósito a prazo do BES. Não era propriamente um depósito a prazo, mas era como se fosse, e não sendo propriamente do BES, era do GES, mera questão de siglas. Afinal, a família poderosa que estava por detrás de tudo era a mesma: os Espírito Santo, o Brazão da República.

Gracinda perdeu tudo, até ao último tostão. Quando a encontrei, no anexo dos arredores de Paris, Gracinda estava triste. Passara os 80. Não tinha filhos, nem outros próximos. Falámos longamente, muito para lá da reportagem.

Muitos, nas minhas histórias, perderam familiares muito queridos, amigos, património… Gracinda, sozinha no mundo aos 80 anos, estava presa no anexo… O que poderia ter sido, não foi. E agora já era tão tarde.

Este testemunho foi originalmente publicado no Manual de Reportagem REC, organizado por Pedro Coelho, Ana Isabel Reis e Luís Bonixe, e editado pelos Livros Labcom em 2021.