Mestre em Ensino de Inglês e Espanhol pela Universidade do Minho. Professor de Inglês, Castelhano e Português, entre 2016 e 2021, em diferentes escolas e universidades na Colômbia. É atualmente professor contratado de Inglês em Portugal.

A histórica viragem à esquerda na Colômbia

Pela primeira vez na sua história, os colombianos elegeram um presidente de esquerda e uma mulher negra para a vice-presidência. Os milhões de votos em Gustavo Petro e Francia Márquez foram um sinal de esperança para se pôr fim à violência e se construir uma paz duradoura. Mas os desafios são enormes.

Ensaio
23 Junho 2022

Em 1993, a brigada antinarcóticos da Polícia Nacional dos Colombianos, reconhecida pelas suas fardas de cor verde-azeitona e chapéus de aba larga com um lado colado ao cone, entra de assalto numa casa de Pablo Escobar no bairro Los Olivos, em Medellín. O traficante de droga sai por uma abertura com acesso aos telhados vizinhos, tenta fugir pelo bairro envolvente, mas é encurralado e baleado pelos fusiles à queima-roupa. Pelo menos é assim que nos conta a versão oficial da autoridade colombiana pela mão de Hugo Avilar, um dos seus carrascos. Seria motivo para a Colômbia celebrar o fim da violência do narcotráfico, mas ainda estavam longe de a sentir.

Este acontecimento foi o fim da monopolização do Cartel de Medellín no tráfico de cocaína e o início da oligarquia dos cartéis do paramilitarismo e da guerrilha. Aproveitaram o espaço vazio deixado por Pablo Escobar e assumiram os campos de cultivo, a mercadoria, as rotas do tráfico e os clientes ansiosos. 

Os cartéis são movimentos populares armados e dividem-se em dois grandes grupos, contestando a autoridade do Estado colombiano e o seu monopólio do uso da força. Por um lado, estão as fações de direita, como é o caso das Autodefensas Unidas de Colombia (AUC), do Muerte a Secuestradores (MAS) e do Clan del Golfo, liderados por industriais e terratenentes. E, por outro, estão as fações de esquerda: as Fuerzas Armadas Revolucionarias de Colombia (FARC-EP), o Exército de Libertação Nacional (ELN) e o Movimento 19 de Abril (M-19), liderados por camponeses e estudantes universitários.

A luta entre estas fações foi mais uma numa já longa história de disputa pelos recursos naturais e as terras férteis da Colômbia. À guerra de independência contra Espanha, entre 1810 e 1830, liderada por Simón Bolívar, seguiram-se guerras civis que dilaceraram o Estado recém-independente. Os grandes proprietários e capitalistas governavam o país tão rico em recursos naturais e com uma sociedade fundamentalmente agrícola e mineira. O fosso entre ricos e pobres era gigante e ainda hoje a maioria dos colombianos vive à espera de sistemas de educação, saúde e segurança social eficazes.

Apesar de o país ser conhecido pelas suas riquezas naturais (petróleo, ouro, pedras preciosas ou bananas), as riquezas não foram distribuídas pela população, com os níveis de risco de pobreza e a taxa de mortalidade a serem elevadíssimos. Até o negócio das frutas, que teve especial destaque na obra de Gabriel García Márquez, 100 Anos de Solidão, termina criando a expressão pejorativa "Repúblicas Bananeras".

As intervenções dos Estados Unidos na Colômbia são recorrentes desde 1903. Nesse ano, Washington obrigou Bogotá a aceitar a independência da sua região do Panamá, para construção do famoso canal.

O conceito é forjado, aliás, por causa das ações dos Estados Unidos sobre as instabilidades políticas nos países das Caraíbas. Exemplo disso é o golpe de Estado na Guatemala, em 1954, com o apoio do país norte-americano e a atuação do Departamento de Estado em defesa dos interesses da United Fruit Company. No caso da Colômbia, as intervenções dos Estados Unidos no país são recorrentes desde 1903. Nesse ano, Washington obrigou Bogotá a aceitar a independência da sua região do Panamá, construindo-se depois um canal marítimo artificial entre os oceanos Atlântico e Pacífico, controlado pelos Estados Unidos. 

A instabilidade bananera verifica-se na Colômbia com o aparecimento da guerrilha nos anos 1950, depois do assassinato do candidato do Partido Liberal, Jorge Eliécer Gaitán, em 1948. A guerrilha foi-se fortalecendo e, em 1959, vê-se com apoio popular reforçado pela emoção da vitória da revolução cubana. 

Os guerrilheiros estavam empenhados em devolver as terras aos camponeses que as tinham perdido para a mineração ilegal. E, por sua vez, os grandes proprietários de gado, do minério e da indústria encontraram no paramilitarismo a resposta à insurgência guerrilheira, aliando-se à polícia e ao exército e, consequentemente, aos sucessivos governos apoiados pelos Estados Unidos. 

O duelo entre guerrilheiros e paramilitares contou com duas certezas: a inoperância do Governo para resolver o conflito e a observação participante da norte-americana CIA, preocupada com a Guerra Fria e com o alegado apoio da União Soviética ao comunismo nos países hispanoamericanos. No entanto, o conflito teve uma dimensão bélica no campo rural e que passou despercebida nas grandes cidades - a “guerra” estava lá longe. 

É a partir dos anos 1980 que a Colômbia popular e anónima começa a armar-se e a ganhar dinheiro suficiente para se misturar com as históricas élites económicas e políticas colombianas (Partido Liberal e Partido Conservador). Estes novos grupos de pressão garantiram o poder da economia paralela e a influência na política nacional.

Primeiro com o tráfico de canábis e, consequentemente, com o seu papel relevante na costa das Caraíbas, principalmente entre 1974 e 1985. Ficou conhecida como bonança marimbera, ajudando a catapultar políticos para cargos-chave na administração e controlo regional e nacional. Exemplo disso é a dinastia do Clã Char, a quinta família mais rica na Colômbia, e o seu domínio político e empresarial atual. 

Depois, na mesma década, veio o tráfico de cocaína e o esforço internacional para o combater. A produção e o transporte de droga atingiram níveis cada vez mais sofisticados, incluindo o uso de mini submarinos. Contudo, os lucros rentáveis desses negócios continuaram a não ter resultados animadores para uma maioria populacional com medo de sair de casa para trabalhar, para mandar os filhos para a escola ou para ir ao médico. Entretanto, as condições de vida dos colombianos continuavam a degradar-se. 

Nos anos 1980, o clima de medo instalado pelo conflito armado na população transforma-se em protesto contra as condições de vida precárias. Em 1985, o Movimento 19 de Abril (M-19), um grupo guerrilheiro de esquerda, assaltou o Palácio da Justiça em Bogotá, resultando na morte de 101 pessoas, entre elas magistrados. Esta operação, inicialmente criada para exigir o cumprimento do cessar-fogo de 24 de agosto de 1984 contra a guerrilha, terminou ficando na memória do povo como desculpa para limpar os registos criminais de terratenentes e políticos implicados no tráfico de droga. Entretanto, o partido de esquerda Unión Patriótica, conhecido por denunciar a cumplicidade do governo com os paramilitares e, dessa forma, impedir a criação de um processo que traga paz ao país, viu militantes seus assassinados ou exilados. 

Talvez por isso, nos anos 1990, tenham sido os estudantes, sem armas, os que conseguiram fazer pressão suficiente para avançar com uma reforma constitucional através do movimento da Séptima Papeleta. Este movimento consistia num boletim de voto criado e distribuído pelos populares para pedir ao governo a criação de uma assembleia constituinte que reformasse a constituição. A Colômbia dava a sua primeira prova de que a mudança podia ser conseguida de forma pacífica. Forçaram o Estado colombiano a redigir uma nova carta constitucional que promovesse os Direitos Humanos, garantisse direitos para as minorias étnicas e forjasse mais mecanismos de participação democrática. Esse desejo tornou-se finalmente real em 1991.

No entanto, o conflito armado e a guerra às drogas, com o apoio dos Estados Unidos, não puseram fim à violência, às ameaças à vida, aos assassinatos e aos sucessivos sequestros. Em 2000, o país acordou com a notícia do massacre El Salado: 450 paramilitares mataram, torturaram e violaram os habitantes, homens, mulheres e crianças de uma aldeia na região da costa das Caraíbas sob o pretexto de limpar um território caído nas mãos da guerrilha. Foi nesse mesmo ano que Washington aprovou um controverso pacote de “ajuda militar” ao exército colombiano.

No início deste século, o governo quis mostrar trabalho na luta contra as guerrilhas. Em 2006, 6402 cidadãos inocentes foram obrigados a vestir roupagens de guerrilha e foram assassinados pelo exército colombiano. 

A violência não parou de escalar, nem os apelos a que assim fosse. Em 2002, o então Presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, por precisar de dar boas notícias na guerra contra o conflito armado, exige um aumento de baixas por parte das forças populares armadas de esquerda e uma amnistia para as forças armadas da direita. Por essa razão, o senador Iván Cepeda, do Polo Democrático, acusou Uribe de ligações a grupos paramilitares e de narcotraficantes .

Em 2006, descobriu-se os 6402 falsos positivos, cidadãos inocentes obrigados a vestir roupagens da guerrilha e assassinados pelo Exército Nacional da Colômbia. Apesar das acusações ao Exército de assassinatos de pobres não-implicados para manipular os resultados do conflito, isso não impediu a ação de Uribe contra as FARC de ir ainda mais longe. O exército colombiano atacou além fronteira, no Equador, o dirigente Raúl Reyes, resultando na sua morte. A investida foi recebida com dissabores em toda a América do Sul, acusando a Colômbia de não saber controlar a sua política doméstica e de violar a soberania do seu vizinho. 

Entretanto, as tentativas de construir a paz não pararam e encontraram um novo fôlego com o ex-ministro da Defesa de Uribe, Juan Manuel Santos, que acabou por ser uma das principais caras da campanha pelo Sim à paz no plebiscito de 2016, recebendo o Prémio Nobel da Paz. Mas Álvaro Uribe apoiou o Não à paz com o slogan "paz sim, mas assim não" e saiu vitorioso da contenda democrática com uma diferença de uns meros 60 mil votos

Ainda assim, as FARC, cansadas da guerra, decidiram entregar as armas e estabeleceu-se como partido político legal em 2017: foram criadas 20 zonas de transição, monitorizadas pelas Nações Unidas, nas quais os guerrilheiros se concentraram para entregar as armas e serem desmobilizados. Em agosto desse ano, o governo, cantando vitória, declarou o conflito com as FARC como terminado. 

O tratamento de Álvaro Uribe para com os grupos paramilitares de direita foi bem diferente daquele que deu aos grupos de esquerda. Em 2004, quando ainda estava no governo, Uribe foi protagonista de um acordo de paz com os paramilitares de direita das Autodefensas Unidas de Colombia. Essa resolução recebeu críticas da Federação Internacional dos Direitos Humanos por causa das ligações dos paramilitares ao narcotráfico, além de ser bastante benéfico para eles. Dois aspectos a destacar desse acordo são o apoio económico para a reinserção dos paramilitares à vida civil e a impunidade com que se desmobilizaram. Acontece que são os dois pontos que a campanha do Não mais atacou no acordo de paz com as FARC. Um peso, duas medidas.

As FARC depuseram as armas em 2017 e 2018 e o Estado deixou um vazio de poder nos territórios até então controlados pelos guerrilheiros. Os grupos armados existentes, como o ELN, Clan del Golfo e dissidentes das FARC, invadiram esses territórios e tomaram as rédeas dos cultivos da folha de coca, laboratórios de produção de cocaína e das rotas de tráfico. Neste contexto, a imagem da paz desgasta-se rapidamente e é eleito Iván Duque, considerado o fantoche de Álvaro Uribe pela oposição.

A pandemia de covid-19 não deu tréguas. O desemprego subiu e a austeridade de Iván Duque ameçava esmagar a classe trabalhadora. 2021 foi considerado o ano mais violento desde 2010.

A violência continua e o seu principal indicador foi o aumento de assassínios de líderes sociais, ativistas ambientais e de direitos humanos e a constante ineficácia do governo para conter a curva ascendente de homicídios. Duque foi acusado pela oposição de não garantir a segurança dos ex-guerrilheiros FARC que se tinham desmobilizado (mais de 200 foram entretanto assassinados) e de dificultar a sua integração na sociedade. 

A escalada de violência é generalizada, resultando em acusações entre os diferentes intervenientes no conflito. Por isso, em 2019, o povo sai novamente à rua farto das precárias condições de vida e reclamando uma mudança de política. O governo fica cada vez mais frágil e, a 21 de novembro desse ano, uma greve geral quase derrubou o governo de Iván Duque. 

Foi então que chegou a pandemia de covid-19 no primeiro semestre de 2020. O povo, desesperado, não teve tréguas. Com a doença a espalhar-se, o aumento de mortos, negócios a encerrarem e o desemprego a subir, lenços vermelhos foram postos nas janelas como pedidos de ajuda. Sinalizavam quem não tinha comida, medicamentos, produtos de desinfeção ou máscaras, mas transformaram-se também num símbolo contra os desejos de reforma fiscal de Duque, que iria esmagar financeiramente a classe média e trabalhadora.

Os protestos não pararam e com eles alargaram-se as suas reivindicações, chegando-se mesmo a incluir o desejo de um sistema nacional de saúde. Nas notícias, o país voltou à velha fama da violência e 2021 foi considerado o ano mais violento desde 2010. A popularidade de Duque nas sondagens caiu a pique, ficando nos 24% de aprovação, o pior resultado da história da Colômbia.

Estes protestos pressionaram a oposição a que caminhasse para uma verdadeira convergência. Assim foi, e em torno de duas figuras: Gustavo Petro e Francia Márquez. O primeiro é um ex-guerrilheiro do M-19, economista, senador e ex-presidente da câmara de Bogotá que se apresenta como defensor do modelo de Estado Social das democracias do norte da Europa; a segunda é uma mulher pobre, negra e feminista que superou as dificuldades de um país despedaçado para hoje ser advogada. 

A esquerda colombiana ganhou um novo fôlego logo em 2021, quando foi criada a coligação Pacto Histórico, composta por partidos como a União Patriótica, o Polo Democrático, o Partido Comunista Colombiano, entre outros. E, um ano depois, deu-se o seu primeiro embate eleitoral: a coligação ficou em primeiro no Senado, com 16 assentos, e em segundo na Câmara de Representantes, com 25, acabando com a maioria absoluta do Centro Democrático, fundado por Uribe, nas duas câmaras. Mas faltava ainda o grande teste: as presidenciais de 2022. 

A direita fez-se representar neste duelo pelo antigo Presidente da Câmara da cidade de Bucaramanga, o engenheiro civil Rodolfo Hernández, com uma campanha cimentada na anticorrupção, a favor do aborto e da reativação das relações com a Venezuela - Uribe acusou Caracas de albergar as FARC. O candidato da direita de 77 anos não perdeu uma oportunidade de atacar Petro, de 62 anos, pela sua história de guerrilheiro, com este a responder com acusações de corrupção contra o candidato da direita. Mas nem tudo os separou na campanha: os dois candidatos manifestaram a necessidade de legalizar as substâncias psicoativas como primeiro passo para uma alternativa à guerra às drogas. 

É com esta retrospetiva que devemos enquadrar o resultado histórico na segunda volta das presidenciais colombianas de domingo passado. Pela primeira vez na sua história, os colombianos elegeram um presidente de esquerda e uma mulher negra para a vice-presidência. Petro e Márquez saíram vitoriosos com 50,48%, contra os 47,26% de Hernández — 11,2 milhões de votos contra 10,5 milhões . 

As zonas mais povoadas, como a costa das Caraíbas e do Pacífico, foram as que mais mobilizaram o seu voto para um governo de esquerda. Também se destaca neste apoio a região do Putumayo, a fronteira sul onde se encontra uma parte extensa da Amazónia colombiana. A vitória do Pacto Histórico é a esperança de pôr fim ao passado sangrento colombiano e de se construir uma paz duradoura que enterre a má-fama e eleve outras características notáveis colombianas, como as suas marcas identitárias sociais e naturais. Mas terá, certamente, grandes dificuldades pela frente.

Quais são as perspetivas de futuro para o país?

Falta muito por escrever para se ter uma ideia mais aproximada do que é a Colômbia e daí conseguir apresentar hipóteses fiáveis. O território tem a vantagem de ser banhado pelo Oceano Atlântico na fronteira norte e pelo Oceano Pacífico na fronteira oeste. É a porta terrestre entre a América do Sul e o resto das Américas. 

O país parece ser um resumo de um continente tão diverso como as próprias Américas. Contém desertos, selvas tropicais e montanhas com os cumes cobertos de neve. Faz fronteira com a Venezuela, o Brasil, o Equador, o Perú e o Panamá. É um país de indígenas, de negros, de brancos e dos cruzamentos entre todos eles na língua, nas relações sociais, na comida, na música, na dança, na literatura, enfim, nas inúmeras culturas que por aí se encontram. É a casa de dois prémios Nobel, o da Literatura e o da Paz. 

As frutas e os cultivos de cereais e tubérculos nascem nas ruas, à porta de casa e, por isso, a abundância da comida é, normalmente, evidente. No entanto, os bairros de lata, a poluição nas cidades e nos rios, as jornadas laborais de mais de 40 horas semanais evidenciam outra dificuldade: a de viver com dignidade. A maioria da população é camponesa, operária ou tem empresas familiares de comidas e vendas ambulantes e começa a trabalhar com menos de 15 anos.

A grande força económica da Colômbia são os seus recursos naturais e deve ser no debate, livre e desarmado, sobre a sua exploração, produção e distribuição que o povo pode encontrar a resposta para a melhoria das suas vidas. Enquanto isso não acontecer, o país continuará com a fama de território incapaz de resolver a sua política interna e, por essa razão, necessitado de intervenção externa - leia-se dos EUA - para assegurar um melhor controlo como uma típica república das bananas.

A maioria da população é camponesa, operária ou tem empresas familiares de comidas e vendas ambulantes e começa a trabalhar com menos de 15 anos.

Também é interessante registar que a Colômbia nunca teve um governo de esquerda. O século XX foi pautado sempre por um historial conservador, liberal e neoliberal e, portanto, o candidato Rodolfo Hernández (chamado “Trump” colombiano) parece ser uma continuidade das políticas económicas levadas a cabo até agora. A Colômbia tem vivido sob uma economia de laissez-faire sem grandes preocupações por assegurar uma educação, saúde e segurança social estatal eficaz. Daí que o principal foco da sua campanha tenha sido a luta anticorrupção, ainda que Hernández esteja a semanas de ser julgado por corrupção. 

Por outro lado, Gustavo Petro advoga a necessidade de reformar essas instituições, para que sejam universais e de qualidade. A sua campanha também foi mais marcada pelas preocupações ambientais contra a exploração mineira ilegal com consequencias na destruição das inúmeras reservas naturais, da floresta amazónica e dos lençois de água potável. Petro quer uma profunda transformação da economia e da sociedade colombianas: reforma fiscal para taxar os mais ricos, o fim do modelo de economia extrativista para um de produção responsável e aposta na transição energética, por exemplo. 

Petro e Márquez não terão vida fácil na presidência. A pouca margem de diferença entre os candidatos nas eleições continua a dar peso à direita para reclamar o voto de mais de 10 milhões de colombianos e a promessa de uma oposição forte. Do mesmo modo, o Pacto Histórico tem uma maioria relativa no Senado e é a segunda maior força na Câmara de Representantes, obrigando-o a futuros acordos com forças políticas externas à coligação. Paralelamente, as forças armadas e os órgãos de controlo democrático, como a Fiscalia, Controladoria e Defensoría del Pueblo, estão ainda sob a alçada de representantes nomeados pelo anterior governo de direita. Por último, haverá grandes dificuldades para dar resposta (e agradar) às exigências de um mercado internacional que ganha mais quanto menores forem os custos de produção, normalmente ligados à falta de condições laborais. 

Além disso, se analisarmos os governos de esquerda na América Latina no início dos anos 2000 (Lula e Dilma no Brasil, Morales na Bolívia, Kirchner na Argentina ou Mujica no Uruguai), constata-se que terminaram os seus mandatos sem cumprir os programas na plenitude e sem a construção de mudanças estruturais que dificultasse a ascensão de governos neoliberais posteriores. Olhe-se para o caso de Jair Bolsonaro no Brasil, de Maurício Macri na Argentina, de Jeanine Añez na Bolívia ou de Sebastián Piñera no Chile.

Os desafios económicos de Petro e Márquez começaram quando ainda nem assumiram a presidência. O povo colombiano confronta-se com uma inflação de quase 10%, algo que se sente desde o início do século XXI com a desvalorização do peso colombiano em relação ao dólar. Com o preço do petróleo a subir no mercado internacional, Petro pode alicerçar-se nessa receita para responder aos problemas da economia, não obstante ter assumido durante a campanha uma posição anti modelo extrativista. 

Os desafios económicos de Petro e Márquez começaram quando ainda nem assumiram a presidência. O povo colombiano confronta-se com uma inflação de quase 10%.

Ainda assim, a exigência de Petro para uma mudança energética que termine com as extrações de petróleo e gás vai ao encontro da atual posição consensual dos países ocidentais. Será um braço de ferro difícil com as companhias petrolíferas, mas poderá contar com uma pressão internacional favorável. 

O que parece indiscutível é que as populações lutaram até hoje contra um sistema corrupto, mas, tal como em 1991, uma vez mais levaram milhões de votos às urnas para acabar com a violência, o medo e a corrupção. A única certeza é que o combate político mais duro começou agora.