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Todos Os Meus Heróis Eram Criminosos

Um dia chegará a nossa vez, quando formos confrontados com a inação de um sistema mais preocupado com lucros a curto prazo que a sustentabilidade do planeta, de decidir se queremos ser bem-comportados ou criminosos.

Crónica 74
13 Julho 2022

À medida que o Reino Unido desliza para a ingovernabilidade lembrei-me deste eterno tweet e a famosa “estabilidade” que se seguiu, com Brexit e sucessivos governos infestados de escândalos Tory).

Não reservo muita esperança para o futuro do Reino Unido. Entre Keir Starmer, que tem purgado o Labour da esquerda e renegado as suas promessas de manter o popular programa de Corbyn, e as hienas que lutam para substituir Boris no partido conservador, o Reino Unido pode trocar a cara do primeiro-ministro, mas as políticas neoliberais parece que serão as mesmas.

O Boris, tal como o Trump, não foi abandonado pelo centrão e comentariado por nenhuma das suas políticas desastrosas economicamente ou cruéis socialmente (dessas eles gostam), mas por “dar cana”. Convém manter um pouco de respeitabilidade no cargo.

Vender armas a regimes que desrespeitam direitos humanos não é nada comparado com “dar mau aspecto”.

A última vez que tive esperança na política do Reino Unido foram as campanhas de Corbyn. Alguém com um longo historial de posições políticas vingadas pela história, mesmo contra o seu próprio partido, desde se opor ao apartheid sul-africano, à ocupação ilegal da Palestina ou à guerra do Iraque, associado a um manifesto verdadeiramente progressista, verdadeiramente socialista, reavivou a minha esperança no eleitoralismo reformista como saída possível para o abismo com que nos confrontamos.

Bons tempos, logo depois do Bernie ganhar Nevada, com o meltdown mediático que se seguiu da imprensa liberal americana, em que parecia que havia mesmo hipótese de haver uma mudança de topo, dos dois grandes centros históricos do capitalismo e imperialismo. Agora, essa esperança vai para a nova onda rosa na América Latina e pelo reavivar do sindicalismo, seja no Starbucks, na Amazon ou o incrível Mick Lynch.

Mas todo este saudosismo fez-me pensar num padrão que reparei nestes meus, à falta de melhor termo, heróis.

Bernie Sanders foi preso em Chicago em 1963 a protestar contra a segregação racial nas escolas americanas. Corbyn foi preso em 1984 por protestar o apartheid na África do Sul (numa altura em que os governos de Reagan e Thatcher eram cúmplices do regime).

É impossível não pensar na segregação racial nos EUA e como as forças da “Lei e Ordem” perseguiram quem lutava contra ela, prendendo e matando, desde Rosa Parks a Fred Hampton. Ainda hoje, continuam a ser criminalizados aqueles que protestam contra a violência policial, desproporcionalmente racista, nos EUA.

É impossível falar do apartheid sul-africano e não pensar que Mandela foi também criminalizado por fazer frente à injustiça. Ou que continuam pessoas hoje presas e mortas por lutar contra o apartheid em Israel, ou até meramente por reportar sobre ele.

Na nossa história recente não faltam criminosos. Beatriz Ângelo votou contra o espírito da lei republicana em 1911. Não foi presa, mas era comum nesta época as mulheres que lutavam pelo direito ao voto serem tratadas como criminosas

Durante a ditadura, todos os que lutassem contra a ditadura, todos os que discordassem do regime salazarista, eram criminosos. Os que não eram presos, torturados e mortos, eram forçados à clandestinidade e exílio. Não é difícil achar heróica a resistência naquelas condições desde comunistas a anarquistas como Emídio Santana (que infelizmente falhou na sua tentativa de tornar Salazar no primeiro astronauta português). Aqueles que lutavam pela independência contra o despotismo colonial eram criminosos, claro, terroristas, e aqueles que se recusavam a lutar para manter o império português desertores e traidores. Heróis e criminosos.

Claro que no fim foram heróis e criminosos a fazer o 25 de Abril. Não havia nada de legal na revolta dos capitães, mas havia muito de heróico. Devemos a nossa democracia ao seu crime. 

A história é escrita pelos vencedores e existe uma tendência de retroativamente branquear a natureza transgressiva de quem resiste à injustiça. Martin Luther King Jr.- também ele preso várias vezes, mais famosamente em Birmingham - é elogiado pelo seu pacifismo, é citado muitas vezes desonestamente por Republicanos modernos que se teriam oposto à des-segregação. 

A ideia é sim, era preciso quebrar a lei naquela altura, naquele passado distante (tão distante que os teus pais ou avós se lembram perfeitamente de o viver), mas hoje já não é preciso, dá para fazer tudo pelos meios legais em democracias que respondem às necessidades e exigências dos seus povos.

Claro que podem apontar para casos contemporâneos como os heróicos manifestantes anti-guerra na Rússia ou sindicalistas mortos na Colômbia ou jornalistas mortos por forças israelitas na Palestina ou activistas ambientais mortos no Brasil, mas o chauvinista europeu vai ou justificar essas mortes ou explicar que pronto, não são bem democracias como as nossas.

Nas supostas grandes democracias dos EUA e Reino Unido estão a fazer-se leis para limitar o direito ao protesto e agravar penas sobre manifestantes. Os maiores alvos são manifestantes por justiça social e activismo climático.

Não é difícil prever que com o agravamento da crise climática e a deriva autoritária em muitos destes países que estejam já a atacar o que funcionou no passado para pressionar partidos e governantes.

Um dia chegará a nossa vez, quando formos confrontados com a inação de um sistema mais preocupado com lucros a curto prazo que a sustentabilidade do planeta, de decidir se queremos ser bem-comportados ou criminosos.

P.S.: O título é uma referência ao livro My Heroes Have Always Been Junkies de Brubaker/Phillips, que aproveito para deixar como recomendação.

O autor escreve consoante o Acordo Ortográfico de 1990, porque o pai, e cito, “não quer que ele escreva como o Salazar”.

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