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Se calhar mais vale limitar o humor por um todo

Para não incomodar absolutamente ninguém, aceitando os limites de cada um, não se poderia então fazer piadas sobre religião, ateísmo, futebol, matraquilhos, política, estado do tempo, doença, saúde, filmes, penteados, sabores de gelado e, bom, tudo.

Crónica 74
31 Março 2022

Oscars 2022. Chris Rock, Will Smith and Jada Pink. Uma piada, um chapadão. O momento que espoletou todo este justificável reboliço, já toda a gente o sabe de trás para a frente. Mas importa ainda debruçar-nos sobre o que lhe sucedeu, sobre os debates que se levantaram. Tem-se falado de masculinidade tóxica, da opressão sistémica e consequente violência a que são sujeitos os corpos negros (numa análise mais profunda, e que vale a pena seguir, em relação ao cabelo da Jada), e claro, os limites do humor. Quem não tinha saudades de os debater, que atire a primeira lambada na tromba.

Ora, para além de haver mesmo muito mais gente do que eu esperaria a defender a legitimidade do uso de violência como reação a uma piada, há também uma batelada igualmente grande de gente que considera que se devem impor limites ao humor. Reparem, não é que cada humorista deva ter os seus limites eticamente definidos, é que estes devem ser impostos pela sociedade.

E assim sendo, que limites seriam esses? Para não incomodar absolutamente ninguém, aceitando os limites de cada um, não se poderia então fazer piadas sobre religião, ateísmo, futebol, matraquilhos, política, estado do tempo, doença, saúde, filmes, penteados, sabores de gelado e, bom, tudo. É melhor que seja tudo para não corrermos o risco de que um único ser humano no planeta se sinta minimamente afetado.

Também teríamos que definir as consequências para quem ultrapassasse estes malfadados limites do humor. Prisão podia ser uma delas, mas em dois tempos teríamos os estabelecimentos prisionais mais cheios do que… Hmm, ia acabar uma frase com uma piada, mas é melhor não.

Continuando. Já que o uso de violência é legítimo, se calhar também é preciso regulá-lo para que também não seja uma balda. Faríamos uma escala consoante o grau de ofensa sentido pelo recetor? Podíamos ir desde o piparote na ponta do nariz para piadinhas muito leves, e passando pela tal chapada na cara, por um pontapé nas costas, um soco no fígado, arrancar as unhas dos pés com um alicate e fazer acupuntura com facas de cortar legumes, chegaríamos ao tiro na rótula para aquelas piadas mesmo muito graves. Creio que assim, já ficaríamos todos mais descansados porque raramente alguém se arriscaria a fazer humor.

Agora, não chegando a esse ponto – de que tanta gente gostaria, mas que me parece ligeiramente exagerado – podemos falar dos limites do humor autodefinidos e não impostos legal ou violentamente.

É que, sim, eu tenho limites. Mas são os meus. Sei que piadas sobre determinados assuntos podem contribuir para a violência que muitas pessoas sofrem no dia-a-dia, e por isso escolho não as fazer. No meu trabalho, escolho fazer piadas sobre homofóbicos e não sobre gays, sobre racistas e não sobre negros, sobre machistas e não sobre mulheres, sobre mim e não sobre a minha irmã. Agora imaginem que os homofóbicos, os racistas, os machistas e até os meus pais, ficavam ofendidos, e que me podiam bater por isso. Não sei quanto a vocês, mas eu achava meio chato.

Portanto, com tudo isto, e sabendo perfeitamente que toda e qualquer piada vai ofender pelo menos uma pessoa no mundo, prefiro que cada um definida os seus próprios limites sem ter o direito de os impor aos outros. Caso contrário, acabávamos todos aos tiros às rótulas uns dos outros.

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