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Podemos não falar sobre racismo?

Quando “o mal está aí bem identificado para todos verem”, como assinalou Blessing Lumueno, e continua por enxergar, posso não falar sobre racismo? Quando há um défice de vozes negras no espaço público, e um sistema oleado para silenciá-las e invisibilizá-las, posso não falar sobre racismo?

Crónica 74
3 Dezembro 2021

Uma hora de conversa depois, sobre tudo e mais um par de botas, a violência nossa de todos os dias salta para a mesa, num sonoro desconcerto de notificações.

Do outro lado interpela-nos mais um caso de racismo à portuguesa, que é como quem diz “isolado”, inexistente mesmo, não fossem os anti-racistas mais visados cá no burgo – leia-se Mamadou Ba e Joacine Katar Moreira – pregarem contra ele.

Desta vez, o alvo do ódio chama-se Blessing Lumueno, treinador de futebol e comentador desportivo que aos olhos de quem o ataca é um “preto farrusco”, um “barrote”, um “macaco” que em vez de estar na RTP3 a opinar sobre a Liga portuguesa, deveria dedicar-se ao Girabola, o principal campeonato angolano.

O chorrilho de agressões surgiu a partir de críticas que Lumueno dirigiu ao treinador do Sport Lisboa e Benfica, Jorge Jesus, que, sem surpresa, passaram ao lado das reacções de repúdio.

Afinal, o que importa não é discutir o que Lumueno disse, mas sim a “a cor dele”, que “já diz tudo”, conforme lembrou um dos orgulhosos racistas.

Mais do que o asco que sinto ao ler cada palavra de ódio, invade-me a revolta de saber que, por mais reincidentes que sejam, os seus autores seguirão impunemente pela vida.

Seja porque “é gente ignorante”, seja porque “não dá para generalizar”, seja porque “tudo se resume a alguns excessos de rivalidade clubística”, o resultado acaba por ser o mesmo: o não reconhecimento do problema.

Exactamente como nos demonstra a decisão do Tribunal Arbitral do Desporto (TAD), que anula o castigo de três jogos à porta fechada aplicado ao Vitória de Guimarães por causa dos insultos racistas dirigidos a Marega.

O caso remonta à época passada da I Liga portuguesa de futebol, e não tenho dúvidas de que só continuamos a falar do assunto porque o jogador visado abandonou o relvado em protesto.

De outra forma, seria mais um dia de unfair play nos estádios de futebol.

Basta ler um excerto do acórdão do TAD para perceber como é que a bola rola. “Não ficou demonstrado que o Vitória tenha promovido, ou sequer consentido ou tolerado os cânticos racistas em questão, pela simples razão de que não ficou provado, nestes autos, que o Vitória tenha tido um conhecimento efectivo e/ou atempado da ocorrência dos factos em causa, que lhe permitisse encetar uma reacção efectiva aos acontecimentos em tempo útil”.

Mais um bocado, e tínhamos o TAD a concluir que os cânticos racistas afinal não existiram, e que os acontecimentos do Guimarães-Porto de 16 de Fevereiro de 2020 se explicam com a actuação de um coro desafinado de adoração a macacos.

A doença da negação do racismo em Portugal é grave a esse ponto. Por isso, texto após texto, dou por mim a confrontar-me com a mesma interrogação: posso não falar sobre racismo?

Quando “o mal está aí bem identificado para todos verem”, conforme assinalou Blessing Lumueno no Twitter, e, ainda assim, continua por enxergar, posso não falar sobre racismo?

Quando há um défice de vozes negras no espaço público, e um sistema oleado para silenciá-las e invisibilizá-las, posso não falar sobre racismo?

Quando até a morte do estudante cabo-verdiano Luís Giovani começa a ser apresentada como “acidental”, mesmo depois de dois arguidos terem testemunhado, em tribunal, que estiveram envolvidos na rixa que antecedeu a pancada fatal, posso não falar sobre racismo?

Sei que em teoria posso, mas, na prática, sinto que não o devo fazer. Porque por mais conversas que tenha sobre tudo e mais um par de botas, as vidas negras como a minha continuam a ser interrompidas violentamente e diariamente. E sem direito a notificação, conforme nos demonstrou a ofensiva do último mês no bairro da Jamaica, no Seixal.

Perante isto e tanto mais, como não falar sobre racismo? Não podemos.

A autora escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.

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