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Paula Cardoso

O que mudou desde 10 de Junho de 1995?

Vinte e seis anos depois do monstruoso assassinato, o filme de Miguel Dores escancara a cadeia de ódio racial e as conivências políticas, policiais e judiciais que culminaram nesse crime.

29 Outubro 2021

A frase ficou-me gravada entre leituras de biografias, entrevistas e outros artigos de jornal. Registei-a nestes termos: “Assim que atravessei a porta em direcção ao portão que me conduziria à liberdade, soube que se não deixasse os ressentimentos e a amargura para trás continuaria na prisão”.

De cada vez que encontro amor em terreno minado de ódio volto a essas palavras-lição de Nelson Mandela. Exactamente como aconteceu no último domingo, 24, na estreia do documentário “Alcindo”, integrada na programação do DocLisboa.

Vinte e seis anos depois do monstruoso assassinato, o filme de Miguel Dores escancara a cadeia de ódio racial e as conivências políticas, policiais e judiciais que culminaram nesse crime.

Sem filtros, de frente para uma marcha fúnebre de racismo estrutural – em que jornalistas e apresentadores, bem como decisores políticos e judiciais exibem vieses que custam vidas negras – torna-se incontornável questionar: O que mudou desde 10 de Junho de 1995?

Nada de significativo, cumpre-nos notar, a avaliar pelas mortes, em 2020, de Luís Giovanni – estudante morto à pancada em Bragança –, e de Bruno Candé – actor executado a tiro em Moscavide.

Ao registo sangrento do ano passado – reforçado pela agressão policial a Claúdia Simões – junta-se, mais recentemente, a história de Danijoy Pontes, jovem de 23 anos falecido à guarda do Estado, no Estabelecimento Prisional de Lisboa, sem que, cerca de mês e meio após a morte, as causas e/ou circunstâncias em que ocorreu tenham sido explicadas.

Salta à vista que “vivemos numa luta constante: pela aceitação, pelo fim do ódio e pelo amor”, conforme assinalou um dos sobrinhos de Alcindo, convidado a falar na abertura da sessão.

6 de Novembro saímos à rua por Danijoy

Mas o caminho para um “Portugal de amor” profetizado nessa ocasião ainda é longo e tortuoso, e passa, no próximo dia 6 de Novembro, por uma manifestação. Mais uma.

O protesto, convocado pelo Movimento Negro Portugal, procura quebrar o silêncio das entidades competentes, e vai acontecer às 15h, em frente ao Estabelecimento Prisional de Lisboa.

Aí, Danijoy somava já 11 meses em prisão preventiva, ultrapassando o tempo recomendável de um semestre. Ao mesmo tempo, o Movimento Negro Portugal nota que o jovem permaneceu encarcerado, embora estivessem reunidas todas as condições para aguardar julgamento em liberdade.

Em sentido inverso, o militante do partido da extrema-direita portuguesa que perseguiu a tiro uma família sueca com sete filhos menores – em que o pai é de origem africana –, foi libertado com termo de identidade e residência. Isto apesar de se ter posto em fuga, ter tentado ocultar provas, e possuir mais de 10 armas registadas em seu nome – arsenal que, relatam as notícias, a Polícia nem se deu ao trabalho de apreender.

A desproporção das medidas de coacção aplicadas a jovens negros, como Danijoy, torna-se ainda mais inequívoca quando analisadas as suspeitas: o jovem estava detido por furto de telemóvel, enquanto o extremista de direita é visado por homicídio qualificado na forma tentada.

Não estranha por isso – embora não deixe de chocar –, que quatro dos co-autores do bárbaro assassinato de Alcindo tenham “renovado” a licença para odiar. Até matar?

A autora escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.

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