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Morre um símbolo colonial, nasce uma sereia negra. Choram os mesmos

A Rainha Elizabeth II morreu. Era um símbolo maior do colonialismo mundial, pináculo do imperialismo dono de uma fortuna toda ela conseguida através de roubo, pilhagem e assassínio ao longos dos séculos. 

Crónica 74
15 Setembro 2022

Fiz aqui um diagrama de Venn (está na moda para se dizer que se encontrou coisas em comum entre várias partes) numa folha de papel numa tasca, por entre as manchas de gordura do bitoque e as de água que escorrem da frescura das imperiais. E deste absolutamente conclusivo estudo mental que fiz correndo as redes sociais, dei conta de quem tenha chorado a dobrar por estes dias. É muito triste, de facto.

Ora, por um lado, não sei se deram conta porque mal foi notícia de rodapé nos telejornais da madrugada, mas a Rainha Elizabeth II morreu. É verdade. Um símbolo maior do colonialismo mundial, pináculo do imperialismo dono de uma fortuna toda ela conseguida através de roubo, pilhagem e assassínio ao longos dos séculos. Há formas mais dignas de se ganhar dinheiro, acho eu, mas foi esta a que escolheram e também não nos fica bem estar agora a dizer mal da senhora depois da sua morte. Se mesmo durante o seu reinado também se cometeram atrocidades, massacres e horrores em seu nome perpetuando o colonialismo, o imperialismo e necessariamente o racismo? Verdade, sim senhora.

Se é monarquicamente obsceno que o agora novo Rei Carlos III herde 500 milhões de libras sem nunca na vida ter feito mais que acenar a pessoas de uma varanda, enquanto milhões e milhões de britânicos passam fome, incluindo quatro milhões de crianças? Sim, sem dúvida. Mas não nos podemos esquecer de todas as coisas incríveis que a família real inglesa tem feito pelo mundo, para além de simbolizar a supremacia branca que ainda vive na cabeça de tantos. Agora, por acaso, não tenho essas coisas aqui presentes, mas depois mando-vos a lista por e-mail.

Por outro lado, saiu o trailer da nova versão da Pequena Sereia da Disney… e ela é negra. Desabou o drama por milhões (se calhar são muito menos que isso, mas fazem bastante barulho a chorar) de pessoas que não aceitam que a Pequena Sereia (para quem não sabe: criatura fictícia que é meio peixe, meio mulher) tenha pele negra. Não sei se a cor das escamas também gerou celeuma, mas é bem possível que os peixes racistas tenham ficado igualmente indignados: “mas onde é que já se viu uma sereia com escamas desta cor? Se sempre foram verdes, porque é que mudaram agora para azuis? Isto do wokismo está a ir longe de mais”. E os peixes não racistas: “mas vocês estão parvos? As sereias nem sequer existem, acalmem-se. Isto é um filme da Disney e haver escamas de outras cores é muito importante para a representatividade, para que os peixinhos azuis também se revejam em quem vêem na tv”.

Sei o que vocês estão a pensar. “ó Faro, acalma-te tu também que isso não quer dizer que nem uns nem outros sejam racistas, nem sequer que sejam as mesmas pessoas a chorar pelas duas razões”. E vocês estão certíssimos, mas não deixa de ser curioso perceber aquilo que comove realmente uma data de pessoas que, não sendo ostensivamente racistas, claro, convivem bem com um ideal de supremacia branca que ainda paira de forma tão triste por aí.

Num mundo ideal, em vez de se gastar milhões de libras no funeral da rainha, e milhões de horas na sua cobertura, talvez o tempo e dinheiro fossem mais bem gastos com os milhões de britânicos (sendo que o número está a aumentar) que vivem na pobreza.

Num mundo ideal, as reacções emocionantes das crianças negras ao verem que a Pequena Sereia tem o seu tom de pele, deviam chegar para que absolutamente mais ninguém fizesse comentários palermas sobre aquela criatura imaginária não ser branca.

Num mundo ideal… Esqueçam, talvez seja um disparate de conceito.

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