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Ecos e danos coloniais

Muitas vezes ainda se romantiza as "memórias da boa vida nas colónias”, perpetuando um padrão imperial e colonial português. No mês em que se celebra o 25 de Abril, urge perguntar: não será altura de juntar ao D de Democracia o D de Descolonização?

Crónica 74
20 Abril 2022

Acumulei quilómetros em viagens de táxi, num ir e vir de trabalhos que, nos primeiros anos de jornalismo, me conduziam entre a minha antiga morada em Vialonga, a redacção em Paço de Arcos, múltiplas reportagens em Lisboa, e, mais tarde, um novo código postal no concelho de Loures.

Nesse incontornável vaivém profissional, passei de pessoa que fugia a todo o custo de conversas de circunstância, a passageira dona e senhora da sua voz.

A viragem não aconteceu conscientemente. Ela surgiu, percebi anos mais tarde, de um movimento de resistência. Mais um daqueles que quotidianamente forçam a afirmação da minha identidade negra e africana, enquanto acto de rebelião contra laivos de opressões históricas.

“A menina, sim. Pela idade já nasceu em Moçambique. Uns aninhos mais cedo e poderíamos reclamá-la como portuguesa”.

Cito o motorista de memória, ainda bem viva, apesar de ter percorrido milhares de milhas desde essa conversa que me acompanhou numa viagem do Campo Grande até Paço de Arcos.

Tinha 20 e pouco anos, e aquelas palavras quebraram a minha habitual muralha de silêncio. “Reclamar-me? Como assim?”, quis saber. E o padrão imperial e colonial português lá se revelou, com todas as violações do meu direito à autodeterminação.

Fiquei a “saber”, por exemplo, que o meu país não existia antes da invasão dos portugueses, que, com toda a sua propensão para o ‘contacto com outras culturas’, me colocou a mim e aos meus concidadãos no mapa.

Aquela não era a primeira vez que ouvia tamanha enormidade – e sei que estava longe de ser a última –, mas, sem me aperceber, ela marcou o início do meu processo de descolonização. Mais do que isso, naquele momento estava a reivindicar a minha humanização.

Enquanto isso, o motorista de táxi repetia: “A menina não se zangue, a menina não se enerve”.

Cerca de duas décadas depois, continuo a zangar-me e a enervar-me, porque quase 50 anos após as Independências dos antigos territórios colonizados, Portugal continua incapaz de conversar sobre os resquícios do passado. Pior: continua a reclamá-los, orgulhosamente, como um dos capítulos de ouro da sua História.

Podemos percorrer parte desse lastro no livro “Ecos coloniais: Histórias, Patrimónios e Memórias”, recém-publicado pela Tinta da China, e que reúne textos de mais de 20 autores.

Com organização de Ana Guardião, Miguel Bandeira Jerónimo e Paulo Peixoto, a obra sublinha a “intensa visibilidade (não o contrário) dos legados e dos patrimónios do colonialismo”, presentes por vezes de modo subtil, e noutras de modo bem explícito.

“Nas linguagens e nas interacções do quotidiano, nos discursos políticos e nos "planos" económicos, nas salas de aula e nos materiais de ensino, no edificado e na simbologia públicos, na estatuária, no universo familiar, em instituições várias (públicas e privadas), na toponímia, até em ruínas e espaços transformados pelo tempo e pelo homem, fazendo tábua rasa das suas histórias”.

Dessa introdução que nos recebe nas primeiras páginas de “Ecos coloniais” para a realidade nossa de cada dia, o conta-quilómetros não pára de trabalhar, e, por mais viagens que façamos, continua capaz de nos baralhar as voltas.

No outro dia, eu que já fui colocada em tantas caixas de classificação desumana, acrescentei mais uma à colecção: contou-me a minha amiga Dy que, naquele quotidiano jogo do “és de onde?”, uma pessoa soltou um bem sintomático padrão do adoecimento colectivo. “Ah! Então você é uma ultramarina”. Assim mesmo, qual província que deveria agradecer a ‘humanitária’ decisão de ter saído da condição de ‘colónia’.

Claro que não foi com má intenção, dizem-me tantas vezes; não se zangue, não se enerve, repetem-me noutras tantas. Insistem que são apenas forças de expressão, como se as palavras não estivessem ao serviço de uma narrativa que há séculos nos desumaniza.

Mas estão. E de forma ainda tão despudorada que, há menos de um ano, uma das news magazines mais vendidas no país fez vénia às “Memórias da boa vida nas colónias”, falando mesmo de um “paraíso irrepetível” para muitos milhares de portugueses. Aos olhos dessa narrativa, nós, “os outros”, somos apenas danos coloniais.

Por isso, quando me perguntam o que falta para cumprir Abril, respondo sem hesitar: juntar ao D de Democracia o D de Descolonização. Sem ecos de subjugação.

A autora escreve segundo o antigo acordo ortográfico.

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