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A covid dos macacos com varíola russa e outras notícias

A informação refresca-se a um ritmo alucinante, as fontes multiplicam-se em catadupa, os reposts seguem o mesmo caminho, as reacções não se fazem tardar. A media tradicional, apanhada neste turbilhão, não quer perder o comboio e faz o impensável: tenta acompanhar o ritmo. É o "shitshow".

Crónica 74
24 Maio 2022

Shitshow: situação ou acontecimento caracterizado pelo caos e controvérsia. Ou, por outras palavras, as notícias hoje em dia. É um autêntico shitshow o que desfila diariamente à nossa frente nos jornais, telejornais, redes sociais e outras coisas que tais: um bombardear constante de eventos alarmistas capaz de dar cabo da saúde mental de qualquer um (como de facto está a acontecer).

Em períodos “normais”, os temas noticiáveis são um rosário de prenúncios do fim, uma espécie de buffet apocalíptico anunciado sempre em tom de profunda emergência ou indignação. Esta “normalidade” é interrompida de quando em vez por um evento que canibaliza todos os outros. Quando rebenta, o tema quente do momento é dissecado até à exaustão como não se passasse mais nada no mundo.

O critério das redacções passa a ser o mesmo de uma criança com um brinquedo novo, que a faz esquecer-se dos existentes e não se separa dele na escola, na praia, à mesa e na cama até que o interesse se desvanece por um uso desmedido. Passado um tempo, o velho motivo de alarme é borrado sem piedade da memória e arruma-se uma pandemia para se abraçar uma guerra.

E assim andamos, de clicbait em clicbait, escavando um fosso sem saída que nos está a atirar a todos para uma apatia depressiva. Porque este tom constante de apelo às armas, “INDIGNEM-SE”, “FUJAM”, “ESCONDAM-SE”, “GRITEM”, “ISOLEM-SE”, só contribui para o desespero existencial de uma população alimentada em doses iguais por informação e desinformação. Em quê e em quem acreditar é a grande questão, mas a resposta tarda em chegar.

Esta dúvida filosófica não é de hoje. Pessoalmente, lembro-me de nos meus anos 20 comprar o Le Monde Diplomatique e o The Economist e intuir que a verdade se encaixasse algures entre os dois. Anos mais tarde, quando vivia em Madrid nos meus 30, comprava aos sábados o El País e o El Mundo e fazia uma leitura comparativa dos temas mais relevantes. Era desconcertante ver como o mesmo acontecimento podia ser passível de abordagens tão radicalmente opostas. Mas acho que foi só nos meus anos 40 que assisti ao momento em que a verdade atingiu todo o seu esplendor multifacetado, com a afirmação definitiva das redes sociais como megafone da actualidade mundial.

A informação refresca-se a um ritmo alucinante, as fontes multiplicam-se em catadupa, os reposts seguem o mesmo caminho, as reacções não se fazem tardar. A media tradicional, apanhada neste turbilhão, não quer perder o comboio e faz o impensável: tenta acompanhar o ritmo. Acontece que um dos princípios básicos do jornalismo clássico é a verificação da legitimidade das fontes, o que exige um tempo e ponderação que os meios clássicos já não dispõem e é aqui que começam os problemas. Com vários regimes a apostar na disseminação de fake-news, o que começa por ser um desvio intencional da verdade publicado algures num site fajuto, é repostado sem controlo em plataformas como o Facebook e o Twitter até ganhar uma dimensão tal que aumenta a probabilidade de acabar por ser imprudentemente citado num meio “sério.” E está montado o shitshow.

Em quê e em quem acreditar então? Segundo Kellyanne Conway, conselheira de Trump, em quem nós quisermos, basta escolher o conteúdo que mais nos agradar. É dela a expressão “factos alternativos”, usada pela primeira vez numa conferência de imprensa para justificar uma mentira dita pelo porta-voz da Casa Branca. Segundo ela, Sean Spicer não tinha mentido em relação ao número de pessoas que assistiu a tomada de posse do Presidente, limitou-se simplesmente a apresentar “factos alternativos”. “Mentiras”, ripostou um jornalista. Alternative facts, reafirmou Kellyanne.

Então, com orgãos de Estado a apresentar “factos alternativos” (e não, não acontece só nos Estados Unidos), com a multiplicação de agências de “fake-news” que servem Governos, multinacionais e grupos de pressão (e basicamente quem estiver disposto a pagar por isso), com o desvirtuamento do nobre conceito de liberdade de expressão que está a desfocar a barreira entre opinião legítima e agressão gratuita (Zuckerberg resiste sempre a toda e qualquer ingerência exterior no seu Facebook e Musk já disse que o seu Twitter terá ainda mais free speech), com a guerra sangrenta dos soundbytes que leva até o mais moderado dos comentadores ou cronistas a ceder à tentação da demagogia (o que se torna gravíssimo e até imperdoável em temas de saúde pública ou questões sociais), perante este cenário, em quê e em quem acreditar?

Se a tudo isto juntarmos o nosso irresistível apetite pela tragédia que nos leva a ficar hipnotizados horas, dias, meses a fio pelas mesmas imagens chocantes, pelos mesmos relatos arrepiantes, pela constante confirmação do fim, ou, como diz Murakami, “everyone, deep in their hearts, is waiting for the end of the world to come”, percebemos porque é que a resposta tarda em chegar. E talvez nunca chegue de forma consensual, mas isso não quer dizer que esteja tudo perdido.

Ao mesmo tempo que isto acontece, ou como resposta a isto, vemos a proliferação de plataformas independentes de jornalismo (como esta e muitas outras, cá e lá fora, que oferecem investigação, enquadramento e contextualização dos principais temas da actualidade, remando contra a maré dos 280 caracteres). Vemos iniciativas cívicas apartidárias que reclamam seriedade no tratamento de informação sensível (como o movimento espontâneo de personalidades que elaboraram a “Carta aberta às televisões generalistas nacionais”, criticando o tom frequentemente alarmista e tendencioso com que foi tratada a pandemia). Vemos cidadãos que se levantam um dia e resolvem tentar mudar o agenda-setting instituído, através da revitalização do espírito activista (como fez Greta Thundberg, que soube falar e envolver crianças e adolescentes como poucos conseguiram até agora). Vemos páginas de “notícias positivas”, que se focam nas notícias que não passam na peneira do critério catastrófico (como a página de Instagram es.decirdiario, que faz uma recolha em vários meios de notícias positivas). E vemos a batalha que instituições como a ONU travam pela auto-responsabilização na hora de repostar tudo e mais alguma coisa, sem verificação, isto só para dar alguns exemplos.

Sabemos o dinheiro que a informação gera, ou não fossem dois dos homens mais ricos do mundo donos dos dois principais veículos de propagação de notícias (os já citados Mark e Elon), mas também sabemos o que temos a perder se deixarmos que o jornalismo passe a ser apenas uma máquina de manipulação e medo. Cabe-nos a todos sermos leitores e espectadores do século XXI com critério e saber separar o trigo do joio como a Jane Austen nos ensinou no século XIX, com “sensibilidade e bom senso.”

P.S.: a leitura desta crónica soa melhor acompanhada por: “It’s the end of the world as we know it (and I feel fine)” dos R.E.M. 

“Calming anxiety: 20 minutes controlling panic attacks” podcast de Martin Hewlett Hypnotherapy

 

O autor escreve segundo o antigo acordo ortográfico.

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