Portugal Hammerskins

PORTUGAL HAMMERSKINS

Os Portugal Hammerskins (PHS) são o grupo neonazi mais violento em Portugal. Os seus membros foram responsáveis por vários ataques motivados por ódio racial, discriminação sexual e ideológica. Criada em 2002, a sucursal portuguesa (chapter) faz parte da rede internacional neonazi Hammerskin Nation e já foi alvo de duas megaoperações da Unidade de Contraterrorismo da Polícia Judiciária.

A cultura bonehead (skinheads de extrema-direita) entrou em Portugal na década de 1980 e teve como baluarte político o Movimento de Ação Nacional (MAN), até este se autodissolver em 1992. Um grupo de militantes contrários à dissolução criou então a efémera Frente de Defesa Nacional, cujos membros foram responsáveis pela morte de Alcindo Monteiro, no Bairro Alto, em 1995.

"Vou sair em liberdade em breve e juro pelos meus filhos que és a pessoa que mais odeio e vão-te matar à frente dos teus filhos, juro pela minha saúda, [sic] sua informadora de merda" – Mário Machado numa carta a partir da prisão 

Mais de uma dezena foi acusada pelo homicídio e pelo espancamento de mais de dez pessoas racializadas nas ruas lisboetas. Um deles foi Mário Machado, condenado a quatro anos de prisão por agressões a seis negros na noite de 10 de Junho de 1995. Machado não foi responsável pela morte de Alcindo Monteiro, nessa mesma noite, pela simples razão de estar a espancar outros sujeitos racializados. 

No entanto, os pequenos grupos de boneheads continuaram a existir, ainda que muito atomizados e nas margens da sociedade, infiltrando-se nas claques de futebol, entre as quais a Juventude Leonina, do Sporting Clube de Portugal, e os Diabos Vermelhos, ligados ao Sport Lisboa e Benfica. De tempos a tempos, organizavam ações mediáticas chamando a atenção da imprensa. Continuaram politicamente órfãos até ao início do século XXI, quando o Partido Nacional Renovador (PNR, hoje Ergue-te!) foi estabelecido, em 2000.

A Hammerskin Nation começou em Dallas, nos Estados Unidos, em 1988, e tornou-se a rede neonazi mais organizada no país. O primeiro grupo foram os Confederate Hammerskins, de Dallas, e depressa se propagaram à Georgia, ao Tennessee e à Flórida, com mais sucursais a serem criadas noutros estados americanos, conta o Southern Poverty Law Center (SPLC), organização americana que se dedica a monitorizar grupos de ódio.

Um ano depois da criação do primeiro grupo, o universo hammerskin já tinha agregado muitos dos coletivos da cultura bonehead, passando a chamar-se Hammerskin Nation. Não tardou a que atravessasse o Atlântico em direção à Europa, onde mais filiais foram criadas em França, na Alemanha, no Reino Unido, na Holanda, na Polónia, na Sérvia, na Eslovénia e na Rússia. E, hoje, diz a SPLC, há mais de dois mil hammers por todo o mundo, considerados ameaça à segurança interna por vários países.

Na década de 1990, uma parte dos membros da Hammerskin Nation descobriu na música supremacista branca um meio de recrutamento e financiamento. Nasceram uma série de bandas, foi criada a editora discográfica 9% Records e organizaram-se concertos e festivais, onde pequenas publicações e discos eram vendidos, além de serem momentos de contactos internacionais. A música tornou-se uma importante fonte de financiamento da rede, a par e passo com a criminalidade organizada.

Portugal ficou bastante atrás na tendência mundial. Em 1995, Mário Machado fundou a Irmandade Ariana-Portugal nas prisões de Lisboa e Caxias, onde estabeleceu relações que se vieram a mostrar frutuosas, como a de ter trabalhado como segurança num bar de strip propriedade de um indivíduo que esteve preso consigo.

"[Na prisão] Eu só me relacionava com os nossos co-réus e com criminalidade organizada porque ainda são dos poucos lá dentro que se podia ter uma conversa e confiar as nossas costas, o resto é tudo muito pobre de espírito e nem merece a pena falar", disse Machado numa entrevista de 2006 ao blogue de extrema-direita Em Silêncio

À medida que os seus membros foram saindo de detrás das grades, a Irmandade Ariana ganhou consistência nas ruas portuguesas. Tornou-se então rival da Ordem Lusa, outra organização de boneheads e que se começou a aproximar da rede internacional neonazi Blood & Honour. 

Machado, por sua vez, aproximou-se dos Hammerskin Nation e, em 2002, oficializou o pedido de adesão à Hammerskin Nation para se criar um chapter em território nacional. O grupo de Machado teve de passar 14 meses como hangaround (elemento que frequenta os seus espaços físicos) e outros 24 meses como prospect (candidato a membro de pleno direito), até a sua adesão ser formalmente oficializada a 29 de janeiro de 2005. O antigo cabo da Força Aérea queria transformar os boneheads de “soldados de rua” em “soldados políticos”.

Apesar de cada chapter gozar de autonomia nacional, é sua obrigação respeitar as orientações da Hammerskin Nation e estar sempre representado nas reuniões internacionais; no caso português, nas europeias: o European Officers Meeting. Caso não o faça, corre o risco de ser expulso da rede internacional, por vezes até com consequências físicas para os seus elementos.

Os PHS estão hierarquicamente estruturados, possuem leis escritas, espelhadas no “Código P.H.S”, e têm outras leis não escritas, com o mesmo valor das primeiras, diz o despacho de acusação dos 27 arguidos do Ministério Público, a que o Setenta e Quatro teve acesso. A organização está inclusivamente estruturada em cinco níveis: 1) responsável de segurança, porta-voz e membros fundadores; 2) secretário e membros de pleno direito; 3) secretário e membros de primeiro ano; 4) prospect; 5) hangarounds.

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Mário Machado (à esquerda) com outros boneheads dos Portugal Hammerskins
Mário Machado (à esquerda) com outros boneheads dos Portugal Hammerskins

Também há uma rígida divisão de cargos. O secretário tem como missão manter e estabelecer os contactos oficiais com a rede internacional da Hammerskin Nation, organizar reuniões e os eventos oficiais da PHS e da organização internacional em território nacional. O tesoureiro tem como função a gestão financeira do grupo, receber as quotas dos membros, efetuar pagamentos e recolher fundos. O responsável de segurança tem a obrigação de recolher informações sobre grupos ou indivíduos hostis ao grupo e de garantir a segurança dos seus membros. E o porta-voz representa o chapter nos eventos internacionais.

Os PHS detinham uma skinhouse no Tojalinho, em Loures, onde organizavam concertos com música apologista do ódio racial e da supremacia branca. A banda dos PHS chamava-se Ódio e foi uma das principais, a par da Guarda de Ferro, no universo desta subcultura de extrema-direita em Portugal.

O processo de seleção de futuros membros de pleno direito é profundamente exigente, ao ponto de obrigarem a provas de lealdade que mais não são que atos de violência contra as pessoas que desprezam: homossexuais, imigrantes, refugiados, militantes de esquerda. Apenas indivíduos com 18 anos ou mais velhos são autorizados a candidatar-se à irmandade, tendo de provar que são única e exclusivamente descendentes de caucasianos e demonstrar orgulho racial e consciência patriótica, espírito de grupo, honra, lealdade e carácter.

Se a candidatura à irmandade for aceite, os candidatos terão de se submeter a 14 meses como hangaround e 24 como prospect. Nestes períodos serão chamados a demonstrar pela prática as características exigidas pelo grupo e sujeitar-se à leitura obrigatória de um conjunto de livros (o Mein Kampf de Adolf Hitler é leitura obrigatória). Têm depois de responder a uma série de perguntas.

Uma dessas provas de lealdade foi a profanação do cemitério judaico em Lisboa, em 2007, por dois neonazis. Carlos Seabra, de 24 anos e conhecido por “lobo nazi”, e João Dourado, na altura com 16 anos, foram detidos em flagrante delito pelas autoridades, depois de defecarem em duas campas e vandalizarem outras 20 gravando cruzes suásticas. Um deles tinha tatuado num braço “morte aos traidores”, enquanto o outro usava uma t-shirt com a mesma frase.

O Ministério Público pediu a prisão preventiva para os dois detidos, por representarem um perigo de alarme social, diz o Correio da Manhã, mas o juiz de Instrução Criminal deliberou antes a favor das apresentações semanais em esquadras da PSP. Além da vandalização, os dois neonazis “guardavam fotografias de pessoas ligadas à comunidade judaica”, disseram as autoridades, o que foi entendido na altura como alvos marcados. Ambos pertenciam à Frente Nacional de Mário Machado.

Um outro elemento preponderante nos PHS foi Rui Veríssimo, que acompanhava Machado desde os tempos da Irmandade Ariana e do Grupo 1143. Foi o responsável pelo aluguer da skinhouse no Tojalinho, em Loures, até ser descoberta e revistada pela polícia em 2004.

Em janeiro de 2006, quando era o homem da logística da Frente Nacional, Veríssimo foi detido no aeroporto de Lisboa ao ser apanhado com um quilo e meio de cocaína. Não denunciou o nome dos responsáveis pela distribuição e venda da droga, segundo cartas enviadas a outro PHS, José Amorim, vocalista da banda Ódio, apreendidas mais tarde pela PJ. Veríssimo cumpriu quatro anos e meio de prisão por causa da droga.

Os PHS e a Frente Nacional

Enquanto aguardava pela oficialização da sucursal à Hammerskin Nation, Machado criou um fórum na Internet, o Fórum Nacional, que conseguiu agregar uma parte dos nacionalistas portugueses. Este sucesso permitiu-lhe criar uma organização política em 2004: a Frente Nacional. Usou-a como fonte de recrutamento, atraindo os jovens que demonstrassem maior “potencial” para os PHS.

“Os jovens com idades entre os 16 e os 21 representam 60% do universo nacionalista, isto segundo um estudo que fizemos no Fórum Nacional. E também percebemos isso nas atividades e eventos que realizamos, portanto é natural que tenhamos algum apoio nas escolas, pois é onde se encontra a maior parte dos indivíduos desse escalão etário. As claques são compostas por adolescentes e jovens na sua maioria, por isso a mesma analogia aplica-se nessa situação”, disse Machado ao Diário de Notícias, na edição de 12 de dezembro de 2005.

"O processo de adesão à FN é bastante simples, o membro indica o proponente, tendo necessariamente o conhecer pessoalmente e atestar a sua integridade, [sic] a 1 dos 10 membros da direção e estes aprovam ou não a sua entrada", explicou o líder da organização de extrema-direita na entrevista ao blogue Em Silêncio. "Aos ativistas da Frente Nacional pede-se que estejam presentes sempre que possível nos eventos da mesma e nestes possam contribuir com a sua dedicação e empenho para que se alcance os objetivos pré-determinados."

Em 2005, Machado estabeleceu uma aliança com José Pinto-Coelho, facilitando a sua ascensão à liderança do Partido Nacional Renovador (PNR), para entrar na formação política. Em troca da sua adesão, o PNR “ganhou” mais de uma centena de jovens altamente militantes, dispostos a atos de violência. A direção do partido chegou inclusive a distinguir o líder da Frente Nacional como “militante ativista do ano” em 2005.

“Sou amigo do Mário, é um excelente nacionalista. Aprovo todos os tipos de nacionalismo, de toda a gente que ama a sua pátria. O Mário foi a face mais visível da fase impulsionadora do nacionalismo”, disse José Pinto-Coelho em entrevista ao semanário SOL, na edição de 14 de abril de 2007.

A Frente Nacional passou então a ser o braço armado do PNR e a garantir a segurança dos protestos e eventos por si organizados, enquanto entrava em conflito nas ruas com elementos dos Skinheads Against Racial Prejudice (SHARP), sobre os quais os boneheads publicaram na Internet uma lista de “alvos a abater”.

A estratégia de Machado com a nova organização política era apenas uma: ganhar cada vez mais poder dentro do PNR e federar a extrema-direita sob o seu estandarte, ser o líder incontestado. Ou seja, tornar-se um dia hegemónico neste quadrante político, usando os PHS como braço armado para os seus objetivos. Daí que quando os Blood & Honour apareceram em Portugal, incluídos na rede neonazi Blood & Honour, criada e com sede no Reino Unido, tenha tentado pela via da força absorvê-los.

“Nesse sentido, tentavam aglutinar outros movimentos. Uns por negociação, outros por intimidação”, disse em tribunal o inspetor-chefe da PJ Pedro Prata, citado pelo Correio da Manhã. O inspetor-chefe explicou que 12 membros dos PHS se dirigiram ao Porto com o intuito de “ajustar contas com o movimento Blood & Honour”, sediado em Matosinhos.

Não foi o único caso do género. Soube-se, em 2009, que Machado foi com Bruno Monteiro ao Algarve para falar com “Thor”, na altura Nomad (motard que não faz parte de uma sucursal específica) dos Hells Angels, sobre a criação de um grupo bonehead dos PHS.

Thor recusou-se a falar sobre o assunto e Machado baleou-o numa perna, soube-se depois nas escutas feitas pela PJ a Machado, no âmbito de um processo de Loures sobre roubos e torturas a clientes de tráfico de droga. O membro dos Hells Angels nunca apresentou queixa às autoridades e, confrontado com o sucedido, negou-o – faz parte do código de honra nunca falar com as autoridades; os problemas, para os Hells Angels, devem resolver-se à margem da lei.

Um outro grupo que pôs em causa os objetivos hegemónicos de Machado foi a Causa Identitária, criada em 2005 e na qual João Martins, condenado a 17 anos de prisão pelo assassínio de Alcindo Monteiro, estava envolvido. A nova organização identitária começou a ganhar espaço e a colaborar no ativismo de rua com o PNR, disputando até certo ponto essa posição com a Frente Nacional.

A tensão subiu significativamente quando Martins, já fora da Causa Identitária, contactou dissidentes da Frente Nacional, fartos da hegemonia dos PHS na organização, para se organizarem iniciativas em conjunto.

Foi neste contexto que o primeiro grande erro mediático de Machado aconteceu. Numa reportagem da RTP, de 2006, o líder dos PHS mostrou uma shotgun e disse que os nacionalistas estavam, se necessário, preparados para a luta armada. “[A shogtun] É uma arma que todos nós devíamos ter em casa. Os nacionalistas armas como estas têm às dezenas e estamos preparados, se o dia chegar, para que tomemos de assalto as nossas ruas”, disse Machado aos jornalistas do canal público.

A então Direção Central de Combate ao Banditismo (hoje Unidade Contraterrorismo) da Polícia Judiciária desencadeou meses depois, a 18 de abril de 2007, a primeira mega operação contra os boneheads e a sua liderança: 58 buscas domiciliárias, 190 inspetores envolvidos e 31 detidos, dos quais 27 em flagrante delito por terem armas proibidas, entre os quais Machado. A Frente Nacional nunca mais recuperou a força que antes tinha e o PNR ficou para sempre marcado pela colagem aos boneheads.

Machado e outros 35 arguidos, dos quais 13 faziam parte dos PHS, foram acusados pelos crimes de discriminação racial, agressões, sequestro e posse ilegal de armas. E as ameaças à procuradora do Ministério Público responsável pelo caso, Cândida Vilar, não se fizeram esperar. 

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Protesto bonehead a favor de Mário Machado no Rossio, em Lisboa
Protesto neonazi em defesa de Mário Machado nos Restauradores, em Lisboa

"Fiquei nas masmorras de uma nova inquisição cujo rosto é a procuradora do MP da 11ª seção, Cândida Vilar", escreveu Machado numa carta tornada pública por Bruno Monteiro, dirigente dos PHS, citada pelo Diário de Notícias. "Os nacionalistas jamais esquecerão este nome, pois esta senhora foi a responsável, e não a PJ (apesar de tudo), pela maior perseguição política dos últimos 30 anos", continuou, ressalvando estar "disposto a dar o próprio sangue", esperando que os restantes nacionalistas fizessem o mesmo. 

A carta divulgada foi encarada como ameaça e Cândida Vilar, que já se sentia ameaçada pelos neonazis e por isso recebia proteção policial, foi alvo de uma nova ronda de ameaças, e entre elas esteve o aviso de que lhe iriam pôr uma bomba no carro. Não se deixou intimidar e manteve as acusações, enquanto Machado se viu a braços com mais um processo criminal por difamar e ameaçar a procuradora.

O líder bonehead ainda tentou dar o dito pelo não dito, desvalorizar a ameaça dizendo ter sido um "puro desabafo", mas não colheu frutos. Foi mais tarde condenado a oito meses de prisão e usou a cartada da vítima de censura, de lhe estarem a tirar a liberdade de expressão.

O julgamento das acusações de Cândida Vilar começou em abril de 2008 e o líder bonehead foi condenado, em outubro do mesmo ano, pelo Tribunal Criminal de Monsanto a quatro anos e dez meses de prisão efetiva por discriminação racial, coação agravada, posse de arma ilegal, ameaças e dano e ofensa à integridade física qualificada. Dos outros 35 arguidos, cinco foram condenados a prisão efetiva, 17 ficaram com pena suspensa, outros cinco acabaram absolvidos e sete pagaram multas.

Mas o líder da Frente Nacional já antes tinha sido condenado em processos criminais e voltaria a sê-lo, com a Justiça portuguesa a decretar, em dezembro de 2012, dez anos de prisão por cúmulo jurídico das penas de prisão.

A nova liderança dos PHS

Foi quando já estava detido que as relações com os PHS se degradaram profundamente. Para ter hipóteses de aceder a uma redução da pena, Machado decidiu escrever uma carta ao Ministério Público a denunciar os seus camaradas dos PHS, nomeadamente como faziam assaltos a multibancos em supermercados. Os PHS não o perdoaram. Além disso, em janeiro de 2014, escreveu uma carta a Rute Pereira, companheira de Bruno Monteiro, entretanto presidente dos PHS, a ameaçar matá-la em frente aos filhos.

“Considero-te a inimiga número um, colaboradora do Ministério Público, fizeste-me uma emboscada com a Cândida Vilar [procuradora do MP] em (sic) Saldanha, pois levaste-me ali para que eu a insultasse e denunciaste-me”, escreveu Machado. “Vou sair em liberdade em breve e juro pelos meus filhos que és a pessoa que mais odeio e vão-te matar à frente dos teus filhos, juro pela minha saúda, [sic] sua informadora de merda se não entregares 30 mil euros ao Joãozinho [João Dourado], vais pelo cano”.

A carta foi entregue a João Dourado, membro dos PHS e em tempos afilhado de Machado, e apenas deveria chegar às mãos da respetiva destinatária. Mas nunca lá chegou, foi antes parar às mãos da PJ e do Ministério Público. Mais uma traição que levou ao aprofundar da cisão dos PHS, escreveu na altura o Diário de Notícias.

Quando estava para sair em liberdade condicional em junho de 2016, Machado foi condenado a mais dois anos e nove meses de prisão pelo crime da ameaça feita na referida carta. Saiu finalmente da prisão em maio de 2017, por bom comportamento, ainda que diga manter-se fiel à sua ideologia. Uma vez em liberdade, aprofundou os passos já dados para a criação de um partido, a Nova Ordem Social (NOS), que mostrou ser mais um falhanço no longo historial do fundador dos PHS.

Em maio de 2014, Machado anunciou a sua saída dos PHS, acusando-os de serem um “caso de polícia”, e denunciou-os, expondo os seus nomes e alegados crimes perpetrados. “Poderia, em liberdade, começar uma limpeza no grupo e expulsar estes criminosos travestidos de nacionalistas, mas seria um retrocesso que confirmaria o meu fracasso pessoal em manter-me longe de qualquer tipo de criminalidade”, disse o fundador dos PHS.

Entre 2007 e 2014, os PHS passaram por uma fase de enfraquecimento, consumidos por disputas internas e a braços com a Justiça portuguesa. No entanto, e uma vez Machado fora da organização, os PHS começaram a reorganizar-se, em parte impulsionados pela onda de discurso xenófobo e racista da extrema-direita europeia.

Em 2013, Nuno Cláudio Cerejeira, sobrinho-neto do Cardeal Cerejeira, aliado do ditador António de Oliveira Salazar, adquiriu com dinheiro de uma herança um armazém em Odivelas para o transformar numa nova skinhouse, a Club 38 (Club Crossed Hammers – referência aos martelos quebrados da Juventude Hitleriana), depois de terem deixado de ter a de Loures. A aquisição foi resultado de uma diretiva interna da Hammerskin Nation.

O objetivo da skinhouse era servir de espaço de convívio, local de concertos e de comícios dos neonazis, fora dos olhares das autoridades. Também criaram uma banda, a Blood in Blood out (BiBo), com o vocalista a ser Cerejeira. A bateria e a guitarra estavam a cargo de dois prospects e o baixo nas mãos de um outro veterano dos PHS, também condenado na sequência da megaoperação de 2007.

Foi também nesta altura que os PHS começaram a inovar o modus operandi. Criaram a Associação Luz Branca, legalmente de cariz solidário e sem fins lucrativos, para distribuírem comida, dinheiro (para rendas) a famílias – e só – portuguesas carenciadas, desde que apresentassem o respetivo cartão de cidadão. Este modelo foi uma tentativa de copiar as ações de “solidariedade” apenas para gregos levadas a cabo pelo partido neonazi grego Aurora Dourada, entretanto ilegalizado pela justiça helénica.

A gestão da nova associação coube a Bruno Monteiro, presidente dos PHS e agente imobiliário. A associação organizou “almoços solidários”, em que se discutiam ideias e se trocavam opiniões sobre o futuro, para além de recolherem fundos. Também houve t-shirts da organização a serem produzidas com logótipos de empresas que a apoiavam: uma agência de comunicação, uma gráfica, uma empresa de segurança e higiene no trabalho e uma rádio que nunca o foi.

Os PHS conseguiram atrair novos recrutas e com eles mais atos de violência ocorreram, por terem de dar provas de lealdade. As autoridades registaram então uma série de ataques contra 18 pessoas, das quais um sindicalista e um jovem negro que por pouco não morreram, e avançaram com uma segunda megaoperação em novembro de 2016, realizando 40 buscas domiciliárias e detendo 20 pessoas.

“O grupo não é grande, mas tem um conjunto de novos elementos”, disse ao Diário de Notícias Luís Neves, na altura diretor da Unidade de Contraterrorismo da PJ. “Alguns dos crimes que estão em causa nesse processo são, para alguns dos membros do grupo, ritos de iniciação, de demonstração de coragem, de apego à causa – sobretudo à discriminação racial – de jovens que procuram ganhar a confiança da estrutura criminosa. Uma prática, aliás, que já conhecemos do passado”, concluiu.

Em maio de 2020, o Ministério Público constituiu arguidos 37 pessoas ligadas aos PHS, mas, meses depois, decidiu acusar apenas 27 por crimes de discriminação racial, religiosa ou sexual, ofensa à integridade física qualificada, incitamento à violência, homicídio qualificado tentado, dano com violência, detenção de arma proibida, roubo, tráfico de estupefacientes e tráfico de armas.

O processo ficou ainda envolto em suspeitas em torno da PSP, depois de os seus agentes terem desejado arquivar o processo do jovem racializado que esteve na origem da investigação, como demonstrou uma investigação do Público. A PSP tentou contactar a vítima, emitiu mandados de captura, mas não foi capaz de a localizar e, em março de 2014, propôs em relatório final enviado ao Departamento de Investigação e Ação Penal de Lisboa (DIAP) o arquivamento do processo, apesar de já haver provas recolhidas. O DIAP não aceitou e instou a PSP a continuar a investigar, sendo mais tarde enviado para a PJ.

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