Movimento Popular Português

MOVIMENTO POPULAR PORTUGUÊS

O Movimento Popular Português (MPP) começou a ser estruturado no início de maio de 1974 e diferenciou-se dos restantes partidos de extrema-direita então criados por usar uma linguagem intransigente e extremada. O MPP usou uma estratégia de ataques violentos à extrema-esquerda para evitar ser conotado com a extrema-direita. Foi ilegalizado na sequência da tentativa do golpe contrarrevolucionário de 28 de Setembro de 1974.

Esta força política pode ser considerada a casa comum do catolicismo integralista pela sua ligação umbilical ao núcleo de pessoas reunidas em torno do Centro de Estudos Sociais Vector e da revista Resistência. De resto, o principal fundador do MPP foi António Cruz Rodrigues, líder do Vector e diretor da Resistência, e essa ligação ficou bem espelhada pela publicação do seu manifesto e dos seus primeiros oito comunicados na edição de 15 de junho de 1974 da Resistência.

"O Combate vai ser longo e difícil. O tenebroso comunismo já ocupa a maior parte dos lugares-chave no país e já arrasta massas através de uma inteligente propaganda" – Panfleto do MPP de 1974

O MPP queria ser “um movimento de caráter popular” que reunisse portugueses “das mais diversas tendências numa associação cívica para estudo dos problemas nacionais e para a defesa da Ordem, do Progresso e do Entendimento harmónico de todos os portugueses conscientes do momento histórico que o País atravessa”, lê-se no Manifesto do Movimento Popular Português, publicado na Resistência a 15 de junho de 1974.

A primeira aparição pública do MPP aconteceu a 3 de junho, quando militantes seus distribuíram o seu manifesto em Lisboa e no Porto. Já o primeiro comício foi realizado a 7 de setembro de 1974 no Alentejo, mais especificamente em Cano, no distrito de Portalegre, conta o politólogo Riccardo Marchi no livro À Direita da Revolução – Resistência e Contra-Revolução no PREC [1974-1975].

Cruz Rodrigues deu os primeiros passos para a criação do MPP no início de maio com uma reunião em sua casa, nos Olivais, onde se discutiu o futuro do regime democrático nascente. O principal fundado queria evitar conotações com a extrema-direita, sem, no entanto, recusar o fascismo e o salazarismo inerentes ao movimento.

Os militantes de extrema-direita delinearam então uma estratégia alternativa: apostar todas as suas fichas num discurso anticomunista, pois era o mínimo denominador comum que poderia unir as várias direitas no momento revolucionário que se vivia, com o Partido Comunista Português (PCP) a ser o principal alvo a abater.

Esta aposta no anticomunismo pretendia também capitalizar os 48 anos de propaganda anticomunista e de obscurantismo que, em muitos setores sociais, criara um preconceito e um receio genuínos em relação ao comunismo. Era, portanto, um apetecível ativo político-ideológico a explorar.

Daí o MPP se ter definido como “anticomunista e antifascista”, comparando o fascismo ao comunismo, numa clara tática de dissimulação. Por exemplo, o seu manifesto começa com o lema “não se iluda: comunismo é pior que fascismo”, sendo mais tarde reproduzido em cartazes e panfletos em Lisboa e no Porto, entre maio e setembro de 1974. Mas não só: o MPP chegou mesmo a publicar 15 mil exemplares de uma brochura chamada “PCP – Um Partido Fascista”, o que pode, no mínimo, ser considerado um enorme exercício de desonestidade intelectual.

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Panfleto anticomunista do Movimento Popular Português
Panfleto anticomunista do MPP. Fonte: Ephemera - Biblioteca e Arquivo de José Pacheco Pereira

Como se disse, o MPP procurava capitalizar os 48 anos de doutrinação anticomunista e despertar, numa população fortemente despolitizada e marcada pelo analfabetismo, o medo e o terror em relação aos comunistas. Assim, alertava no seu Manifesto aos Portugueses Conscientes, ”sob peles de cordeiro, constrói-se um novo e pior fascismo, a Ditadura Comunista, enganando-se o Povo aos gritos de uma liberdade caótica”.

“[O MPP] é antitotalitário. E não só não é fascista nem comunista, mas ainda vai mais longe: repudia como solução política para a atual situação nacional, e combate com todas as forças políticas de que dispõe, quer as orientações e objetivos da extrema-direita, quer as orientações e objetivos da extrema-esquerda”, lê-se num comunicado do MPP de julho, citado por Marchi.

O anticomunismo estava presente em todas as dimensões do programa do MPP, mesmo quando tentava apresentar propostas para captar eleitorado fora do universo da extrema-direita. A nova força política, que quis ser um partido e que nunca o conseguiu por causa da intentona spinolista do 28 de Setembro de 1974, elegeu dois princípios fundamentais, apelando aos portugueses para se unirem em torno deles:

  1. A autodeterminação de Portugal. Pressupõe a realização de um referendo a efetuar em condições de total ausência de coação direta ou indireta, interna ou externa e com o mais absoluto respeito pela opinião livremente formulada pelas respetivas populações. Neste contexto, o MPP luta pelo estreitamento dos laços culturais, políticos e económicos entre todos os territórios portugueses.
  2. A Justiça Social. Defendia que a promoção de todos os trabalhadores só poderia ser alcançada com respeito pela propriedade privada, sem o recurso à luta de classes de obediência internacionalista marxista e numa base autenticamente democrática.

A questão colonial também esteve bem presente na propaganda do MPP, onde se defendia a presença portuguesa em África e na Ásia. O MPP denunciou ativamente, no seu oitavo comunicado de 15 de junho de 1974, o que entendia ser a política de abandono, atentatória dos valores e da identidade nacionais e sujeita aos interesses soviéticos, ao afirmar que Portugal carregava uma dívida “carnal e espiritualmente aos africanos de todas as etnias”.

Numa tentativa de esconder o seu racismo assente numa visão pluricontinental e “multirracial” do império, o MPP acusava os restantes partidos, nomeadamente os de esquerda, de serem racistas ao advogarem soluções independentistas para as colónias portuguesas. Acusava-os de terem uma conceção de que “Portugal não é África” e de que “os pretos não são portugueses”.

Razão pela qual o MPP se incompatibilizou com o general António de Spínola, que defendia a via federalista para a manutenção do Império colonial, e com os restantes partidos da extrema-direita que o apoiavam, como o Partido Liberal e o Movimento Federalista Português – Partido do Progresso.

Isso não o impediu, no entanto, de procurar legitimação política junto de Spínola e do primeiro-ministro do I Governo Provisório, Adelino da Palma Carlos. Agnelo Galamba de Oliveira e Manuel Braamcamp Sobral reuniram-se, na qualidade de representantes do MPP e integrados numa delegação de quatro partidos (MPP, PL, MFP/PP e PTDP), com Spínola, no Palácio de Belém, a 11 de julho de 1974, para protestar contra a marginalização política de que diziam ser alvo.

Depois, ainda no mesmo mês, os representantes do MPP encontraram-se com o primeiro-ministro e dessa reunião resultou uma relação relativamente estável. Assim foi que anos mais tarde, António da Cruz Rodrigues, que veio a ser o primeiro presidente do Partido Nacional Renovador (PNR, hoje Ergue-te!), convidou Palma Carlos para ser professor na Universidade Livre, criada em 1981 por elementos ligados ao Centro de Estudos Sociais Vector, conta Marchi.

“É mister para salvação da nossa Pátria no seu todo pluricontinental a criação de uma grande frente unida para combater o avanço das ideias marxistas e para simultaneamente apoiar o Chefe de Estado e o seu Primeiro-Ministro para que possam levar a cabo o programa que nos anunciaram logo após o golpe de estado de 25 de Abril”, lê-se numa carta enviada pelo MPP a Palma Carlos, citada por Marchi.

E, como resposta à perda inevitável das antigas colónias, o MPP apresentou como solução na política externa a melhoria das “relações com todos os países sem discriminação e uma associação ou possível adesão ao Mercado Comum Europeu em condições adequadas à economia portuguesa”, sem esquecer, no entanto, uma maior intervenção e participação na Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO).

No seu manifesto, o MPP defendia “uma Política Económica moderna baseada no direito e na generalização do acesso à propriedade, como fatores de estímulo social, enquadrados nos superiores destinos nacionais e numa intervenção dinâmica do Estado”, não esquecendo o combate à inflação e ao aumento do custo de vida. Era uma narrativa que tinha como objetivo conseguir conquistar apoio social para além dos círculos da extrema-direita tradicional e que almeja captar a adesão do português médio.

Assim, tanto em matéria de um discurso arreigadamente colonialista, como de uma inflamada oratória anticomunista, o MPP, mesmo afirmando-se antifascista e manifestando apoio ao Programa do Movimento das Forças Armadas e da Junta de Salvação Nacional, na altura liderada por Spínola, inseriu-se claramente na linha político-ideológica tributária do salazarismo.

O MPP foi ilegalizado na sequência da tentativa de golpe contrarrevolucionário da “maioria silenciosa” de 28 de Setembro de 1974, liderado por Spínola.

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