Divisão Misantrópica Portugal

DIVISÃO MISANTRÓPICA PORTUGAL

A Divisão Misantrópica (Misanthropic Division, MD) foi uma rede internacional neonazi que tinha o objetivo de promover uma sociedade etnonacionalista e recrutar militantes de extrema-direita para combaterem nas fileiras do Regimento Azov na guerra contra os separatistas apoiados pela Rússia no Leste da Ucrânia. A rede teve células um pouco por toda a Europa e Portugal não foi exceção.

A MD foi criada em 2013 por três militantes ucranianos com o objetivo de defender a criação de um estado etnonacionalista na Ucrânia. Os seus ainda poucos militantes participaram nos protestos da EuroMaidan, que depuseram o então Presidente Viktor Yanukovytch, e criaram pontes entre organizações de extrema-direita, como o Setor Direito, organização guarda-chuva para setores ultranacionalistas e patrióticos ucranianos.

“A Divisão Misantrópica é uma irmandade NS [nacional-socialista] exclusiva a homens europeus e eurodescendentes” carta de princípios da rede internacional.

A organização ganhou um novo âmbito quando a Rússia anexou a Crimeia, em 2014, e apoiou os separatistas de Lugansk e Donetsk, promovendo uma guerra que ainda hoje perdura e que já fez milhares de mortos e deslocados.

A organização evoluiu então para uma rede internacional propagando a causa ucraniana contra a agressão russa, recrutando elementos estrangeiros para as fileiras do Sector Direito e, depois, para as do Regimento Azov, mais bem organizado e armado.

Não há dúvidas sobre o cariz nacional-socialista da MD. Os seus elementos glorificam o nacional-socialismo e o símbolo da rede internacional é constituído pela totenkopf, símbolo de caveira usado pelas Waffen-SS de Adolf Hitler. A rede internacional recruta elementos entre as organizações dos Hammerskin Nation e Blood & Honour e no circuito do black metal nacional-socialista. Também existem fortes ligações com o movimento identitário europeu.

A MD expandiu-se e criou células em vários países europeus, como Polónia, Estónia, Lituânia, Itália, Alemanha, França, Suíça e Reino Unido, como demonstra uma infografia da rede partilhada pelo blogue Ukrainian Crusade, ligado ao Azov, a 26 de março de 2015. Porém, hoje, só a célula ucraniana mostra sinais de vida significativos.

Portugal também teve uma célula. A sua iniciativa pública mais importante aconteceu em 2015, quando o italiano Francesco Saverio Fontana, ligado ao italiano neofascista CasaPound, foi o convidado principal numa conferência no quartel dos bombeiros de Paços de Arcos, em Oeiras – passou depois pelo Reino Unido, França e Brasil.

A conferência foi organizada por João Martins, figura conhecida nos círculos de extrema-direita e condenado a 17 anos de prisão (cumpriu nove anos e quatro meses) pelo assassínio de Alcindo Monteiro, no Bairro Alto, em 1995, e foi anunciada no site oficial da rede internacional.

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Estrutura da rede internacional neonazi Misanthropic Division em 2015
Estrutura internacional da rede neonazi Misanthropic Division em 2015. Fonte: blogue de extrema-direita Ukrainian Crusade

A célula nunca teve mais de dez elementos, avançou o jornal Público (21 de junho de 2020), e limitou-se a atividades de propaganda nas redes sociais, publicando vídeos e imagens, a apoiar os milicianos do Movimento Azov. Num vídeo da célula, os seus membros são vistos a grafitar paredes lisboetas e a arrancar autocolantes antifascistas.

No entanto, a criação desta célula representou o início dos contactos entre as extremas-direitas portuguesa e ucraniana e, apesar de a célula estar desativada, os seus membros continuam no circuito ao integrarem outras organizações de extrema-direita portuguesas.

“A MD nunca existiu em Portugal. Quando muito, conheceu uma ou outra página de apoio em português”, disse ao Público João Martins, recusando a existência de uma “monstruosa teia neonazi” e afirmando que a organização “existe formalmente somente na Ucrânia”. Martins recusa ser o fundador da célula.

Porém, Martins foi um dos principais fundadores do grupo em Portugal e terá desempenhado um papel destacado na rede internacional ao ter redigido a carta de princípios da rede.

“Desenvolvido pela Comissão Interna da MD liderada por João e Bruno. Aprovada pelas direções da MD da Europa e de Leste. Dizemos obrigado por este excelente trabalho e pelo número mágico” de 14 pontos, lê-se no documento. O número de pontos é relevante: refere-se às 14 palavras “We must secure the existence of our people and a future for white children [temos de garantir a existência do nosso povo e o futuro das crianças brancas]”.

Um outro elemento da MD Portugal é Paulo Russo, com pouco mais de 50 anos e próximo de João Martins, revelou o Público. Em 2016, o português esteve no centro social Casa dos Cossacos, do Azov, em Kiev, e é o administrador do site da loja de roupa Walknvt (significa valknut, que na mitologia nórdica, se traduz por “guerreiros caídos”), apontada como uma das fontes de receita da rede internacional. A marca foi criada em 2013, o site registado em março de 2018 e atualizado pela última vez em fevereiro de 2020.

A carta de Princípios da Divisão Misantrópica:

“Desenvolvido pela Comissão Interna da MD liderada por Joao e Bruno. Aprovada pelas direções da MD da Europa e de Leste. Dizemos obrigado por este excelente trabalho e pelo número mágico que resolveu o emoticon do wink.

14 pontos pelos quais viver e morrer:

  1. A Divisão Misantrópica é uma Irmandade NS [nacional-socialista] exclusiva a homens europeus e eurodescendentes [“eurodescendents”]. Vivemos de acordo com os princípios da Natureza e denunciamos o moderno e corrupto sistema político com a sua sociedade multicultural.
  2. A Divisão Misantrópica é composta por pessoas que recusam este repugnante mundo moderno. A nossa misantropia é um grito de ódio contra a fraqueza humana e todos aqueles que se opõem aos valores tradicionais baseados nas leis da Natureza. O principal objetivo do NS é o Ubermensch [além-homem ou super-homem, baseado nos passos para se ser um homem superior, de Friedrich Nietzsche], privado de fraqueza, defeitos e feiura.
  3. A Divisão Misantrópica é nietzschiana e promove o renascimento das nossas religiões primordiais, as dos nossos ancestrais. Por isso, a Divisão Misantrópica rejeita todas as crenças e religiões estranhas à nossa herança ancestral.
  4. Os membros da Divisão Misantrópica são livres de se juntar e fazer parte de quaisquer outras organizações políticas que promovam a nossa Causa, mas sempre tendo em mente a sua lealdade aos princípios da Divisão Misantrópica e à sua irmandade.
  5. Como irmandade, todos os membros da Divisão Misantrópica devem ser tratados por igual por todas as filiais nacionais. Nenhumas ofensas ou desrespeito para com outros membros ou filiais da nossa irmandade Divisão Misantrópica serão tolerados. Aqueles que violarem este princípio básico enfrentarão sanções disciplinares e podem ser expulsos da Divisão Misantrópica.
  6. As Regras Internas são da inteira responsabilidade de cada filial da Divisão Misantrópica. Os novos membros devem provar a sua intenção de ingressar na Divisão Misantrópica por, pelo menos, um ano.
  7. As filiais da Divisão Misantrópica devem lutar por todos os meios necessários e fazer tudo o que for necessário para reconstruir uma sociedade europeia comum, baseada na Família, no Povo e na Tradição; protegendo a nossa Cultura e Identidade Europeia.
  8. O objetivo principal da Divisão Misantrópica é dar apoio imediato aos militares da ATO – Azov e DUK – sem esquecer que estão a lutar e a representar a nossa causa.
  9. Todas as filiais da Divisão Misantrópica devem produzir a sua própria propaganda, de acordo com a situação nacional de cada país.
  10. A Divisão Misantrópica não é um gangue nem uma organização terrorista. Os membros da Divisão Misantrópica são soldados políticos prontos para lutar por uma visão do mundo. Assim, a Divisão Misantrópica denuncia o comportamento de gangue (consumo/tráfico de drogas, roubos, etc.) como parte da decadência moderna.
  11. Devemos defender a integridade de todas as etnias, Línguas e Tradições Europeias como nosso património.
  12. A Família é a célula básica de uma comunidade, por isso, todos os membros da Divisão Misantrópica priorizam nas suas famílias, pois é nas nossas famílias que está o futuro das crianças brancas e consequentemente da nossa Raça como um todo.
  13. É obrigatório aos membros da Divisão Misantrópica auxiliar os nossos membros que estão a enfrentar problemas judiciais ou estão atrás das grades, bem como quando um membro ou familiar precisar de qualquer tipo de ajuda.
  14. Todos os membros da irmandade da MD procederão com Honra e Lealdade, lembrando que UNIDOS VENCEREMOS!”

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