Associação Portugueses Primeiro

ASSOCIAÇÃO PORTUGUESES PRIMEIRO

A Associação Portugueses Primeiro (P1) é uma organização identitária que atua como braço cultural do Partido Nacional Renovador (PNR, hoje Ergue-te!). Criada em 2015, a associação organiza protestos e conferências contra a alegada “invasão e colonização” da Europa por “povos provenientes de todos os cantos do mundo”.

“Os Portugueses são étnica e culturalmente Europeus. As suas tradições, costumes, língua e etnia inscrevem-se na grande família dos povos Europeus. Desta forma concebemos o nosso Povo como uma realidade biocultural, fruto da procedência de um tronco comum Europeu”, lê-se na Declaração de Princípios da associação, alegando que os portugueses e os europeus enfrentam hoje a maior ameaça da sua história: “a invasão e colonização do continente por povos provenientes de todos os cantos do mundo”.

“Essa ‘coisa’ que estamos rapidamente a perder é a nossa matriz civilizacional, tudo aquilo que nos diferencia como povo dos demais, numa amálgama de características biológicas e culturais que nos tornam únicos” – Nelson Dias da Silva a 10 de Junho de 2018

Num direito de resposta a um artigo do jornal i, a associação disse que ser incluída na extrema-direita portuguesa “é claramente redutor”. No entanto, assumiu uma postura totalitária ao defender no mesmo texto “uma grande máxima da definição política e ideológica da atualidade: ‘Existem apenas dois tipos de pessoas: aqueles que amam a Nação. Aqueles que odeiam a Nação’”.

O etnonacionalismo aglomera uma eclética mistura de ideologias que combinam o pensamento nacionalista racial e cultural. Os etnonacionalistas defendem que a raça e a etnia são elementos indispensáveis da identidade nacional. No entanto, e ao contrário do nacionalismo racial, há etnonacionalistas que não defendem necessariamente a pureza étnica como fim em si mesmo, proclamando ao invés que cada etnia tem o seu valor, ainda que devam ser mantidas em separado para cultivarem livremente as suas diferenças.

Nasce o braço cultural do PNR

Desde o fim da Causa Identitária (2005-2010) que não existia em Portugal uma organização identitária. O PNR preencheu esse vazio assumindo ele próprio uma narrativa identitária, fazendo do combate etnonacionalista à imigração a sua grande bandeira, mas faltava-lhe uma organização que formasse novos quadros e desempenhasse um papel no combate cultural identitário.

O pontapé de partida para a criação desse braço cultural foi uma concentração contra o acolhimento de refugiados em frente à Assembleia da República, em setembro de 2015. O protesto, sob o mote “cuidar dos nossos primeiro”, foi convocado no Facebook por um grupo chamado “Imigrantes não obrigado” e nele marcaram presença conhecidos elementos dos neonazis Portugal Hammerskins (PHS), entre os quais Nuno Cláudio Cerejeira.

O porta-voz dos manifestantes foi Nelson Dias da Silva, que mais tarde desempenhou a mesma função pela Associação Portugueses Primeiro, hoje dirigente do Chega e membro do grupo de estudos políticos. Por sua vez, João Martins, figura conhecida nos círculos de extrema-direita e condenado a 17 anos de prisão (cumpriu nove anos e quatro meses) pelo assassínio de Alcindo Monteiro, no Bairro Alto, em 1995, agradeceu à Hungria por na altura ter encerrado as suas fronteiras para impedir a passagem de refugiados – a Hungria foi acusada de violar os direitos humanos por essa decisão, entre outras.

Meses depois, a 23 de dezembro de 2015, Cláudia Ferreira Gomes e Rui Amiguinho, militante do PNR e dono da editora de extrema-direita Contra-Corrente, registaram a associação sob o nome Apostar na Identidade - Associação de Iniciativa Cívica, na conservatória de Torres Vedras – os militantes acrescentaram mais tarde o nome Portugueses Primeiro, um velho slogan do PNR.

Mais tarde, a 29 de novembro de 2017, Nelson Dias da Silva e Rui Roque, ex-PNR e entretanto suspenso do Chega, alteraram a morada oficial da associação na conservatória de Loures. Rui Roque foi o principal proponente da moção na II Convenção do Chega, em setembro de 2020, em Évora, para retirar os ovários às mulheres que realizassem interrupções voluntárias de gravidez.

A associação também teve um setor dedicado aos jovens, os Jovens Portugueses Primeiro, com uma página de Facebook própria e cuja responsabilidade coube a Luís Graça, secretário da associação, mais tarde um dos líderes do Escudo Identitário e filho do presidente da Mesa da Convenção Nacional do Chega, Luís Filipe Graça.

Outros jovens ligados à associação foram Irene Sousa, que mais tarde se juntou ao Escudo Identitário no Porto, sendo hoje a sua porta-voz, e João Saraiva, apoiante da claque benfiquista Diabos Vermelhos, membro do Escudo Identitário e que, em 2018, integrou a comitiva escudista na viagem a Itália para se reunir com o CasaPound Italia, sendo acompanhado por João Martins.

Uma das primeiras ações dos jovens da P1 no Facebook foi divulgar a vinda do italiano Francesco Saverio Fontana, ligado ao neofascista CasaPound Italia, para falar sobre o conflito armado na Ucrânia em Paço de Arcos, em Oeiras, a 26 de setembro de 2015.

Fontana fazia parte da rede internacional neonazi Misanthropic Division, com fortes ligações ao neonazi Movimento Azov, e a sua vinda foi o primeiro passo para a criação da célula portuguesa da rede internacional. A conferência foi organizada por João Martins, um dos fundadores da Causa Identitária e da célula portuguesa da Misanthropic Division.

A associação continuou a desenvolver as suas atividades e, a 10 de dezembro de 2016, organizou um debate intitulado “Donald Trump, que significado para a Europa?” no Hotel Iris Saldanha, em Lisboa. O debate foi moderado por João Martins e teve como oradores Rui Amiguinho e Carlos Martins, autor do livro elogioso em relação ao antigo Presidente dos Estados Unidos “Trump, desafiar o Status Quo”.

Carlos Martins foi o líder da “Lista futuro” para a Juventude do Chega, onde constavam nomes como Carlos Tasanis, ex-membro da Nova Ordem Social (NOS) em Évora, e Manuel Rezende, um dos líderes do Escudo Identitário.

A Portugueses Primeiro tentou ainda disputar o terreno político da crise de habitação e gentrificação da cidade de Lisboa com um discurso nacionalista. “Lisboa, não sejas francesa/ tu és portuguesa/ Tu és só p’ra nós”, lê-se num panfleto da associação. “Não podemos permitir que bairros inteiros estejam totalmente desprovidos de residentes de longa-duração e de estabelecimentos de comércio tradicional, fatores de descaracterização da cidade”, continua o documento, referindo, por outro lado, que aplaudem o turismo e que este deve ter uma “forte componente social”.

A associação desenvolveu ainda ações tradicionais da extrema-direita portuguesa, como a celebração de datas simbólicas. Duas dezenas de militantes da associação juntaram-se, a 10 de junho de 2017, em Belém, em Lisboa. Misturaram-se com os crentes muçulmanos que ouviam uma oração do sheik David Munir e viraram-lhes as costas em sinal de protesto. Depois um ex-combatente da Guerra Colonial depositou uma coroa de flores no Monumento dos Combatentes, sendo ladeado por duas colunas de militantes de extrema-direita.

A comunidade muçulmana é um dos principais alvos da Portugueses Primeiro. A 10 de junho de 2018, mais de dez militantes, entre os quais João Martins e João Saraiva, espalharam sangue de porco no local onde uma mesquita será construída na Mouraria, em Lisboa. Juntaram-se depois à Marcha da Nacionalidade, organizada pelo PNR e que terminou no Martim Moniz, onde Nelson Dias da Silva, porta-voz da Portugueses Primeiro, discursou.

“A ‘Associação Cívica Portugueses Primeiro’ dedica-se essencialmente ao combate cultural, complementando, desta forma, o combate que o PNR trava no campo político”, lê-se no site do PNR, onde é divulgado o discurso de Dias da Silva.

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Cartaz do debate "Donald Trump, que significado para a Europa", organizado pela Portugueses Primeiro
Cartaz do debate "Donald Trump, que significado para a Europa", organizado pela Portugueses Primeiro

A grande proximidade entre a P1 e o PNR e a P1 e o Escudo Identitário, feita através de Luís Graça e João Martins, permitiu que estas três organizações cooperassem em dois importantes momentos: uma manifestação em frente à estátua do padre António Vieira, em outubro de 2017, e a realização de uma conferência que trouxe o líder da Casa Pound Italia, Gianluca Iannone, a Lisboa, em julho de 2018.

A conferência, intitulada “A realidade de hoje: agenda e soluções para o futuro”, no Palácio da Independência, em Lisboa, contou com a presença de João Pais do Amaral, vice-presidente do PNR, Nuno Afonso, do Escudo Identitário, e de Rui Amiguinho, da Associação Portugueses Primeiro. Iannone também foi um dos oradores e o líder dos russos Father Frost Mode, Maxim Savelev, esteve igualmente presente.

“O setor identitário e neofascista destacou-se, novamente, através da organização de conferências, ações de propaganda, celebrações de datas simbólicas, ações de protestos, eventos musicais e sessões de treino de artes marciais, num perfeito alinhamento com o modo de atuação dos seus congéneres europeus, com quem, de resto, manteve contactos frequentes”, lê-se no Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) de 2018.

A cooperação entre o Escudo Identitário e a Portugueses Primeiro terminou depois da conferência “Prisma”, a 4 de maio de 2019, organizada pelos primeiros. A conferência trouxe a Lisboa Olena Semenyaka, responsável do Departamento Internacional do Corpo Nacional, o braço político do neonazi ucraniano Movimento Azov.

A cúpula do Escudo Identitário e João Martins entraram em divergência e desde então que a confluência que se via entre PNR, Portugueses Primeiro e Escudo Identitário colapsou. Martins chegou inclusive a acusar os escudistas de terem deixado de ser identitários, com estes a refutarem as acusações.

Martins manteve-se próximo do PNR e, pouco antes das eleições europeias de 2019, o Diário de Notícias avançou que o militante de extrema-direita foi convidado pelo partido a integrar as suas listas, tendo recusado.

A Portugueses Primeiro tem hoje pouca atividade.

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