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O rapper Lowkey é um dos autores das músicas que o grupo britânico pró-Israel pretende silenciar. |Fotografia de Lawless Capture via Unsplash

Na guerra de petições, um rapper pró-palestiniano está a levar a melhor sobre o lóbi israelita

O We Believe in Israel é um grupo que promove os interesses do Estado de Israel. Mais de uma centena de personalidades e organizações condenaram a tentativa de "cancelamento" do rapper e ativista britânico Lowkey. 

Cultura
7 Abril 2022

Um grupo britânico pró-Israel lançou uma petição na Internet para pressionar a plataforma Spotify a eliminar aquilo que considera ser "conteúdo fortemente anti-Israel". Mas saiu-lhe o tiro pela culatra: no ping-pong das petições, Lowkey ultrapassa largamente a organização que o quer cancelar com 23 vezes mais assinaturas. 

A petição do We Believe in Israel (Acreditamos em Israel), um grupo que promove os interesses do Estado de Israel no Reino Unido, foi lançada no dia 24 de março e apela à empresa de streaming a "tomar medidas rigorosas contra os conteúdos extremistas e antissemistas que o Spotify aloja na sua plataforma". 

Citando o aumento de incidentes de ódio antissemita no Reino Unido, o We Believe in Israel afirma que "o Spotify tem a responsabilidade de prevenir conteúdos perigosos de aparecerem na sua plataforma". "Embora seja tranquilizador ver que as suas regras proíbem conteúdos que 'promovem a violência'" e "incitam ao ódio'", começam por dizer no comunicado que lança a petição. "[As regras] Devem ser respeitadas e postas em prática." 

Esta iniciativa, porém, tinha um alvo bem definido. Na entrevista em que anunciou o lançamento desta petição, o diretor do We Believe in Israel, Luke Akehurst, sabia bem que "dezenas" de "conteúdos problemáticos" queria banir do Spotify: uma música com 11 anos. Mas para Akehurst, um antigo lobista da indústria de armamento, a música Long Live Palestine – Part II (Longa Vida à Palestina – Parte II), do álbum Soundtrack To The Struggle (Banda Sonora para a Luta) é particularmente ofensiva. "Vemos os seus comentários sobre a globalização da Intifada como um incitamento direto à violência contra os judeus e israelitas", disse ao Jewish News, um jornal londrino para a comunidade judaica. 

Uma semana depois, Lowkey, cujo nome é Kareem Dennis, lançou a sua própria petição em forma de carta aberta com o título "Spotify: não cedas à pressão do lóbi de Israel para cancelar Lowkey". "Nós, artistas, músicos e outras figuras públicas e organizações estamos profundamente preocupados com a campanha coordenada contra o rapper e ativista Lowkey", começa a carta que apela à subscrição do abaixo-assinado. 

Como exemplo da "campanha coordenada" para cancelar o artista, os signatários citam o adiamento da palestra que Lowkey iria dar no início de março na Universidade de Cambridge, em Inglaterra, após a pressão de grupos organizados pró-Israel.

"A campanha contra Lowkey está desenhada para silenciar os palestinianos e os seus apoiantes. A censura antipalestiniana está hoje a alastrar-se para a esfera artística. Hoje é o Lowkey: amanhã, quem será?", questionam. 

A música que o We Believe in Israel quer eliminar do Spotify é a segunda de uma banda sonora, lançada em 2011, composta por três partes que denunciam o regime de apartheid em Israel. A música começa por trilhar a diferença entre o judaísmo - a religião - e o sionismo, movimento nacionalista judaico nascido no século XIX que criou o Estado de Israel e que domina a política israelita até aos dias de hoje. Entre críticas à administração de Barack Obama e a denúncia da "limpeza étnica" e a expulsão de palestinianos por parte do regime israelita, Lowkey apela à rebelião e à resistência dos palestinianos - a intifada. 

Mais de uma centena de personalidades e organizações de diferentes sectores, entre as quais jornalistas, académicos, políticos, grupos e organizações não governamentais assinaram a petição a favor do artista e têm-se feito ouvir publicamente. O cantor e músico Roger Waters, a cantora Ana Tijoux, o ator Mark Ruffalo, o académico Noam Chomsky e o realizador Ken Loach são algumas dessas personalidades.

A Long Live Palestine - Part II conta ainda com a participação dos artistas palestinianos DAM, a cantora Shadia Mansour e o rapper iraquiano Narcy. 

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 Mais de uma centena de personalidades e organizações apelam à não censura do artista. | Cartoon de Mint Press News

Lowkey é um músico com vocação para o ativismo, conhecido pelas suas posições políticas à esquerda. Na altura da tragédia de Grenfell, um incêndio no edifício de habitação social que matou 72 pessoas, o artista compôs uma música em tributo às vítimas: Ghosts of Grenfell. 

Em reação a esta tentativa de "cancelamento", o rapper disse em entrevista ao Middle East Eye que o feitiço se tinha virado contra o feiticeiro: "a tentativa de remover a minha música do Spotify por parte de um grupo que nasceu e foi cultivado pelo Britain Israel Communications and Research Centre (BICOM) [centro de investigação britânico que diz querer promover um ambiente mais favorável para o Estado de Israel], trabalhou com a secretaria de Estado de Assuntos Britânicos e identificou-se publicamente como um lóbi israelita, o que acabou por ser um autogolo para o Estado de apartheid"

A organização não-governamental (ONG) Human Rights Watch qualificou Israel como um Estado apartheid, descrevendo o "privilégio metódico" concedido aos judeus-israelitas em contraposição com a discriminação contra os palestinianos nos territórios ocupados. 

Além disso, a Human Rights Watch acusou Israel e as autoridades deste país de terem como objetivo manter o controlo demográfico (para que a população de etnia judaica seja maior do que a palestiniana), o poder político e territorial dos judeus-israelitas. Uma política, diz a organização, que orienta as políticas deste Estado há muito tempo. "Na prossecução deste objetivo, as autoridades expulsaram, confinaram, separaram à força e subjugaram os palestinianos em virtude da sua identidade", lê-se no documento "A Threshold Crossed". "Em certas áreas, como é descrito neste relatório, estas privações são tão severas que equivalem a crimes graves de apartheid e contra a humanidade." 

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