Sócio fundador e director criativo da Solid Dogma. Presidente do Clube Criativos de Portugal de 2013 a 2018 e em 2020. Cronista da revista Marketeer e da revista Gerador.

Ver de verdade: a representação visual da Liberdade

O facto mais fascinante na semiótica da liberdade é entender a relação entre o estado de espírito e o estado de lei que dão origem a uma determinada narrativa. Toda esta avalanche simbólica que nos entra pela vida dentro não é descodificada da mesma maneira por todas as pessoas.

Ensaio
27 Abril 2022

Preferia começar um ensaio sobre liberdade sem falar de uma guerra. Escrevo num momento em que a representação visual da liberdade é feita com armas. A encenação bélica, o deslocar de tropas, de pessoas, de todo esse poder de mórbida sedução, o design de guerra, as armas, os tanques, o ato de as segurar, manobrar, de as apontar a um inimigo e as disparar produzindo um efeito visual. A moda da guerra, o agora famoso verde camuflado integral de Volodymyr Zelensky, presidente da Ucrânia

A captação de imagens, a forma como é feita e editada por cada um dos lados. Toda esta avalanche simbólica que nos entra pela vida dentro não é descodificada da mesma maneira por todas as pessoas. Estas imagens são passíveis de interpretações.

O ponto de vista é geopolítico, social, humano, individual, simbólico. Isto porque da formação e consequente interpretação da simbologia decorre a percepção da nossa condição e lugar no mundo. Todo o sensorial será, em última análise, político. É muito discutível a existência de um sentimento espontâneo, puro, imaculado. A condição em que nos encontramos e o que somos tem uma grande probabilidade de influenciar não só a nossa noção de liberdade, mas também os nossos sentimentos e a forma como interpretamos o que sentimos. 

(Créditos do vídeo: Solid Dogma | Pedro Pires, Diogo Potes, Pedro Sousa, José Pando Lucas e Ana Castanho, Carla Capela e Miguel Guia)

 

Mas nem só de guerra se faz a liberdade. Ou de armas a sua representação. O facto mais fascinante na semiótica da liberdade é entender a relação entre o estado de espírito e o estado de lei que dão origem a uma determinada narrativa. 

Enquanto posição política inevitável, a representação da liberdade é um ato consciente profundamente enraizado na nossa personalidade, é um estado de alma que define a nossa condição legal, e dentro dela o nosso estatuto social e individual.

Parece que chegamos ao aparente paradoxo de um tempo em que a luta pela liberdade se faz com mecanismos intelectuais que nos levam ao fascismo. O exacerbar da importância dada à proteção das liberdades individuais é claramente aproveitada por aqueles que vêem aí uma possibilidade de construção de um mundo de curto prazo e para sempre baralhado.

Para a historiadora política Annelien de Dijn (cujo o livro Freedom: An Unruly History contribui em muito para a minha literacia recente sobre o assunto e para este ensaio), a noção de liberdade associada a esta ideia mais libertária é recente: “Durante grande parte da história humana, as pessoas pensavam na liberdade não como proteção dos direitos individuais, mas como garantia do autogoverno e do tratamento justo de todos”.

A defesa das liberdades individuais, hoje muito associada ao crescimento dos movimentos ultraliberais (e anti-vacinas, por exemplo) que extremam a simbologia da sua proteção, está presente há muito tempo como visão filosófica e política na Europa e nos Estados Unidos. Está-o ao longo da história em justa e equilibrada medida. Claro que à luz da máquina de lavar semiótica em que os tempos se hoje lavam, a atual defesa dessas liberdades individuais toca-se num aparente paradoxo com as ideologias mais fascistas, que pressupõem a sua extinção.

Isto porque as ideologias libertárias de extrema-direita são na sua extrema comicidade uma atividade mais própria de eremitas do que de alguém que tem que viver em sociedade. Rejeitam uma equalização que permita a individualidade em favor de uma libertação que coloca em causa a comunidade. 

Embora a ideia de liberdade individual, de livre arbítrio e próprio o conceito de vontade sejam essenciais para uma análise de uma ideia filosófica de liberdade, não é esse o foco deste ensaio. 

Uma ideia de liberdade

A liberdade não existe no vácuo. Pelo contrário, é um produto civilizacional. Surge com o progresso intelectual e a crescente vontade do homem de expressar a sua individualidade num contexto coletivo, mas também de encontrar estabilidade não arbitrária, um código que regule o  que  somos ou não realmente livres de ser e fazer, ou de não ser e não fazer. 

Existe a construção de uma noção de liberdade física ou intelectual, positiva ou negativa, que é relevante entender para a compreensão das motivações por detrás das representações. A construção intelectual e simbólica da ideia de liberdade, com os seus reflexos políticos e sociais, de representação visual e consequente comunicação, é o último passo no processo de criação de uma ideia. O conceito de liberdade não é independente do poder, da vontade, do direito, da força. 

A primeira utilização da palavra liberdade dá-se como oposição à ideia de escravidão. No seu livro Freedom: An Unruly History, Annelien de Dijn explica que “eleutheros, grego para liberdade, deriva do Indo europeu Leudh, que significa que pertence ao povo”. “O Latim liber tem provavelmente a mesma raíz. Isto indica que a antiga conceção de liberdade, emerge como um antónimo de escravatura, pois era entendido que a maior parte dos escravos eram estrangeiros e logo não pertenciam ao povo”, explica a autora

A representação visual de liberdade

A ideia de liberdade como conceito político surge na Grécia Antiga, embora se possa considerar que no primeiro código escrito de leis, conhecido como código Hammurabi, exista, na definição de regras comuns de convivência social e penalidades, uma aceitação de uma condição de direito.

Nessa perspetiva, pode-se argumentar uma primeira conceção de um código de liberdade, por muito paradoxal que isso pareça. E quer queiramos quer não, da primeira representação visual de uma ideia política de liberdade: a escrita.

É íntima a relação entre representação da liberdade e a ideia de Estado e poder. E também da consequente confrontação entre coletivismo e individualismo, entre propriedade e bem comum, entre a formalização e a não formalização de leis. 

A representação visual e simbólica da liberdade pode ser uma representação de liberdade negativa - livres de - simbologias de libertação, protesto e revolução, ou de liberdade positiva - livres para  - apologias de possibilidade,   

 Na pesquisa dos símbolos de liberdade, há um estímulo intelectual inerente ao ato de olhar para imagens e tentar perceber porque é que elas são como são. Por exemplo, o facto de um conceito tão essencial como sociedade - mas também ao que nos permitirmos ser enquanto indivíduos - produzir sínteses poderosas e nunca inocentes de manifestações de liberdade. É o caso de Marianne a liderar o povo na Revolução Francesa, da Estátua da Liberdade e do Cravo Vermelho. Ou talvez não, no caso da nossa particular simbologia do cravo vermelho, para a qual  não consigo deixar de olhar com encantada benevolência.

 Neste ensaio as imagens estão organizadas por categorias que estabelecem um certo padrão entre a sua ideia e a sua representação, sem estar preso a referências de estilo ou cronológicas. O principal critério de análise é a simbólica, e por isso é muito pessoal, e não o formal, seja histórica ou estética. 

I A liberdade da libertação

Esta é a liberdade física, o primeiro sentido da liberdade. Antes de ser uma construção política ou mesmo intelectual, liberdade significa movimento sem constrangimentos de qualquer ordem física. Não estar agrilhoado, não estar preso, ameaçado e/ ou limitado nas vontades mais básicas. Esta é uma liberdade representada quase sempre com um sentido de emancipação.

O simbolismo da libertação prevê a reabilitação do sujeito que antes não era livre aos olhos da sociedade. Ele fica livre para exercer direitos. A estética da libertação compreende o luto pelos sacrificados em nome da liberdade. Reconhece que embora a vida continue, a memória da dor permanece, e não deixa de se expressar sempre como uma espécie de lamento.

Libertação

Não está aqui em causa um sentido democrático de liberdade, está em causa um sentido moral que precede a natureza formal e política da liberdade como a interpretamos hoje. Embora assentes num sentido primordial de liberdade, a verdade é que as representações visuais de libertação assumem carácter moral e político. 

É uma representação quase sempre dramática, muitas vezes recorrendo a iconografia clássica que se perpetua e que é reintroduzida através dos tempos. Existem também três conceitos essenciais do ponto de vista visual: o simbolismo literal de libertação, o simbolismo associado à emancipação e o simbolismo de celebração. 

O simbolismo mais literal de libertação está associado à presença de correntes e grilhetas, muito visível na representação do abolicionismo e em expressões contra ditatoriais. É o caso, por exemplo, da revolta de escravos na Roma Antiga, destacando-se a liderada por Spartacus. Ou o das revoltas de negros nos navios negreiros que se dirigiam à América Latina para descarregarem a sua carga humana capturada em África. 

Existe um simbolismo associado à emancipação com a reabilitação do sujeito através de objetos e roupas que lhe alteram o estatuto, como é o caso do pileus, o barrete da liberdade, ou as representações de retratos de Ignatius Sancho, o escravo emancipado, abolicionista, escritor e compositor que se tornou num do primeiros empreendedores negros na história ao ser dono de uma loja em Westminster. Também Frederick Douglas, um dos primeiros políticos afro-americanos, faz parte desta representação. Quase um século depois teve um papel semelhante, no processo de emancipação nos Estados Unidos. 

Hoje esta ideia de emancipação por exibição de um estatuto de riqueza, conhecimento e celebridade existe e é a base de muita da representação visual na cultura pop. Nestes movimentos de emancipação podemos enquadrar também a ideia de emancipação feminina. No movimento das sufragettes pelo direito ao voto, na interpretação do papel da mulher e da sua representação nos regimes comunistas, na estética de guerra, onde o simbolismo da mulher trabalhadora acelera definitivamente os ideais de igualdade.

Existe uma terceira ideia de libertação, associada a um simbolismo de celebração, que implica a criação de simbologias formais de ordem, mas também de expressividade dramática.

Barrete da Liberdade e Pólo da liberdade

O barrete vermelho foi popularizado na simbologia da Revolução Francesa, na cabeça de Marianne, e na representação dos sans-cullotes, a classe trabalhadora de Paris, mas a sua história tem mais uns milénios. Enquanto símbolo de liberdade, começa na Roma Antiga. Quando libertados, aos escravos era-lhes alegadamente rapado o cabelo e na cabeça colocado um barrete cônico. Com o tempo esse ato começou a simbolizar liberdade e o barrete, presente também nas representações da deusa romana Libertas, começou a ser utilizado na cunhagem de moeda enquanto símbolo de liberdade democrática. 

Em moedas do tempo de Cassius podemos ver a deusa Libertas a conduzir uma carruagem e uma imagem de Roma junto a uma urna de voto. Numa moeda do tempo de Marcus Brutus, que celebra o assassinato de Julius César, o barrete aparece no meio de dois punhais, simbolizando o fim da tirania de César. O polo da liberdade é usado em inúmeras representações visuais, com particular foco nas revoluções francesa e norte-americana. 

Parece que depois de assassinar César, Brutus e os seus parceiros marcharam manchados de sangue para o capitólio, carregando um barrete vermelho numa lança como símbolo da liberdade que tinham conquistado para Roma. Esse era um gesto de vitória em campo de batalha. O general conquistador levantaria um boné numa lança e perguntava aos escravos se se juntavam a ele. Se o fizessem, receberiam a liberdade. 

Grilhetas quebradas

A corrente partida rompe com um simbolismo desde sempre ligado à escravidão e à criminalidade. A sua representação na cultura anglo saxónica é associada ao abolicionismo e à escravidão perpetrada sobre afro-descendentes e os índios americanos. Tornou-se um símbolo de revolta na maioria das suas representações. No entanto, as correntes partidas aparecem desde sempre na história enquanto símbolo de libertação física, mas também política e intelectual. São representadas em todos os contextos, da França à Rússia, do Mississipi ao Soweto.

Retrato

O poder de um retrato perpetua-se quase imóvel ao longo de mais de 5000 anos. A intenção que lhe dá origem e a sua consequência permanecem também praticamente inalteradas. Na sua intenção original, o retrato simboliza poder.

Simboliza a necessidade de um registo de memória para lá da presença física ou memória da pessoa em causa. Significa que essa memória é relevante para a vida de outros. E se não é, deveria ser. Simboliza estatuto. Na sua relação com ideia de liberdade, para lá de símbolo de poder, (ou de luto e criação) o retrato é utilizado enquanto símbolo de emancipação e formalização de um poder recentemente adquirido e que precisa de ser notado, e sobretudo registado. 

Para lá dos já mencionados casos de Ignatius Sancho e Frederick Douglas, o caso dos índios americanos, do papel da mulher e do retrato do feminino em tempo de guerra são tentativas de criar imagens icónicas, exemplares. Esta é a base de toda a cultura pop. A afirmação e glorificação (e posterior normalização através do retrato) é usado por todos os movimentos de emancipação – artístico, orientação, étnico, género. 

II A Liberdade da lei 

Esta é a liberdade da ordem. A liberdade formal surge da ideia que só a materialização (e a estabilização) de um conjunto de princípios comuns a um determinado ecossistema social permite a sua sobrevivência. 

A sua representação é quase sempre cerimonial, quase religiosa, como o é, na verdade, o ato encenado e processual da justiça. O protocolo social entre humanos é visto como a forma mais eficaz de evitar a instabilidade, a insegurança, o desamparo perante não só outros, mas também perante os animais, os elementos, o ambiente e a terra. 

Ordem

E daí a sua representação visual exigir encenação cuidada, uma simbologia destinada a ter um efeito normativo, uma narrativa estável e também um efeito transcendental, maior que a vida. Uma ideia de absoluto acima do humano, portanto, mais do que provavelmente uma ideia de acordo humano para o bem comum. 

A ideia de ordem como necessária à liberdade é obviamente muito mais complexa que os artefactos visuais das suas representações. É uma ideia que também procura autoridade do reino do divino e é, além disso, uma liberdade simétrica, classicista, faustosa, iluminada, simbólica, com a representação de figuras em contrapicado, agigantadas face aos humanos. Usa perucas, anjos, heráldica, maçonaria, simbologias da providência, assume tiques barrocos, espadas, balanças. 

Design enquanto símbolo e força própria

Mais recentemente, impôs-se o design nesta representação de ordem. A partir do início da indústria gráfica, o poder usa o design com rigor normativo, impositivo, definidor de comportamentos. A sofisticação visual, a grelha gráfica, substitui a sumptuosidade enquanto ferramenta de constrangimento, mas mantém a ideia de simetria enquanto força motora da ideia de ordem e lei. Em diferentes dimensões, o construtivismo, o futurismo e os modernismos influenciam até aos dias de hoje esta narrativa visual.

O poder político aproveitou-a. Vemos isso na revolução russa de 1917, no new deal norte-americano, em todo o universo visual nazi, no Z dos tanques russos. A sinalética urbana, e os sistemas de sinalética em geral, respiram também destes princípios.

Em cada contexto, a ideia de lei e ordem é usada como um símbolo de liberdade que resulta da nossa necessidade de segurança. 

As mulheres da ordem da Liberdade

Eleutéria, Libertas, Marianne, Lady Liberty. São vários os nomes da liberdade como mulher. Mas a sua simbologia enquanto elemento primordial na ordem das coisas é sempre a mesma ao longo dos tempos. Associada desde cedo ao ato de libertação de escravos, esta imagem é precedida de uma simbologia de poder, de ordem que permite a libertação. E ela é feita de forma cerimonial, ritual. 

Na Roma Antiga, aquando da sua libertação, o escravo seria vestido com um pano branco, o seu cabelo rapado e na sua cabeça posta num pileus (um chapéu cónico), e seria tocado com a vara vindicta, ganhando assim a liberdade pela vara. 

É ainda representada em moedas, na Grécia, e desde aí um pouco por toda a parte, a partir da última parte da república romana, com o nome de Libertas. Segurando a vara e o pileus, erguendo a bandeira ou a tocha que ilumina o mundo, quebrando grilhetas, ou segurando as tábuas das leis, a mulher liberdade é acima de tudo uma mulher ordenadora, sábia, sensata, convicta. É também líder e uma mulher revolução, especialmente na representação de Marianne de Delacroix, mas poderíamos dizer que ela caminha em direção à ordem, indicando o caminho para terminar com o caos que já aconteceu a seus pés. 

É a mulher da república, ligada a um sentido de justiça. Há uma ideia de mulher imaculada na representação, normalmente relacionada com uma macro ideia de pureza, de virgindade moral. As primeiras representações da justiça na mitologia grega e romana (e algumas outras representações de Liberdade) confirmam esta relação. É o caso de Dike, a deusa grega da justiça, associada a Astraea, deusa da inocência e da pureza, com quem partilha elementos iconográficos como a libra e, em certos contextos, a espada.

Cartas e Constituições

Aqui é o poder da palavra escrita e da assinatura que conta. A visibilidade desse ato, tradicionalmente manuscrito, identitário, inviolável, é essencial para a sua efetividade. O ato de gravação, as ideias de perenidade, de certificação de origem são essenciais. As primeiras representações escritas de leis são sumptuosas, são cerimoniais, carregam o selo da decisão do homem, muitas vezes implícita ou explicitamente assistido por Deus.

Do Código Hammurabi à lei das doze tábuas, da Bíblia à Magna Carta, da Declaração de Independência dos Estados Unidos à Declaração dos Direitos do Homem, das cartas de alforria aos direitos gay, da Bill of Rights, à Declaração de Independência do Brasil, da revisão do código civil e dos direitos das mulheres à Convenção dos Direitos das Crianças. 

A ideia da escrita, do poder da palavra enquanto de garantia de liberdade, perpetua-se como simbolismo através dos tempos. Enquanto lei não escrita, a família, os corpos sociais e, em certos contextos, a divindade, são códigos correntes e indispensáveis ao simbolismo desta ideia de liberdade.

Coroa de Louros

Desde a antiga Grécia que a coroa de louros se associa a uma ideia de génio, de iluminação, de vitória atlética. O povo, o Demos, a ser coroado por Demokratia é uma das suas primeiras associações à ideia de liberdade e democracia.

Na antiga Roma, usada como honra para distinguir cidadãos que se destacavam e por salvarem os seus concidadãos, usada em festas alegadamente para prevenir a embriaguez, a sua história e simbolismo enquanto símbolo de liberdade do saber e da ordem perpetuam-se até hoje. Atualmente, a sua utilização em festivais pode ser associada a uma espécie de ideia de debutante, de liberdade iniciática, representativa por exemplo dos rituais de casamento, mas também ligada a uma ideia de proteção e identificação tribal. 

Luz do esclarecimento

Esta é uma simbologia muito frequentemente ligada à ideia de liberdade ordem. Originária das primeiras associações de luz à ideia de vida, e de ordem natural, a luz tem vindo a ganhar diferentes tonalidades ao longo das épocas.

Surge sempre associada a esta ideia de esclarecimento que resulta de uma ordem intelectual - natural ou divina -, de educação, visão proporcionada pelo estudo e pela sabedoria. Transporta também sempre uma ideia de futuro. 

III A liberdade natural

Esta é a liberdade não corrompida. A ideia de liberdade espontânea, pueril, desprovida de sentido moral, pois precede o conceito de lei para lá daquele que seja a sua ordem natural, da qual não se garante que exista consciência.

A liberdade do filósofo francês Jean-Jacques Rousseau situa-se num lugar hipotético, pré-histórico, onde temos apenas constrangimentos biológicos, inerentes ao animal que somos. Esta é uma estética atravessada por traços de ingenuidade. É claramente uma expressão de liberdade positiva – a pomba pode voar, todos podemos andar nus, a relação com a natureza e o espaço é harmoniosa, a expressividade surge naturalmente enquanto uma expressão de bondade. Há uma ideia de felicidade primordial relacionada com esta ideia de liberdade. Felicidade de estar vivo, de poder procriar, de poder rir, chorar.

Naturista

Há um romantismo quase apolítico nesta representação, uma tentativa de anulação do mal como se ele não existisse e não fosse ele próprio produto da humanidade. Há uma natureza literal, representada não como um ornamento, mas como uma mensagem implícita de dependência simbiótica, harmoniosa. Esta é uma estética fluída, doce e orgânica, não geométrica.

Na sua própria representação reconhece a contradição do princípio a que se propõe, pois é sempre uma visão humana sobre uma pretensa natureza, e não haverá humanidade sem história. Uma estética que vai do simbolismo ao pós-impressionismo e ao modernismo do ul da Europa, e que depois contagia toda a ideologia visual do flower power e de alguns designers como Milton Glaser. Hoje caracteriza-se por uma estética mais naïf presente por exemplo em algumas das representações visuais do 25 de Abril, ou em determinadas manifestações new age.

Nudez

Desde dos atléticos corpos gregos e das voluptuosas deusas da fertilidade que a nudez é de algum modo símbolo de liberdade. Ou da verdade, se quisermos. Biológica, humana, estética. A ideia de pureza associada ao corpo nú é tão antiga como a de desejo, mas a sua relação com a ideia primordial de liberdade natural, animal, bíblica ou idealizada existe em ambos os conceitos.

Natureza, animais, flores

São os elementos mais comuns numa glorificação visual da mãe terra e do que nos liga a ela. Mais uma vez, falamos de um sentimento de liberdade desprovido de perspetiva política, como se existíssemos numa ideia sem lei.

Fluidez

Existe uma característica quase universal na representação deste tipo de liberdade. Ela é orgânica, fluída, fantasista. É totalmente dirigida ao nosso lado mais emocional, usa a cor como isco e a curva como estória.

IV A Liberdade do Protesto

Esta é a liberdade da luta. Difere de uma estética de revolução na perspetiva que não é apocalíptica. Ela pressupõe a existência de um espaço para o protesto, para o reconhecimento de um Estado onde é permitido declarar que se discorda, ou de um momento onde é válida essa discordância pacífica através de atos simbólicos e de mensagens, ainda que possa ser perigosa.

Esta é uma liberdade em vias de ser conquistada. Não é revolucionária na perspetiva em que as simbologias não implicam a ideia de destruição. Pelo contrário, têm uma perspetiva pedagógica e até pacifista do sentido da luta. São reflexos de uma perspetiva de liberdade negativa – em que o sentido de libertação existe – mas numa lógica final de liberdade positiva – quero ser livre, para ser livre.

Protesto

No entanto, não sendo revolucionária, não deixa de ser visualmente agressiva, impositiva, propositadamente suja e não ordenada. Procura-se explicitar o sentimento de revolta, e apelar a sentimentos de força, resistência e união.

Conjura o dadaísmo, a cultura DIY, rouba alguns elementos gráficos futuristas como o stencil e algumas abordagens de diagramação, embora explore com mais frequência a tipografia manuscrita. Faz isto como forma de revelar o seu ímpeto, o ato físico da escrita num suporte de protesto, a intensidade de pegar num objeto e cristalizar uma ideia através de uma expressão escrita que é sentimental, extremamente emocional, quase espontânea em que o erro e a imperfeição são sinais de verdade e humanismo. O ato de ir protestar, de estar na rua, é sempre implícito na representação visual desta liberdade.

Neste domínio, vemos a exploração de simbologias como o punho ou o cartaz erguido, a tipografia manuscrita, liberta de mecanismos industriais, a multidão humana, e mais recentemente o joelho.

Punho

O punho é um dos mais antigos símbolos de protesto associados a uma ideia de liberdade. A mão humana cerrada, apresentada de forma erguida, quase sempre de forma frontal, simboliza uma ideia de determinação e força. A mão é um símbolo de trabalho, de humanidade, de capacidade de concretização. Desde o século XIX que existem registos da sua utilização na obra do pintor francês Honoré Daumier, num quadro que simboliza os protestos anti realeza de 1848.

Mais tarde foram incorporados no imaginário visual socialista e republicano. Só começaram a ter a sua associação mais visível nos movimentos de libertação afro-americanos nos anos 1960. E depois a mão reproduzida enquanto ícone gráfico começa a ser usada nas décadas de 1930/40. Há registos do seu uso em posters de uma empresa gráfica mexicana em 1948 e depois populariza-se a partir do desenho de 1965 de Frank Ciercioka e da escultura de Elizabeth Catlett de 1968.

Tipografia manuscrita ou stencil

Segundo Plutarco, Brutus, na sua luta para libertar Roma do poder absoluto, foi estimulado para o assassinato de César por grafiti escrito nas paredes de Roma que lhe perguntavam: “Brutus, estás a dormir?”, entre outras provocações destinadas a acordar nele o espírito dos seus eméritos antepassados. A escrita manual tem o poder de invectivar, de mostrar a emoção por detrás das palavras que sabemos como descodificar com o espírito.

Cartaz de protesto

A ideia de um cartaz de protesto recua até ao século XVI, quando Martin Luther pegou nas suas 95 teses e as afixou nas portas da igreja. Desde aí que de uma forma ou de outra este tem sido um símbolo de protesto. Nas manifestações de emancipação feminina e pelo direito ao voto no início do século XX, nas manifestações pela paz ou do Black Power nos anos 1960 ao recente episódio do cartaz de protesto da jornalista russa Marina Ovsyannikova.

A ideia de um cartaz de protesto é poderosa pela sua fragilidade. Feito normalmente à mão, ele representa a capacidade de um indivíduo em se afirmar com as suas próprias palavras numa narrativa normalmente maior. É poderoso porque não requer meios, está ao alcance de cada um e ao ser feito torna real o seu conteúdo, obriga a que os outros o conheçam, não pode ser ignorado. É um símbolo de liberdade de expressão no contexto de protesto. É também um símbolo de criatividade espontânea e força anímica.

Multidão - União

A ideia de protesto pacífico e organizado, e de massa humana representada visualmente enquanto símbolo de resistência, é mais recente e começou provavelmente com as sufraggettes, em 1903, e com a luta das trabalhadoras da Shirtwaist Strike, em 1909, em Nova Iorque, nos Estados Unidos. É depois incorporada na estética coletivista, mas mais como representação de movimento revolucionário e depois como força organizada de trabalho. 

A grande marcha de Mahatma Gandhi precede as grandes manifestações pela paz e dos movimentos cívicos dos anos 1960, entre as quais a marcha de Selma e a Million Man March, de Martin Luther King, bem como as consequentes representações visuais de multidões enquanto símbolo de liberdade. São os casos do 25 de Abril, da queda do Muro de Berlim, da Primavera Árabe ou dos coletes amarelos.

O valor simbólico mantém-se inalterado e vemos até emergir novas multidões que em si são representativas de uma outra ideia de liberdade hedonista: as dos festivais, do futebol e das maratonas. Pense-se na antítese a isto e temos o período pandémico. A inexistência de multidões é a imagem mais relevante enquanto metáfora de perda de liberdade.

Joelho

Ajoelhar significa respeito e está presente na história enquanto símbolo de submissão religiosa, política ou social. O antigo jogador de futebol norte-americano Colin Kapaernick transformou-o num sinal de protesto, embora reverente, segundo o próprio. Reconhece os compatriotas mortos, mas como símbolo de respeito enlutado não só por aqueles que supostamente o hino norte-americano homenageia, mas acima de tudo pelos norte-americanos caídos nas mãos de um sistema racista. No entanto, já no século XVIII, o ajoelhar enquanto sinal de protesto, embora também ele reverente, é utilizado no símbolo/marca do Movimento Abolicionista inglês. 

Mais recentemente, a história encarregou-se de forma trágica a reforçar o simbolismo deste gesto quando, em 2020, George Floyd foi assassinado por um polícia. Foi asfixiado com um joelho. 

V A liberdade da revolução e libertária

Esta é a liberdade irreversível. Reflexo de uma condição insuportável só passível de ser terminada por uma reação violenta. Uma liberdade sanguinária, com armas nas mãos, por vezes de sentido anárquico, outras claramente de glorificação de um novo poder. E de sedução. A mórbida sedução da conquista misturada com a sempre discutível honra de um ideal, quando alcançado através da morte. Uma liberdade que exige uma entrega absoluta, maniqueísta, que produz o seu contrário para ser alcançada.

Nesta liberdade emergem os libertadores de Atenas, os tiranicidas, Harmodius e Aristogeiton, aparentemente envolvidos num episódio homoerótico de ciúmes com Hipparchus, o filho de Peisistratus, o tirano rei absoluto de Atenas, que resultou no assassinato do primeiro. Isto deu origem a um culto de imagem com a criação de estátuas em que são retratados gregos perfeitos em ato de violência com as espadas na mão.

Revolução

Emerge também Marianne de barrete frígio na cabeça, o peito descoberto para que não nos esqueçamos que é mulher e que nada nasce de novo sem ela, baioneta na mão, unindo toda a sociedade francesa que caminha sobre os corpos dos que morreram derrotados, mas também martirizados.

Há igualmente a ideia de sedução do sonho. A figura romântica de um Salgueiro Maia, um revolucionário plácido, e de Che Guevara, guerrilheiro sem sangue, ou uma imagem racional e reta mas ainda assim algo doce e quase infantilizado do coletivismo soviético e maoista. Emerge a estética funky dos anos 70 dos black panthers.

Emergem linguagens mais apocalípticas associadas a uma ideologia libertária violenta que ganha poder icónico na revolução francesa de 1720. Mais tarde é prolongada numa ideologia futurista que origina uma estética de revolução pela destruição, adotada em parte pelos anarquistas e que nos anos 1970 é revisitada pela extrema- esquerda. 

E, hoje,é revisitada pela extrema-direita. O QAnon, a apropriação do sapo Pepe, das iconografias nórdicas e da cruz das cruzadas, de símbolos maçónicos. A anarquia semiótica como meio para atingir a solução final da ignorância universal fulminante. É a narrativa de libertação que Putin verte no Z e que os russos pintaram nos seus tanques.

Emerge também agora uma cultura pop mais radical, da estética gore do death metal, ao gangsta west coast ou do ainda mais radical drill, da performance com ação direta das Pussy Riot, à sofisticação propagandística do protesto ambiental do Extinction Rebellion, ou da ameaça visual de terror underground do Black Bloc. 

Esta é uma liberdade que nos baralha, nos motiva, nos repulsa, nos atrai. Fala de morte para nos mostrar a vida.

As armas e o design de guerra

O fascínio continua e perpetua-se. Existe um design de guerra desde que há dois milhões de anos desenvolvemos polegares oponentes. E desde aí que vivemos fascinados por esse universo que compreende na sua execução as mais desenvolvidas das artes. Desde que se fazem armas que a sua criação é artística, para lá de funcional. 

São objetos de desejo que nos fascinam pela sua complexidade, pela sua precisão formal, pela sua imaginação e pelo que podem fazer. A sua exibição fala de uma liberdade que tem de ser conquistada através de uma luta que está iminente. Na propaganda pós-revolucionária, as armas são complementadas por instrumentos e uniformes de trabalho.

São sempre símbolos de poder e status.

Bandeiras e braços em ação

A perspetiva é quase sempre em contrapicado nesta liberdade, elevando o sujeito. Somos abalroados pelo acontecimento, a ideia de movimento e de ação em curso é essencial, estamos perante história a desenrolar-se.

Estrelas

As estrelas, símbolos talvez da visão ideológica, são os símbolos mais presentes. A ideia de iluminação associada ao ato da guerra ou da revolução é uma constante. É uma atenuante ao horror, um consolo para os sobreviventes, um sinal para os inimigos.

VI A liberdade da celebração e do orgulho

Esta é a liberdade sem medo porque tem consciência da sua razão de ser. É uma liberdade espalhafatosa, exuberante, festiva, que se faz desde os mais antigos rituais humanos.

Uma liberdade desenhada numa perspetiva positivista da liberdade, e que depois assume os códigos visuais e sensoriais desse valor. Incorpora diferentes estéticas artísticas, mas possui uma clara relação com a cultura popular e mesmo com o folclore. É fetichista nessa natureza, usa símbolos, ícones e objetos. É uma liberdade hedonista, despreocupada. Uma liberdade cultural, que se vive ao ar livre e se partilha. Para mim, é a liberdade do 25 de Abril.

Celebrações

Não consigo pensar no 25 de Abril se não em celebração. Essa é a minha visão particular da revolução, e daí eu a colocar nesta categoria. O 25 de Abril é a fotografia do Sérgio Guimarães em que uma criança coloca um cravo na ponta de uma espingarda G3. “Esquece a guerra, vamos ao futuro”, parece dizer. O 25 de Abril foi uma revolução-celebração.

Visualmente foi uma explosão de criatividade popular e espontânea, em que um sentido natural de liberdade emerge e se traduz em cor, gestualidade, alegorias naturais, etc.

Também a bandeira LGBT+ é uma feliz e graficamente irrepreensível celebração desta liberdade. A sua simplicidade é ao mesmo tempo complexa. Uma bandeira LGBT transporta um conjunto muito diferente de significados. A diversidade cromática é uma afirmação de inclusão mas acima de tudo de coragem, de perda do medo de ser colorido e mais do que isso de o afirmar. 

É também uma afirmação teatral e define a temperatura da alma do movimento. É uma homenagem à luz, a luminosidade que provém da combinação de cor agrega todos os outros sentidos, enquanto luz/conhecimento. 

Folclore e pop

Esta é uma liberdade popular, um vampiro etnológico, e incorpora as simbologias das culturas sem critério cronológico, mas com um forte sentido de alinhamento com a história informal do mundo. Bebe de todas as iconografias, incorpora-as, glorifica-as, mas acima de tudo mistura-as como se elas sempre tivessem vivido juntas.

Cor

A temperatura desta liberdade é alta e os seus modos pacíficos, bailados, florais. Esta é uma liberdade da experiência da alegria.

Positivismo e gestualismo

É orgânica, exagerada, às vezes até algo fantasista, embora simples pouco conceptualizada. É sorridente, esperançosa, tendencialmente coletivista, partilhada. Assume o gesto manual, a presença humana, mas sem displicências, muitas vezes elaborada, cuidada, produzida.

VI A liberdade de criação e da expressão

Esta é a liberdade provocatória. A que se afirma para lembrar que é importante não esquecer que liberdade significa poder expressar uma opinião. Embora limitado pela sua visão divina do belo, o filósofo alemão Friedrich Hegel diz que a criação é a verdadeira liberdade - a de espírito, convenhamos. Dizia também que a arte estaria já morta, o que nunca foi muito animador.

Quando a artista norte-americana Jenny Holzer afirma “Protect me from what i want”, ela faz uma provocação determinista, um apelo estoico, ou está apenas a rir-se da nossa frágil condição intelectual? Esta é a liberdade de um Oscar Wilde, de Marcel Duchamp, de Andy Warhol, e de todos aqueles que decidiram que existe o aleatório numa filosofia da vontade. Aparente ou nem por isso.

Criações

A liberdade visionária de Frida Kahlo, Georgia O´Keefe e Faith Ringold, na antecipação dos temas que iriam dominar a sociedade hoje. De um Miles Davis na sua viagem até ao belo. A liberdade total de uma Patti Smith and Robert Mapplethorpe. De quando os 2livecrew obrigaram Tipper Gore a sugerir o emblema de censura mais desejado no mundo ou quando os NWA cantaram o Fuck the Police e “foram presos”.

De quando Jeff Koons e Cicciolina fizeram o Made in Heaven. De quando Cardi B e Megan the stallion cantam o Wap, da irónica banana de Cattelan, da insistência ativista de Ai Wei Wei.

Esta é uma liberdade íntima, implícita ao ato de criação. A mais artística das liberdades. A da exposição pessoal perante o mundo. Uma liberdade esquiva do ponto de vista simbólico que não se encurrala em códigos padrão, que faz do seu princípio a subversão dos outros códigos.

Não existe uma simbologia, existe uma cosmogonia estética, conceptual, meta ideias de existência, formas de pensar, um universo de imensa diversidade e provocação intelectual. Diz o dramaturgo alemão Friedrich Schiller que beleza é “liberdade na aparência, autonomia na aparência”. Tudo o que parece livre, pode se calhar mesmo sê-lo, nomeadamente o pensamento.