Investigadora de Pós-Doutoramento no Mercator Forum for Migration and Democracy (MIDEM) na Universidade Técnica de Dresden. Doutorada em Ciências Sociais e Políticas pelo Instituto Universitário Europeu.

Uma internacional de ultradireita ibero-americana?

O Vox, de Santiago Abascal, quer apostar numa relação privilegiada com o espaço ibero-americano usando as bandeiras da "hispanidad" e do anti-comunismo. Deseja ganhar notoriedade internacional. André Ventura tenta ir à boleia deste "projeto civilizacional".

Ensaio
17 Dezembro 2021

Como em quase tudo o que rodeia André Ventura e o seu partido, a ida do líder do Chega a um encontro do Vox em outubro não passou despercebida nas redes sociais. O que também acontece não raras vezes é ver os seus críticos habituais debruçar-se mais sobre o acessório do que sobre o essencial. No caso em questão, Ventura é acusado de afinal não ser tão nacionalista quanto se (auto)proclama – os gritos de “Viva España” e o discurso que proferiu em castelhano assim o provariam. 

Isto aconteceu num encontro promovido por um partido que foi notícia em Portugal quando publicitou um mapa da Península Ibérica com Portugal como parte de Espanha. O mapa, naturalmente, não caiu bem nem ao Chega nem ao seu público-alvo, e o partido viu-se obrigado a pedir esclarecimentos ao Vox.

Pouco se fala, no entanto, das tentativas de aproximação entre os dois partidos, do que essa aliança significa para as respetivas forças, e dos esforços do Vox para construir uma espécie de ‘internacional de ultradireita’. Para os mais alarmistas, começa-se por dizer que nem o Vox sonha com a anexação de Portugal, nem Ventura está disposto a vender-se aos espanhóis por tuta e meia. 

A aproximação dos dois partidos não é mais do que um entre muitos outros exemplos da tentativa de criar pontes entre forças políticas com afinidades ideológicas claras, parte daquilo que poderia vir a ser uma ‘internacional de ultradireita’. Que fique claro: as tentativas de criar uma rede transnacional deste género não são de hoje e não se pautam pelo sucesso (como argumenta Cas Mudde). Prova disso é o facto de as forças de direita radical continuarem divididas em dois grupos políticos no Parlamento Europeu. Contudo, o facto de o Chega e o Vox pertencerem a dois grupos distintos - Identidade e Democracia (ID) e Reofrmistas e Conservadores Europeus (ECR), respectivamente - não parece um impedimento às boas relações entre os dois partidos.

Não é de hoje que Ventura professa o desejo de se aproximar do Vox, liderado por Santiago Abascal. Encontros que nunca se materializaram já tinham sido anunciados anteriormente por Ventura. Foi só ao fim de uma série de tentativas que os dois líderes se reuniram pela primeira vez em Lisboa no final de setembro de 2021, quando Abascal esteve no encerramento da campanha autárquica do Chega. 

A presença de Abascal no encerramento da campanha autárquica do Chega e a subscrição da Ventura à Carta de Madrid, consolidam a presença da extrema-direita portuguesa no projeto de internacionalização do Vox.

É possível que, anteriormente a esse encontro, o Vox não tenha visto no Chega um parceiro de relevância  - dada a ainda pouca expressão eleitoral do partido de Ventura, que contrasta com os 15% de votos do Vox nas últimas legislativas espanholas. Esta visita é, no entanto, importante porque insere o Chega na rede de contactos transnacionais que o Vox se tem empenhado em construir. Prova disso é o facto de este encontro ter servido para André Ventura subscrever a chamada Carta de Madrid, promovida pela Fundación Disenso, o think-tank do Vox.

Este documento não é mais do que um espécie de manifesto anticomunista ao dizer defender ‘a liberdade e a democracia’ no espaço Ibero-Americano e querer travar o avanço do comunismo numa região já vista como ‘sequestrada por regimes totalitários de inspiração comunista’. Apesar de largamente simbólica, a Carta de Madrid tem sido instrumental para o Vox criar alianças num espaço que o partido designa como “Iberoesfera”. 

Representantes do Vox têm viajado por vários países no continente americano promovendo o dito documento junto de políticos e figuras conservadoras influentes. Entre os assinantes estão nomes bem conhecidos, como Eduardo Bolsonaro no Brasil ou José António Kast no Chile (que lidera a atual corrida presidencial no país). Este é o primeiro passo na criação de uma estrutura que o Vox diz querer que seja permanente – o Foro de Madrid – e que se assuma em oposição ao Foro de São Paulo e ao Grupo de Puebla, duas plataformas que congregam diversas forças e representantes da esquerda latino-americana. 

Até aqui nada de particularmente estranho; afinal, este tipo de alianças é habitual (mesmo que vistas como pouco importantes) e o anticomunismo – no continente americano facilmente confundido com oposição à totalidade da esquerda – o mais unificador dos inimigos comuns.

O que é realmente bizarro, na verdade, são as teorias da conspiração em torno de grupos como o Foro de São Paulo, teorias estas que o Vox e vários porta-vozes da direita latino-americana não se têm cansado de propagar. Mais do que um fórum de diálogo entre as esquerdas, a referida organização é vista como uma máfia superpoderosa, financiada por negócios obscuros (narcotráfico, corrupção, etc.) e capaz de usar a sua influência para desestabilizar regimes, incitar à violência, infiltrar-se em centros de poder e impor a sua agenda marxista. O objetivo final, dizem, é a difusão de regimes autoritários de natureza comunista, ao estilo venezuelano, por todo o espaço ibero-americano. 

O Vox e outros porta-vozes da direita latino-americana associam este grupo a agentes como o partido Podemos em Espanha, que dizem ser financiado ou mesmo “criado artificialmente” por este grupo para desestabilizar Espanha. Além disso, é também frequente associar este grupo à imposição de uma agenda cultural – o chamado ‘marxismo cultural’ –, visto como meio através do qual a esquerda procura conquistar mentalidades e assim manter-se no poder - as universidades e os estudos pós-coloniais e de género são um dos principais alvos desta narrativa.

Esta "internacional nacionalista", com o Vox à cabeça, coloca-se como a principal antagonista às supostas agendas globalistas de organizações como o Foro de São Paulo, que designam como máfias marxistas financiadas por narcotráfico e corrupção que querem acabar com a "civilização ocidental".

O significado destas teorias conspirativas ficou bem patente quando o think-tank do Vox dedicou o seu primeiro documentário ao tema, intitulado ‘Desmascarando o Foro de São Paulo’. A Fundación Disenso foi criada há pouco mais de um ano com o objetivo de ser um laboratório de ideias que, como o próprio nome indica, diverge da opinião dominante e do ‘politicamente correto’. Foi também com esta intenção que a Fundação lançou o seu próprio meio de comunicação online – La Gaceta de la Iberoesfera –, que se assume explicitamente como parte da batalha cultural contra a agenda ideológica da esquerda e que ambiciona tornar-se um meio de referência na chamada ‘Iberoesfera’. 

No habitual tom de crise e colapso iminente, tão típico da ultradireita, o La Gaceta de la Iberoesfera apresenta-se como um instrumento para “mudar o rumo que está a levar a civilização ocidental à sua dissolução”, dissolução essa causada pela propagação dos valores de esquerda e pelo suposto ataque que estes representam à nação, tradições, religião, ou família. 

Tudo isto, juntamente com outras iniciativas – como, por exemplo, o apoio à criação de uma universidade destinada a formar uma elite nacionalista (projeto impulsionado por Marion Maréchal-Le Pen) –, é revelador da intenção do Vox de expandir e consolidar o seu projeto ideológico e de lhe dar um maior respaldo intelectual. Ao estilo de Donald Trump e outros, o Vox olha para os media e universidades como instituições capturadas pela agenda progressista da esquerda – também chamada de “agenda globalista” –, pelo que estes projetos se inserem na “batalha de ideias” que quer travar. 

Engane-se quem pensa que o tom belicista é benigno, afinal do outro lado da batalha está uma esquerda permanentemente descrita como totalitária, enquanto que o Vox mais não é, dizem, que um defensor da liberdade, da verdade e da democracia.

Mas porquê travar esta batalha no espaço ibero-americano? Não é, afinal, um oxímoro falar de uma “internacional nacionalista”? Na verdade, há pouco de contraditório neste esforço. O nacionalismo e a construção de Estados-nação é um dos mais bem-sucedidos projetos políticos a nível global e a sua dimensão transnacional é essencial ao seu sucesso, pois uma nação precisa do reconhecimento de outras para ser considerada como tal.

O discurso de exaltação da história imperial espanhola, tomado pelo Vox como "missão civilizadora", pode parecer paradoxal dentro dum projeto internacionalista virado para a América Latina, mas tão difusas são as suas ideias como claros são os inimigos em comum: o socialismo, a diversidade étnica, o marxismo cultural.

Considerações históricas à parte, a mesma lógica pode aplicar-se hoje – o seu projeto será tão mais bem sucedido quanto mais difusas forem as suas ideias. Além disso, quem pensa que a ultradireita se opõe à globalização ou à cooperação internacional tout court está enganado. Numa lógica semelhante à que conduziu ao Brexit, reclamam por mais soberania em questões consideradas essenciais – o controlo de fronteiras e a entrada de imigrantes –, ao mesmo tempo que desejam preservar os benefícios económicos da integração internacional.

A oposição à globalização é acima de tudo de natureza cultural, uma vez que, no imaginário da ultradireita, a chamada ‘agenda globalista’ deseja diluir as diferenças culturais entre nações - que é o mesmo que dizer que estas forças não se sentem confortáveis com a diversidade étnica. A verdadeira contradição reside no facto de o Vox adotar este discurso ao mesmo tempo que se opõe a nacionalismos regionais e professa o seu orgulho no período de expansão espanhola nas Américas. Na prática, é fácil de concluir que não é a diluição de diferenças culturais per se que preocupa o Vox, mas sim a preservação da sua própria conceção da nação espanhola.

Em relação à escolha do espaço ibero-americano como a almejada esfera de influência do Vox, esta obedece tanto a razões práticas como ideológicas. Por um lado, a construção de um espaço ibero-americano está longe de ser uma invenção do Vox. Na realidade, a relação ‘especial’ com a América Latina sempre foi uma prioridade da política externa espanhola e é facilitada pelos laços culturais existentes. A diferença óbvia reside na interpretação que o Vox faz da história que deu origem a esses laços e na forma como a vangloria abertamente. Diga-se, aliás, que a emergência do Vox e o escalar do choque com o independentismo catalão coincidem, não acidentalmente, com um recrudescer do nacionalismo espanhol no espaço público. 

Ao contrário do que era habitual na política espanhola até então, o discurso deste partido está repleto de alusões históricas que correspondem, em grande medida, ao relato histórico dominante nos anos do franquismo (1939-1977). O período da ‘descoberta do novo mundo’ ocupa, naturalmente, um lugar especial, caracterizado abertamente como missão civilizadora ou como a ‘maior obra de fraternidade universal’ (esta interpretação não é, na verdade, exclusiva da ultradireita – veja-se as declarações do líder do Partido Popular no Día de la Hispanidad). 

Tudo isto não implica que o partido defenda um regresso ao passado. A defesa de uma relação privilegiada com o espaço ibero-americano é, acima de tudo, mais uma manifestação do "essencialismo cultural" subjacente à mundividência do Vox. Ou seja, é a proximidade histórica, cultural e religiosa entre os países da ‘Iberoesfera’ que justifica a aposta nesta área geográfica. Por outro lado, a ação do partido não é certamente alheia às vantagens práticas ou estratégicas que advenham deste tipo de aliança. 

Como argumenta o historiador Xavier Casals, esta não é só uma forma de conseguir publicidade, mas também de apresentar-se como um ator internacional relevante, de se posicionar como um interlocutor privilegiado capaz de estabelecer uma ponte transcontinental entre forças da ultradireita europeia e americana.

Para Ventura, ainda que criticado por ter dado vivas a Espanha num comício do Vox, a aproximação a Abascal e ao espaço ibero-americano não significa apenas ganhar projeção, mas também aprendizagem para refinar a sua atuação política.

A inclusão de Portugal (e do Brasil) na “Iberoesfera” causará decerto algum incómodo por cá. Não parece ser um problema para Ventura, certamente porque Abascal tem o cuidado de pôr os dois países em pé de igualdade. O líder do Vox realça que Portugal e Espanha dividiram o mundo entre si no passado – “duas nações gloriosas que só alcançaram a glória quando souberam ter um projeto comum” – e que “têm muito que dizer na Europa porque são a ponte com a América’. 

De resto, Ventura justifica esta aliança com o facto de as duas formações partilharem objetivos internacionais claros, naquilo que define como uma ‘luta civilizacional, cultural e ideológica’. Para um partido que (ainda) não tem qualquer representante no Parlamento Europeu, como é o caso do Chega, a aproximação a forças mais consolidadas é não só uma forma de ganhar projeção, mas também um meio de aprendizagem e refinamento do seu perfil e programa político. Não será, por conseguinte, de estranhar ver Ventura fazer maior uso de fórmulas importadas de outros países, mesmo que o líder do Chega tenha normalmente a habilidade de manter-se fiel às especificidades do contexto português.

Dito isto, há que realçar que os esforços do Vox são incipientes e que ainda não é perfeitamente claro o que realmente une a ultradireita europeia – mais preocupada com questões de imigração e integração europeia – à ultradireita do outro lado do Atlântico, por sua vez mais religiosa e focada no “inimigo vermelho”. É importante, porém, não subestimar nem a sua capacidade de encontrar um inimigo comum nem a sua habilidade para construir e aprofundar um espaço ideológico mais sólido e transversal.