Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas pela Universidade de Lisboa. É escritor e trabalha na área da comunicação desportiva. Publica regularmente no Twitter e no blogue Modo:mudança

Reflexão em tempos de terror

Entrámos numa era onde as certezas são acessíveis e vendidas a bom preço, para que todos as possam utilizar conforme as conveniências ou os ares do momento. A nossa humanidade parece não se querer prender ao esforço de empatia que nos poderia levar a compreender o outro.

Ensaio
17 Março 2022

A incapacidade de conjugar terror com reflexão marca-nos os dias uma vez mais. Num mundo em que as imagens de horror nos entram, a cada minuto, pelos olhos dentro, somos transformados em vítimas, acorrendo de forma desamparada a espaços que nos possam oferecer proteção. A segurança que nos é oferecida por uma visão unívoca dos acontecimentos, no entanto, ameaça prender-nos num alvo fácil de ser atingido. O esforço que somos obrigados a fazer enquanto as bombas explodem para lá das nossas fronteiras é muito diferente daquele que podemos pedir a quem vê as bombas destruir-lhes as casas.

Se hoje a realidade se transforma numa constante de dor pela destruição de um país, o início da história não está concentrado no primeiro ataque realizado na madrugada de 24 de fevereiro, mas numa sucessão de outros pequenos acontecimentos que se foram deslaçando dentro das nossas próprias casas. Um conflito no qual fomos alistados sem que nos fossem colocadas perguntas, sem que nos fossem anunciados os termos. É nesse encadeamento de pormenores que ainda temos o poder de intervir, antes que as bombas nos atinjam.

O espaço público acabou, neste processo, por ser contaminado na aceitação de um discurso violento que hoje já não se faz meramente no anonimato das redes sociais.

A violência do discurso como planeamento da guerra

Não existe guerra sem planeamento. A guerra a que hoje assistimos começou há bastante tempo, com pequenos ensaios que foram tomando conta do nosso discurso. Sendo difícil de apontar o momento exato onde começaram, é certo que o desporto se transformou, há muito tempo, num território de testes sobre a violência discursiva.

A vivência da competição foi sendo tomada com uma desculpa para a exacerbação de uma agressividade que extravasou os seus limites. Quer nas bancadas dos estádios, como nos fatos e gravatas de dirigentes, ou nas ações de treinadores e atletas, a violência foi-se tomando como aceite, passando até a ser transmitida, diariamente, em programas televisivos que utilizam o desporto como desculpa para o ensaio de uma conflituosidade aparentemente atrativa para as audiências.

É na procura de audiências que este discurso violento migrou do desporto para a política. Começou por ser coisa de radicais, de franjas ideológicas ou populistas em busca de algum espaço mediático. O lançamento da polémica e a resposta à mesma transformaram-se num jogo do apanha que encontrou espaço e foi dinamitando o que antes era visto como um entendimento formal entre opositores. Hoje em dia, parece já não espantar ninguém a forma como se destrata quem pensa igual, como se despromove violentamente o caso da bancada oposta, como se procura apagar o direito à existência do contraditório. Passamos de um campo onde a controvérsia era vivida em pleno direito para um campo onde só os absolutismos parecem ter lugar.

Enquanto as bombas não nos estiverem a cair em cima da cabeça, como caem sobre o inocente povo ucraniano, o que está em causa não é a conquista de uma verdade única, de uma visão única do mundo. O que está em causa é a aceitação das nossas diferenças.

O espaço público acabou, neste processo, por ser contaminado na aceitação de um discurso violento que hoje já não se faz meramente no anonimato das redes sociais. As pessoas dão a cara e o seu estatuto para participarem em fogueiras de indignação que ignoram a existência de um outro ser humano do lado de lá da conversa. Esse mesmo encarniçamento se pressente nas conversas de café, nas relações entre colegas de trabalho e vizinhos, no seio das famílias.

Entrámos numa era onde as certezas são acessíveis e vendidas a bom preço, para que todos as possam utilizar conforme as conveniências ou os ares do momento. A nossa humanidade parece não se querer prender ao esforço de empatia que nos poderia levar a compreender o outro.

A ilusão do mundo unipolar

Durante muito tempo vivemos na ilusão de um mundo unipolar. O anunciado fim da história tentou oferecer uma perspetiva teórica ao que, na prática, já era vivido entre a maioria da população. Nunca, ao longo da história, duas versões do mesmo acontecimento foram apresentadas de forma pesada, equilibrada e igual. De alguma forma, somos sempre empurrados a ficar de um dos lados da barricada, mesmo numa situação em que a realidade nos oferece dados suficientes para percebermos que, encerrados numa busca pela verdade única, acabamos por ignorar vários dos pontos necessários para entendermos o todo do conflito.

A análise da realidade não é muito diferente da análise de um poema. Tudo é composto por camadas. Na camada que primeiro nos surge aos olhos não há espaço para grandes dúvidas. Um país invade outro país. Questão encerrada quanto à forma como podemos pesar quem comete o maior mal. Mas, citando um dos heterónimos de João César Monteiro, as aparências desiludem. Ao contrário do esperado pelo ciclo noticioso, onde nos habituámos a olhar para os acontecimentos, primeiro com confusão, depois entrando num processo de clarificação da situação até à sua resolução, esta guerra oferece-nos um caminho diferente.

O mundo é composto de muitas visões diferentes dos acontecimentos. Um posicionamento entendido sobre aquilo que se passa deve saber pesar os vários lados de cada conflito. Quando falhamos nesse esforço (e há aqui um nível de responsabilidade variado, governos terão mais responsabilidades que um órgão de comunicação social, tal como este terá mais responsabilidades do que um indivíduo), falhamos no contributo que podemos dar para o mundo em que vamos viver quando a tensão amainar. Enquanto as bombas não nos estiverem a cair em cima da cabeça, como caem sobre o inocente povo ucraniano, o que está em causa não é a conquista de uma verdade única, de uma visão única do mundo. O que está em causa é a aceitação das nossas diferenças.

A pequena vitória daquele que queremos combater

Parece assim complicado resistir ao processo em que nos transformamos naquele que queremos combater. A forma como, numa reação a quente e totalmente imbuída no espírito marcial e guerreiro, se correu a cancelar todo e qualquer tipo de contacto com os cidadãos russos, a cultura russa, os seus desportistas ou representantes em diversas áreas. É que o aparentemente derradeiro teste às democracias ocidentais aproveita-se das suas dúvidas para se lançar à sua destruição. A democracia, que se fortalece pela lógica da incerteza, mantendo sempre em debate aberto as suas próprias decisões, arrisca-se a morrer de exaustão nas mãos daqueles que preferem vê-la povoada de falsas certezas.

Os discursos dos dois lados do confronto acabam por acentuar a ideia de fragilidade das lideranças do mundo ocidental. Enquanto o presidente Vladimir Putin se rodeia de uma magnanimidade absolutista, transformando-se de frio espião em senhor de guerra, o presidente Volodymyr Zelensky transforma-se num herói de resistência perante o impasse que vai travando as medidas da União Europeia, da NATO, dos Estados Unidos. De alguma maneira, o mundo perceciona as sanções económicas e os incentivos ao diálogo como uma falta de coragem que caracterizaria uma opção pela fraqueza da Europa do Século XXI, quando, na verdade, é nesta Europa que tem existido o maior projeto de resistência, paz e entendimento comum de toda a política mundial.

Também por isso parecemos estar perante uma transformação entre mundos. Começámos por estar num mundo que se autosatisfazia com a saída de empresas do território russo (“não se pagarão impostos em rublos!”) ou a sonhar com medidas que visem perturbar o esforço de guerra do inimigo sem medir o impacto na moral daqueles que vivem do lado de cá da guerra. Agora já nos mudámos para um outro que se divide entre o aceleramento da análise para a vivência, de facto, de uma Terceira Guerra Mundial, e a aceitação de medidas de permissão de violência e xenofobia contra populações como foi anunciado pelo universo das redes sociais da Meta.

A resposta emocional

Uma resposta emocional ao drama da guerra é uma reação perfeitamente humana. O nojo e o medo que a invasão nos causa retira-nos do conforto de pensar que os combates se fazem com palavras e ideias. Aos inocentes que vivem debaixo do bombardeamento, aos seus amigos e familiares, não temos como pedir um pouco de razão. Mas sabemos que as guerras se combatem com lógica e estratégia frias, à beira de um precipício onde se perdem vidas humanas, planos de vida, países inteiros.

Somos uma sociedade que se foi transformando numa solução à medida do IKEA. Não estávamos conscientes de que o mundo nos poderia continuar a pôr perante situações onde a solução não vem descrita na própria embalagem.

De certa maneira, estamos todos à espera de mostrar aquele sorriso confuso e aliviado de quem surgia, sem ser convidado, no programa televisivo que todos conheciam pela frase repetida, sorria, é para os apanhados!” Nada daquilo que sentimos parece fazer sentido e as pessoas perdem-se na espiral de violência que encontram como única forma de viver o momento que a história nos oferece.

Não fomos preparados para encarar o mundo como ele se nos tem apresentado nos últimos dois anos. A complexidade do enfrentar da pandemia de covid-19 volta a revelar-se na forma como olhamos para o problema da guerra em solo europeu. Somos uma sociedade que se foi transformando numa solução à medida do IKEA, com peças e instruções que nos permitem encontrar um sentido nas coisas. Não estávamos conscientes de que o mundo nos poderia continuar a pôr perante situações onde a solução não vem descrita na própria embalagem.

A necessidade de uma solução

Nestes dias, caminhamos todos debaixo do peso da mesma pergunta. Na forma como não entendemos a decisão espúria de Putin, na maneira como tentamos medir a capacidade de resistência do inocente povo ucraniano, no incómodo que nos causa o facto das medidas tomadas por quem se posiciona para mediar o conflito parecerem ficar aquém. Em nenhum lado encontramos a solução para a guerra, para as vítimas, para os refugiados, para a convivência dos interesses na região, para as consequências que já nos começaram a afetar.

Enquanto seres que pensam, custa-nos a aceitar que os conflitos não têm uma solução. E, no entanto, é nessa base que os processos históricos se desenvolvem. Simplesmente, as coisas não começam, duram e acabam como as histórias que acontecem nos livros ou na televisão. As relações de poder, as questões de território, os processos de fronteira entre nacionalidades, culturas e organizações vivem sempre num espírito de tensão que pode ser amainada, através da negociação, da cedência ou da extrema diferença de forças, mas raramente é terminada.

Por isso a imagem da guerra no Século XXI nos parece tão fora de época, tal como a uns quantos de nós a violência no discurso, a incapacidade de empatia ou a simples aceitação das diferenças entre pessoas já nos acenava a aproximação de risco a este perigo. Esse espaço de incompreensão agrava-se com o prolongamento da ação militar em curso.

Em lugar da história caminhar para um desenlace, parece apenas evidenciar de forma mais carregada todas as complexidades que ainda estamos a descobrir. A necessidade de conciliarmos a vivência desse terror com um esforço de reflexão é o contributo que temos a dar num esforço de uma guerra onde todos, de uma ou de outra forma, já estamos envolvidos.