Licenciado, mestre e doutorando em História Moderna e Contemporânea pelo ISCTE-IUL. Investiga a história da RARET entre 1951 e 1996. 

RARET: Portugal no epicentro da propaganda na Guerra Fria

Portugal esteve ao longo de várias décadas no epicentro da guerra de propaganda entre os Estados Unidos e a União Soviética. Glória, uma pequena vila no Ribatejo acolheu a RARET, uma central de transmissão norte-americana, com poucos a darem por ela. É uma história com vários contornos.

Ensaio
9 Junho 2022

A II Guerra Mundial tinha acabado há menos de dois anose a Guerra Fria estava a dar os primeiros passos quando, a 25 de Novembro de 1947,  António de Oliveira Salazar discursou perante a Assembleia Nacional. Nesse discurso procurou sintetizar o estado da Europa e do Mundo.

“As características do momento atual são, não só na Europa, mas no Mundo, a miséria e o medo. Estas duas realidades moldam o pensamento e a atividade dos povos e dos governos (...) são a própria vida de hoje”, disse o ditador, no poder desde 1933.

Não se ficou por aqui e, nesse mesmo discurso, identificou também de forma clara os causadores da “miséria e do medo” sentidos em particular na Europa. “Assim a Europa sofre de miséria e medo. Medo de quê? Medo da Rússia: medo do comunismo. E parece ter razão”, vaticinou.

A oportunidade para combater as causas da “miséria e do medo”, isto é, a Rússia e o comunismo, ser-lhe-ia proposta três anos mais tarde, em 19 de Dezembro de 1950, pelo embaixador norte-americano em Lisboa, Lincoln MacVeagh, sob a forma de um pedido de autorização para instalar os emissores da Radio Free Europe (RFE) em território português.

Ao longo das quatro décadas seguintes (1951-1996), a RARET, empresa portuguesa filial da RFE, constituiu-se como a espinha dorsal de um sistema de comunicações em onda curta, responsável pela difusão dos conteúdos produzidos pelos exilados dos países satélites da URSS a partir de Nova Iorque e Munique. 

A RFE foi fundada nos EUA em dezembro de 1949, sendo uma das quatro divisões do National Committee for a Free Europe (NCFE). As restantes eram: a Divisão dos Conselhos Nacionais, responsável pelo apoio às organizações de exilados; a Divisão de Contactos Americanos, responsável pela produção de conteúdos informativos destinados ao público norte-americano sobre as actividades dos exilados; e finalmente o Centro de Estudos da Europa Central, destinado à pesquisa científica.

Importa porém destacar o papel relevante na criação do NCFE/RFE que coube a George F. Kennan, enquanto director do Policy Planning do Departamento de Estado, e o envolvimento da CIA através do Office of Policy Coordination, liderado por Frank Wisner, ambos têm sido alvo de vários estudos ao longo do tempo.

A sede europeia da RFE estava em Munique e contava com emissores de onda média e curta, destinados à emissão, retransmissão e monitorização. Localiza-se em Scheissheim, Biblis, Holzkirchen e Lampertheim, todos na então na República Federal da Alemanha. A primeira emissão foi para o ar a 4 de Julho de 1950, conduzida pelo jornalista checoslovaco Ferdinand Peroutka através do serviço checo da RFE.

Apenas dois meses após a emissão inicial, os responsáveis do NCFE/RFE começaram a procurar uma localização alternativa e complementar aos emissores situados em território alemão. Pretendiam alcançar três objetivos fundamentais: em primeiro lugar, ultrapassar as interferências radioeléctricas (jamming) provenientes dos emissores instalados nos países da chamada Cortina de Ferro; em segundo, salvaguardar as instalações da RFE em caso de conflito na Europa; e, em terceiro, encontrar um governo que não colocasse objeções relativamente aos conteúdos emitido pela RFE.

A adesão à NATO e o Acordo das Lajes foram amplamente difundidos pelos média, comprovando que a ditadura portuguesa era aceite pela democracias ocidentais — mas a RARET e o envolvimento português na "guerra hertziana" foram cuidadosamente escondidos.

O estudo das condições técnicas para se encontrar uma localização adequada e complementar ficou a cargo da firma de engenharia A. D. Ring. As questões de natureza político-diplomática contaram com a intervenção do Departamento de Estado, via embaixada dos EUA em Lisboa.

Ao acolher uma iniciativa desta natureza, Oliveira Salazar alinhou com um dos vectores da política externa dos EUA (a de contenção dos soviéticos) nos primórdios da Guerra-Fria. Actuando desta forma, o Estado Novo explorou ainda a importância geoestratégica portuguesa, tanto em termos de hard power como de soft power. Fê-lo para garantir uma transição suave e segura no novo quadro internacional do pós-II Guerra Mundial - as ditaduras já não eram vistas com bons olhos na Europa - e reforçou-se no plano externo por via da inserção na comunidade transatlântica, desta vez em pé de igualdade com os regimes democráticos, europeus e norte-americanos, com ganhos de legitimidade acrescidos.Ao mesmo tempo que o Estado Novo dizia combater “miséria e o medo”, ou seja, a Rússia e o comunismo no plano internacional,  Salazar reforçava o papel de Portugal junto do novo aliado.

A adesão à NATO e o Acordo das Lajes foram amplamente difundidos nos meios de comunicação social, comprovando junto da opinião pública que a ditadura portuguesa era aceite pela comunidade transatlântica, que novos tempos se viviam. Mas o mesmo não aconteceu em 1951 com a aliança com o NCFE/RFE, permitindo a constituição da Sociedade Anónima de Rádio Retransmissão SARL - RARET.

A ausência de divulgação em torno desta aliança de radiodifusão e o envolvimento português na “guerra hertziana” foi ocultado aos portugueses ao longo dos quarenta e cinco anos seguintes. Situação que contribuiu para fazer da RARET um segredo bem guardado ainda nos dias de hoje. Expor as razões que terão levado as autoridades a proceder desta forma, não só no momento inicial, mas ao longo de toda a vida da RARET, é o objectivo deste ensaio.

Do convite do embaixador MacVeagh à constituição da RARET

O NCFE e a RFE foram apresentados ao público norte-americano como instituições filantrópicas destinadas ao apoio dos exilados dos países do bloco socialista, do lado de “lá” da Cortina de Ferro. A verdadeira génese destas instituições, fruto da actuação conjunta e combinada do Departamento de Estado e da CIA, foi ocultada. 

O financiamento era assegurado por uma terceira entidade, a Crusade for Freedom, na dependência do NCFE, permitindo assim financiar secretamente todo o projecto através de fundos da CIA, situação que se manteve inalterada até 1972.

O convite endereçado a Salazar para aderir aos esforços na contenção do comunismo e da influência soviética na Europa obrigou as autoridades portuguesas a recorrerem ao logro e à dissimulação, emulando assim as condições originais acima descritas. A negociação iniciou-se em Janeiro de 1951 com a chegada a Lisboa de H. Gregory Thomas, responsável do NCFE e antigo membro do Office of Strategic Services (OSS), agência precursora da CIA e responsável norte-americana por atos de espionagem e sabotagem durante a II Guerra Mundial.

Image
raret
O livro de Vítor Madail Herdeiro foi publicado pela Edições 70 em dezembro de 2021.

Entre Janeiro e Abril tiveram lugar várias diligências, tanto de natureza técnica e operacional, como de cariz político-diplomático. A nível técnico, recorreu-se aos serviços da Emissora Nacional na pessoa do engenheiro Manuel Bivar para acomodar as necessidades da RFE. A Direção dos Serviços Radioeléctricos, na dependência da Administração Geral dos Correios, Telégrafos e Telefones (AGCTT), supervisionou os moldes em que se iam realizar as emissões, tendo em conta os seus conteúdos. 

Simultaneamente, Tito Arantes, por indicação de Ricardo Espírito Santo, preparou os estatutos da RARET. O envolvimento do banqueiro Espírito Santo deveu-se ao facto de Gregory Thomas, seu velho conhecido, ter solicitado a sua intervenção para ter acesso fácil e rápido ao Presidente do Conselho de Ministros. Já quanto a Tito Arantes, a proximidade a Salazar e as boas relações com Espírito Santo terão ditado a sua escolha para advogado da RARET, ocupando o cargo até 1974.

Finalmente, em março e através do Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE), as autoridades portuguesas responderam ao pedido da RFE efectuado por intermédio do governo norte-americano. A escritura pública para se constituir a RARET aconteceu a 10 de abril de 1951 e o Diário do Governo, Série III de 20 de Abril publicou os estatutos da nova empresa. O Conselho de Administração da empresa era composto pelos seguintes nomes: general Alberto Guerreiro Peixoto e Cunha; Joaquim Leitão; António de Cértima; António Quadros Ferro; Tomás Pinto Basto; Pedro Brito e Cunha; Gregory Thomas; Spencer Phoenix e George Caesar.

Sem outra informação disponibilizada, esta era a única possível de obter, ainda assim longe de poder configurar uma aliança entre Portugal e os EUA, tendo como objetivo último combater o comunismo e expansionismo soviético.

Entretanto, as obras para construção do Centro Emissor da RARET, localizado em Glória do Ribatejo, e do Centro Receptor da Maxoqueira começaram de imediato, ficando concluídas entre o final de 1951 e o início de 1952. Todavia, a urgência norte-americana em difundir a mensagem da RFE para as populações dos chamados países satélites manteve-se. 

Inaugurado oficialmente em Fevereiro de 1952, o Centro Emissor da RARET contava com quatro transmissores de 50kW, tendo o primeiro entrado ao serviço no Dia de Natal de 1951, logo seguido por outro em Janeiro do ano seguinte e os dois últimos em Fevereiro. À inauguração assistiram várias entidades civis e militares, destacando-se entre elas o Ministro das Comunicações, General Gomes de Araújo. 

Na ocasião foi descerrado um padrão, testemunho da aliança luso-americana, onde se podia ler que os povos sob o jugo soviético podiam contar com o “auxílio dos Estados Unidos”. “Grande número de países europeus, ameaçados na sua vida e liberdade, contam desde agora com o auxílio dos Estados Unidos e uns com o auxílio dos outros para a defesa do seu património de divulgação. Pareceu difícil em tais circunstâncias estarmos ausentes”, lia-se no padrão.

O início das transmissões da RARET apenas foi possível depois de os norte-americanos terem deslocado para aí, a partir do território alemão sob ocupação dos EUA, um conjunto móvel de radiodifusão. Daí que a primeira retransmissão a partir de Portugal tenha acontecido a 4 de Julho de 1951, tendo como destino a Checoslováquia. 

As retransmissões a partir da Glória dependeram, até finais de 1951, do equipamento móvel proveniente da Alemanha. Os técnicos portugueses em serviço na Glória batizaram este conjunto, composto por vários semirreboques, os quais incluíam um estúdio de emissão, geradores e antenas rômbicas, de “Bárbara”.

Salazar

A imprensa portuguesa não reportou qualquer dos factos acima descritos. Foi como se nunca tivessem tido lugar. Estranhamente, ou não, ocultava-se ao público português uma realidade semelhante àquela que tinha levado o regime a apoiar as forças franquistas durante a Guerra Civil espanhola (1936-39). Isto é, combater através dos meios de comunicação, neste caso a rádio, um inimigo comum - o comunismo - e o seu principal difusor, a União Soviética.

Em sentido oposto, a imprensa norte-americana divulgava, de forma aberta e entusiástica, a adesão portuguesa aos objetivos do NCFE. Forneceu pormenores e detalhes técnicos, a localização exacta do novo Centro Emissor e louvou a actuação das autoridades portuguesas e do povo de Portugal em prol da defesa da liberdade.

É possível encontrar exemplos da exposição pública em torno da nova aliança luso-americana em várias publicações norte-americanas. O Presidente da Crusade for Freedom e antigo governador militar na Alemanha, General Lucius Clay, revelou ao público norte-americano a disponibilidade portuguesa em acolher a RFE. Elogiou o governo e o povo português por este empreendimento conjunto na defesa da democracia e liberdade e salientou a excelente localização, a qual permitia ultrapassar os obstáculos sentidos pela RFE, pois permitia a expansão da operação. 

“A expansão da Radio Free Europe, que começou a transmitir em julho de 1950 com um único transmissor de baixa potência é uma grande conquista”, disse o presidente da Crusade for Freedom.

Não foi a única notícia. Sob o título “RFE Transmitter - Fourth Built in Portugal”, a Broadcasting Telecasting dava conta, em Março de 1952,  da aplicação dos fundos angariados pela Crusade for Freedom com os quais se tinham construído as instalações da RFE/RARET. “A América deve continuar expandindo e intensificando sua campanha de verdade contra as grandes mentiras do comunismo, construindo cada vez mais estações de liberdade", disse o General Clay, citado pela agência de notícias.

O desconhecimento público sobre a existência e a missão da RARET prolongou-se até 1974. Apesar de estar à vista de todos, o regime ocultou o papel desempenhado pela RARET na luta ideológica em curso.

Na edição de Julho da mesma revista, por ocasião do segundo aniversário da RFE, foi revelado o número de pessoas - mil, ao todo - envolvidas na operação de radiodifusão internacional dirigida aos países do bloco socialista. A revista também referiu o número de emissores (treze) distribuídos entre Portugal e a Alemanha, bem como o total de horas de emissão semanal (mil horas) dirigidas a seis países-alvo.

Também as viagens anuais realizadas ao longo da década de 1950 à Europa - Portugal e Alemanha - pelos cruzados pela liberdade, os principais financiadores norte-americanos responsáveis pelos donativos angariados nos EUA em prol da missão da RFE, foram divulgadas pela imprensa norte-americana. O artigo do Alexandria Tribune de 19 de Novembro de 1959 é um exemplo. A imprensa portuguesa não deu notícia alguma a esse respeito.

Após a revolta na Hungria em 1956 e do alegado envolvimento da RFE no apoio aos revoltosos, prontamente denunciado pelas autoridades húngaras e soviéticas, foi lançada uma campanha com o objectivo de branquear o papel da rádio, apresentando-a como um órgão de informação livre e independente. 

Na edição da revista da RCA - Broadcast News de Junho de 1957, as atenções recaem sobre a participação portuguesa, sob o título: “RFE Installation in Portugal: Germany to Portugal Relay System”. Ao longo de doze páginas, recorrendo a fotografias, esquemas e gráficos, é possível ficar a conhecer em pormenor toda a operação e os seus principais responsáveis, portugueses e norte-americanos.

A exposição pública verificada nos periódicos dos EUA, em torno da aliança luso-americana, contrastava com a ausência de referências em periódicos portugueses. O desconhecimento público sobre a existência e a missão da RARET prolongou-se até meados da década de sessenta. Apesar de estar à vista de todos, o regime ocultou à população portuguesa o papel desempenhado pela RARET na luta ideológica em curso.

Educação e Saúde para Todos - a actividade social da RARET

As carências de ordem social, educação e saúde, às quais estava votada a Glória do Ribatejo, a par do tradicional isolamento sentido pela população, eram marcas ancestrais. Já tinham sido descritas em 1938 no conto Glória - Uma Aldeia do Ribatejo, de Alves Redol. 

A instalação do Centro Emissor da RARET no início dos anos 1950 permitiu a alteração de modos de vida ancestrais através do acesso a infraestruturas básicas inexistentes, como estradas alcatroadas, luz elétrica e água canalizada. Os homens foram inicialmente contratados para a construção do Centro, ao passo que as mulheres passaram a trabalhar nas cozinhas e serviços de limpeza. Outras mulheres foram contratadas como domésticas para as casas dos funcionários, portugueses e norte-americanos, no bairro da RARET, edificado ao mesmo tempo que as restantes instalações.

Ao trabalho agrícola em terras pobres e à apanha da cortiça, atividade sazonal, associava-se o trabalho na RARET, equivalendo a uma promoção social por via de um rendimento certo, formação para o desempenho de funções, como guarda-fios, motorista e telefonista. Os seus trabalhadores também usufruíram de cuidados de saúde regulares fornecidos pela entidade patronal.

Image
Localização da RARET, com indicações rodoviárias partindo de Lisboa
Localização da RARET a partir de Lisboa

Entre os trabalhadores poucos ou nenhum se preocupavam com os objetivos da RFE/RARET, e muito menos com a luta ideológica travada entre os EUA e a União Soviética nos alvores da Guerra Fria. A vinda dos norte-americanos para a Glória proporcionou uma significativa alteração das condições de vida e isso bastou. Mais haveria de mudar pela mão dos norte-americanos.

A inauguração da Escola Industrial da RARET no ano lectivo de 1967/68 foi uma dessas mudanças. De repente, uma aldeia do Ribatejo passou a dispor de um equipamento escolar que se destacava a nível regional no concelho de Salvaterra de Magos, se não mesmo no distrito de Santarém.

A presidir a cerimónia de inauguração em representação do Ministro da Educação Nacional esteve Artur de Almeida Carneiro. A cerimónia de inauguração contou ainda com a presença das autoridades civis e religiosas, dos administradores da RARET e, em representação do Free Europe Committee (FEC), esteve o seu presidente, William Durkee.    

A imprensa regional fez-se igualmente representar no evento pelos diretores dos jornais Correio do Ribatejo e Aurora do Ribatejo, Virgílio Arruda e o J. A. Pereira dos Santos, respetivamente.

Fazendo eco desta realização, o título da reportagem do jornal Aurora do Ribatejo não deixava qualquer dúvida sobre o teor paternalista em torno da atuação da companhia: “RARET, e as suas atividades sociais”, com os seus alicerces a serem a “educação e assistência médica”. O jornal local chegou mesmo a relatá-las como “nítido progresso social”,  apresentando a RARET como mais do que “uma simples fonte de emprego”, antes como “um amigo com responsabilidades… sempre pronto a servir”.

Foi através do prisma da acção social que o público português conheceu a atividade da RARET. Mas mesmo assim o seu conhecimento estava restrito em termos geográficos, uma vez que os jornais nacionais não faziam eco dessas realizações. O tom expresso nas reportagens dos dois jornais regionais era de um profundo agradecimento e reconhecimento pela ajuda e solidariedade prestadas a uma população muitas vezes esquecida e negligenciada pelos poderes centrais, mais preocupados com uma imagem de ordem e consenso em torno do alegado interesse nacional.

Até quando foi a A RARET um não-assunto?

A chegada ao poder de Marcello Caetano, em setembro de 1968, registou uma alteração efectiva na forma como a comunicação social desenvolvia a sua actividade. Desde logo pelo franquear de portas relativamente à atividade e à figura do próprio Presidente do Conselho, dado que a propaganda do regime desejava fomentar uma nova imagem que correspondesse “a um homem ativo, coloquiante, sedutor e simpático”, como refere Ana Cabrera.

Tirando partido desta nova atitude por parte das autoridades, embora a censura se mantivesse renomeada como Exame Prévio na Primavera Marcelista, os jornalistas deram outro tom aos artigos e peças publicadas, pelo menos até certa altura.

A RARET foi de certa forma “vítima” desta nova abertura marcelista que permitiu a abordagem de novos temas, sob diferentes perspectivas e ângulos, nos quais se incluíram os objetivos e a missão da RFE em solo português. Além disso, a operação da secreta da CIA que tinha estado na génese do NCFE/FEC e da RFE fora exposta publicamente em 1967, através de uma investigação conduzida pela revista Ramparts Magazine, um título criado em 1962 e intimamente ligado ao movimento político da Nova Esquerda nos EUA.

Esta publicidade negativa gerou uma forte discussão nos EUA em torno do papel da RFE e da congénere Radio Liberty, cujas emissões se destinavam à União Soviética A polémica foi tão grande que levou mesmo à nomeação de uma comissão do Congresso dos EUA para discutir a manutenção das rádios no novo cenário de Détente, entretanto instituído nas relações Leste-Oeste a partir do início da década de 1970. A opinião pública portuguesa desconhecia tais ocorrências ou discussões relativas ao papel das rádios.

Image
rar
Estimativa da potência dos emissores da RARET

Numa nota interna e estritamente confidencial dirigida ao Presidente do FEC, William Durkee, o responsável europeu da RFE, Ralph E. Walter, deu conhecimento sobre uma visita de dignitários portugueses às instalações da Glória a 1 de Julho de 1969.

Nela tomaram lugar cerca de trinta responsáveis da Caixa de Previdência (Segurança Social) e do Ministério do Trabalho, aos quais se juntou, para cobrirem a visita, um grupo de jornalistas da imprensa nacional (Diário Popular; República; Novidades; O Século; Diário de Notícias e A Capital). Embora se tenham registado outras incursões da imprensa no passado, sobretudo regional e local, esta seria a primeira a ter lugar na nova atmosfera proporcionada pela abertura marcelista. Tal facto levou os jornalistas a aguçarem a curiosidade relativamente aos objetivos e à missão da RFE/RARET.

Apesar de a visita dos jornalistas ter acontecido numa atmosfera cordial, os responsáveis norte-americanos ficaram depois irados com a notícia do jornal O Século, pois o título do artigo não deixava margem para dúvidas sobre o que era, no final de contas, a RARET. 

“O maior centro de propaganda política americana para os países comunistas da Europa está localizado no meio do Ribatejo”, lê-se no título. “A RARET manteve-se semi secreta durante dezoito anos e foi ontem visitada por um conjunto de jornalista portugueses pela primeira vez”, escreveu o jornalista na abertura da notícia, afirmando de seguida que, “de facto, trata-se de um complexo que assegura a totalidade da propaganda americana a partir de Portugal para os países por detrás da Cortina de Ferro”.

A imagem de um mero suporte técnico à operação da RFE era assim desmontada, uma vez que a RARET não era aquilo que à primeira vista se poderia supor. Era, sim, a espinha dorsal de um sistema de comunicações que permitia a difusão de propaganda norte-americana dirigida aos países socialistas. Fazia-o numa base diária (20h por dia) e tendo ao seu dispor potentes emissores de onda curta capazes de atingir potências de 2000 kW.

A notícia não ficou por aqui. Chegou inclusive a estabelecer a ligação da RFE/RARET à CIA, justificando desta forma os avultados investimentos realizados em Portugal, uma vez que sem este centro emissor "poder-se-ia dizer que toda a intensa propaganda americana aos países satélites da Europa de Leste cairia por terra sem o apoio do Governo Português”.

As revelações feitas pelo artigo d’O Século foram alvo da ira dos responsáveis da RFE, ao ponto de considerarem esta visita como a última de jornalistas portugueses à RARET. Uma vez que não se podia descartar futuramente o surgimento de outras notícias de teor idêntico perante o claro afrouxamento das autoridades portuguesas face aos procedimentos anteriormente em vigor. 

Na verdade, não se encontraram outros artigos publicados em jornais nacionais que colocassem em destaque, ou em causa, o trabalho da RARET, e muito menos o suporte do Governo de Portugal à missão da RFE. Houve apenas uma excepção: a edição clandestina do jornal Avante! de Fevereiro de 1974. 

“O maior centro de propaganda política americana para os países comunistas da Europa está localizado no meio do Ribatejo”, dizia o jornal O Século, em 1969.

Sob o título  “Fora com a RARET”, o artigo pretendia desmascarar as provocações contra os países socialistas realizadas a partir de território português, bem como a submissão do governo fascista aos círculos mais reacionários e agressivos do imperialismo no contexto internacional. Identificando os responsáveis portugueses pela RARET e a sua cumplicidade com os objetivos com os serviços de espionagem norte-americanos, ao mesmo tempo que anunciava a vigilância popular e a possibilidade de represálias no futuro.   

O contexto não era fácil para a RARET. O contrato de concessão com o governo português terminou em abril de 1973 e os ataques da comissão do Congresso norte-americano, encarregada de investigar as suas atividades, não paravam. Daí que tenha sido  solicitada e deferida uma prorrogação pelo prazo de um ano da licença de radiodifusão até abril do ano seguinte, quando a renovação do contrato poderia ter acontecido.

Essa prorrogação terminou quando o Movimento dos Capitães levou a cabo o golpe de Estado que terminou com o Estado Novo a 25 de Abril de 1974, dando lugar a uma Revolução. Mas mesmo assim a actividade da RARET manteve-se sem alterações ou interrupções ao longo dos anos seguintes.

Uma aliança duradoura

A exploração da localização geoestratégica portuguesa por parte do governo português nos primórdios da Guerra Fria, é possível de ser analisada a partir de várias perspectivas: desde logo as facilidades militares concedidas aos EUA para permanecerem nos Açores no imediato pós-guerra, as quais foram renovadas em 1948, 1951 e 1957. O convite para aderir enquanto membro fundador à Organização do Tratado do Atlântico Norte em 1949. Ambas as iniciativas centram-se no domínio da segurança e defesa do Hemisfério Ocidental, por oposição ao Bloco Socialista liderado pela URSS. 

Porém, as autoridades portuguesas revelaram-se também um aliado seguro e confiável noutros domínios, como foi o caso da aliança de radiodifusão que permitiu instalar em território português os emissores da RFE. A centralidade portuguesa forneceu as condições ideais para a difusão de propaganda norte-americana dirigida aos países da Cortina de Ferro. A “guerra-herteziana” travada pelos EUA durante a Guerra-Fria, não teria sido possível sem a participação portuguesa.   

Ambos os casos permitiram ao regime português, garantir, por um lado, uma transição suave e segura para o convívio com as democracias ocidentais e, por outro, reforçar a sua legitimidade interna. Contudo os dois exemplos são contraditórios ao nível da sua divulgação pública no âmbito da política externa e explorados diferentemente para fins de propaganda do próprio regime. 

A RARET foi mantida discretamente a funcionar no pós-25 de Abril de 1974: atravessou os anos do PREC (1974-76) com o menor ruído possível. Nem mesmo a queda do Muro de Berlim, em 1989, ditou o seu fim. 

Todavia, a adesão aos pressupostos anticomunistas expressos pelo NCFE e as facilidades concedidas pelo governo português para a instalação em território nacional dos emissores da RFE/RARET espelham outra faceta dessa mesma política:  a utilização da radiodifusão internacional como uma arma ao serviço do combate travado contra a ideologia comunista e a influência soviética nos países da Cortina de Ferro.

A difusão de propaganda anticomunista foi uma aliança desconhecida da maioria da população portuguesa. Era do interesse do regime aliar-se aos EUA no combate a um inimigo comum em prol da defesa e promoção de valores, como a liberdade individual, a democracia política e a livre expressão de opinião contra a opressão soviética em países terceiros.

Seria difícil, senão mesmo impossível, ao regime usar a aliança com os EUA no plano interno, tendo em conta a realidade à qual estava sujeita o povo português, uma vez que a sua realidade estava mais perto da dos países da Cortina de Ferro do que da democracia norte-americana. 

Além disso, ambas as organizações, NCFE e RFE, viram a luz do dia sob um manto de secretismo e dissimulação, afastando-as da área de actuação governamental norte-americana. A mesma metodologia foi seguida pela RARET em Portugal entre 1951 e 1974. E mesmo assim a RARET, foi mantida discretamente a funcionar no pós-25 de Abril de 1974: atravessou os anos do PREC (1974-76) com o menor ruído possível. Nem mesmo a queda do Muro de Berlim, em 1989, ditou o seu fim.