Prefácio sonoro para Pyongyang

Ainda em Lisboa, fecho a mala já muito tarde, depois de a ter aberto vezes sem conta, não fosse alguma coisa ficar na origem. São três horas da madrugada e já não consigo dormir. Sonhei que já tinha regressado, mas falta-me partir.

Ensaio
11 Fevereiro 2022

ABRE COM MÚSICA: North Korean Peninsula, Robert J. Walsh.

SOM KIM: No, no, no, no, no! I’m not Mrs., I’m Miss!

REPÓRTER: Miss Kim vai andar colada a mim nos próximos 11 dias. Parece ter mais de 30 anos e ainda não fez 22. Veste fato saia-casaco, xadrez preto e branco, cabelo escuro a dar pelos ombros, muito liso e brilhante, óculos demasiado largos para a fina cana do nariz. Tem um pin com a imagem do Grande Líder Kim Il-sung, no lado esquerdo do blazer, junto ao coração.

SOM AMBIENTE: termina música. Ouve-se som de avião a aterrar e entra som do aeroporto.

REPÓRTER: Pyongyang. Agosto de 2006. Aeroporto de Sunan. Coreia do Norte.

SOM KIM: Olá! O meu nome é Miss Kim! / Olá! Eu sou a Rita! Muito prazer Mrs. Kim! / Não, não, não, não, não! Não sou Mrs., sou Miss, Miss Kim! Ainda não sou casada!

MÚSICA: Invisible Ink, Stephane Hirondelle.

REPÓRTER: Acabo de cometer a primeira gaffe no país mais fechado do mundo e nem há cinco minutos me cruzei com o rosto do grande líder, estampado numa pedra de granito gigante. Vê-se lá de cima do avião. Fato e gravata pretos, camisa branca, cabelo meio grisalho, impecavelmente penteado para trás. Kim Il-sung tinha sorriso Colgate.

MÚSICA: termina.

SOM TELEVISÃO: entra e permanece apenas em fundo.

REPÓRTER: Lembro-me de estar a ver televisão e de fixar todos os sentidos num homem que recebia uma bola de basquetebol das mãos da então secretária de Estado norte-americana, Madeleine Albright. A bola estava assinada pela estrela da NBA, Michael Jordan, e não era para um miúdo, mas para Kim Jong-il. À data, era para o líder norte-coreano. A figura intrigou-me. Gordo, baixo, sorridente, fato esverdeado, apertado, linhas retas, a lembrar o rigor de Mao Zedong, o vizinho chinês. Kim Jong-il sorria. Tinha tudo para ser um homem simpático.

SOM TELEVISÃO: Este-é-o-líder-de-um-dos-países-mais-secretos-do-mundo.

REPÓRTER: Fui alimentando, aos poucos, o desejo de entrar nessa geografia quase inacessível. Eram, aliás, de coordenadas geográficas, cumulonimbus ou métodos quantitativos que ainda se faziam os meus dias, no curso universitário de Geografia. A razão na geografia e o coração no som e no cheiro da cortiça da rádio local que (quase) me viu nascer.

MÚSICA: Rippling Rain, Sam Dodson.

REPÓRTER: Eu já era repórter e ainda nem sabia escrever: fazia o relato do acidente do camião de azeite ou da conversa da vizinha do Bloco 2 - 1º andar. Embalava-me em sons: da chuva a cair no estendal de ferro; do folhear de revistas encarquilhadas; das indecifráveis conversas dos meus pais na cozinha, quando as palavras se transformavam em trilhas sonoras para chamar o sono.

MÚSICA: respira.

SOM ALEJANDRO: Esta vai ser a viagem das vossas vidas.

REPÓRTER: Ainda em Lisboa, fecho a mala já muito tarde, depois de a ter aberto vezes sem conta, não fosse alguma coisa ficar na origem. São três horas da madrugada e já não consigo dormir. Sonhei que já tinha regressado, mas falta-me partir. Preciso de uma tosta de queijo e de um copo de leite. Frio e simples.

MÚSICA: termina Rippling Rain e entra Beijing Dawn, King Pan Ng.

SOM AMBIENTE: janela do táxi abre e ouvem-se sons do carro em andamento.

REPÓRTER: Endireito as costas no banco de trás do táxi que passa ao lado das primeiras bicicletas. Esta já é a China que eu imaginava. Um casal de velhotes. Ele de mangas cavas, calções cinzentos, barriga proeminente e meias brancas com sapatos mocassins pretos. Comanda a bicicleta de três rodas – duas atrás, uma à frente - e pedala devagar. Ela de bata às bolas em tons de cinzento, vai sentada atrás, sobre uma almofada vermelha. Ajeita no colo um saco de plástico branco. Um par de operários. Cada um leva a marmita no cesto das bicicletas pasteleiras. Agora passa um pai e – deve ser - um filho. Ninguém pedala. Esta tem extras: espelho retrovisor, buzina, faróis à frente e atrás e um motor elétrico.

SOM AMBIENTE: carro abranda. ouve-se travão de mão.

MÚSICA: termina.

SOM AMBIENTE: ouve-se o burburinho da rua.

REPÓRTER: O ar está abafado em Pequim, mas deixo-me encantar pela serenidade de um riquexó. Sabe a filme este momento. O empregado do hotel tem um casaco vermelho e preto de abas de grilo e um chapéu estilo Crocodile Dundee. Fala pouco de inglês, mas é o chinês com quem já troquei mais palavras. Tenta saber o que faço aqui sozinha, mas não me alongo na resposta. Depois de amanhã apanho o voo 152 da Air Koryo rumo a Pyongyang.

SOM AMBIENTE: som da sala de pequenos-almoços.

SOM ALEJANDRO: Buenos Dias!

REPÓRTER: O catalão Alejandro Cao de Benos apresenta-se como um cidadão honorário da Coreia do Norte e diz ser o único representante do regime norte-coreano no estrangeiro. Em Barcelona, fundou a Associação de Amizade com a Coreia e todos os anos organiza duas ou três viagens até ao país-mais-secreto-do-mundo para um grupo restrito de pessoas. Ele sabe da minha profissão, mas fez seguir o aviso num dos muitos emails que trocámos nos últimos meses:

VOZ-OFF: Se trabalha/trabalhou com qualquer agência de inteligência, embaixada, exército ou organização do governo, por favor, faça-nos saber. Os jornalistas também têm de declarar as suas ocupações. Isso não invalida a sua viagem, mas se a sua ocupação profissional não for declarada e for, mais tarde, descoberta, a sua viagem pode terminar sem direito a reembolso ou então poderá ser julgada pela lei da República Democrática Popular da Coreia.

MÚSICA: Funny Business, Carl David Harms

REPÓRTER: Vou integrada num grupo de sete pessoas. Cinco vão em turismo e duas são jornalistas. Ainda na China, à beira do pequeno-almoço, Alejandro abre a ronda de apresentações.

SOM ALEJANDRO: Há duas jornalistas no grupo e a vossa classe deturpa a realidade. A vossa ida é uma exceção.

REPÓRTER: Preencho o formulário do visto para entregar à chegada a Pyongyang. Ocupação?

SOM ALEJANDRO: Escreva marketing teacher – radio Portugal.

REPÓRTER: Começo a desconfiar de Alejandro. Quem é o deturpador? O que é que eu leio sobre a Coreia do Norte? Que é uma ditadura. Que o metro de Pyongyang não passa de uma grande fachada...

ALEJANDRO: É pura propaganda. Querem denegrir a imagem da Coreia para servir os interesses norte-americanos. Para que as pessoas tenham medo de visitar o país. Tens de ir para crer, para te dares conta da realidade.

REPÓRTER: … e que os estrangeiros não podem andar sozinhos nas ruas. Ou podem?

SOM ALEJANDRO: Nem pensar. É estritamente proibido sair sem um guia. Os Estados Unidos estão a tentar destruir este sistema, por isso o governo e o povo estão sempre desconfiados em relação a qualquer pessoa do exterior.

REPÓRTER: Amanhã, por esta hora, vou entrar na dinastia Kim. Alejandro nem sonha que, depois de ouvir o lado Norte, vou querer saber mais do lado Sul da península. Termino o pequeno-almoço. Meia fatia de pão e uma chávena de café. O nervosismo aterra primeiro no meu estômago.

ALEJANDRO: Esta vai ser a viagem das vossas vidas.

MÚSICA: termina.

Este testemunho foi originalmente publicado no Manual de Reportagem REC, organizado por Pedro Coelho, Ana Isabel Reis e Luís Bonixe, e editado pela Livros Labcom em 2021.