Historiador,  investigador do Centro de História da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e do CEsA.

Porquê a História de Angola no Youtube

É sabido como, à mercê do colonialismo e das suas concepções evolucionistas, foi negada aos africanos a existência de uma ou de várias Histórias. Com todos os defeitos que tenham, as redes sociais podem estar ao serviço do conhecimento, e em Angola é no YouTube que se recupera a história dum povo.

Ensaio
24 Março 2022

É sabido como, secularmente, mercê do colonialismo e das concepções evolucionistas dele advenientes, foi negada aos homens africanos a existência de uma ou de várias Histórias. E, em nosso entender, a revolução que, nesse domínio, se operou nas academias ocidentais foi insuficiente para que os manuais e os programas escolares incluíssem capítulos de História da África Subsariana. 

Tal História deveria fazer sobressair dois domínios que permaneceram estranhamente silenciados: as Histórias dos Estados africanos, nomeadamente Bantu, em períodos ditos “pré-coloniais” – ou seja, anteriores à presença europeias, mas também, antes dela, à islâmica -, e a história de todo o empreendimento ocidental que reduziu, até ao século XIX, portos africanos, como Luanda, a lugares de embarque da mercadoria humana escravizada para o continente americano.

A este segundo ponto há a acrescer toda a dinâmica colonial que marca o século XIX e grande parte do século XX. Porém, tal continuou silenciado, quer nos países africanos após as suas independências, quer nos antigos países colonizadores. Nos casos de Angola e de Portugal é uma evidência, até aos tempos actuais. Este silenciamento, evidentemente, não podia conduzir a outro resultado a não ser a uma ignorância de que estamos hoje a ser vítimas, mercê dos extremismos e da ilusão da criação de novos politicamente correctos. 

Embora a História, como outras ciências, seja fundamental nas escolas, primárias e secundárias, e evidentemente nas universidades – pois estas são laboratórios do conhecimento e não fábricas de tecnocratas, como o capitalismo o entendeu -, a História não pode, de modo algum, ficar prisioneira da escola nem da universidade. Nem qualquer ciência, de resto. A História tem que sair para a rua.

O cientista da História, o historiador, deve falar abertamente dos seus estudos ao homem comum, incitar o cidadão comum a informar-se, a ler, a interrogar-se, a pôr em causa as ideias feitas sobre os factos históricos instituídas pelo politicamente correcto, mas deve sempre fazê-lo na perspectiva de que não sabe tudo, de que os conhecimentos que adquiriu nunca são suficientes, de que há sempre muito mais a aprender. Esta deve ser a atitude do historiador sempre que fala ou escreve sobre a História que investiga. Foi este o primeiro impulso que me levou a criar a websérie “Lembra-te, Angola” no YouTube.

“História”, em grego clássico, significa investigação ou pesquisa dos factos passados. Mas na Grécia Antiga, dos séculos XIV a IX a.C. até cerca de 475 d.C., “História” adquiriu outras conotações, tais como a de relato dos factos históricos e mesmo a dos próprios factos passados sobre os quais incidia a pesquisa. Evidentemente que, para a compreensão da História, não basta o relato dos factos passados que a memória e a pesquisa nos trazem. Há que procurar “explicá-los”, o que significa interpretá-los. 

Embora Heródoto (485 a.C – 425 a.C), considerado por muitos “o pai da História”, já interpretasse os factos históricos que pesquisava, têm entendido alguns que, na modernidade, tal se teria iniciado só com a escola francesa da revista Annales, fundada em 1929 por Lucien Febvre e Marc Bloch. Este movimento historiográfico teve importância, sem dúvida, por ter incorporado na História os métodos das Ciências Sociais, evidenciando a importância dos factores económicos e dos interesses. 

A História tem que sair para a rua. O cientista da História, o historiador, deve falar abertamente dos seus estudos ao homem comum, incitar o cidadão comum a informar-se, a ler, a interrogar-se.

No entanto, creio que na modernidade a explicação dos factos e a sua interpretação, rompendo com a mera crónica, afirma-se no século XIX com o Romantismo, ou seja, com a perspectivação da História privilegiando os factores sentimentais com vista a fundamentar o ideal do Estado-Nação. Tal não impediu que os grandes escritores românticos do século XIX não se tenham preocupado igualmente com factores históricos de ordem económica. Vejam-se Walter Scott, Augustin Thierry, Victor Hugo, Almeida Garrett, Alexandre Herculano, Alphonse de Lamartine, Alexandre Dumas e tantos outros. E isso teve repercussão entre os intelectuais de uma pequena elite angolana letrada da época, com destaque para Joaquim Dias Cordeiro da Matta, que tiveram acesso a estes autores e já elaboraram as primeiras tentativas de construção de uma História de Angola.

Não é possível conceber a História sem se ter em conta uma cronologia. Ninguém consegue fazer História – escrever a História e, antes de a escrever, pensá-la - sem proceder previamente a uma domesticação do tempo e dos tempos. Em termos correntes, ter a noção do que vem antes, depois ou durante, consoante os marcos da memória. Não é forçoso que essa cronologia seja a correntemente usada, tomando como padrão o antes e o depois da Era Cristã, os anos a.C. e os anos d.C., embora essa seja a fórmula mais operativa nos nossos tempos.

Mas nas sociedades de tradição oral – nomeadamente as africanas pré-coloniais, mas não só -, o transmissor da História, ou tradicionista (tradição, em latim, é sinónimo de transmissão, pelo que a expressão “tradição oral” é um pleonasmo), tem sempre em conta uma cronologia: antes ou depois deste ou daquele facto; antes ou depois das secas, das cheias ou de um terramoto; antes ou depois daquela catástrofe; antes ou depois ou durante o reinado deste ou daquele monarca.

No século XX, o reconhecimento pelas ciências sociais de que as fontes orais são incontornáveis para o estudo da História da África foi uma grande conquista.

O que pretendo dizer é que a oralidade antecede sempre a escrita. E tal acontece em qualquer sociedade humana do mundo inteiro. No século XX, o reconhecimento pelas ciências sociais de que as fontes orais são incontornáveis para o estudo da História da África foi uma grande conquista.

No entanto, parece-me que tal não é apanágio dos povos africanos e se aplica à História dos povos do mundo inteiro. Considerando o caso angolano, em kikongo e em Kimbundu, duas das nove línguas bantu de Angola, o tradicionista, ou bardo, é designado, respectivamente, por mpovi e por kaboko. 

A antropologia colonial convencionou chamar “griot” aos bardos africanos, termo que não é africano, tendo sido inventado pelo Abade Henri Grégoire (1750-1831) a partir da palavra portuguesa “criado” e da palavra castelhana “crioulo”. Mas o dito “griot”, na sua transmissão da História, utiliza, além da palavra, a música, a mímica e outros processos de representação a fixação da memória aos quais poderíamos acrescentar a imagética.

A imagética, ou seja, aquilo que os historiadores eruditos designam por iconografia. Também ela, a imagética, é fundamental para a compreensão da História e para a fixação das cronologias. Ela reflecte, nomeadamente, as arquitecturas, os vestuários, as modas ou os usos dos diferentes tempos históricos.

Outra característica essencial da transmissão da história pela oralidade é o diálogo. Os kaboko, ou seja, os bardos da cultura mbundu, recorriam frequentemente ao sungui. O que era o sungui? Sungui é um substantivo que deriva do verbo ku sunga, que na língua kimbundu significa puxar. Por sua vez, o verbo ku sunguila significa, não apenas, puxar por, mas também conversar ou trocar ideias.

Ou seja, palavra puxa palavra. Alguém conta a história, mas a audiência vai “puxando a palavra”. Ao passar para a língua portuguesa, o prefixo ku, que marca o infinito dos verbos, deu lugar ao sufixo ar, dando origem ao verbo sunguilar, que ainda actualmente, em Angola, significa conversar ao serão. De facto, no sungui, o orador permitia que a audiência interviesse, colocasse dúvidas, acrescentasse sugestões ao seu relato, como numa conversa de serão. 

Todos estes processos puderam, ao longo das duas últimas décadas, ser postos em prática com o grande público graças às redes sociais. Desde logo o YouTube, que é como um cinema em casa com o qual eu sonhava desde a minha infância, mas um cinema passível de transformar, de dialogar com ele, de sunguilar com ele, de lidar com ele como se de um sungui se tratasse. Nele e noutras redes sociais é possível sunguilar, através dos comentários que nos permitem, mesmo com o erro e com a gafe – que fazem parte do conhecimento – ir fazendo História, ir reconstruindo a História. 

Com todos os defeitos que vamos conhecendo, as redes sociais podem estar ao serviço do conhecimento. E, no que diz respeito aos seguidores angolanos e portugueses de “Lembra-te, Angola”, tem-se notado, através dos seus comentários, uma enorme sede de conhecimento, muito em particular por parte de uma nova geração que emerge de tantos anos de silenciamento. Mas não são só os comentários que o comprovam.

Desde o seu lançamento, em janeiro de 2021, a série já recolheu cerca de 45,000 visualizações. É o equivalente a mais de 4,5 mil horas de aprendizagem e, consequentemente, de acesso democrático à História, de diálogo, de sungui. Assim se vai fazendo a História e se vão fazendo novos historiadores.