Licenciada em História pela Universidade de Évora. Mestranda em História da Arte e Património na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Produtora cultural. 

A poesia é uma arma carregada de futuro

A arte é a primeira a ser silenciada ou reduzida por ser uma ameaça ao livre pensamento. A poesia e a literatura analisam o mundo exterior, fazem com que tenhamos de entrar em confronto direto com sentimentos que levantam questões e dúvidas que temos de saber dar resposta.

Ensaio
16 Junho 2022

“Quando já nada se espera de pessoalmente exaltante,

mas se palpita e se continua para cá da consciência,

ferozmente existindo, cegamente afirmando,

como um pulso que lateja nas trevas,

 

quando se olham de frente

os claros olhos vertiginosos da morte,

dizem-se as verdades:

as bárbaras, terríveis, amorosas crueldades.

 

Dizem-se os poemas

que dilatam os pulmões de quantos, asfixiados,

pedem ser, pedem ritmo,

pedem lei para o que sentem excessivo.

 

Com a velocidade do instinto,

com o raio do prodígio,

como mágica evidência, converte-se o real

no idêntico a si mesmo.

 

Poesia para o pobre, poesia necessária

como o pão de cada dia,

como o ar que exigimos treze vezes por minuto,

para ser e enquanto somos dizer um sim que glorifica.

 

Porque vivemos de vez em quando, porque mal nos deixam

dizer que somos quem somos,

nossos cantos não podem sem pecado ser um ornamento.

Estamos a tocar o fundo.

 

Maldigo a poesia concebida como um luxo

cultural pelos neutrais

que lavando as mãos, se desinteressam e evadem.

Maldigo a poesia de quem não toma partido até manchar-se.

 

Faço minhas as faltas. Sinto em mim quantos sofrem

e canto ao respirar.

Canto, canto, e a cantar para além de minhas mágoas

pessoais, fico maior.

 

Quisera dar-vos vida, provocar novos actos,

e calculo por isso com técnica, que venço.

Sinto-me um engenheiro do verso e um operário

que com outros trabalha Espanha nos seus aços.

 

Assim é a minha poesia: poesia-ferramenta

e ao mesmo tempo pulsação do unânime e cego.

Assim é, arma carregada de futuro expansivo

com que aponto ao peito.

 

Não é uma poesia gota a gota pensada.

Nem um belo produto. Nem um fruto perfeito.

É algo como o ar que todos respiramos

e é o canto que difunde o que dentro levamos.

 

São palavras que todos repetimos sentindo

como nossas, e voam. São mais que o que elas dizem.

São o mais necessário: o que não possui um nome.

São gritos no céu, e, na terra, são actos.”

Gabriel Celaya

 

O poema que dá título a este ensaio pertence a Gabriel Celaya e tem tanto de simbolismo como de legado. Gabriel Celaya foi membro de um grupo intelectual que escreveu poesia social (foi assim que ficou conhecido este movimento de escrita espanhol) como forma de denúncia da ditadura de Francisco Franco nas décadas de 1950 e 1960, portanto, contemporâneo da ditadura de António de Oliveira Salazar.

Gabriel Celaya reúne em cada estrofe, e no poema inteiro, a importância da cultura tanto nos seus agentes criadores como em quem a recebe. A arte quebra o ritmo de rotinas, de monotonias do quotidiano e com sentimentos, expõe-nos a novas visões, perspectivas e ideias de outros. A arte faz pensar e é tão válido fazer pensar em algo mais positivo como transmitir algo com que não nos identifiquemos ou que seja, até, negativo: mas há reação e pensamento. É perante este confronto e exposição à criatividade, produção e emoções que é possível formar consciência sobre o que nos rodeia. A poesia é uma arma carregada de futuro, é uma ode à resistência.

Há no exercício da memória e no regresso a tempos que, muitos de nós já mal se lembram, e que outros não chegaram a viver, uma identificação e proximidade ao outro. A memória permite-nos chegar à empatia necessária para saber lidar com situações que se podem repetir. A história não se repete, é certo, mas há linhas de continuidade.

Os vários tipos de arte, que acabam por nos construir a cultura, são dos primeiros a ser silenciados ou reduzidos. São uma ameaça ao livre pensamento. Um povo que pouco se interroga, é um povo submisso e fácil de controlar. E a arte faz questionar. A poesia e a literatura analisam o mundo exterior à nossa volta, fazem com que tenhamos de entrar em confronto direto com sentimentos que levantam questões. Dúvidas às quais, uma vez confrontados com elas, teremos de saber dar resposta.

A arte e a poesia de oposição ao Estado Novo não isolavam quem a lesse ou ouvisse: expunha. Expunha o que se passava no dia-a-dia concreto do povo, em confronto direto com a inércia ou ação que cada indivíduo decidia tomar a partir do conhecimento a partir daquelas palavras.

A poesia foi forma de denúncia de repressão de um povo inteiro onde a taxa de analfabetismo rondava os 75% nas mulheres e 70% nos homens, e a maior parte da população estava afastada do usufruto da arte e da cultura.

É recorrente ouvir-se a ideia de que a poesia não vende ou não é atrativa. Tal como existe o estranho hábito de perguntar a alguém se gosta de ler, há quem pergunte de seguida se gosta de poesia. Ora, a poesia está em boa parte do nosso dia-a-dia e talvez, se soubermos como dar por ela, seja possível começar a dizer e ouvir mais vezes que se gosta de poesia. 

A poesia é também parte importante da nossa história social, onde desempenha um papel de importância a poesia como revolução ou parte dela. A cultura e a arte como pilares de não desistência e aglutinadores de novos lutadores pela liberdade.

Desmistificar a poesia, saber como a identificar e de que forma está tão viva em vários processos da nossa vida social são passos importantes a dar para se ficar atento sobre onde a descobrir e como a temos próxima. Um dos exercícios mais recorrentes nestas coisas é ir à origem da palavra poiein. A origem da palavra poesia significa precisamente fazer. É o uso da palavra em ação. Nasceu como imitação do real, da vida, como ficou marcado na Poética de Aristóteles, por exemplo, uma operação que consiste no ato de refazer com as palavras, algo que seja o mais próximo possível da realidade. Poesia é agir, ter agido ou deixar a intenção de vir a agir. A poesia constitui-se como uma representação singular da realidade, não se limitando a descrevê-la.

A poesia como forma de denúncia de repressão de um povo inteiro, de um país sem voz, onde a taxa de analfabetismo rondava os 75% nas mulheres, 70% nos homens, e onde a maior parte da população era pobre e afastada de meios culturais e intelectuais. A poesia aliada à música tenta chegar a um espaço onde a poesia apenas escrita não chegava (ou pelo menos pretendia também chegar mas encontrava variadíssimos entraves), saindo destas bolhas intelectuais. 

A ideia era passar uma mensagem a um povo reprimido, para que lutasse, para que não se conformasse e, não menos importante, para que não se sentisse só neste processo difícil. Era, portanto, aos poetas, aos letristas ou aos cantautores que se exigia que aprimorassem cada vez mais a subtileza de passar uma mensagem e conseguir escapar simultaneamente à censura.

Esta arte, esta poesia, não tinha objetivo comercial à altura da sua criação e produção. O objetivo era desassossegar. O fim era a liberdade comum.

A polícia política não forçava ao exame prévio dos livros. Os livros eram publicados e os editores tinham depois de enviar um exemplar aos censores.
Se estes não gostassem, eram confiscados os exemplares das livrarias de todo o país.

Durante o regime político do Estado Novo, toda a imprensa e o jornalismo eram diariamente vigiados, escrutinados pela censura. Uma censura articulada com a intervenção da Polícia Internacional  e de Defesa do Estado (PIDE). Todos os artigos que fossem publicados tinham de passar antes pela censura, e os jornalistas eram forçados a negociar com os seus censores. Por vezes palavra a palavra. E quem desobedecesse, como aconteceu com tantos jornais da oposição, era alvo de avultadas multas, o que mais cedo ou mais tarde levava ao encerramento das publicações. A astúcia era uma das principais armas dos jornalistas.

O livre-pensamento era limitado e a criação e produção de arte teria de passar a existir, resistindo. À falta de liberdade, a astúcia para sobreviver nela é aguçada. Do mesmo modo sofreu a literatura portuguesa. Durante o Estado Novo foram confiscadas centenas de livros. Alguns escritores foram submetidos a um julgamento pela sua atividade literária.

A literatura, a palavra, foi uma arma contra a ditadura e a guerra colonial (1961-1974) portuguesas, sendo importante mencionar que era aplicada uma forma distinta de censura de obras, para a Metrópole e obras para as Colónias.

Ficou então conhecida como a censura do “lápis azul”, mas várias foram as cores usadas ao longo da longa ditadura portuguesa para proibir palavras, páginas, ideias, ideais e autores. A lista é longa. Aos poetas e poetisas, a censura foi atenta e existem na extensa lista de proibições nomes como Natália Correia, Maria Teresa Horta, Maria Archer, Mário Cesariny, Manuel Alegre, Luís de Sttau Monteiro, Miguel Torga, José Afonso, Herberto Helder, Ary dos Santos, etc..

Sendo os temas abordados na poesia, na arte, tão vastos e abertos quanto o número de diferentes realidades vividas pelos seus autores, nesta fase ditatorial de Portugal era a repressão de todo um povo, fosse contra os aristocratas, mais ou menos burgueses, estudantes, mais ou menos pobres, o seu tema em comum.

A lista de autores e poetas que nesta fase tomaram a política como sua e seu principal tema para fazer arte e foram censurados, proibidos, julgados e presos é imensa: cerca de 900 livros. A polícia política, exceptuando alguns casos, não forçava ao exame prévio dos livros, optava antes por uma estratégia ainda pior. Os livros eram publicados e os editores tinham depois de enviar um exemplar aos censores. Se estes não gostassem, organizavam operações policiais para confiscar os exemplares das livrarias de todo o país. O dinheiro investido pelas editoras ficava assim perdido.

A música de intervenção andou desde o início de mãos dadas com poetas contra o regime. Era aqui que os sons iam beber para nascer e ser criados.

É importante mencionar que esta fase de poesia de intervenção ou poesia mais política teve vários nomes sonantes de mulheres que não se calaram ou deixaram de produzir e escrever tanto para obras em nome próprio como para outros, algumas delas constantemente na mira do lápis azul. Tinham plena consciência das consequências que esses atos de não vacilar lhes poderiam trazer, tendo levado inclusive a julgamento. Recorde-se Natália Correia e o caso das Três Marias - Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa com as Novas Cartas Portuguesas. Nas épocas em que os homens não têm voz, as mulheres ainda menos atêm, e isso merece especial atenção pela afirmação extra de coragem e resistência.

Numa época em que o regime imposto não incentivava ajuntamentos de pessoas, principalmente na rua, era nos meios académicos, em saraus de casas particulares, de forma clandestina, que proliferavam e eram mantidos muitos dos movimentos intelectuais. Era nestas ocasiões que artistas descomprimiam, socializavam e, não menos importante, se influenciavam uns aos outros.

Aos intelectuais que não fizessem parte de um meio aristocrático de nascença, era nos meios académicos, clandestinos e de ligações partidárias, que conseguiam ter acesso ao livre pensamento, escolha e necessidade de tomar ação na mudança que queriam ver em Portugal. Foi nestes meios que nasceram muitos dos poetas e autores que encontraram sempre formas de falar numa altura em que era francamente dispensável fazê-lo.

Muitos poetas e músicos caminham lado a lado, circulando nos mesmos meios e aproximando-os o objetivo principal da fase ditatorial: a procura por uma voz que falasse por todos.

Das músicas e dos músicos de intervenção ou protesto, vários são os nomes que temos por legado: José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Fanhais, José Mário Branco, Sérgio Godinho, Fausto, Vitorino e Fernando Tordo. Este último escreveu uma claríssima música anti-regime que o levou a representá-la, em nome de Portugal, no Festival Eurovisão da Canção no ano de 1973. A música, chamada Tourada, foi baseada num poema de Ary dos Santos e a censura não a detetou.

A música de intervenção andou desde o início de mãos dadas com poetas contra o regime. Era aqui que os sons iam beber para nascer e ser criados. A musicalidade e o ritmo de um poema, os meios em comum que muitos dos intelectuais experienciavam, levou a que musicar poemas e passar a escrever para cantores e músicos contra regime fosse o caminho natural.

Os poetas, tal como outro artista qualquer desperto e consciente do seu tempo de criação, sabiam que nenhuma falsa ideia de viver numa redoma de vidro lhes valeria perante a censura. Estavam tão expostos como qualquer outro cidadão e por isso a sua realidade era a de todos os outros. A sua denúncia unia poetas, cantores e músicos.

Foi no meio académico de Coimbra que Manuel Alegre conheceu Adriano Correia de Oliveira e, juntos, acabaram por compor em conjunto a música As Mãos, claramente de oposição ao regime. Não foram casos únicos. José Mário Branco musicou poemas de Natália Correia, de Eugénio de Andrade, de Sérgio Godinho, de Eugénio de Andrade, de Manuela de Freitas, de Alexandre O’Neill, entre outros. Além disso, Ary dos Santos escreveu tantos poemas políticos para inúmeros intérpretes musicais.

A poesia (ou letras de intervenção) deverá ser vista como um legado desta altura específica política do país, um legado de uma riqueza tão substancial para a cultura.

Muitos destes músicos intérpretes eram já eles próprios autores de poemas ou viriam a tornar-se por quererem dar as suas próprias palavras aos sons que iam descobrindo. Os poemas podem ser lidos como se o autor fosse espectador, mas o autor era também povo. Era o mesmo povo reprimido e era o povo mais exposto à censura, e demais consequências da política do Estado Novo.

Tanto os poemas e as suas letras como as músicas que as envolviam muitas das vezes devem ser vistos como documentos e fontes essenciais para se perceber como se lutou, o que se fez e como se fez,  a luta num país proibido de reagir.

Há na poesia de resistência a denúncia da realidade opressiva, desespero, gritos de raiva em conjunto com apelos à não-rendição, à luta, ao seguir firme e em frente. Existe esperança no alcance de vida melhor que parece utopia e há o apelo a que se continue a acreditar nesse alcance. Há espaço para sonhar nas várias entrelinhas de interpretação de cada estrofe. Encontravam-se exatamente as mesmas necessidades nos sons musicais que seriam criados nesta fase. Portanto, as palavras completavam e davam continuidade ao sentimento das músicas e novos sons de protesto. A arte era agora também uma consequência da ditadura.

Para que existisse uma maior possibilidade de produzir e editar algumas músicas, fazer chegar uma mensagem escapando à censura, alguns dos autores apenas o conseguiram fazer por se encontrarem exilados à altura destas produções, como foi o caso de José Mário Branco, exilado em Paris. A poesia política (ou a poesia de intervenção) encontrou sempre várias formas de ganhar vida e por isso maiores eram as  probabilidades de proliferar antes de chegar a qualquer tipo de censura.

A poesia (ou letras de intervenção) deverá ser vista como um legado desta altura específica política do país, um legado de uma riqueza tão substancial para a cultura. São pontos de partida e de chegada ao ato de construir pensamento, e assim continuarão por quantas mais gerações as não permitam morrer e sirvam de incentivos a novas criações.

Há na poesia um sentido prático e romântico de imaginação, de sonhar, mesmo quando expõe a realidade à sua volta. A poesia, tal como outra forma de arte, são elementos essenciais de criação de pensamento e incentivo à capacidade criativa e empática de qualquer sociedade, independentemente da época em que se viva. 

A democratização cultural, a liberdade de participação na cultura, é um dos principais valores presentes em estados que se pressupõem democráticos. Assim, quando um Estado não respeita os artigos da Constituição que a definem como um direito, permitindo que toda a população chegue de igual forma à cultura e ao património, as condicionantes no pensamento serão sempre uma realidade.