É policy e practitionar fellow do Centre Analysis of the Radical Right (CARR) e analista de risco reformado. Foi professor na Universidade Europeia do Chipre. 

Pode o extremismo individual da extrema-direita ser "curado"?

A atenção dos programas de desradicalização não deve estar apenas focada em adultos insensíveis que comprovaram as suas credenciais extremistas através de condenações por terrorismo ou crimes de ódio, mas também em crianças em risco de cair no isco da extrema-direita. 

Ensaio
29 Outubro 2021

Uma das perspetivas sólidas do “movimento” antiextremismo (seja governamental, policial, institucional, académico, da sociedade civil ou ativista) é a de que, com um esforço sustentado e orientado, é necessário e viável erradicar a radicalização e o extremismo. Há anos que o programa Prevent, do governo britânico, e o DARE, da União Europeia, têm vindo a fazer um enorme esforço nesse sentido. Embora o foco inicial desse esforço fosse a radicalização islâmica, ligada principalmente à Al-Qaeda e ao Estado Islâmico, nos últimos anos, a ameaça crescente do extremismo da direita radical virou praticamente a mesma atenção para si. No entanto, nunca é fácil combater a radicalização e há vários obstáculos.

Este ensaio examina a viabilidade da contrarradicalização e desradicalização da direita radical, motivos para ter prudência e potenciais desilusões, bem como abordagens promissoras.

A Base e o Âmbito da Contrarradicalização e Desradicalização

Foram propostas várias definições de radicalização. Por exemplo, Clark McCauley e Sophia Moskalenko partilham a ideia de um processo de desenvolvimento de crenças extremistas, emoções e comportamentos que são naturalmente supremacistas e com expectativa e planeamento de conflitos intergrupos. A essência da desradicalização é persuadir indivíduos em risco a 1) melhorar esses aspetos da sua visão do mundo, crenças, valores, atitudes e opiniões que os predispõem a apoiar ideologias radicais e ideias danosas para os outros e para a sociedade, especialmente a predisposição para a violência e outras manifestações extremas de tal ideologia; e 2) em concordância, a alterar o seu comportamento.

Em vez de imposição ou coação, a metodologia para a mudança é maioritariamente indutiva e procura substituir o conhecimento odioso, pressupostos ou atitude violenta por um sentido voluntário de responsabilidade, tolerância e renúncia de violência e ideologia negativa.

Do meu ponto de vista, o termo “indivíduos em risco” abrange não só extremistas que já se mostraram dispostos a envolver-se em violência, intimidação ou coação para promover as suas crenças e valores e alcançar os seus fins ideológicos e sociopolíticos, mas também um grupo muito maior de simpatizantes, apoiantes e ativistas da direita radical. Alguns dos últimos podem muito bem apoiar ideias e atividades extremistas, mas até agora podem não ter atravessado a linha para planeá-las e facilitá-las.

Há aqui uma questão de classificação. Muitos, incluindo a posição oficial do CARR, fazem a distinção entre extrema-direita e direita radical. Nessa aceção, a extrema-direita é vista como efetivos e potenciais extremistas (definidos como preparados para apoiarem ou envolverem-se em atos de violência ou outros métodos antidemocráticos), enquanto a direita radical é definida como aqueles envolvidos (de forma implícita, se não explicitamente) na democracia e não preparados para se envolverem em violência.

Pode ser altamente enganador imaginar que os apoiantes da extrema-direita caem em dois grupos que se excluem mutuamente: a “verdadeira” direita radical, não violenta e democrática, e um grupo de potenciais ou reais extremistas que defende a violência.

No entanto, considero que esta dicotomia é inútil, na medida em que ignora que (psicologicamente) existe um continuum da direita radical que vai desde aqueles que têm personalidades menos patológicas (poderiam votar no UKIP, no partido do Brexit, ou no Reform UK), aos que têm posições mais extremas, de anti-imigração e supremacia etnorreligiosa, antagonismo e intimidação, (BNP, Britain First, EDL, For Britain), uma vez que alguns dos apoiantes destes partidos participam em ações de desordem pública e violência. E, por fim, vai até aos grupos terroristas de direita radical proscritos que se envolvem em violência como uma questão de ordem política (National Action, Atomwaffen, Scottish Dawn, NS131, System Resistance Network, Feuerkrieg Division).

Além disso, é sabido que pessoas que começam por aderir ou apoiar entidades não violentas como o UKIP podem migrar mais para a direita posteriormente e apoiar organismos mais extremistas ou até juntar-se a grupos terroristas. Por exemplo, Dean Morrice, terrorista de extrema-direita condenado, punido com uma pena de 18 anos de prisão mais 5 de pena suspensa em junho de 2021, gabava-se de ser “um pouco fã de Nigel Farage” e tinha sido aderente do UKIP. Ann Marie Waters foi candidata à liderança do UKIP em 2017 apesar de defender abertamente o encorajamento à adesão de grupos de extrema-direita como o BNP e o EDL.

Também descrevia abertamente o Islão como demoníaco e desistiu do UKIP para se tornar cofundadora do PEGIDA UK, o rival britânico da organização homónima antimuçulmana e anti-imigração da Alemanha, ao lado do ativista de extrema-direita Tommy Robinson. Pouco depois, fundou um novo partido de extrema-direita, o For Britain.

De facto, também ocorrem contrafluxos em que aqueles com afiliações mais extremas se juntam a grupos menos extremos, presumivelmente com o objetivo de radicalizá-los e não porque se tenham moderado. Por exemplo, Robinson começou no BNP, partido de extrema-direita, depois passou para o EDL, posteriormente para o PEGIDA UK e, finalmente, tornou-se assessor de Gerard Batten, durante a sua liderança do UKIP, marcada por posições antimuçulmanas e anti-imigração.

Portanto, pode ser altamente enganador imaginar que os apoiantes da extrema-direita caem em dois grupos que se excluem mutuamente - a “verdadeira” direita radical, que se assume não violenta e democrática, e um grupo de potenciais ou reais extremistas que defende a violência, inclusive o derrube da democracia.

Na realidade, a direita radical apresenta um continuum de visões iliberais do mundo e graus de autoritarismo, dentro do qual opera um espectro de entidades (aliadas) autodenominadas, que vão desde as ultraconservadoras mas não violentas até às terroristas, cada uma com as suas próprias matizes de objetivos ideológicos e sociopolíticos dentro da “marca” da direita radical. Há uma fluidez considerável na filiação individual ao longo deste espectro, quer na direção quer ao longo do tempo.

Além disso, com uma simples dicotomia entre direita radical e extrema-direita, há um perigo (pelo menos na perceção e perspetiva pública) de que a atenção para a desradicalização seja direcionada para extremistas que já foram condenados por terrorismo e/ou crimes de ódio, enquanto se ignora o número muito maior de outros no espectro da direita radical que representam uma potencial ameaça ao simpatizar com, apoiar ou até se envolverem em atos extremistas.

A desradicalização também precisa de se focar no grande número de potenciais extremistas atualmente à espreita nas restantes fileiras do espectro da direita radical. É certamente aqui que a prevenção proporciona uma intervenção preferencial à mera espera para reagir.

Como indicam os casos acima, há boas razões para nos preocuparmos com indíviduos que possam ser ultraconservadores insatisfeitos mas que, gradualmente, permitam que o seu rancor e as suas frustrações pela falta de progresso em relação aos seus objetivos de direita radical os induza a adotarem uma perspetiva mais extrema e os prepare para agir. Além disso, nos últimos cinco anos, houve um número crescente de condenações por terrorismo de extrema-direita de adolescentes com menos de 18 anos no Reino Unido.

Alguns destes iniciaram os atos extremistas aos 13 anos e, como menores, não podem ser nomeados ao abrigo da lei britânica. Como exemplo, na Cornualha, um jovem de 16 anos, condenado em fevereiro de 2021 por doze crimes de terrorismo, começou a sua atividade na extrema-direita aos 13 anos. Primeiro juntou-se ao fórum online Fascist Forge e, mais tarde, assumiu um papel de liderança na Feuerkrieg Division (designada organização terrorista proscrita em julho de 2020). Paul Dunleavy, adolescente de 17 anos de Rugby, foi condenado por nove acusações de terrorismo em novembro de 2020 e detido por cinco anos e meio. Também ele tinha sido mebro da Feuerkrieg Division, organização neonazi.

Em junho de 2021, um jovem de 14 anos de Derbyshire que tinha ameaçado perpetuar ataques violentos a migrantes foi condenado por crimes de terrorismo ligados à extrema-direita. Também em junho de 2021, Andrew Dymock, de 24 anos, que tinha iniciado a sua atividade na extrema-direita aos 18 anos, ou mesmo antes, foi condenado por 15 delitos de terrorismo e crimes de ódio.

No prazo de seis meses após a sua proibição, em 2016, um antigo membro da National Action tinha formado a System Resistance Network, outro grupo de extrema-direita proibido em fevereiro de 2020, que funcionava como pseudónimo do primeiro. Dymock tinha criado ainda a Sonnenkrieg Division, também proibida por ser uma organização terrorista em fevereiro de 2020.

Assim, no âmbito da contrarradicalização e da desradicalização, a atenção não deve estar apenas focada em adultos insensíveis que comprovaram as suas credenciais extremistas através de condenações por terrorismo ou crimes de ódio, mas também em crianças em risco de cair no isco da extrema-direita. Estas duas categorias exigem, sem dúvida, o maior esforço da sociedade para serem "curadas", desde que seja viável.

Não obstante, como realçado acima, a desradicalização também precisa de se focar no grande número de potenciais extremistas atualmente à espreita nas restantes fileiras do espectro da direita radical. É certamente aqui que a prevenção proporciona uma intervenção preferencial à mera espera para reagir e tratar verdadeiros extremistas que já fizeram coisas más. Programas de prevenção e outros de contrarradicalização e desradicalização fazem notáveis esforços preventivos e de cura, mas que impedimentos enfrentam?

Barreiras Psicológicas

Há provas claras de que a contrarradicalização e desradicalização de indivíduos é viável, por exemplo no caso de abordagens de contenção e conversão aplicadas por programas como os dirigidos pela Small Steps, Exit UK, Channel, Prevent e EU DARE. Tais programas têm mais probabilidade de sucesso com pessoas psicologicamente recetivas. Não só requerem a vontade da pessoa em mudar as suas crenças e predisposições perigosas ou resistir à atração sedutora da ideologia e propaganda da extrema-direita, mas também um perfil psicológico passível de tal mudança ou resistência.

Nem todos os candidatos aos programas são psicologicamente recetivos. Entre aqueles dificilmente suscetíveis estão os indivíduos que mostram sinais de distúrbios de personalidade patológicos (narcisismo, psicopatia) ou outras condições mentais (delírios paranoicos) relevantes para as suas visões e conduta extremista. Aqueles que têm convicções de extrema-direita profundas ou fanáticas dificilmente as quererão mudar. 

Um factor de complicação é a duplicidade de indivíduos referenciados para programas de desradicalização. Há provas de que alguns dizem querer mudar e têm sido convincentes por longos períodos, quando ainda mantêm as suas visões e intenções extremistas.

Pode haver melhores perspetivas entre aqueles que sofrem de transtorno de personalidade antissocial, se a sua condição for considerada adquirida/aprendida em vez de ter origem parcialmente genética (ao contrário dos psicopatas) e, portanto, em teoria, as visões e os comportamentos perniciosos podem ser substituídos por outros melhores.

O Small Steps relata que o autismo é um fator cada vez mais prevalente nos seus referenciados, com um aumento de 30 % entre abril de 2020 e o fim de março de 2021. É importante salientar que nem todos os candidatos radicalizados nem os que se encontram no limiar sofrem de transtornos ou doenças mentais, mas uma maioria tem condições e problemas de personalidade que os tornam mais suscetíveis à propaganda e subversão da extrema-direita. No entanto, psicólogos envolvidos em programas de desradicalização com infratores extremistas confirmaram as dificuldades que todos estes programas enfrentam e que não há certeza de que terroristas condenados possam ser curados.

É difícil imaginar que alguns dos mais conhecidos radicais de extrema-direita condenados por terrorismo assassino (Jack Renshaw, Thomas Mair, Darren Osborne, Anders Behring Breivik e Brenton Tarrant) sejam alguma vez considerados aptos psicologicamente para desradicalização.

Outra questão é o reducionismo autoritário. O espectro geral da direita radical definido aqui é caracterizado por um pensamento redutor e seus produtos, como políticas, propaganda e estratégias baseadas em falsificação de dados e simplificação excessiva deliberada de relações de causa-efeito, de forma a fazer de rivais, minorias etnorreligiosas e outros grupos vulneráveis bode expiatório por todo o tipo de alegados males sociais. Uma das principais razões pelas quais a ideologia da direita radical é tão perigosa é o seu reducionismo, a mendácia e o autoritarismo dominantes, que, juntos, criam uma sedutora ilusão de salvação garantida.

Um estudo recente de Leor Zmigrod indica que atitudes ideológicas como um pensamento autoritário, redutor e dogmático têm uma base biológica cognitiva em que os exponentes têm uma incapacidade inata para enfrentar tarefas cognitivas complexas. Para estes, o reducionismo é uma necessidade para minimizar a incerteza e para se sentirem em controlo, correlacionando-se com posturas e declarações dogmáticas e autoritárias. Para aqueles em risco de radicalização, a atratividade da ideologia de extrema-direita, embora extrema, é a oferta da salvação fácil (pessoal bem como social).

Esta envolve a limpeza minuciosa de uma sociedade alegadamente podre - tudo baseado na explicação simplificada e dogmática das causas da alegada podridão e da solução infalível. Se as conclusões deste estudo forem consideradas verdadeiras para todo o espectro da direita radical, poderá existir implicações negativas nos programas de contrarradicalização e desradicalização, pois os sujeitos poderão preferir o conforto de modelos de causa-efeito simplificados incorporados na ideologia e ações da direita radical. A sua vontade de mudar pode ser naturalmente atenuada.

Outro factor de complicação é a duplicidade por parte dos indivíduos referenciados para programas de desradicalização. Há provas de que alguns indivíduos afirmam querer mudar e têm sido muito hábeis a agir de forma convincente por longos períodos como se tivessem mesmo mudado quando, na realidade, ainda mantêm as suas visões e intenções extremistas. O caso do terrorista condenado Usman Khan é ilustrativo.

No fim da adolescência, Khan teve uma longa história de envolvimento com grupos proselitistas ligados à Al-Qaeda no Reino Unido. Em 2012, foi condenado por preparar atos terroristas e punido com pena indeterminada com um limite mínimo de 8 anos de prisão. Na prisão, participou em dois programas de desradicalização obrigatórios - o Healthy Identification Programme (HII) e o Desistance and Disengagement Programme (DDP) - e num programa de reabilitação (Learning Together) realizado por estudantes da Universidade de Cambridge. Foi libertado sob pena suspensa em 2018.

Foi considerado um caso de desradicalização tão bem-sucedido que se tornou um exemplo fundamental para estas intervenções e fez parte de um projeto de vídeo do Learning Together. Em 2019, foi convidado a participar num encontro do Learning Together no Fishmonger's Hall, em Londres. Apesar de inicialmente se ter comportado cordialmente com os anfitriões do encontro, de repente exibiu uma faca e esfaqueou mortalmente dois dos seus antigos colegas do Learning Together e feriu três outros antes de ser confrontado e perseguido por outros participantes. Por fim encurralado e dominado por eles na London Bridge, ao chegar, polícia descobriu que Khan usava um aparente colete de explosivos (na verdade, falso) e foi imediatamente alvejado e ferido fatalmente.

Apesar de o caso de Usman Khan estar relacionado com o extremismo islâmico, não há razão para supor que a questão da duplicidade não se aplicaria também à desradicalização de extremistas da direita radical.

Os programas de contrarradicalização e desradicalização não conseguem competir com o volume implacável de material extremista e de mensagens de fontes online.

Brader relatou as dificuldades em avaliar apropriadamente programas como o HII e o DPP e salientou que, até então, tais avaliações estavam incompletas. Em 2018, um estudo de avaliação do Ministério do Interior reportou que 95 % destes programas eram ineficazes, e o relatório de Jonathon Hall Q,C, de 2021 lança mais dúvidas sobre a eficácia de programas de contenção e conversão.  O relatório da Bellis & Hardcastle afirma que dos 7318 recomendados ao Prevent em 2017, ligeiramente menos de 400, ou cerca de 5 %, foram considerados aptos para intervenção.

Apesar dos relatórios sombrios, o programa Small Steps (na verdade, conduzido por antigos ativistas de extrema-direita) reportou uma taxa de sucesso de 86 % no ano fiscal 2020-2021, o que sugere que a sua abordagem apolítica sem juízos de valor pode proporcionar um modelo para aplicação mais ampla.

O caso específico de Usman Khan evidenciou três grandes fraquezas: 1) expectativas irrealistas de sucesso de programas de desradicalização, incluindo pensamento ilusório entre os provedores do programa, o governo e os políticos; 2) a ingenuidade de que extremistas calejados e empenhados não procurariam levar os provedores a acreditarem que tinham rejeitado permanentemente as suas crenças e tendências violentas; e 3) desleixo sobre as ameaças representadas por extremistas violentos de alto-risco e pela fraca colaboração e comunicação entre as várias partes responsáveis pela desradicalização e reabilitação.

Apesar de casos como o de Usman Khan terem realçado as consideráveis fraquezas no sistema de contrarradicalização e desradicalização, não são motivo para a sua rejeição descontrolada. Os três pontos fracos são capazes de ser enfrentados. Talvez não eliminados, mas substancialmente reduzidos.

Os Canais de Propaganda da Extrema-Direita e da Direita Radical

O advento da internet e das redes sociais transformou a capacidade de comunicação e encorajamento mútuo dos radicais e extremistas de todas as convicções ideológicas e políticas, mas também de subversão e de fazer lavagens cerebrais em massa para se tornarem recrutas dispostos à sua causa. Os meios de comunicação social e o online tornaram-se os seus canais de eleição para propaganda, proselitismo, fake news, falsas teorias de conspiração e para atacar os seus inimigos e alvos de ódio.

Para programas de contrarradicalização e desradicalização, a utilização "armada" do mundo online pela extrema-direita e direita radical provou ser uma grande dor de cabeça. Crianças, adolescentes e a geração mais jovem no seu conjunto tendem a ficar fascinados pelo Facebook, Twitter e outras instituições online, pelo que se tornam presas fáceis para a sedutora propaganda salvacionista dos extremistas. Adolescentes vulneráveis com personalidades frágeis e perturbadas e com a falta de objetivos e programas alternativos e positivos são especialmente suscetíveis. Os programas de contrarradicalização e desradicalização não conseguem competir com o volume implacável de material extremista e de mensagens de fontes online.

Como observado em vários relatórios, os operadores de plataformas de redes sociais e online como oportunistas comerciais continuam muito relutantes em autorregular-se removendo conteúdos perniciosos colocados por criminosos, pedófilos e extremistas. O Facebook e a Google juntos ganham mais de 200 mil milhões de dólares por ano, incluindo lucros provenientes da permissão de tais conteúdos. Talvez apenas penas pesadas que ascendam a pelo menos 10 % dos lucros e/ou penas de prisão para gestores os forçarão a autorregularem-se.

Barreiras de Recurso

Apesar do financiamento público de programas tão fundamentais como o Prevent, HII, DDP e DARE, é provável que a adequação do financiamento de todos os programas, pelo Estado ou não, seja um problema constante. Mesmo quando são parte integral da política governamental, tal facto não garante que o financiamento satisfaça a "análise de necessidades" de execução. Mais, se houver e quando há um contratempo ou um grande falhanço em determinado programa específico, aumentam os argumentos daqueles que acreditam que o programa não é adequado à finalidade nem acrescenta valor ao dinheiro dos contribuintes, pelo que deve ser modificado, limitado ou mesmo interrompido.

Para os programas apoiados parcialmente ou inteiramente em fundos humanitários, doações, trabalho voluntário e receitas próprias, a falta de recursos humanos é um fator limitante provável para a sua dimensão e quantas pessoas referenciadas podem tratar. Por exemplo, como mostra a seguinte tabela, o programa privado Small Steps, que começou em 2015, cresceu rapidamente desde 2018.

No entanto, estes fanáticos e extremistas estão numa ponta do espectro da direita radical, são um número relativamente pequeno, e só uma parte deles será passível de desradicalização.

Nos últimos dois anos fiscais, 2019-2020 e 2020-2021, o número de casos (pessoas que precisam de mais de dois meses de acompanhamento) aumentou de 30 para 81 (270 %), dos quais a introdução dos seus parceiros subiu 217 % no caso do EXIT UK e 443 % no caso do Exit Family Support. O número de participações no Small Steps (pessoas que precisam de menos de 2 meses de acompanhamento) aumentou de 60 para 276 (460 %). Os funcionários destes programas estão de prevenção 24 horas por dia, 7 dias por semana.

A elevada taxa de sucesso do Small Steps (86 %), com um staff muito reduzido, sugere que, para benefício da sociedade, uma expansão do programa está garantida, para que centenas de referenciados por ano possam passar a milhares. Outros programas por todo o país que seguem o modelo do Small Steps também parecem estar assegurados. Tal permitiria que a atividade de prevenção e dissuasão fosse muito mais viável e eficaz entre jovens suscetíveis que caminham para a radicalização, bem como para aqueles já radicalizados que desejam afastar-se da ideologia extremista da direita radical.

O financiamento empresarial tem um potencial papel fundamental no apoio e expansão destes programas. Isto adviria muito provavelmente de organizações com fortes políticas de responsabilidade social e de antiextremismo. Como discutido no meu artigo da CARR Insight de 2 de junho de 2021, um número crescente está a adotar o "novo modelo", que antecipa a evasão e rejeição de apoio a qualquer ideologia antissocial, discriminatória, racista, predatória ou extremista em todas as dimensões das empresas - emprego, economias locais, impacte ambiental, alterações climáticas, relações comunitárias, direitos laborais, direitos humanos etc.

Conclusão

Ao invés de termos expectativas irrealistas - especialmente objetivos elevados - para o sucesso do programa, seria melhor reconhecer os enormes desafios dos programas de contrarradicalização e desradicalização. A fraca aptidão psicológica de muitos indivíduos limita automaticamente o potencial sucesso no que toca a números, e a duplicidade é um risco permanente entre aqueles que são selecionados para intervenção.

No entanto, apesar das limitações óbvias, políticos, círculos governamentais e os meios de comunicação social mantêm estes programas com uma taxa de sucesso irrealista. A censura política e mediática sobre o incumprimento de objetivos inatingíveis de "ação" e "cura" pode encorajar involuntariamente exigências populistas reativas de um tratamento draconiano de "contenção e punição" de todos estes criminosos e mesmo o abandono destes programas.

Ao passo que abordagens de contenção e prevenção são claramente o caminho mais apropriado para a prevenção e contrarradicalização no vasto espectro da direita radical, como tenho observado noutros sítios, “tais... esforços dificilmente persuadirão a maioria dos ativistas do núcleo duro da extrema-direita a retratarem-se, desradicalizarem-se e a converterem-se a posturas e comportamento moderados. Para estes, realisticamente talvez só seja possível uma combinação de contenção e punição”.

No entanto, estes fanáticos e extremistas estão numa ponta do espectro da direita radical, são um número relativamente pequeno, e só uma parte deles será passível de desradicalização. O resto do espectro requer uma estratégia diferente, baseada em dissuasão, prevenção, contenção e conversão. É necessário investimento financeiro para que aumente exponencialmente e recursos para modelos e programas comprovados.

Artigo publicado sob a parceria Centre Analysis of the Radical Righ(CARR)/Setenta e Quatro.