Olhos que veem, coração que cala

As lágrimas do Luís caíam por detrás da objetiva, eu engolia as lágrimas, porque me pediam para trazer bebés para Portugal. Atava o coração. A fronteira, nestes casos, entre a cidadã e a jornalista é muito ténue. É fácil o instinto sobrepor-se à razão.

Ensaio
17 Março 2022

Senhora, senhora, leva o meu filho, leva para Portugal!” Foi assim que em 1994, em Malange, Angola, num enorme e velho complexo que um dia foi indústria, uma mulher despojada de tudo, se dirigiu a mim. Em plena guerra fratricida, a equipa da SIC voou num avião militar com uma ONG para aquela cidade angolana, à época cercada pela UNITA. Tínhamos como missão fazer reportagens para uma emissão especial.

Chamou-se “África Amiga” e serviu para angariar donativos, através da antena da SIC, para os povos de Angola e Moçambique, martirizados pelas armas, pela fome, pelo abandono. Eu e o Luís Pinto (Repórter de Imagem) fomos para Angola. À noite, na varanda de um antigo hotel decrépito e sujo de Malange, víamos as balas tracejantes. De dia, confrontávamo-nos com os rostos, corpos cansados, tristes e com fome.

Ser jornalista, ser repórter, também é isso: É sermos mais do que nós, mesmo quando faz doer a alma! E nesta profissão, a alma dói muitas vezes.

As ONG’S distribuíam o que podiam. As mulheres e crianças sentavam-se no chão, com uma lata a fazer de chávena, em fila, à espera de um fio de leite e bolachas. As mães sofriam a dobrar com o sofrimento dos filhos. Estávamos ali para retratar este cenário macabro.

As lágrimas do Luís caíam por detrás da objetiva, eu engolia as lágrimas, porque me pediam para trazer bebés para Portugal. Atava o coração. A fronteira, nestes casos, entre a cidadã e a jornalista é muito ténue. É fácil o instinto sobrepor-se à razão.

Ética foi a razão pela qual não relatei o início deste texto na reportagem sobre Malange. Foi um grito de socorro de mulher para mulher, não de mulher para jornalista. Não precisava de dizer mais do que as imagens já relatavam. A miséria estava escancarada. A objetividade da objetiva dispensava legendas. O que fosse acrescentado, seria sensacionalismo.

Em 1996 voltei a Moçambique, pela primeira vez, depois de ter abandonado o país aos 11 anos. Fomos fazer uma Grande Reportagem sobre Retornados. Também com o Luís Pinto, meu companheiro de viagens a África. Importante referir, porque, no terreno, a boa camaradagem e o conhecimento mútuo contribuem para o sucesso do trabalho.

Eu própria sou retornada e fomos com o Sr. Melo, o nosso convidado, que voltou a Moçambique 20 anos depois de ter partido. Curiosamente, regressei às terras que me viram crescer. Revi pessoas, casas, ruas, praias e até objetos da minha infância. Chamouse “A minha alma ficou lá”. Na altura, tive de me separar de mim para ser objetiva, tive de ignorar emoções. Volto lá, às vezes, quando me lembro, para digerir o que não me permiti na altura.

Estas duas histórias são, propositadamente, sobre África, para sublinhar o esforço extra que despendo sempre que me desloco “lá” em trabalho. Ser jornalista, ser repórter, também é isso: É sermos mais do que nós, mesmo quando faz doer a alma! E nesta profissão, a alma dói muitas vezes.

Numa outra Grande Reportagem sobre Imigração, entrevistei um jovem ucraniano, pai de família, que se dizia cardiologista. Em Lisboa trabalhava na construção civil. Findo o trabalho e depois de o termos ouvido dizer que não se candidatava ao exame que o admitiria na Ordem dos Médicos em Portugal por lhe faltar o dinheiro, eu e o repórter de imagem Odacir Júnior dividimos a quantia e entregámo-la em mãos.

Fizemos bem? Fizemos mal? O que sei é que esse envolvimento não enviesou a clareza com que retratei aquela estória de vida.

Mais tarde, o Serviço Jesuíta aos Refugiados disse-nos que perdeu o rasto do nosso entrevistado ucraniano e que ele não tinha chegado a fazer o exame. Nem sempre é possível confirmar a veracidade da estória. Confiamos nas instituições que nos contactam, na palavra de quem entrevistamos.

Noutra ocasião, a mesma organização sugeriu-me um tema para reportagem: Tinha um utente que não sabia quem era. Apareceu numa praia no Algarve sem memória. Esteve internado na psiquiatria meses a fio. Falava várias línguas e tinha uma inteligência acima da média.

A ética é a coluna vertebral de um corpo complexo que é o do Jornalismo.

Agarrámos o caso que o próprio solicitou porque se sentia desprotegido por não ter identidade. Calcorreámos o sul do país e os passos por ele dados até chegar a Lisboa. Um psiquiatra disponibilizou-se para lhe fazer “regressão”. Neste processo, a SIC investiu dinheiro, tempo e Recursos Humanos.

Depois das férias da equipa de reportagem, soubemos que o nosso entrevistado estaria em Itália, de onde seria natural e que já sabia quem era. Através de contactos privilegiados na Polícia descobri o número de telefone e liguei-lhe. Recusou-se a terminar a reportagem e ameaçou-nos com um processo caso o fizéssemos.

A equipa jurídica da Impresa garantiu que estávamos à vontade para concluir o trabalho, porque o protagonista o tinha autorizado e desejado. A coordenadora da equipa pediu-me que a concluísse. Recusei-me a fazê-lo. Não podia, em consciência, garantir a mim própria e aos telespectadores que aquele homem esteve sempre a falar verdade.

Esteve? Não esteve? Alguma vez perdeu a memória? Perdeu-a e recuperou- -a, mas manteve a descoberta em segredo? Ou serviu-se de nós? Pelo sim, pelo não, ainda que a reportagem me pudesse um dia, garantir um “Pulitzer” à portuguesa, meti as gravações na gaveta para sempre! A ética é a coluna vertebral de um corpo complexo que é o do Jornalismo.

Em 2013 voltei ao norte de Moçambique para, in loco, observar as riquezas do subsolo. O carvão, o gás natural, o que “mexia” na região e que poderia mudar o rumo da economia daquele povo. Tínhamos, eu e o Luís Pinto, de novo, acabado de aterrar em Tete. Terra quente e a “ferver” de tanta maquinaria pesada que os novos negócios deslocaram para a região. Recebi nesse momento uma chamada de Portugal. A minha melhor amiga de Alcains tinha acabado de partir. Chorei amargamente. Não me despedi dela. Tinha de trabalhar.

O tempo era escasso e a nossa missão não se compadece com algumas vicissitudes dos nossos percursos privados. Apertei a mão do nosso anfitrião e fiz-me repórter, a chorar por dentro!

Este testemunho foi originalmente publicado no Manual de Reportagem REC, organizado por Pedro Coelho, Ana Isabel Reis e Luís Bonixe, e editado pelos Livros Labcom em 2021.