Feminista e Socialista. Mestre em Biologia Molecular e Celular pela Universidade do Porto. Doutoranda em Biologia Circadiana na Universidade de Manchester.

O sono da resistência: quando o capitalismo não nos deixa dormir

Desde a Revolução Industrial que o capitalismo se apropriou do tempo dos trabalhadores, sequestrando-lhes a própria vida e prejudicando-lhes a saúde ao erodir a distinção entre dia e noite. Cada vez dormimos menos e pior. Dormir bem pode ser um ato subversivo?

Ensaio
10 Dezembro 2021

As luzes da cidade escondem o céu noturno, outrora apenas iluminado por astros distantes. O sono esquivo agita-se até que o despertador toque, abrupto e indesejado. A mente cansada, perdida num turbilhão, prepara-se para mais um dia: rotineiro, regido pelo incessante tique-taque. Humanos ou autómatos do relógio?

Na natureza, a passagem do tempo não é marcada por relógios mecânicos ou digitais, mas pelos ritmos resultantes das interações da Terra com o Sol e a Lua. O dia e a noite, as estações do ano, as fases lunares e as marés. 

A vida no planeta Terra está em sintonia com estes ritmos: as flores abrem e fecham em função de mudanças na luminosidade e/ou temperatura, os corais da Grande Barreira de Coral desovam entre outubro e dezembro após uma Lua cheia, os estorninhos guiam-se pelo Sol para estabelecerem a sua rota migratória.

Praticamente todas as formas de vida na Terra possuem um relógio biológico que lhes permite antecipar o ciclo dia-noite. Isto traduz-se na oscilação de funções comportamentais (e.g. ciclo sono-vigília) e fisiológicas (e.g. temperatura corporal, pressão arterial, sensibilidade à dor) com um período de cerca de 24 horas – os ritmos circadianos (do latim circa diem que significa “cerca de um dia”). 

O tempo e o capitalismo industrial

Nas sociedades pré-industriais a passagem do tempo era essencialmente marcada por ritmos geofísicos. Os artesãos e mercadores medievais não seguiam horários rígidos. Abriam e fechavam as lojas quando bem entendiam. Os agricultores intercalavam períodos de trabalho intenso com longos períodos de descanso, seguindo os ritmos da natureza. A vivência do tempo era relaxada.

Em algumas sociedades esta relação com a natureza foi transposta para o relógio mecânico: é o exemplo do “wadokei”, um relógio japonês construído com um sistema de tempo sazonal, ou seja, a duração da unidade de tempo mudava com a estação, aproximando-se do ciclo dia-noite. 

Na Europa, o relógio mecânico, popularizado nos séculos XVII e XVIII, dividia o dia em 24 partes de igual duração, imutáveis ao longo do ano e dissociadas dos ritmos geofísicos.

 

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ciclo circadiano
O relógio biológico e os ritmos circadianos. A, Oscilações circadianas (com um período de 24 horas) no cérebro e nos outros órgãos do corpo são sincronizadas diariamente pelo ciclo dia-noite. B, Ritmos circadianos de cortisol e melatonina, duas hormonas essenciais para a regulação do ciclo sono-vigília. C, Sumário de funções biológicas rítmicas que são reguladas pelo relógio biológico. Adaptado de “The emerging link between cancer, metabolism, and circadian rhythms”.

 

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ciclo circadiano equinócios e solistícios
Representação esquemática de um sistema de tempo sazonal – o “wadokei” – em que a duração de uma unidade de tempo varia em função do ciclo dia-noite e da estação do ano. No Período Edo, o dia e a noite eram divididos em seis partes cada (linhas no círculo interior) e, por convenção, estabeleceu-se que tanto o nascer do Sol (A) como o pôr do Sol (B) ocorriam às seis. No círculo exterior estão representadas as 24 partições do dia convencionadas no relógio Europeu. Adaptado de “The world of Japanese traditional clock”.
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A Revolução Industrial, que deu os primeiros passos na segunda metade do século XVIII na Grã-Bretanha, alterou dramaticamente a forma como medimos, percebemos e sentimos a passagem do tempo. Em 1967, o historiador britânico E. P. Thompson escreveu que “a importância do tempo foi ensinada à primeira geração de operários fabris pelos seus mestres”.

Com a industrialização, o tempo do relógio estabeleceu-se como o indicador absoluto da produtividade, do custo e do lucro. O tempo do trabalhador tornou-se num recurso mensurável que pode ser explorado com vista à maximização da produção e do lucro e a minimização dos custos

Para o Capital, o tempo tornou-se uma obsessão. Os trabalhadores e as suas famílias foram disciplinados, a pontualidade tornou-se uma virtude. Na sua autobiografia datada de 1850, James Myles, trabalhador numa fiação, recordava que “os gerentes faziam como queriam. Frequentemente, os relógios nas fábricas eram avançados de manhã e atrasados à noite”.

O tempo biológico do nosso corpo conflitua com o tempo do relógio: dormimos menos, dormimos quando não devíamos, dormimos mal, simplesmente não dormimos.

Avisos sonoros nas fábricas ditavam o início e o fim do turno, assim como a pausa para o almoço. O tempo das funções biológicas foi usurpado pelo relógio do empregador: os trabalhadores já não comiam ou dormiam quando estavam com fome ou cansados, faziam-no quando fosse compatível com as exigências da produção industrial. 

Como a maioria das pessoas não possuía um relógio, “knocker-uppers” eram contratados para acordarem os trabalhadores a tempo para os seus turnos. Esta profissão emergiu na Grã-Bretanha do século XIX e foi desaparecendo à medida que os relógios despertadores se tornaram mais acessíveis e precisos. 

Todavia, em algumas zonas de Inglaterra, por exemplo Oldham, na área metropolitana de Manchester, continuou a ser uma profissão até à década de 1970

Karl Marx diz-nos que “apropriar-se do trabalho 24 horas por dia é, assim, o impulso imanente da produção capitalista”. Uma das primeiras representações visuais desta sede do capital pelo trabalho contínuo, foi-nos dada pelo pintor inglês Joseph Wright. 

Na sua pintura intitulada “Arkwright’s Cotton Mills by Night”, o edifício de cinco andares da fiação, aninhado entre os vales, é representado com todas as janelas iluminadas, contrastando com a penumbrosa e bucólica paisagem circundante. Os trabalhadores da fiação eram distribuídos por dois turnos de 12 horas. A fiação nunca parava. A distinção entre o dia e a noite havia sido erodida.

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“Arkwright's Cotton Mills by Night” por Joseph Wright de Derby, Inglaterra (circa 1782).

A globalização do capital e a compressão do tempo e do espaço

A primeira ligação ferroviária intercidades do mundo, a ferrovia de Liverpool a Manchester, foi inaugurada em setembro de 1830. Embora tenha sido inicialmente estabelecida para o transporte de passageiros, a sua construção foi estimulada pela necessidade de transportar mercadorias: o porto de Liverpool era a principal porta de entrada marítima para o algodão que era processado nas fiações de Manchester. 

A ferrovia foi preponderante para o sucesso da Revolução Industrial, assegurando a chegada atempada de matérias-primas às fábricas e produtos manufaturados aos mercados a uma fração do custo dos meios de transporte tradicionais. 

Os interesses do capital permeiam todos os aspetos da vida humana. As necessidades mais básicas – a fome, a sede, o sono, a amizade, o amor, o desejo sexual – foram comodificadas.

Os caminhos de ferro não só encurtaram o espaço como também mudaram a nossa perceção do tempo. Viagens de comboio continentais apresentavam desafios temporais particulares. Por exemplo, no século XIX existiam nos Estados Unidos da América (EUA) mais de 300 relógios locais que tinham por base o tempo solar, cada estação de comboio possuía o seu próprio relógio. 

Para facilitar a coordenação dos horários dos comboios foram introduzidos em 1883 quatro fusos horários). A Grã-Bretanha, que já tinha adotado fusos horários, ajudou a estabelecer um consenso internacional para a adoção de fusos horários globais no final do século XIX. 

Com a globalização do tempo, a temporalidade local deixou de ser relevante; cidades como Londres e Lisboa encontram-se no mesmo fuso horário embora estejam em longitudes e latitudes diferentes, o que significa que o nascer e o pôr do Sol, assim como a duração do dia e da noite, são diferentes. 

Neste processo de colonização os ritmos da vida humana, variados no tempo e no espaço, são achatados, submetidos às exigências dos ciclos de produção e acumulação capitalistas. Atualmente, muitos trabalhadores indianos de “call centers" têm o seu horário de trabalho sincronizado por um dos fusos horários dos EUA. 

Isto significa que trabalham quando é de noite na Índia e de dia nos EUA; folgam aquando de feriados norte-americanos e trabalham nos feriados indianos. Estes trabalhadores vivem dessincronizados da realidade espácio-temporal onde existem, os seus ritmos naturais são usurpados em benefício do capital norte-americano.

Tal como Marx previu, “o prolongamento da jornada de trabalho além dos limites do dia natural, adentrando a madrugada, funciona apenas como paliativo, pois não faz mais do que abrandar a sede vampírica pelo sangue vivo do trabalho”. 

De facto, na atualidade, os interesses do capital permeiam praticamente todos os aspetos da vida humana. As necessidades mais básicas – a fome, a sede, o sono, a amizade, o amor, o desejo sexual – foram transformadas, artificializadas, comodificadas, mercantilizadas.

A deriva circadiana e os seus impactos para a saúde

As noções de tempo impulsionadas pela Revolução Industrial criaram uma realidade temporal paralela, dissociada dos ciclos geofísicos locais. Esta temporalidade perturba o normal funcionamento do nosso relógio biológico. Este relógio é sincronizado diariamente por sinais ambientais, em particular pelo ciclo dia-noite, e tem um papel preponderante na regulação dos ciclos de sono-vigília

Embora múltiplos inquéritos apontem para uma diminuição do número de horas dormidas nas últimas décadas, estudos epidemiológicos e revisões sistemáticas da literatura indicam que este poderá não ser o caso, variando de país para país. 

Sabe-se, no entanto, que os distúrbios do sono constituem um problema de saúde pública que afeta a qualidade de vida de cerca de 30% da população mundial. Estes distúrbios estão associados, por exemplo, a uma redução da função cognitiva, perturbações da resposta imunológica e a um aumento do risco de desenvolver diabetes 

O número de horas de trabalho é um preditor do número de horas de sono, sendo que acima das 50 horas de trabalho semanais há uma maior propensão para dormir menos de sete horas por dia

Nos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) cerca de 12% da população ativa trabalha 50 ou mais horas por semana. Trabalhar regularmente 40 ou mais horas por semana aumenta o risco de acidente vascular cerebral.

Na maioria dos casos, o número de horas trabalhadas não é uma escolha, mas uma necessidade. Os trabalhadores em países de elevado rendimento tendem a trabalhar menos horas do que trabalhadores em países de baixo rendimento. 

Assim sendo, a problemática do sono é também uma questão de justiça social, uma vez que os estratos sociais mais vulneráveis são aqueles onde mais se observam padrões anómalos de sono.

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Figura 4: Média de trabalhadores em países da OCDE que trabalham 50 ou mais horas por semana. A média OCDE foi ajustada pela população e excluí os seguintes países: Chile, Alemanha, Islândia, Israel, Japão, Coreia do Sul, Noruega, Portugal, Suíça e Turquia. Adaptado de “How’s life? 2017: measuring well-being”.

Ainda assim, mesmo que atualmente não durmamos menos horas, isto não significa que dormimos o suficiente ou que esse sono tenha qualidade. Na União Europeia cerca de 18% da população em idade ativa trabalha por turnos, sendo que estes trabalhadores têm um risco acrescido de desenvolverem transtornos do sono relacionados com os ritmos circadianos. 

Estes transtornos são caracterizados pela dessincronização entre o ritmo endógeno do ciclo sono-vigília e o ciclo dia-noite e provocam sonolência excessiva e/ou insónia

Estudos em amostras de enfermeiros demonstram que distúrbios do ciclo sono-vigília estão associados a um aumento do risco de acidentes rodoviários, bem como de erros procedimentais e acidentes no trabalho. 

Os ciclos de sono-vigília variam de pessoa para pessoa: algumas pessoas preferem deitar-se cedo e levantar-se cedo e outras preferem deitar-se tarde e levantar-se tarde. Estas variações no perfil de preferência circadiana definem o nosso cronótipo que, de forma simplista, pode ser matutino, intermediário ou vespertino.

Os indivíduos cujos ritmos circadianos se encontram desfasados dos horários impostos pela sociedade enfrentam problemas similares aos dos trabalhadores por turnos, mesmo que não trabalhem de forma irregular. 

Pessoas com cronótipos vespertinos têm um maior risco de desenvolver diabetes, disfunção metabólica e doença cardiovascular, o que está associado a uma maior mortalidade por todas as causas. 

As pessoas com cronótipos vespertinos têm uma maior propensão para sofrerem de jet-lag social, isto é, mudam de horário ao fim de semana, atrasando o tempo das atividades por vezes várias horas (e.g. dormem e acordam mais tarde). Em alguns casos, a mudança é tão drástica que parece que viajaram para um fuso horário diferente durante o fim de semana.

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Figura 5: As horas de trabalho são a média anual por trabalhador. O produto interno bruto (PIB) per capita apresentado em dólares internacionais constantes, ajustado pela paridade do poder de compra e pela inflação. Dados referentes ao ano de 2017. Adaptado de “Do workers in richer countries work longer hours?”

O cronótipo depende de fatores genéticos, ambientais e da idade. De uma forma geral, as crianças apresentam cronótipos matutinos que a partir da adolescência se tornam progressivamente mais tardios, atingindo um máximo por volta dos 20 anos de idade

Assim sendo, a maioria dos adolescentes tem um cronótipo vespertino que entra em conflito com horários escolares pensados para cronótipos matutinos. Este desalinhamento não só afeta a saúde dos adolescentes, como também a performance académica: os cronótipos matutinos têm melhores resultados académicos do que os vespertinos quando as aulas são iniciadas de manhã (07:45) sendo que esta vantagem desaparece quando as aulas têm início à tarde (12:40).

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Figura 7: Variação do cronótipo médio em função da idade. O cronótipo foi definido com base no questionário de cronótipos de Munique. Adaptado de “A marker for the end of adolescence”.

A classe operária global que alicerça o modo de produção e consumo capitalistas está exposta a linhas temporais fraturadas. O tempo biológico do nosso corpo conflitua com o tempo do relógio: dormimos menos, dormimos quando não devíamos, dormimos mal, simplesmente não dormimos. 

“Estamos a competir com o sono”, afirmou Reed Hastings, diretor executivo da Netflix, em 2017. Mas o sono resiste. O sono, na sua profunda passividade, pode também ser uma afronta à sofreguidão do capital. 

Pois bem, durmamos, sonhemos por um mundo melhor.