É um dos fundadores da TSF, rádio onde edita diversos programas como o emblemático Sinais.

Notas breves de um repórter vadio e intermitente

As mais belas reportagens da minha vida são aquelas para que desafiei jovens repórteres nas equipas de que fui editor. Porque esses repórteres se fizeram ao caminho municiados pela sabatina na Redação, com a curiosidade atiçada, mas com a alma limpa para o que lá viesse.

Ensaio
24 Fevereiro 2022

Há quem, como Ryszard Kapuscinski, tenha dedicado a vida inteira à reportagem. O polaco mergulhou nas grandes convulsões do seu tempo, dispensando a comodidade dos hotéis de muitas estrelas. As guerras, as fomes e o negrume do mundo foram a camisa com que gastou os mapas. Nele se confundiam a pulsão do repórter e a do viajante.

Lembro-me do título de uma exposição sobre Kapuscinski realizada, há tempos, no Centro Português de Fotografia, no Porto: O poeta da reportagem. O título é justo e certeiro, se não distrair os incautos de uma circunstância crucial: o autor de Andanças com Heródoto esteve, mais de uma vez, na calha do pelotão de fuzilamento.

A reportagem, disciplina maior do ofício que escolhi, sempre foi a minha asa ferida. Não tenho coragem física, constância, tenacidade e método para colher, da reportagem, o fruto mais apetecido. Demoro-me na contemplação e no tumulto feliz do ágape, impaciento-me na travessia do deserto. Gosto de observar o modo como o tempo pousa nos lugares. Sou mais beija-flor que albatroz, por isso farei interminável vénia à progressão de David Borges na estrada de Koweit City ou sobrevoando os maiores palmares do mundo, em África. Não  raras vezes me comovi com as reportagens de Adelino Gomes ou de André Cunha, para citar nomes maiores de duas gerações.

As reportagens que fiz ao longo de meio século foram voos curtos. Certa vez, consegui que fizessem de mim “enviado especial a Casa Branca”, o apeadeiro ferroviário perto de Évora. Por lá fiquei três dias, procurando um compromisso íntimo entre a rádio e uma certa ideia de cinema. Foram três dias anotando a vida lenta de um lugar nesse tempo isolado, o som dos comboios de mercadorias aproximando-se da estação sem vivalma, os cães ladrando à passagem de um ou outro motociclista, as vozes dos poucos frequentadores de um café.

Estive em Nambuangongo e lá vi o que me foi dado ver. No lugar de todas as guerras, registei frases erodidas por sol, chuva e vento, na torre sineira da igreja, crivada de balas. Da clareira aberta no centro da aldeia para que o helicóptero pudesse pousar partiam breves corredores de segurança no chão semeado de minas. Ali registei uma das trocas de prisioneiros organizadas pelo MPLA e pela UNITA, após o acordo de Bicesse. Mas o que mais retive e me ocupou foi esse bordado de fúria e esperança tecido na pedra por tantos guerreiros desde o início dos anos 60.

É isso que me interessa: os sinais de um espanto que não se esgota na agenda informativa do dia. Tenho procurado esses sinais em povoados onde o largo ainda é “o centro do mundo”, longe das grandes vias rápidas.

O que me interessa é a fala dos homens e mulheres que encontro nesses lugares e aos quais nunca apontei um microfone sem prévia anuência, tantas vezes conquistada na cumplicidade da mesa ou do riso largo. Essa fala é, por vezes, ainda, irmã das pedras e das árvores e das aves. As reportagens que me motivam são as que me permitem chegar sem pressas e descobrir a senha da mais funda humanidade numa fala ainda não contaminada pelas regras de salão.

Mas as mais belas reportagens da minha vida são aquelas para que desafiei jovens repórteres nas equipas de que fui editor. Porque esses repórteres se fizeram ao caminho municiados pela sabatina na Redação, com a curiosidade atiçada, mas com a alma limpa para o que lá viesse.

Este testemunho foi originalmente publicado no Manual de Reportagem REC, organizado por Pedro Coelho, Ana Isabel Reis e Luís Bonixe, e editado pelos Livros Labcom em 2021.