Jornalista, coordenadora da área multimédia do Expresso e dá formação no Cenjor.

A máquina do tempo e a arte dos mergulhos

Hoje, a transição dos media para o meio digital já não é uma questão, mas falta um investimento sério em meios humanos, tecnológicos e editoriais. Falta tornar o meio digital sustentável. É urgente educar para o consumo de notícias na Internet.

Ensaio
17 Fevereiro 2022

Hoje vou apresentar uma invenção: a máquina do tempo. Serve para viajarmos até ao passado. E depois podemos modificar o tempo.” Dinis perdeu a mãe nos incêndios de Pedrógão e estas foram as primeiras frases que me disse quando lhe pedi para me descrever a sua melhor invenção uma máquina do tempo que construiu com o objetivo de poder regressar a junho de 2017 e chamar os bombeiros a tempo de salvar as vítimas dos trágicos incêndios.

Em 2018 Dinis tinha 8 anos e podem conhecê-lo um pouco melhor em A máquina do tempo, uma reportagem lançada um ano após o incêndio e que hoje destaco porque teve uma particularidade: parte dessa reportagem multimédia foi filmada por crianças.

Uma das grandes vantagens da plataforma digital é precisamente a exploração de diferentes ferramentas e formatos.

Passo a explicar. Quando o incêndio aconteceu, a 17 de junho de 2017, a jornalista do Expresso Christiana Martins foi uma das enviadas para o terreno. Esteve lá alguns dias e daí resultaram vários artigos de cobertura imediata. Duas semanas após os incêndios eu comecei a ir a Pedrógão Grande para construir uma reportagem vídeo que assinalasse a passagem de um mês da tragédia. Passado esse momento, eu e a Christiana juntámo-nos em equipa com a fotojornalista Ana Baião e começámos a trabalhar numa reportagem multimédia para marcar os seis meses da tragédia.

Após essa reportagem, e conhecendo relativamente bem o terreno e as vítimas do incêndio, começámos a perceber que a comunidade estava a deparar-se com problemas de violência nas escolas da região; os miúdos revelavam assim os sintomas de luto e trauma das famílias. Rapidamente decidimos que queríamos trazer as crianças para o foco das notícias, mas como?

Não seria fácil entrevistar aqueles miúdos nunca é fácil entrevistar os mais novos mas tínhamos a nosso favor o facto de estarmos há vários meses no terreno. As pessoas conheciam-nos e conheciam o nosso trabalho e o tempo é um fator fundamental para se fazer reportagem. É preciso tempo, sobretudo em temas complexos e extremamente duros para os envolvidos. Tínhamos também outra vantagem, estávamos a preparar a reportagem para assinalar um ano da tragédia, por isso podíamos arriscar a cobertura de ângulos menos trabalhados por nós e pelos outros órgãos de comunicação social (OCS).

Além disso, era uma reportagem multimédia para o site do Expresso, por isso não tínhamos limitações de espaço nem de meios a utilizar. Uma das grandes vantagens da plataforma digital é precisamente a exploração de diferentes ferramentas e formatos. Escolhemos então os miúdos que queríamos para a nossa reportagem e decidimos que seriam eles a dirigir o nosso trabalho. Demos-lhes um workshop de vídeo e de jornalismo. Simulámos entrevistas entre eles e demos inteira liberdade de ação. Depois entregámos câmaras e eles filmaram o que bem entenderam. Ao longo de meio ano, muitos dos nossos fins-de-semana foram passados em Pedrógão Grande e Castanheira de Pêra. Estávamos a acompanhar as famílias daquelas crianças e o tempo que eles tinham para nós eram os sábados e domingos.

Foram meses intensos, que nunca esquecerei. Reportar uma tragédia levanta muitas questões deontológicas e ensina-nos lições essenciais. É preciso tempo no terreno e espaço nos media para fazer uma cobertura transversal dos acontecimentos. O Expresso depositou essa confiança em mim, na Christiana Martins, na Ana Baião, e numa equipa multimédia sediada na redação para contarmos as histórias de Pedrógão. Creio que conseguimos fazer o melhor que sabíamos e podíamos, mas os melhores avaliadores serão os leitores e internautas do Expresso.

A definição de mergulho é a que melhor se aplica à reportagem ir ao fundo, engolfar-se e embrenhar-se num tema. Nem todos os jornalistas são talhados para o tempo e o investimento que uma reportagem exige, mas cada OCS deve cultivar e investir em repórteres com vocação para este género jornalístico. Mais do que um espaço físico, uma redação é um espaço mental que liga uma marca a um conjunto de jornalistas com a missão de informar.

Hoje como ontem, é essencial que a redação continue a ser multíplice, pois são múltiplas as velocidades, múltiplas as plataformas e múltiplos os temas sociais, políticos, económicos e culturais. Mas são também gigantescos os desafios que os OCS enfrentam. Investir implica dinheiro, o que, em tempos de acentuada instabilidade causada pela crise dos modelos de negócio no jornalismo, implica também coragem por parte das direções de informação e uma boa dose de risco das administrações.

Nem todos os jornalistas são talhados para o tempo e o investimento que uma reportagem exige, mas cada OCS deve cultivar e investir em repórteres com vocação para este género. 

Em 2020 abrimos jornais, ouvimos rádio, ligamos a televisão, e percebemos que ter tempo e orçamento para fazer uma grande reportagem é um luxo. Quando entramos nos sites portugueses é evidente que é um luxo ao quadrado. Em 2006, quando comecei a trabalhar, o jornalismo digital era como um castigo a esquina da redação à qual iam parar os que já não tinham lugar no jornalismo tradicional. Ou aquela secção para a qual iam os estagiários que não tinham bem a certeza do que queriam fazer.

Hoje, a transição dos media para o meio digital já não é uma questão, mas falta ainda um investimento sério em meios humanos, tecnológicos e editoriais. Falta tornar o meio digital sustentável. Estamos há vários anos numa espécie de ‘fase experimental’ agora a aposta são os podcasts, antes foram os diretos em vídeo, um pouco antes disso eram os noticiários curtos também em vídeo… Enfim, o que será depois? Falta uma estratégia digital sólida e consistente no jornalismo digital.

Vemos e sabemos que o público partilha muitas notícias nas redes sociais, mas também vemos e sabemos que é um público que não está habituado a pagar por essa informação. É urgente educar para o consumo de notícias na Internet. Assim como pagamos para ver filmes ou ouvir música online, temos de pagar informação. É urgente valorizar os conteúdos digitais dos sites. O trabalho começa na redação, mas passa pelos departamentos comerciais e administrativos.

É no meio digital que melhor conhecemos os nossos leitores temos dados sobre o tempo que passam dentro de cada notícia, o que escolhem ler, o que não lhes interessa de todo. Está na hora de estudar a sério o que as métricas nos dizem. E o que elas nos dizem falo pelo Expresso, que conheço bem, porque coordeno a área multimédia é que existe um público que se interessa por temas longos, complexos e muitas vezes fora da ordem de notícias da atualidade. É nas reportagens (e nas longas entrevistas) que se batem recordes de tempo de permanência métricas que, segundo os analistas, são determinantes para avaliar o sucesso dos conteúdos. O que falta para os anunciantes apostarem nos sites de notícias?

Enquanto não encontramos a resposta, cabe às direções de informação continuar a apostar na melhor informação. Nesta missão não há intervalo.

Este testemunho foi originalmente publicado no Manual de Reportagem REC, organizado por Pedro Coelho, Ana Isabel Reis e Luís Bonixe, e editado pelos Livros Labcom em 2021.

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